Monarc

6 Helena Underwood


Helena estava se sentindo cansada e envergonhada, não havia conseguido completar o teste para o coral, e pior que isso, simplesmente havia congelado, se já não tivesse combinado antes de ir andar pela cidade com Thomas já teria se trancado em seu quarto, tirou os fones do ouvido enquanto via ele se aproximando.

— Você não parece muito animada. Quer apenas uma carona para casa?

— Não, é uma besteira. Eu realmente quero ir. Carona? Achei que iríamos a pé.

— Apesar de eu gostar da sua disposição, não tenho como chegar em casa depois se deixar meu carro aqui. Já volto!

Enquanto ele se dirigia ao estacionamento Helena foi até o carro estacionado próximo de seus seguranças avisando a mudança de planos para eles irem acompanhando o carro, pois seu pai não teria paz se ela andasse por aí desacompanhada, dizia ele, mas ela sabe que era um exagero para ela se cuidar, Thomas não demorou para voltar com sua caminhonete branca, incrivelmente limpa para quem morava em uma fazenda, ele ao estacionar desceu rápido para alcançar a porta antes dela a abrindo, o que deixou Lena admirada.

— Não estou acostumada com este tipo de cavalheirismo.

— De onde veio os rapazes não recebiam educação? — Ele esticou a mão para ajudá-la a subir na caminhonete e antes que ela pudesse responder ele fechou a porta e logo ocupou o lugar do motorista ao seu lado — Então, Helena, o que quer conhecer primeiro?

— Eu gostaria de ir no relógio. Sempre vejo várias e várias fotos lá, quero saber se pessoalmente é mais interessante.

Ele respondeu ao dar partida no carro, pelo retrovisor, Helena viu seus seguranças os seguindo:

— Você sabe o motivo daquele relógio ser tão importante para os residentes de Nova Londres?

— Não sabia nem que era importante, achei que era um lugar instagramável em alta. E eu gosto de paisagens interessantes.

— Então, fora isso…- Ele conteve o riso antes de continuar — O rei Lúcio, antes de assumir seu posto como rei, na época que ainda se esperava que Gabriel iria se tornar rei, ele é o primeiro ministro hoje. — Ele explicou ao perceber minha expressão confusa — Mas enfim, naquela época Lúcio saía com frequência do castelo, conseguia fazer isso sem chamar atenção, e Mabelle vendia flores com sua amiga, Laura, e dizem que foi amor à primeira vista, ele comprava sempre as flores que faltavam para terem tempo juntos, a cortejou por meses, e quando seu irmão renunciou ao trono, no dia seguinte, no mesmo relógio, ele pediu a mão de Mabelle, fazendo questão de fazerem a cerimônia ali, tornando o relógio um grande símbolo.

— E o que houve com Laura?

— A rainha, Mabelle, pagou a faculdade de Direito para a qual ela estava juntando o dinheiro das flores para pagar, e hoje ela é uma excelente advogada. Conhece Laura Sanders?

— Da Sanders & Butler?

— Sim, ela é a sócia majoritária hoje. Dizem que na mesma época se envolveu com o herdeiro de outro reino, que prometeu renunciar por ela, mas apareceu casado pouco tempo depois.

— Que desgraçado! Mas por que ela não casou com ele e virou princesa?

— Porque queria poder trabalhar, e pelo menos nos reinos dessa região princesas e rainhas não podem trabalhar, devem dedicar toda sua vida aos afazeres reais.

— E Mabelle não tinha sonhos? Aceitou isso tranquilamente?

— Acho que o amor dela pelo rei foi maior do que seus sonhos, mas era uma excelente rainha, Nova Londres não parecia tão cinza.

— Era? O que houve com ela?

— Onde você morava, posso saber? — Dessa vez ele não conteve a risada ao estacionar o carro e abrir a porta para ela — A rainha Mabelle faleceu há quase dois anos, o rei só é visto em eventos obrigatórios e Felipe começou a estudar em nosso colégio.

— Por isso ele é tão irritante? Porque eu não acho que seja desculpa.

— Não sei dizer, nunca gostei muito dele, Lindsay que sempre foi mais próxima.

— Eles estão juntos?

— Não, ela não quer, e não parece perceber que ele quer.

Me encostei na caminhonete cruzando os braços olhando o relógio à nossa frente, realmente era um cenário romântico.

— Ela realmente não percebeu? Achei tão óbvio.

— Devo concordar, Helena, mas às vezes o óbvio precisa ser dito.

— Creio que sim, será que o rei Lúcio dizia o óbvio para Mabelle ou ela via ele como um maluco que gostava muito de flores?

— Talvez os dois? Bem, ele cultivou rosas azuis por todo castelo apenas porque era a cor favorita dela.

— Eu acho que não daria tanto trabalho, a minha é vermelha, — Sorri ao mexer na mecha vermelha do meu cabelo — E a sua?

— Também, não tão intenso, algo mais próximo do vermelho no por-do-sol. Mas esta cor combina muito bem com você.

— Obrigada…- Senti minhas bochechas começarem a queimar e me afastei da caminhonete me endireitando — E onde conseguiu essas informações sobre o relógio? Não estão nos livros de história.

— Eu e meu irmão crescemos com as irmãs Smith e o princípe, já escutei isso mais vezes do que queria.

— Você não parece gostar disso, qual o problema?

— Parece que falta algo, nada pode ser tão simples e tão perfeito, eu gosto da vida como ela é.

— Ela não pode ser simples e perfeita?

— Você acha que pode?

Helena não tinha resposta para essa pergunta, sua vida era maravilhosa, porém longe de ser simples e muito menos perfeita, nunca conseguia ficar tempo demais em um lugar para se relacionar e seu pai terminava vários e vários relacionamentos por conta disso, as crenças de Thomas eram compreensíveis, mas Lena foi sincera ao responder:

— Eu gostaria que pudessem.

— Entendo, eu também.

— E o que falta para sua vida ser simples e perfeita?

Thomas não respondeu de cara, parecia ponderar bem as palavras que usaria a partir daquele momento, ao mexer na posição do óculos que não havia saído do lugar, Helena percebeu que era um tique, e então ele respondeu:

— Acho que ir para longe, em um lugar mais calmo. E para você, o que falta?

— Ficar tempo o suficiente no mesmo lugar, poder fazer amigos, me envolver.

— E nunca fica tempo suficiente em um lugar para se envolver?

— Fiquei da última vez, doeu bem mais partir, por isso prefiro evitar.

Thomas ficou quieto por um tempo, não sei se o havia deixado desconfortável, mas logo ele colocou as mãos no bolso e se afastou da caminhonete:

— Que tal irmos andando nesse pedaço? Não vamos muito longe.

Helena concordou com a cabeça e o acompanhou, ele mostrou os lugares ali perto, tiraram foto no famoso relógio, que conhecendo a história, agradava um pouco mais Helena agora, compraram chocolates quente no que Thomas jurava ser a melhor padaria da região, e quando estavam em uma distância maior da caminhonete, começou a chover, forte e sem aviso, os obrigando a usar a fachada de uma antiga loja como abrigo, era pequeno e os dois mal cabiam naquele cubículo, mas não se molhavam tanto.

Helena ao sentir a respiração de Thomas não pôde evitar as bochechas de queimarem, acreditava que ele tenha percebido, pois tentou se afastar, mas não havia espaço para isso, pelo menos já haviam terminado os chocolates quente.

— A chuva não deve demorar a passar, logo conseguimos ir até o carro.

— Não tenho horário para voltar, então tudo bem.

— Onde você mora?

— No Village, meu pai comprou um apartamento lá, falaram muito bem.

— Você é tão legal que às vezes esqueço do que faz parte.

— Do que eu faço parte, Thomas?

— Desse sistema, Helena. Mas não estou te acusando. É que seus vizinhos não costumam ser muito gentis.

— Eu ainda não os conheço. Mas obrigada pelo aviso.

Ambos sorriram e se encaram por alguns segundos, Thomas afastou uma mecha de cabelo do rosto de Helena se aproximando, o coração dela disparava cada vez mais, e eles estavam tão perto que ela jurava que ele também conseguia ouvir seu coração bater, mais de perto conseguia ver que seus olhos eram uma mistura de verdes e castanho, e o polegar que acariciava seu rosto possuía uma pele áspera, porém quando seus lábios estavam enfim se aproximando, um de seus seguranças foi até eles carregando um guarda-chuva, sua voz grossa fazendo Helena se sobressaltar:

— Srita. Underwood, desculpe lhe atrapalhar, mas tenho o dever de conferir se está bem, a chuva estava atrapalhando nossa visão.

— Enzo! Você me assustou. Está tudo certo, apenas viemos nos abrigar da chuva.

— Eu trouxe um guarda-chuva para vocês, irei voltar para meu posto. Com licença.

Ao entregar o guarda-chuva, Enzo se afastou, e Thomas que o havia pego o abriu e guiou Helena para encerrarem o passeio, ela já não estava tão interessada na cidade como estava no guia, aquele quase ficou martelando em sua mente, por mais que tentasse admirar a linda cidade, aquele momento se sobressaía ao restante, após Thomas a deixar em casa, a acompanhou até o andar em que morava e se despediu com um simples beijo no rosto, já haviam trocado números durante o passeio então Helena achou que ele mandaria alguma coisa, mas não foi o que aconteceu, seu pai não estava em casa quando chegou, e achou melhor não procurar saber onde estava, estava com muita coisa em sua cabeça após este primeiro dia, depois que se trocou e preparou algo para comer, resolveu pintar para se distrair, deixou o pincel tomar conta de sua mão, quando o saiu o resultado de um casal de jovens, uma ruiva e um loiro de óculos, dançando na chuva em frente ao relógio.