Monarc

23 Melissa Calle


Notas iniciais
Aviso: Violência.

Após buscar a roupa íntima que não entendia como tinha esquecido com Daniel e se despedir de uma vez por todas daquele corpo e toda aquela tensão, jurou para si mesma que jamais faria algo parecido, a culpa a perturbava durante todo trajeto até em casa, decidiu ligar para Lindsay, ela com suas opiniões infames certamente a faria se sentir melhor. Não demorou até a amiga atender.

— Mel? Como foi o encontro com Daniel?

— Não foi um encontro, Lindsay. Mas…

— Vocês transaram de novo, não foi?

— Sim, eu estou me sentindo um lixo agora. Acha que devo falar para o Gabriel?

— Se quiser terminar o relacionamento de vocês sim, não acho que ele banque o tipo compreensivo e mente aberta.

— E eu nem iria querer estar com ele se fosse!

— Só você pode brincar neste jogo? Entendi.

— Lindsay…

— Olha, eu não sou uma especialista moral, se tivesse me ligado antes eu diria para você segurar sua buceta e não fazer nada estúpido! Mas agora você já fez, quer que eu fale o que? Que você mandou mal? Você sabe disso, eu não preciso piorar as coisas. E se quiser cobertura me avisa qual mentira vai contar para eu contar a mesma,

— Se acha que eu fiz algo estúpido, por que irá me cobrir?

— Todo mundo faz coisas estúpidas o tempo todo, normalmente na adolescência, mas se a sua veio numa crise dos 30 anos, fazer o que né? Sou sua amiga, pode contar comigo.

— Você é uma boa amiga.

— Eu sei! E falando nisso, vamos ter uma noite de garotas? Eu preciso!

— Não está gostando da vida de namorada?

— Eu amo ser namorada do Brandon e ficar com ele, mas ele nunca quer fazer as coisas que eu gosto, baladas são muito cheias, esportes são muito arriscados… Eu preciso de uma companhia para balada, Henry já concordou de ser meu amigo de esportes.

— E o Brandon não ficou com ciúme?

— Não, ele sabe que Henry não pensa em mim desse jeito.

— E Felipe? Falou com ele depois que voltamos?

— Todos os dias no trabalho, agora que eu vou assumir o coral ele está me ajudando depois do horário das aulas.

— E com isso Brandon está tranquilo?

— Não exatamente, sabe que ele tem um ciúme estranho do Feh. Enquanto uns veem demais, outros veem de menos… Já sabe o que vai falar para o Gabriel?

— Acho que nada, só que fui fazer uma revisão do carro e que é um pós venda que o Daniel faz.

— Se eu fosse solteira, iria adorar esse pós venda!

— Olha, você estar comprometida não impede nada.

Lindsay riu fraco antes de continuar:

— Sim, impede, uma coisa são flertes na balada, traição não faz meu estilo, gosto da vibe monogâmica ainda.

— Ainda?

— Claro, nunca se sabe o tanto que você pode ser uma péssima influência.

Melissa riu revirando os olhos e ao estacionar o carro viu as luzes da sua casa acesa, o riso cessou de imediato e seu coração disparou, buscou a arma na sua bolsa, porém havia se descuidado e não tinha levado consigo, Lindsay ao estranhar o silêncio da amiga questionou:

— Mel? Está aí?

Melissa piscou uma, duas vezes e esfregou os olhos, ao abrir de novo reparou nas luzes apagadas e ficou preocupada de ser apenas sua imaginação, ao perceber Lindsay ainda a chamando respondeu:

— Lindsay, acho que tem alguém na minha casa, eu vou entrar para ver, se não te retornar em até cinco minutos ligue para o Gabriel.

— Seus seguranças não estão aí?

Melissa não respondeu, apenas desceu do carro e se aproximou devagar, no caminho pegou um pedaço grande de madeira jogado no chão, ao entrar em casa ligou a luz de imediato e seu sangue gelou ao ver Clark no sofá segurando Coronel que parecia um pouco grogue:

— Sentiu minha falta?

— O que está fazendo aqui?

— Eu só vim conversar.

— Como entrou?

— Seu querido primeiro ministro não lhe mandou os seguranças mais espertos, falsifiquei uma ordem de serviço elétrico então pude passar o dia aqui. Você não quer me trazer uma bebida?

— Não tenho nada aqui.

— Não se preocupe, eu trouxe. Pega na geladeira para mim, e quem quer que você tenha avisado, diga que está tudo bem, ou o Coronel vai ter que ir embora mais cedo.

— Você não machucaria meu cachorro…

— E você me dá opções Mel? Eu tentei tantas vezes resolver as coisas numa boa e só depois de eu drogar o seu cachorro que você me escuta.

— Você é doente. Mas eu vou fazer o que você está pedindo, você me entrega Coronel se eu ligar para Lindsay e pegar sua bebida?

— Eu sou um homem apaixonado, mas depois dessa troca falamos sobre isso.

Melissa engoliu seco e a saliva desceu amarga, enquanto ia para cozinha ligou para Lindsay que prontamente atendeu:

— Que susto! Já saí daqui e estou a caminho da sua casa! Tinha mesmo alguém?

— Lindsay, não venha. Foi um alarme falso, eu que tinha esquecido a luz da sala acesa. Volte para casa, está bem? Eu vou desligar agora, o Coronel não está muito bem.

— Qualquer coisa me ligue, está bem?

— Claro, até amanhã.

Melissa desligou e seu coração quase parou ao ver as coisas que Clark gostava em sua geladeira de novo, ela voltou para sala e antes de entregar a cerveja olhou para Coronel, e Clark com desdém jogou o seu cachorro aos seus pés:

— Clark!

— É só a porra de um cachorro Mel.

— É o meu cachorro, eu vou deitar ele na cama, e daí conversamos pelo tempo que você quiser.

— Não vou querer apenas conversar.

— Eu imagino, faremos o que você quiser, só me deixa colocar o Coronel para descansar.

— Tudo bem, mas use o quarto de hóspedes, eu vou querer usar o nosso.

Melissa precisou de muito auto controle para controlar a bile na sua garganta enquanto carregava Coronel para o quarto de hóspedes, por sorte havia escondido uma pequena arma ali, escondeu ela em sua bota e desceu, sentou ao lado de Clark que abriu aquele sorriso perverso ao afastar seu cabelo do rosto:

— Viu como tudo é bom quando você me obedece? Podemos ser tão felizes assim.

— Eu estou namorando o Gabriel.

— Por isso eu preciso que você termine isso, ele está impedindo nossa felicidade.

Clark começou a beijar seu pesçoco enquanto a mão que não segurava a garrafa subia pela sua coxa, Melissa se sentia paralisada.

— Eu não vou terminar com ele.

— Ah vai sim, porque eu já dei um jeito no seu amante… O próximo será ele.

Melissa tentou controlar a sua expressão e seus batimentos, também a azia enquanto a mão de Clark desabotoava sua calça e colocava a mão por dentro da sua calcinha, a fazendo odiar seu sistema biológico por aceitar ser estimulado por aquele homem:

— Que amante? Do que você está falando?

Clark riu e largou a cerveja no sofá pegando o celular, mostrando um vídeo de um local sendo queimado, demorou para Melissa reconhecer, era a oficina de Daniel, ela o empurrou longe e se afastou se encolhendo no sofá, havia até esquecido da arma em sua bota:

— Você o matou?

— Infelizmente não deu certo, ele tinha saído. Só quero ver como vai sobreviver agora… Talvez morra de fome. Mas uma coisa pode ter certeza: Mel, com o seu querido ministro, eu não vou cometer erros.

— Por que você está fazendo isso?

— Porque eu te amo! — Clark se aproximou segurando seu rosto com as duas mãos — É por você que eu faço isso! Por nós!

Clark pressionou seus lábios contra os dela, as lágrimas começaram a cair, ela agora sentia que merecia o que estava acontecendo, havia destruído a vida de Daniel por um erro e estava prestes a destruir de Gabriel, ela faria o que Clark pedisse para tentar poupar o homem que tanto a amava, Gabriel não merecia ser machucado pelo passado dela, ela sequer estava mais presente em seu corpo conforme Clark a despia, mas algo a despertou quando alguém bateu forte na cabeça de Clark e ele caiu desacordado, e Melissa nunca se sentiu tão feliz por ver Lindsay.

— Você é uma péssima mentirosa, graças a Deus!

Melissa respirou fundo aliviada e com a ajuda de Lindsay tirou Clark de cima dela, e tudo veio à tona a sua cabeça, desde o primeiro abuso até a queimada da oficina de Daniel, sem pensar, Melissa tirou a arma de sua bota e atirou mirando o saco de Clark, errou acertando tanto o saco quanto a perna, Lindsay gritou tentando a impedir, mas ela só parou após zerar o número de balas, quando começou a chorar desesperada, não sabia o que tinha feito, os seguranças correram com o som de tiros, chegaram arrombando todas as entradas, e Lindsay havia colocado sua jaqueta cobrindo Melissa enquanto falava palavras que ela não conseguia entender.

Aquela noite foi uma verdadeira loucura, Melissa não conseguia entender nem metade do que havia acontecido, estava no hospital após terem a examinado por completo, soube que Gabriel passou a noite toda a esperando, mas não queria ver ele ainda, não liberou a sua visita, quando falaram que Lindsay tinha chegado para vê-la, a liberou de imediato, precisava entender como estavam as coisas.

— Mel! Graças a Deus você está bem! Desculpa não vir, fui trabalhar, tentar encobrir as coisas.

— Saiu alguma notícia?

— Nada da verdade, eu usei os contatos de meu pai, os seguranças atiraram quando acharam que sua casa tinha sido invadida, você chegou assustada e teve uma crise, o invasor foi enviado para um hospital fora da cidade.

— E você falou com Daniel?

— O que aconteceu com ele? Ele estava lá também?

— Não, mas Clark… — a memória fazia os olhos de Mel encherem d' água — Ele mandou queimarem a oficina, como ele vai se sustentar agora Lindsay? Tudo vinha da oficina!

— Não sabia disso Mel, mas deixa que eu resolvo, por favor. Não se estresse com essas coisas, você já tem tanta coisa para lidar…

— Não tem como resolver, Lindsay! Eu não tenho dinheiro para comprar uma nova oficina! A Fazenda não rende nem metade do que rendia desde que meus tios morreram e agora eu vou arruinar toda uma família!

— Eu vou resolver, e você vai cuidar de melhorar, e o que eu falo para o Gabriel? Ele está desesperado lá fora.

— Meu Deus! O que você falou para ele?

— Que você falaria com ele quando acordasse, não cabe a mim mentir ou falar a verdade para ele.

— Você tem razão… Você pede para ele entrar? Eu acho que se não falar com ele agora, nunca mais vou falar.

Lindsay beijou sua testa antes de sair, e em seguida entrou Gabriel, olheiras fundas e olhos miúdos, provavelmente não tinha pregado o olho, Melissa antes mesmo de se cumprimentarem começou a chorar, então contou, contou sobre a noite anterior com Daniel, a invasão de Clark, sobre as ameaças, sobre Coronel, sobre o incêndio.

— Eu entendo se você nunca mais quiser olhar na minha cara, eu não olharia, eu me sinto pés..

Gabriel a abraçou, tão forte que quase doeu, se afastou para olhar seus olhos e lhe deu um longo selinho a soltando com um suspiro aliviado:

— Eu achei que tinha te perdido quando me falaram dos tiros. Eu precisava ver você. Nada do que você falou pode doer mais do que isso.

Melissa se emocionou, era uma declaração tão franca, a fazia se sentir tão segura, sequer sabia retribuir tal sentimento:

— Não me odeia?

— Jamais! Por você não sinto nada além de amor.

— Você não existe.

Gabriel sorriu e pegou sua mão beijando delicadamente e antes que ele pudesse responder Melissa lhe deu um beijo curto, suave, apenas para ter certeza que ele estava ali mesmo, junto com ela, depois de tudo.