Todos estavam se apertando nas arquibancadas da pequena quadra para assistir ao que seria o jogo de baseball das equipes Amarela e Azul. Todos estavam tensos enquanto o garoto de Levittown que Cooper havia mostrado a John e Jesse mais cedo se preparava pra arremessar a bola para a rebatedora, Sherri. De um lado da arquibancada a equipe vermelha gritava para o tal Brandon, do outro, a equipe verde torcia para Sherri, animados, trocando insultos com a outra equipe.

A tensão que se formava a cada movimento tranqüilo de Brandon era quase insuportável para as crianças. Foi quando ele deu um passo para frente que o silêncio se formou, aquela seria a jogada decisiva, mas ainda não era eliminatória, as eliminatórias aconteceriam apenas no terceiro dia. Ele esticou o bracinho magrelo, bocejou, girou a mão e arremessou a bolinha branca em direção à pequena Sherri, que habilmente rebateu, saindo em disparada para alcançar as bases, seguida de gritos da torcida.

Quando alcançou a última base, o estrondo de gritos foi praticamente insuportável. Moe, um dos monitores anunciou que teriam um intervalo de dez minutos até a próxima partida.

John e Chauntelle estavam comemorando animados junto com os outros meninos da equipe verde e os integrantes da equipe amarela, mas Jesse – reparou John – mesmo que estivesse ali no meio, não estava no clima. Pelo contrário, olhava fixamente para o outro lado da quadra, para as arquibancadas onde outrora estivera a equipe vermelha, que simplesmente se esvaiu assim que o jogo acabou.

-O que foi? –perguntou John, olhando para a mesma direção que ele. Jesse estava sério.

-Eles estão armando algo, e não é algo legal, Johnny. –respondeu ele em voz baixa, fazendo sinal com a cabeça para que John o seguisse. O mais alto olhou ao redor, se certificando que ninguém havia reparado na pequena escapadela deles, e saiu, sem reparar no par de olhos azuis da garotinha do meio do povo, que os seguia até que sumissem nas sombras entre as árvores.

Os pezinhos pisavam em lugares estratégicos, evitando gravetinhos e folhas secas que pudessem denunciar a presença dos dois ali no meio das árvores. Jesse parou subitamente, olhando em volta, procurando algo.

-Eu tenho certeza que vi eles indo pra esse lado. –murmurou. John olhou ao redor, estreitando os olhos, procurando também. Certo que à noite ficava mais difícil, mas se tratava de pessoas, não moscas.

-Eles não podem ter simplesmente evaporado, Jess. –murmurou no mesmo tom.

-Ouch! -o som veio seguido de algumas risadas maldosas. Os dois se entreolharam, parando para ouvir com mais atenção, mas o barulho não se repetiu. Jesse colocou o indicador sobre os lábios, fazendo sinal para que John fosse atrás dele com a mão livre. Obedientemente ele foi, pisando nos mesmos lugares que Jesse, tentando fazer a visão se habituar ao escuro.

-Você acha que estamos brincando com você, não é? — a frase veio baixa para eles enquanto se aproximavam da parte de trás do salão de jogos escuro do acampamento. Não demorou para que vissem, parados em círculo, os meninos da equipe vermelha.

Imediatamente John puxou Jesse para trás da parede do refeitório, deixando somente o rosto exposto, o bastante para ver o que acontecia, sem serem vistos.

-Me desculpem! -veio a vozinha chorosa. Foi só então que repararam que ali, no meio deles, curvado em posição fetal estava uma criança. O menor deles – tirando a criança – que Cooper apresentou a eles como Rubano, deu um chute forte no pequeno que estava lá caído, o fazendo chorar alto.

-Você está na nossa equipe esse ano, Lazzara, não é pra fazer corpo mole. -exclamou um dos mais altos, O’Connell talvez.

-Eu vou fazer direito! — o tal Lazzara exclamou chorando, começando a se colocar de pé. Era quase da altura do tal Rubano, mas bem mais magro e chorão.

-É bom mesmo, pivete. Se perdermos o jogo por sua causa, você ta muito ferrado! — ameaçou o gordinho. O tal Rubano deu mais um soco no Lazzara, e saíram o arrastando consigo.

John e Jesse estavam chocados. Não se mexiam.

-Se eles pegarem vocês... –e os dois pularam, tampando as próprias bocas, se virando para encontrar Sherri atrás deles. -...façam o que eu disse: joelhos, pescoço e olhos. É o ponto fraco de qualquer pessoa.

Os dois assentiram, olhinhos arregalados, enquanto Sherri meneou a cabeça.

-Vamos, o jogo de vocês vai começar, se o Bill perceber que não estão lá vai sobrar pra vocês dois amanhã.

Os dois assentiram novamente, ainda tampando as boquinhas com as mãos, seguindo Sherri assim que a garotinha começou a andar.

A luz néon deixava os olhos dele puxados para um tom violeta que John sabia que não existia nas íris azuis de seu melhor amigo. Não sabia de que forma seus olhos eram mais bonitos: assim ou sob o sol. Mas também não sabia se deveria gostar tanto dos olhos azuis de Jesse, ou se deveria estar olhando tanto assim para Jesse.

Podia ser o efeito da bebida.

E assim que pensou nisso o barulho de uma garrafa acertando as rochas lá em baixo perto do mar chamaram sua atenção, o acordando de seus devaneios sobre o rapaz ao seu lado.

-Vamos pra minha casa, John? –Jesse perguntou, agora de mãos vazias, já que sua garrafa jazia estilhaçada entre as rochas que eram atacadas violentamente pelas ondas do mar lá em baixo. John apenas assentiu, finalizando a cerveja em um gole, jogando a garrafa para baixo, para que essa se juntasse ao que um dia fora a garrafa de Jesse.

Caminharam em silêncio para a casa de Jesse, rindo aqui e ali um do outro quando tropeçavam ou cambaleavam, um silêncio confortável, uma noite agradável, amigos desde pequenos, e era assim que tinha que ser.

Os Lacey haviam viajado há pelo menos uma semana, e deveriam estar de volta em alguns dias, deixando a casa vazia para Jesse, que se recusou a arredar pé de Levittown, para ficar com John no que deveria ser sua última semana na cidade.

Jesse tropeçou nos primeiros degraus da escadinha para sua porta, riu com John, abriu a portinha de vidro, e depois a de madeira e entrou, deixando espaço para John entrar, e depois trancar a mesma.

-Filme? –perguntou Jesse se jogando no sofá. A palavra “filme” para os dois tinha um significado muito peculiar. Aliás, não só para os dois, mas para qualquer garoto de quinze anos na puberdade.

-Eu to bêbado, Jesse. –John resmungou, se jogando ao lado dele. –Mas pode ser.

Jesse tomou o controle, mudando os canais até chegar onde queria: o filme pornô. Pelo que parecia estava na metade, e tinha o que tentava se parecer com um enredo, que no momento começava a se desenrolar.

John bocejou.

Jesse se encostou mais no sofá.

E não tinha ação nenhuma no filme até então.

-Jess, você acha que alguma coisa vai mudar? –John perguntou quieto. Jesse esticou o braço, o passando por cima dos ombros de John, se inclinando para o olhar nos olhos:

-Vai sim. Sempre acaba mudando, não é? – perguntou sorrindo fraco.

-Eu não quero que mude. Você é meu melhor... não, não, você é meu único amigo. –disse triste, esticando a mão, a pousando no rosto de Jesse.

Algo no fundo da sua mente lhe dizia que não deveria estar tocando Jesse daquele jeito, mas ele retrucava com sua própria consciência, alegando que freqüentemente ele e Jesse se tocavam de forma muito mais íntima enquanto assistiam filmes como o que estava passando – e sendo ignorado por ambos no momento. John não queria argumentar com essa insinuação de sua mente, afinal, era diferente trocar ”hand job” e tocar ternamente o rosto de outro cara.

Mas estava bêbado.

-Eu não queria que mudasse também, mas eu acho que é inevitável. –Jesse respondeu, esticando a mão receoso, tocando o rosto de John com as pontas dos dedos.

-Não me deixa, Jesse... –John murmurou baixinho, tomando consciência em seguida de que aquilo havia soado um tanto estranho para se dizer ao melhor amigo.

Jesse não respondeu, e de repente ele estava perto demais, perto a ponto de fazer John sentir a sua respiração quente em seu rosto, a ponto de ver os detalhes de quando Jesse passou a pontinha da língua por cima dos próprios lábios finos, os umedecendo.

E por que diabos estava olhando para os lábios de Jesse?

John se forçou a olhar para cima, para os olhos azuis de Jesse, mas encontrou apenas as pálpebras do menino, olhar baixo, fixo em seus lábios. A pontinha do nariz de Jesse roçou o de John, e foi a vez dele umedecer os lábios, notando agora que seu batimento cardíaco estava levemente acelerado, e sua respiração pesada.

Fechou os olhos, tentando calar a voz em sua mente que gritava que aquilo estava errado, que não devia fazer aquilo, que...

-Sexo! –exclamou Jesse, e quando John abriu os olhos seu melhor amigo tinha os olhos azuis fixos na televisão.

-Você consegue, Vinnie! –exclamou Jesse da base onde estava, olhando torto para o tal Lazzara, pequeno e com seu cabelo castanho e sujo jogado sobre o rosto, talvez pra esconder os hematomas da briga anterior ao jogo. Lazzara ia arremessar, e Vinnie deveria rebater, e tinha que conseguir rebater, estavam muito atrás no placar.

Tinha que admitir que a Equipe Vermelha era realmente boa. Estavam ganhando por uma vantagem realmente grande, e se perdessem aquela jogada era o fim. Não seriam desclassificados ainda, mas perderiam ponto, e teriam que agüentar os outros garotos comemorando, e Cooper os xingando. John estava resmungando qualquer coisa na outra base onde estava, sendo visivelmente provocado pelo gordinho Reyes. Jesse estreitou os olhos: ia pegar aquela bolota bípede de jeito assim que acabasse o jogo. John não havia feito absolutamente nada pra receber as provocações dele.

Vinnie ajeitou a boina sobre a cabeça, que teimava em cair sobre seus olhos, se colocou na posição, pronto para acertar a bola. Adam Lazzara jogou a bolinha com força, olhar apreensivo enquanto a bolinha cruzava a distância entre ele e Vinnie, que erguia o taco – maior que ele – para acertar em cheio.

-Vai! –foi o tal Rubano quem gritou, fazendo a atenção de todos se voltarem para ele.

Menos a de John.

Sabia que ele não gritaria antes que Vinnie supostamente acertasse a bola, e tinha razão.

Só levou um segundo para que o garoto que chamavam de Fred, e que estava posicionado atrás de Vinnie erguesse o braço e batesse em sua boina, fazendo com que ela cobrisse seus olhos e ele errasse feio a pequena bolinha. John não se mexeu quando a Equipe Vermelha invadiu a quadra festejando, e não foi atrás de Jesse quando este foi falar com Vinnie, que olhava arrasado para o resto dos participantes. Não. John estava estático, olhar preso com o de Rubano do outro lado da quadra, que mantinha os braços cruzados e um sorrisinho sádico no rosto.

Idiota.

Rubano sorriu divertido, indo se juntar aos outros que festejavam.