Monarc
30 Melissa Calle
Melissa foi ao jardim em busca de Felipe, achava que estava em um simples jardim e demorou ao perceber que havia se perdido no meio de um labirinto, após voltas e voltas, sem noção de como sairia dali se não encontrasse o garoto, finalmente avistou o mesmo, tranquilamente sentado abaixo de um salgueiro curvado lendo um livro, quando percebeu sua presença uniu as sobrancelhas desconfiado:
- Meu tio mandou você atrás de mim?
- Seu tio não me dá ordens, e não, ninguém me mandou.
- Então o que faz aqui, Srita. Calle?
- Fora do colégio, pode me chamar de Melissa. Achei que já haviamos passado disso.
- Não temos o costume de conversar muito fora do colégio.
- Acho que é um problema da família real, não? Parece que ninguém conversa por aqui!
- Ah, é isso que está te incomodando.
Felipe repuxou os cantos dos lábios em algo parecido com um sorriso enquanto revirava os olhos e fechava seu livro, ao levantar respirou fundo e colocou o livro embaixo do braço e esticou o outro para Melissa que ergueu uma sobrancelha ao questionar:
- O que está fazendo?
- Como um príncipe, tenho o dever de ajudar a dama a sair de nosso labirinto. E como outro ser humano, entendo o que é estar de saco cheio de falar com as plantas, pensei que podíamos conversar em nosso retorno.
- Então você sabe o que é gentileza? Isso realmente me surpreende!
- Quer saber? Acho que confio no seu potencial para encontrar o caminho de volta ao castelo sozinha!
Felipe estava voltando a se sentar quando Melissa segurou seu braço os entrelaçando como o mesmo havia sugerido:
- Não fique convencido, apenas não quero me atrasar para o chá da tarde.
Felipe não conteve a sínica risada:
- Seria realmente uma falta gravíssima, talvez meu tio nunca a perdoaria.
- Garoto, você está dificultando as coisas.
- Não me chame de garoto.
Melissa sorriu e continuou a provocar:
- Perdão, começou a crescer pelos no peito? Já está na puberdade? É um hominho agora?
Felipe balançou a cabeça e sua expressão parecia ser de divertimento, mas o olhar trazia uma tristeza que Melissa não conseguiu deixar passar:
- Desculpe se exagerei, só estava brincando.
- Tudo bem Sr...Melissa. — Ao respirar fundo ele acariciou seu braço de forma tranquilizante, mas parecia que o gesto era mais um tique do mesmo — Gostaria que deixar de ser um garoto fosse simples como fez parecer.
- Por que não pode ser?
- Porque significa assumir o trono, o que significa casamento, o que significa...
- Que acabou seu tempo com a Lindsay.
Felipe parou de andar na mesma hora erguendo as sobrancelhas surpreso e soltando seu braço ao se virar para ela:
- Por favor, não volte a repetir isso. Se meu pai a ouvir...
- Nada irá fazer, todos já sabem, bem, todos, exceto a própria. Eu lamento que as coisas sejam como são, não acho certo essa forma que estão lhe forçando a decidir.
- Estou surpreso que você e meu tio ainda estejam juntos.
- Tento guardar minhas opiniões comigo quando estamos juntos, ele já tem muito a pensar.
- Isso parece... Triste?
- Não tanto quanto parece, fique tranquilo garoto, eu sei me cuidar. Só não sei sair daqui e preciso chegar para o chá no salão principal! Teremos visitas.
- Quem vem hoje? Não fui notificado.
- Os filhos Bankoff, os Smith, pai e filhas, e a família Underwood. Seu pai queria um café com seus amigos, para alegra-lo.
Felipe sorriu, o primeiro sorriso sincero desde o início da conversa, e isso deixou Melissa feliz por ter ajudado o Rei Lúcio com a oranização do café, apesar da resistência de Gabriel considerando isso uma distração ou adiamento da responsabilidade do mesmo, já não lembrava o que havia sido dito.
- Será bom poder vê-los, como meu pai conseguiu convencer meu tio?
- Acho que o rei me deve uma.
- Obrigado, Melissa.
- De nada, garoto. Podemos sair do labirinto agora?
Felipe assentiu com a cabeça e a guiou para fora do labirinto, em poucos minutos já estavam nas portas do castelo, o que a deixou impressionada:
- Como decorou o caminho?
- Costumava brincar quando criança lá dentro, depois caminhava com minha mãe, o jardim favorito dela fica ao centro do labirinto, e agora vou lá quando quero um momento de paz.
- Você terá que me ensinar, acho que vou querer momentos de paz também.
Ambos riram baixo enquanto passavam pelos corredores, quando a voz de Lúcio veio antes do mesmo aparecer de uma das passagens:
- Felipe? Ah, imaginei que tivesse lhe ouvido meu filho! Obrigado por traze-lo Melissa, todos já estão aguardando.
- Pontual, acho que alguém errou sobre meu senso de direção.
Felipe olhou de Melissa para Lúcio contendo uma risada e acariciou o braço de Melissa antes de solta-lo:
- Sim, foi muito importante suas habilidades para chegarmos em tempo. Obrigado, tia.
Melissa semi abriu a boca e voltou a fechar balaçando a cabeça em indignação, mas sorriu ao perceber a aceitação do mesmo, e se dirigiu a sala de jantar com ambos, onde Lindsay contra todos os bons modos, voou da cadeira na direção de Felipe o abraçando, gesto que o garoto retribuiu de bom grado, e Melissa acredita que só ela notou que ele cheirava o cabelo da amiga. Em passos lentos, tomou seu lugar ao lado de Gabriel que olhava o abraço com reprovação, então questionou:
- Algum problema, Sr. Bressiane?
- Sabe o que penso deste evento, Mel. Aquilo... — ele apenas olhou os dois e voltou a olhar para Melissa- irá distrai-lo, ou insistir em machuca-lo, acho que quanto antes se afastassem menos sofreria, não havia tanto espaço para que mantivesse esperanças.
- Acho que mante-los afastado não está funcionando bem, dê uma chance, ele fará a coisa certa.
- Posso pensar o mesmo de sua amiga?
- Lindsay está comprometida, lembra?
- Ela e o Brandon conseguiram passar por aquela situação? Achei que haveriam de terminar.
- Não, apenas precisaram de um tempo, não deve ser algo fácil de processar, já pensou? Você e alguém que você ama tanto amarem a mesma pessoa. Deve ter sido difícil para o Brandon...
- O filho dele está bem com essa situação toda?
- Sim, ele já havia aceitado, por que?
- Uma curiosidade. Gostaria de se juntar com seus amigos? Acho que irei adiantar alguns trabalhos.
- Claro, nos vemos depois?
- Sim, podemos ir naquele restaurante que você queria mais tarde.
Ao levantar, Gabriel depositou um beijo no topo de sua cabeça antes de sair e Melissa ao ver Felipe sentado entre Lindsay e Helena, rindo alto, decidiu não interromper, estava pensando em levantar quando o Rei Lúcio surgiu ao seu lado:
- Pensei em lhe fazer companhia.
- Por que?
- Meu filho está ocupado, e eu não gosto de comer sozinho. Se importa?
- Faz alguma diferença para você se eu falar que me importo?
- Sinceramente? Não.
Melissa revirou os olhos e bebeu um gole do seu chá, enquanto Lúcio passava manteiga em sua torrada, repetidamente, até ficar completamente uniforme, e adoçava seu chá com três gotas de adoçante então mexia a xícara três vezes e batia a colher no topo da xícara três vezes também, quando Melissa pensou alto:
- Algo especial sobre o número três?
Lúcio ergueu os olhos para ela, sorriu e balançou a cabeça (três vezes) ao colocar o guarnapo no colo:
- A maior parte das pessoas não costuma reparar, e reparar costuma ser deselegante.
- Não estou tão preocupada assim com as aulas de etiqueta no momento. Por que das três vezes?
- É uma questão minha, apenas preciso fazer isso deste modo. Não há uma explicação. Lhe incomoda?
- Não, estava curiosa. Ninguém nunca lhe perguntou sobre isso?
- Somente minha Mabelle havia perguntado até hoje, ela também não se preocupava com etiqueta.
- A falecida rainha não se preocupava? Como isso funcionava para você?
- Muito bem, havia um equilíbrio que se perdeu junto com ela, acredito que ela era a única que conseguia convencer Gabriel a ser maleável, claro, até você aparecer.
- Não tinha ciúmes disso?
- Não, sei que Mabel jamais me trairia, e muito menos meu irmão. O que eles tinham era apenas uma bela amizade.
Melissa continuou conversando com Rei Lúcio, porém não conseguia mais se manter totalmente presente, estava lembrando das vezes em que havia mencionado sobre a falecida rainha com Gabriel, e nenhuma dessas vezes ele pareceu trazer essa dor de perder uma amiga, pelo contrário, havia agido de forma bem estranha em todas as situações. O que será que ele estava escondendo? Melissa precisava descobrir.
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