Notas iniciais
Música do Capítulo: Dennis Lloyd- Snow White

Elizabeth Cooper

— Mas é claro que isso é má ideia! – gritei levando a mão à testa – Como é que eu não pensei nisso antes?

— Deixa eu te lembrar, você tava ocupada demais costurando seu namoradinho. – Cheryl deu um sorriso falso enrolando uma mecha da minha peruca no cabelo.

— Merda, e o que a gente vai fazer agora? – Verônica colocou a mão na cintura levando a outra ao coração, ela não estava nervosa assim nem no primeiro dia em que viemos.

— Calma meninas que droga! – Cheryl se sentou em frente a um espelho subindo a ponta de um batom vermelho vinho enquanto admirava a própria imagem.

— Amor, isso aqui é sério, a gente não pode correr o risco da sua mãe te reconhecer. – Toni disse docemente fitando-a pelo reflexo do espelho.

Cheryl pendeu os ombros dando um sorrisinho como se estivesse encantada.

— Fica tranquila amor, antes de sair eu deixei um brindezinho no coquetel da mamãe. – ela arqueou as sobrancelhas com os olhos quase que arregalados me dando calafrios, seu olhar foi até nós – Ela não vai reconhecer nenhum rosto essa noite. – franziu o nariz.

— Cheryl, você drogou sua própria mãe? – Verônica riu incrédula.

— Eu não perderia isso aqui por nada amorzinho. – ela jogou os fios compridos para trás.

Suspirei aliviada.

— Você fica melhor ruiva. – constatei pegando seu batom emprestado e me abaixando para consultar o espelho.

— Ah, não se preocupe. Essa tinta sai com água, também não gostei nadinha de ser uma morena barata. – disse divertida e depois olhou para Verônica sorrindo – Sem ofensas meu bem.

Batidas fortes na porta do camarim nos assustou fazendo com que todas déssemos um leve sobressalto. Ambas nos entreolhamos com expressões assustadas. Gesticulei com as mãos para que elas ficassem calmas.

— Pode entrar! – gritei.

Um homem magro abriu a porta devagar e deu um largo sorriso ao nos analisar de cima abaixo. Ele levou a língua ao canto da boca a mordendo entre os dentes. Entrei no jogo dele sorrindo também.

— Quer um balde ou vai esperar a dança para começar a babar querido? – fui até a porta terminando de abri-la.

— Penélope pediu que eu viesse chamar vocês para o show. – seus olhos brilharam ao me olhar de mais perto, mas hoje eu não consegui sentir repulsa.

— Ela não vem ver se estamos bem vestidas? – questionei.

— Ela não tá se sentindo bem, vai só assistir do camarote.

— Obrigado querido.

— Vocês têm cinco minutos. – piscou dando uma última olhada nos meus seios antes de fechar a porta.

Imediatamente todas olhamos para Cheryl que parecia indefesa. Eu balancei a cabeça em negativo e depois sorri.

— Eu não gosto de você particularmente mas vou ter que admitir, — dei ênfase na ultima frase – você é um gênio.

Todas rimos.

— Ok meninas, vamos arrasar! – Verônica disse empolgada.

(música)

Começava agora a nossa parte no plano com a música escolhida por Verônica e a coreografia escolhida por Cheryl, nada além de nós chamaria atenção naquele lugar. Assim que a batida começou a tocar assovios e urros cortavam o ar. Caminhamos lentamente até o centro do palco, onde nos alternávamos na barra de Pole Dance. Ninguém diria que ontem mesmo não sabíamos usar isso e agora com poucas horas de treino deixávamos todos boquiabertos. Movimentos lentos e incisivos, delicados e agressivos ao mesmo tempo. Fitei o salão completamente preenchido, era sexta-feira e estava tão cheio que as pessoas se acotovelavam para ver melhor.

Atravessei a barra dando as costas para o público. Meu público. Separei as pernas abraçando a barra entre as coxas enquanto me agachava devagar segurando a superfície com apenas uma das mãos. Força, fluidez e flexibilidade. Olhares de luxúria nos atravessavam enquanto a música badalava me fazendo sentir poder. Era tão bom estar ali que por segundos me esqueci do motivo. Conforme o ritmo ia diminuindo dando o ultimato para os Serpentes e o Xerife entrarem nós quatro nos aproximamos.

— Confia em mim? – perguntei a Verônica, ela apenas assentiu.

Finalizei a dança com um beijo inebriado pelo personagem. Seus lábios trepidaram e por fim cederam fechando nosso show com o famoso voilà. Todos gritavam animados. Queriam mais, mais uma dança, mais um show. Mais de nós. Ao fundo um grito não era para nós. E uma pequena parte entendeu o recado correndo para fora. Era fácil identificar quem era Ghoulie e quem apenas usufruía do bar, uma vez que todos aqueles com tatuagens corriam para a parte de trás do palco.

— Eles chegaram. – Toni sussurrou encarando a plateia.

— Vamos então. – Verônica disse acenando para todos ao caminhar devagar para a lateral do palco.

A segui notando uma discussão estranha ao fundo quando um dos homens retirava uma arma da cintura. Ele ergueu a arma para o alto disparando uma vez e depois outra fazendo com que agora os gritos fossem desesperados para sair dali. O homem ao seu lado tentou segurar seu braço discutindo algo com ele, mas mais um tiro se fez, dessa vez acertando uma lamparina da parede que caiu sobre o balcão de bebidas. Não precisou de muito tempo até que fogo se alastrasse por toda a madeira. Conforme as pessoas saiam o homem as acotovelava tentando passar.

— Ele vai até lá! – tentei gritar mais alto do que as outras pessoas.

— Cheryl sua mãe! – Toni gritou apontando para o andar de cima.

— Vão lá ajudar ela eu tenho que avisar eles! – gritei desesperada vendo o homem armado passar por nós.

Só mais próximo pude perceber que era Malachai, seus olhos estavam vidrados.

— Não B, você não vai sozinha! – Verônica segurou forte meu braço quando tentei descer do palco em um pulo.

— Ajuda elas, eu encontro vocês! – gritei de volta.

Com muita resistência Verônica seguiu as meninas até a escada. A fumaça já preenchia o ar ao redor e ainda faltavam muitas pessoas para sair. Puxei o ar indo atrás de Malachai, que ao contrário do que pensei não estava atrás dos Serpentes. Ele esperava por mim.

Sua mão me puxou com força me jogando no chão do camarim assim que entrei no corredor. Senti meu ombro estalar com o impacto e olhei assustada para sua figura sádica. Ele colocou a arma sob a penteadeira e me agarrou pelo pescoço me jogando contra o espelho que quebrou em minha cabeça. Um zumbido começou a atinar e minha visão ficou turva.

— Sua puta, você realmente achou que eu não ia ficar sabendo? – ele ainda segurava meu pescoço com força sob a penteadeira – Eu posso ser preso, mas com certeza eu vou desgraçar sua vida! Loira vadia. – ele puxou a peruca jogando-a pelo chão do lugar.

Meus cabelos caíram sobre os ombros e ele aproximou seu rosto do meu com as pupilas dilatadas e suas orbitas vermelhas.

— Seria um desperdício te matar sem te comer primeiro. – ele cheirou meu cabelo passando a língua no lóbulo da orelha.

Senti o refluxo subir pela garganta, eu vomitaria em cima dele e ele me mataria em seguida. Ele afrouxou a mão do meu pescoço e então pude respirar direito, um ar rarefeito pela fumaça. Meus sentidos voltaram e pude pensar direito. Agarrei algo gelado e cortante na mão com força. Juntei toda a energia que ainda tinha para chutar suas bolas. Quando ele se curvou o ataquei com o caco do espelho que pegou de raspão em seu rosto.

— Desgraçada! – ele levou a mão ao rosto.

Assim que pulei da penteadeira para descer ele agarrou minha perna.

— Me solta! Me solta! – resmunguei em um lamurio esperneando sua mão.

— Fica quieta merda! – ele me apontou a arma em minha direção me fazendo parar.

Ele se levantou dando as costas para a porta com a minha cabeça sob a mira.

— Escuta Cooper, eu tô pouco me fodendo se você é filha do Hal, vou te matar agora! – gritou.

Fechei os olhos com força me arrastando para a parede oposta a ele, não tinha forças para correr ou gritar, já havia respirado muito da fumaça. Um disparo estrondou e eu esperei ser meu fim, mas o som de carne colidindo contra o chão me fez abrir os olhos.

Delirei, não podia ser verdade que ele sempre estaria ali para me salvar. Jughead jogou um bastão de basebol no chão vindo até mim e me ajudando a levantar.

— Vamos! O incêndio vai chegar aqui. – ele disse alto próximo ao meu ouvido que ainda zumbia.

Ele me ergueu com dificuldade e atravessamos a porta sob o corpo desacordado de Malachai estirado ao chão.

— Não! – constestei parando no corredor – Não podemos deixar ele aqui!

Jughead arregalou os olhos.

— Sério?

Acenei com a cabeça.

— Vai na frente então! – gritou apontando para o final do corredor até a garagem.

O som de uma explosão no interior do bar nos assustou.

— Vai Liz! – ele gritou de novo.

— Não! – voltei para o camarim puxando Malachai pelas pernas até o corredor.

Jughead jogou um de seus braços sobre o ombro e eu fiz o mesmo. Corremos com dificuldade até a garagem que ao contrário do interior do bar estava iluminada por faróis. Assim que alcançamos a porta jogamos o corpo desalmado no chão que produziu um som oco. Cai de joelhos tossindo tudo o que havia suspirado. Mãos vieram até mim.

— Coloquem ela no respirador! – reconheci a voz de Fangs que me ergueu por baixo do braço.

Sirenes cortavam o vento enquanto colocavam uma máscara plástica sob meu nariz e boca. Arregalei os olhos vendo o fogo iluminar o céu e um tempestuoso vapor negro pairar sobre onde estávamos antes. Tirei a máscara relutante após aspirar seu ar puro.

— Vocês viram as meninas?! – arregalei os olhos para Fangs.

— Calma, elas estão ali. – ele apontou em uma direção, onde elas estavam sentadas – Você era a única lá dentro.

Archie se agachava à frente de Verônica lhe entregando uma garrafa de água e deixando um beijo entre os cabelos. Fitei Jughead ajudando um homem a carregar o corpo de Malachai para dentro de uma das ambulâncias. Outro caminhão de bombeiros cortou o ar atravessando a rua.

— Ele voltou lá por mim não foi? – coloquei a máscara novamente no rosto sorrindo.

Fangs assentiu colocando gelo sob o rosto. Só então percebi que ele sangrava.

— Você tá bem?

Ele balançou a cabeça em negativo.

— Não foi tão fácil como pensamos. A informação vazou de alguma forma, três serpentes foram baleados. – ele cuspiu uma bola de sangue ao final da frase.

— E FP? – me levantei olhando ao redor, o encontrando próximo a uma viatura com as portas abertas.

— Não acredito. – corri até lá impulsivamente.

Assim que cheguei congelei frente a ele. Seu olhar fulminante não era de raiva, nem de ódio por mais que eu quisesse que fosse. Seu olhar era de decepção enquanto ele analisava minha roupa vulgar coberta por fuligem e sangue.

— Querida, venha cá. – meu pai disse com as mãos algemadas para trás. O desgosto era evidente em sua voz.

FP pareceu relutante em me dar espaço para passar. Entre a porta da viatura e eu ele apenas deu um passo para o lado sem soltar o braço de Hal. Eu me aproximei o suficiente para conseguir ouvi-lo sussurrar o que fez meu coração quase parar. Cambaleei para trás e FP o empurrou para dentro da viatura batendo a porta com toda a força possível.

— Não dê ouvidos a ele Elizabeth, é impossível que te faça qualquer mal. – FP me confortou com um aperto no ombro – Acha que precisa de médico? – fiz que não com a cabeça ainda assustada – Tudo bem então, vou pedir para te levarem para casa, tudo bem?

— Não precisa. – consegui dizer quando uma lágrima percorreu minha bochecha caindo ao chão – Não se preocupa comigo, eu tô bem. – passei as costas da mão no rosto o limpando – Cuida dele. – apontei a viatura com o queixo dando passos para trás.

◙ ○ ◙ ○ ◙

Caminhei com passos pesados até minha cama. Mesmo após quase uma hora de banho ainda me sentia suja pelas mãos de Malachai. Pensei ter vomitado tudo o que podia ao chegar em casa, mas meu estomago ainda embrulhava mais e mais. Me joguei no colchão macio sentindo o cheiro doce dos lençóis. O silêncio só fazia repetir a voz de meu pai me dizendo o que eu não queria ouvir nunca.

Meu celular vibrou no criado mudo prestes a cair no chão. O peguei e fitei seu visor. Mil ligações já tinham sido feitas e a caixa de mensagens explodia, provavelmente pelo fato de ter saído sozinha sem falar com ninguém.

“Estou em casa, estou bem e só preciso de um momento sozinha!” copiei a mensagem e mandei para todos os contatos possíveis. Amanhã eu abriria as mensagens e responderia todos um por um.

Quando o silêncio finalmente governou a campainha tocou seguidas vezes. Quem quer que fosse veria a mensagem a qualquer instante e desistiria de querer me ver.

E funcionou, a campainha parou de tocar. Fechei os olhos repletos de lágrimas. Me recusava a chorar mais, meu rosto já estava vermelho o suficiente. Suspirei e minha respiração começou a se estabilizar, porém eu sabia que não conseguiria dormir. Os fantasmas dessa casa vazia me perturbavam demais.

Batidas ocas em vidro me despertaram. Os fantasmas dessa casa eram reais. Olhei pelo escuro do quarto procurando pelo som. Ele se repetiu e percebi que vinha da janela. Acendi a luz do quarto em um pulo da cama. Destranquei a janela empurrando-a para cima.

— Oi Julieta. – Jughead engoliu em seco – Já que não atende a porta pensei que talvez atendesse a janela. – contorceu o rosto.

Eu deveria saber que ele estaria aqui para afugentar qualquer fantasma que assombrasse minha vida. Suspirei aliviada e um sorriso escapou.

Obrigado por isso Jug.

Notas finais
Snow White porque a Betty com essa peruca fica realmente parecendo uma branca de neve! Estou postando mais cedo graças ao pedido da ASSlikes, obrigado por acompanhar lindaaaa! ♥ Nosso Bughead tá quase!!! ;)