Os pés pequenos encostavam-se à grama debaixo do balanço de levinho, só as pontinhas, o bastante para o fazer ir e vir, ir e vir, enquanto os olhinhos ágeis corriam pelas palavras impressas no livro seguro firme em suas mãos. Estava perdido em seu próprio mundinho, depois da bronca que levou em casa na tarde anterior, não queria lembrar que existia escola.

Só queria ler em paz.

-Esse balanço é meu, Nolan. –exclamou a voz grossa do menino da quinta série, um ano mais velho, três vezes maior. John não respondeu, fingindo não ter o escutado. Não gostava quando Cooper o importunava, não por causa o balanço.

-Nolan, vou repetir: o balanço é meu. Sai. –repetiu, segurando uma das correntes que prendia a tábua de madeira à estrutura de ferro fixa ao chão do playground.

-Cooper, dá um tempo, eu só tô lendo. –respondeu John se encolhendo um pouco. Não gostava de ser vítima de bullying.

-No meu balanço? Xispa. –disse ríspido. John não entendia como algumas pessoas conseguiam ser tão grossas. Estava se levantando quando a voz esganiçada e alta veio de trás de Cooper.

-O balanço não é seu. –ótimo. Agora Jesse ia arrumar mais uma encrenca pra ele, tinha certeza absoluta que Jesse Lacey e encrenca eram sinônimos.

-É sim! –exclamou Cooper o olhando. –Quem é você, baixinho?

-Isso não vem ao caso. Mas como pode provar que o balanço é seu? Tem seu nome aí? –Jesse perguntou se aproximando com as mãos nos bolsos. Cooper pareceu pensar um pouco, sem graça, sem resposta. Analisou os dois algum tempo e sorriu vitorioso.

-Não. Mas também não tem o dele. –respondeu. Jesse abriu um largo sorriso.

-Levanta, John. –ordenou. John sabia que isso não seria bom, sabia que não daria certo, mas se levantou do mesmo jeito. Jesse tirou uma caneta de retro-projetor de dentro do bolso, se ajoelhou em frente ao balanço, e quando levantou, na tábua, em letras garrafais havia um grande: JOHN NOLAN. –Ooops! Agora tem. –disse, cínico.

Cooper os encarou, irritado, e foi brincar no gira-gira.

-Vem! Vamos sair daqui! –John disse puxando Jesse pela mão para algum outro lugar da escola. Não estava nem um pouco a fim de levar outra bronca da diretora.

Especialmente por ter calado a boca do filho dela.

-Hey, me agradeça seu mal educado! Sua mãe nunca te explicou sobre o “Bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, com licença, muito obrigado, não há de que”? –Jesse ia dizendo enquanto era puxado. –Na outra escola a gente cantava até uma musiquinha sobre isso, sobre educação.

-Você não devia ter escrito meu nome! Vamos acabar na diretoria de novo. –John disse os colocando dentro da sala de aula.

Jesse deu de ombros.

-Vamos brincar? –pediu sorridente.

Crianças não gostam de se preocupar. Nem deveriam ter motivos pra se preocupar, era bem mais simples esquecer tudo e brincar a tarde toda, ou, no caso dos dois, até que a professora chegasse.

Puxou a caixinha de madeira de dentro do armário, espirrando mais uma vez, fazendo seus óculos irem parar na ponta do nariz.

Merda.

Reergueu os óculos, abriu a caixinha, olhando com cuidado cada um de seus conteúdos, esperando que uma barata saltasse de lá de dentro, já que seu quarto era um belo exemplo de desenvolvimento de insetos, um biólogo faria a festa lá dentro. Como isso não aconteceu, enfiou a mão, a retirando em seguida com um grito de dor, vendo o filete de sangue escorrer em seus dedos. Imediatamente o levou à boca, sentindo o gosto do ferro, enquanto atentamente procurava o agressor do seu dedo na caixinha de madeira.

Não demorou muito pra que encontrasse um envelope amarelado com uma pontinha de metal saindo de dentro dele.

E então se lembrou daquilo.

Se lembrou do que era, e não precisaria abrir para saber que havia uma lâmina de barbear, uma tesoura e um estilete lá dentro. E se lembrava bem das palavras no cartão: ”Tome conta disso pra mim. É uma garantia de que não vou mais me machucar. Obrigado. Eu amo você.”

A primeira semana de aula passou rápida pras crianças pequenas da South Shore, principalmente para Jesse e John, que entre uma ida ou outra para a diretoria ainda conseguiam tempo para brincar a correr pelos corredores da escola, fazer pinturas a dedo e combinar o fim de semana.

Aliás, a melhor parte foi combinar o fim de semana.

John estava empolgado por ter convencido sua mãe a permitir que ele fosse passar o sábado com Jesse, em sua casa, com seu monte de irmãos.

-Sabe aquilo que você disse quando nos conhecemos? –perguntou John mordendo seu sanduíche, sentado à mesa com Jesse no refeitório da escola.

-O que? –perguntou ele colocando o canudinho em seu suco.

-Sobre você ter vindo do céu. Sabe, você disse que sua mãe disse isso... –comentou fingindo não estar interessado. Jesse sorriu, assentindo.

-É verdade. Eu vim do céu. –tomou um pouco do suco.

-Ninguém cai do céu, Jesse. –replicou John. Jesse bufou, e começou a explicar:

-Eu perguntei pra minha mãe como os bebês vão parar na barriga das mães, e como saem. E ela me disse que era complicado explicar, e eu disse que era só explicar como foi comigo. Aí ela disse que comigo tinha sido simples, que eu caí do céu direto nos braços dela. –disse com simplicidade. –Você eu não sei, mas eu caí do céu.

John o fitou por alguns instantes. Se a Sra.Lacey havia dito, então é porque era verdade.

Fez uma cara injuriada, mordendo o sanduíche de novo, pensativo.

-O que foi, John? –Jesse perguntou. John engoliu o que estava mastigando e respondeu:

-Minha mãe me achou em um repolho.

Aos poucos, passar os finais de semana na casa de Jesse virou rotina. E agora John geralmente ia na sexta e voltava no domingo, depois que a Sra.Lacey levasse ele, Jesse, Carly e Rory ao Burger King.

Pra comer batatas fritas.

Os Lacey eram vegetarianos, a Sra.Lacey até comentou com a Sra. Nolan sobre os malefícios da carne no organismo das crianças, e mesmo que a Sra.Nolan tivesse concordado com tudo que a Sra.Lacey disse, John nunca viu um jantar sem carne na sua casa.

Mas ele e Jesse não falavam do assunto. Na verdade, era até estranho, mas o assunto que mais conversavam a respeito era livros, pelo menos até o dia que Jesse levou John até o sótão, onde entra sofás velhos, móveis cobertos de pó e baús inutilizados, havia uma velha vitrola e uma caixa de LP’s.

Escutavam tudo que tinha por lá. Tudo. Desde Elvis, Beatles, The Smiths a cantoras pop com músicas infantis. Algumas horas depois, quando enjoavam, desciam e continuavam a montar a casa na árvore que queriam que ficasse pronta pras férias.

E depois a Sra.Lacey os chamava para um lanche ótimo, sem carne.

As manhãs começaram a ser bem mais divertidas pra John, tinha mais ânimo pra levantar, e se saísse cedo tinha tempo de brincar com Jesse bastante antes da aula, já que agora Cooper não os importunava quando estavam no balanço, e quando ele passava Jesse sempre dava um sorrisinho vitorioso. O que mais intrigava John no entanto era que Jesse não tinha medo. De nada.

De ninguém.

No dia que foram pra diretoria Jesse ficou andando de um lado pro outro, mexendo em tudo que via enquanto John chorava, implorando pra não chamarem seus pais lá de novo. E quando a diretora disse que os dois teriam que levar recadinho pra casa na agenda, Jesse não se importou, até de habilitou em ir buscar as agendas dos dois na sala de aula. E fez isso com muita eficiência.

Naquela manhã, quando John chegou, Jesse já estava no playground, sentado sozinho no gira-gira, o esperando. Acenou quando o viu, sorrindo. John correu até ele, mas não teve tempo de chegar, a diretora parou entre eles, séria, mãos na cintura.

-Os dois, pra minha sala. –e saiu andando. Jesse arregalou os olhinhos azuis, fitando John.

-Você fez alguma coisa? –perguntou.

-Eu acabei de chegar. Você fez alguma coisa? –perguntou curioso e com medo. Estava bem ferradinho quando sua mãe soubesse.

-Eu tô sentado aqui desde que cheguei, quietinho, juro. –disse, se levantou e saiu correndo atrás da diretora, seguido por John.

A diretoria não era exatamente desagradável, era desconfortável. Era difícil sentar naquela cadeira grande, e os pés sempre ficavam pendurados, porque se você quisesse se encostar no apoio teria que ir bastante pra trás, o que te faria afundar na cadeira e ficar com as pernas esticadas. Fora a mulher alta, loira e com cara de brava que por sinal estava ali – pelo menos era o que John pensava – com a única função de dar bronca e chamar os pais.

E então dar bronca nos pais por criarem mal seus filhos.

Quando entraram e se sentaram nas cadeiras grandes e fundas, a diretora já os encarava.

-Jesse, querido, por que escreveu aquilo no balanço? –perguntou calma, para a surpresa de todos. John se encolheu, sabia que daria encrenca, das grandes. Teriam que pagar outro balanço. Certeza.

-Porque agora o balanço é do John. –respondeu sincero. Ela abaixou a cabeça e depois o encarou novamente.

-E por que escreveu seu nome embaixo com os corações? –ela perguntou olhando de um para o outro.

-Eu não escrevi. Só escrevi o nome do John. –Jesse respondeu, sério. John o olhou intrigado, afinal, havia visto Jesse escrever só seu nome, e até a tarde anterior era assim que o balanço estava.

-A senhora está enganada, ele só escreveu meu nome lá. Só meu nome, sem corações, sem nome dele. E ele é meu amigo, e menino, não escreveria meu nome e o nome dele com corações. – replicou John, e a diretora somente suspirou.

-Seus pais virão pela tarde. Estejam aqui depois do intervalo. –ela disse com um leve sorriso.

-Minha mãe não vai vir, e meu pai está fazendo plantão no hospital. –disse Jesse. Mas a diretora sacudiu a cabeça.

-Sua mãe falou comigo, ela virá, Jesse. Podem ir.

Assim que colocaram os pés para fora da sala, John não reconheceu Jesse. Ele estava sério, completamente diferente do Jesse “normal”. John pousou uma mão no ombro dele e se abaixou um pouco para o olhar:

-Não se preocupe, nós não fizemos nada. –disse. –Ela não tem motivos pra brigar com a gente.

Jesse sacudiu a cabeça negativamente, ainda sério.

-Não fizemos nada, realmente. Quem fez foi o Cooper, e temos que achar um jeito de provar, ou nos vingarmos. –disse olhando John. –Ou vão achar que eu sou bicha! –exclamou apavorado. John deu um pulo pra trás, assustado, soltando uma alta exclamação de horror.

-Você tem certeza, né? Não foi você quem fez corações, né? –perguntou, e Jesse pareceu indignado.

-Eca! Claro que não! Que nojo, John, que nojo! – disse fazendo uma careta. John respirou aliviado, acreditava em Jesse, sempre.

-Então temos que ver se foi mesmo o Cooper. –respondeu se recompondo. –E se foi, eu vou quebrar a cara dele.

-É, bom mesmo fazer isso, antes que ele quebre a sua por ter descoberto. Vamos, temos que ir pra aula e fingir que está tudo bem. –sorriu, indo na direção da sala.

-Por que? –perguntou John, correndo para acompanhar seus passinhos apressados.

-Porque não podemos mostrar ao Cooper que estamos preocupados. –respondeu ainda sorrindo.

-Mas nós estamos! –comentou John, não entendendo nada. –Além disso, o Cooper nem é da nossa sala.

-Verdade. –Jesse parou de andar e o olhou. –O que pensa em fazer então?

John respirou fundo, fungou, mordeu o lábio com os olhos cheios d’água.

-Eu quero a minha mãe! –disse alto começando a chorar no corredor. Jesse olhou pros lados apreensivo, depois para John chorando na sua frente.

-Pára! Vão perguntar o que aconte--... -e fungou também. Não queria começar a chorar. Não iria começar a chorar. Sem outra alternativa, puxou John para o banheiro, esperou que se acalmasse, e que lavasse o rosto antes de ir pra aula. Decididamente iria acabar com o Cooper. Decididamente.

E na verdade, só tinham o intervalo para fazer isso.

O sinal para a aula tocou alto pelas paredes da escola. John se apavorou para correr do banheiro, mas Jesse o segurou.

Ou não.