Mon Petit Prince
16 Parte 16
Lá longe, Jesse ainda pôde ver John e Laura abraçados, e não conseguiu deixar de se perguntar por que John mentiu pra ele.
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-Você tem que vir, cowboy! – o corpo pequeno se jogou no sofá florido da casa pequena, os dedos da mão direita segurando firme o telefone sem fio na orelha, a mão esquerda com os dedos posicionados em um soco inglês que fitava com os olhos azuis enquanto falava ao telefone. –Já começou a nevar, logo a McArthur libera todo mundo, acho que nem vou precisar repor aula.
O silêncio do outro lado da linha veio seguido por um suspiro longo e chateado.
-Você sabe que eu quero ir, Matt, mas sabe que meus pais ficam implicando. Eles ainda não superaram o estado catastrófico que você me deixou depois do acampamento aquela vez. – respondeu baixo.
-Faz quatro anos, Adam. Por favor, eu sou menor que você, atualmente. E olha, até o Lacey já perdoou! – constatou, girando o soco inglês nos dedos, prendendo o telefone na orelha com o ombro, usando a mão agora livre para analisar o pedaço metálico.
-Quem? – perguntou confuso.
-Lacey, Jesse Lacey. Não lembra dele e do John? Nós arrebentamos ele antes da final... acampamento, Adam! – exclamou irritado. Odiava pessoas com pouca memória, ele sempre precisava os lembrar de tudo e mais um pouco.
-Ah! Sei, sei... lembro. Tem os visto? – perguntou casual.
-Toda semana. Aliás, vamos nos ver no fim de semana, marcamos de sair, mas o Jesse não sabe se vai, parece que ele e o John não estão se falando porque o John está namorando uma garota chata. Não entendi, essas coisas da gentinha da South Shore.
Silêncio do outro lado. Matt achava um tanto complicado esse tipo de coisa, ter que explicar para Adam que a South Shore era a escola particular de gente fresca e que a McArthur era o lugar das pessoas perigosas, a pior escola pública de Levittown, era um tanto entediante.
Mas com o tempo ele aprendia.
-Você precisa me avisar quando entra de férias, Matt. – pediu. –Eu vou falar com mais pais de novo, explicar que não somos mais crianças violentas e que vai ficar tudo bem se eu for pra sua casa nas férias, mas eu duvido que eles deixem.
-Tenta. Por favor... – pediu. –Eu estou com saudades.
-Eu também. Preciso desligar. – disse.
-Tá. Tenta vir... – pediu novamente, como um reforço para que o outro não esquecesse. Adam riu do outro lado. –Tchau.
-Tchau. – desligou.
Matt soltou o telefone, girando o soco inglês nas mãos, vendo cravado no apoio as iniciais “M.A.R. & A.B.L.”
E aquilo tudo já estava ficando bem ridículo na opinião de John.
Não era como se ele estivesse chutando Jesse ou algo assim, mas o outro não o tratava mais normal, e agora estava mais grosso com Laura do que de costume. Já havia explicado que não, não havia mentido para ele, apenas omitiu algumas coisas porque sabia que ele teria um ataque se ele o contasse.
Achava Jesse uma criança muito possessiva.
Mas então se pegou pensando que talvez, se Jesse começasse a namorar, ele também ficasse um tantinho chateado.
-Pode começar, John! – a Sra.Winters pediu, ao que ele assentiu e deslizou os dedos longos e finos graciosamente sobre o teclado, a melodia enchendo o cômodo iluminado pelas altas janelas de vidro, o coral posicionado sobre o tablado, seus olhos fixos nos de Jesse. Gostava de o ouvir cantando, e o ver cantando, e o observar.
Jesse sorriu para ele, corando de leve e voltando os olhos claros para a pasta com a letra da música em suas mãos.
John se fixou na partitura, ele próprio com um largo sorriso nos lábios enquanto tocava, ouvindo a parte solo de Jesse, e terminando a música.
-Muito bem! Mais uma vez, John! – pediu ela novamente, e seus dedos recomeçaram a já decorada melodia.
Jesse apertou o casaco grosso contra o corpo pequeno, recostado na parede do lado de for do auditório, o violão com a alça da capa jogada por sobre os ombros, observando John colocar as luvas. Estavam esperando que Matt e os outros aparecessem, haviam sido liberados um pouco antes do horário por conta de uma tempestade de neve que haviam anunciado, assim as crianças teriam tempo de chegar em casa.
-Deixa eu ver seus pulsos. –pediu John, esticando as mãos cobertas com luvas grossas de lã para ele, os olhos fixos nos dele, sério. Tinha o nariz e as bochechas vermelhas por conta do vento gelado, assim como Jesse.
O mais baixo esticou as mãos, sabendo que se recusar a mostrar seria bem pior.
John segurou sua mão direita, ergueu um pouco a manga e encontrou o pulso limpo. Fez o mesmo com a esquerda, encontrando recentes cortes, mais fundos do que ele já havia visto, traçados em várias direções: diagonais, horizontais, verticais...
-Jesse... – soltou baixo, vendo o outro recolher os bracinhos, emburrado, olhando o outro lado.
-Culpa sua. – soltou ríspido, sem realmente querer dizer aquilo. Na verdade, queria gritar aquilo, queria fazer John se sentir culpado, queria que ele se sentisse mal. –Se não tivesse ido atrás daquela coisa, isso não teria acontecido. Eu realmente considerei, e havia de fato, parado, porque eu pensava em você toda vez. Mas aí, quando eu estava próximo de fazer, e você me veio à mente, e eu lembrei de tudo que você fez, eu senti mais vontade ainda. Eu não tinha mais nada, quebrei um copo na cozinha, escondi um dos pedaços do vidro e usei pra fazer isso. – estava com um sorriso nos lábios. Estava realmente satisfeito em contar aquilo para John. Mais satisfeito ainda em não receber resposta alguma, o que denunciava o choque do outro. Seus olhos, frios, fitavam incansavelmente a árvore no jardim da escola, não poderia encarar John. –E sabe, foi ótimo. Pela primeira vez realmente doeu. Pela primeira vez eu me senti realmente vivo quando eu efiei o vidro no meu braço, e quer saber, John? – se voltou para ele, encontrando a cena que menos imaginou encontrar.
No momento que viu as lágrimas escorrendo pelo rosto do outro, toda a satisfação se esvaiu, deixando apenas culpa.
-Jess... desculpa. Por favor, me perdoa... – John estava chorando. Não controlado, não quieto, estava chorando compulsivamente, e Jesse duvidava que ele pudesse enxergar seu rosto no momento. Se antes tudo que queria era ver John se sentindo mal pelo que ele fez a si mesmo, agora tudo que ele queria era acabar com as lágrimas que desciam molhando o rosto pequeno.
-John... calma. Eu que fui um idiota... meu Deus! Desculpa! Eu não quis...quer dizer, eu quis dizer isso, mas.. eu não achei que... – esticou as mãos, retirando os óculos de John, sentindo o nó que começava a se formar em sua própria garganta...
Quando Matt chegou com os outros, a neve já começava a cair, se amontoando pelo chão, pelos galhos das árvores...
Tinham que chegar rápido para escoltar os dois de volta para casa, mas, quando de fato alcançaram o auditório, encontraram os dois abraçados debaixo da coberta, o teclado e o violão no chão.
-Jesse? John? – chamou, os outros se entreolhando curiosos. Jesse ergueu a cabeça, os olhos vermelhos pelo choro. De leve, fez um sinal para que Matt se fosse com os outros.
O menor obedeceu.
Entendia que eles talvez precisassem ficar sozinhos.
”Oh holy night,
The stars are brightly shining.
It is the night of the dear Savior's birth.
Long lay the world in sin and error pining”
As vozes do coral de Nassau Country Choir entoavam afinadas em frente à grande árvore de Natal situada próximo à pista de patinação no gelo montada na praça principal de Levittown. Flocos leves de neve caíam lentos e frios sobre as pessoas apoiadas à grade assistindo o coral cantar. Jesse apertou as mãos quentes dentro das luvas na grade, escutando o som das pessoas cantando junto, iluminadas somente pelas luzinhas coloridas dos enfeites de Natal. Haviam anjos de gelo, renas e até um Papai Noel esculpidos por mãos habilidosas e calmas que fizeram cada detalhe do que era antes um grande bloco quadrado.
Ele amava o Natal.
Era a época que sua casa mais tinha doces, e a lareira estava sempre acesa, quentinha, e o tio Bill, marido da tia Harriet sempre se vestia de Papai Noel, e era o único da família que dava presentes pra todos os seus irmãos.
Ele se sentia uma verdadeira criança no Natal, e não era como se o seu rosto e sua estatura denunciassem seus quinze anos.
-Minha mãe fez cookies. –resmungou o garoto ao seu lado, preocupado em se manter livre dos flocos de neve.
-A tia Harriet fez alguns doces, vou comer mais tarde. –respondeu Jesse deixando que os flocos caíssem em seu rosto. –O Adam não chegou ainda? –perguntou abrindo os olhos azuis, fitando John. Este, sacudiu negativamente a cabeça.
-Não sei mais se ele vem, segundo ele, precisa estudar. Se bem que eu realmente duvido que o Matt e os meninos não tenham aprontado alguma para que ele acabasse vindo de algum jeito. –riu.
-Ele sempre vem... – Jesse respondeu distraidamente, um sorriso triste nos lábios. –Minha mãe adorava o Natal.
John o fitou, sem saber exatamente o que fazer com ele.
Era uma situação complicada, perder a mãe assassinada pelo próprio pai, ter o pai preso, e morar com a tia rica, divertidíssima, que tentava fazer o papel de mãe o melhor possível, sempre fracassando miseravelmente e dando liberdade demais para os pequenos Lacey.
-Quer ir pra minha casa? Passar o Natal lá... – John perguntou. Talvez fosse o melhor que poderia oferecer. Não sabia muito lidar com as perdas alheias, porque na verdade, geralmente não se importava com o que acontecia com os outros, e suas famílias e coisas assim. Mas era Jesse, e tudo que dizia respeito a Jesse era de sua importância.
-Não, a tia Harriet e o tio Bill estão preparando um super jantar. Por que não vai pra lá? – ofereceu, sorrindo, se afastando da grade, começando a sair do meio da multidão aglomerada, sendo seguido por John.
-Minha família teria um ataque se alguém faltasse ao jantar de Natal. –riu. Jesse riu junto, se esticando para passar o braço pelo pescoço de John, o arrastando na direção da calçada.
-Eu acho que vou ao cemitério. – disse, soltando John. –Faz tempo que não visito o túmulo dela.
-Quer que eu vá junto? – perguntou. Sabia que Jesse odiava aquele lugar, e que não conseguia chorar na frente de mais ninguém que não fosse ele. O outro apenas assentiu.
-Não vai te atrasar pra encontrar a Laura? – perguntou, seguindo em frente, sem ver a careta que John fez.
-Terminamos hoje cedo. – viu Jesse parar de andar, e sorriu, recebendo o olhar de indagação do outro, completamente sem pistas do que poderia estar errado. Até onde sabia, Laura e John eram um casal completamente apaixonado.
-Mas eu achei que vocês fossem... –começou.
-Nah, eu estou com ela desde os doze anos. É muito tempo, Jess. Muito tempo. – sacudiu negativamente a cabeça. –Talvez eu sinta a falta dela e volte, mas por hora...
-Por hora você fica comigo. – Jesse sorriu, tomando a mão coberta por uma grossa camada de lã na sua, entrelaçando os dedos como pôde, caminhando de mãos dadas com John na direção do cemitério.
Não se importava com os olhares de asco que estavam recebendo, se sentia estranhamente bem em fingir que eram um casal gay.
E John também, não evitava olhar sorrindo para as velhinhas que faziam cara de nojo, nem hesitava em dar beijos demorados no rosto de Jesse quando alguém os apontava na rua.
Era engraçado.
Mais tarde poderiam até comprar candy canes e fingir que estavam dividindo um só, o que causaria acidentes constrangedores caso de fato lambessem a mesma bengalinha de açúcar ao mesmo tempo.
Jesse pousou o termômetro no criado mudo, puxando a coberta para cima da cabeça. Havia sido diagnosticado de uma terrível doença chamada escarlatina há apenas um dia do seu aniversário.
Presente melhor ele não podia esperar.
Além de tudo, a droga da escarlatina era contagiosa, qualquer um que nunca tivesse sido vítima da bactéria, estava em grande risco.
No caso, nenhum dos seus amigos havia sido vítima ainda, então, além de ficar de cama, ele teria que passar o aniversário sozinho.
E pra deixar sua vida ainda pior: era verão, e férias. E lá estava ele, trancado no quarto, debaixo das cobertas por causa da febre, com uma dor de cabeça horrenda, o corpo cheio de vergões vermelhos e coçando, e a garganta toda travada. Adam estava na cidade, todos estavam indo a festas, e ele não poderia sequer tomar um sorvete. Já havia levado injeção de penicilina, e estava sobrevivendo à base de antibióticos, enquanto amaldiçoava seu sistema imunológico e gritava aos quatro cantos da casa que Deus o odiava mais do que qualquer outro ser humano.
Escutou um barulho na janela.
John bateu novamente no vidro, observando enquanto Jesse se levantava, encarando o vidro, confuso. Se levantou da cama, trêmulo por causa do frio, o encarando. Ergueu o vidro, deixando que ele finalmente entrasse.
No momento que olhou o amigo, sentiu pena.
Estava abatido, os braços e pernas cheios de vergões avermelhados, e a expressão de dor constante.
-John, isso é uma doença contagiosa. –afirmou, correndo trancar a porta do quarto.
-Eu sei, sua mãe disse, por isso não me deixou entrar. E por isso estou aqui. – disse fechando a janela, enquanto Jesse voltava para debaixo das cobertas.
-Vai embora, você vai ficar doente também. – resmungou. Mas não tinha muita força para retrucar, ou empurrar John, que já estava sentado na beirada da cama, afagando os cachinhos claros de Jesse.
-Mas amanhã é seu aniversário! – exclamou. –Você vai fazer treze anos, e não pode ficar sozinho.
-O que não quer dizer que você possa ficar doente também... vai embora. Ter isso é péssimo. – disse baixinho, abrindo os olhos azuis marejados para ele.
Era tão óbvio que Jesse não queria que ele fosse embora de verdade que chegava a dar pena. Devia estar sendo horrível ficar lá sozinho todos aqueles dias, sabendo que todo mundo estava fora se divertindo ao máximo.
-Mas eu tenho um plano pra você não ficar sozinho! – sorriu animado, vendo Jesse se sentar rápido na cama, animado subtamente com a possibilidade de poder ver seus amigos no seu aniversário. Pelo menos John.
-Qual? – sorriu. Viu John erguer o indicador, e sem aviso prévio algum, o enfiar dentro de sua boca, e depois para dentro da sua própria. A expressão de nojo de Jesse foi um tanto inexperada para o garoto de óculos.
-O que foi? – perguntou.
-Eu que pergunto: o que foi isso? – Jesse estava de fato confuso, ele que ficava doente e John que saía fazendo coisas estranhas.
-Escarlatina pode ser transmitida pela saliva. Eu recolhi um pouco da sua, e transferi pra mim, assim eu fico com escarlatina também e posso ficar aqui com você! – exclamou feliz. Jesse girou os olhos, soltando um grunhido de frustração, enfiando a cara no travesseiro ao seu jogar na cama.
John tinha idéias realmente brilhantes.
-Aí sabe quando é que nós vamos sarar? Nunca. – disse irritado. Era tudo que realmente precisava, tudo. John e ele doentes pra todo o sempre. E ainda o culpariam por ter deixado John doente, ninguém acreditaria que o santinho John Nolan enfiou o dedo na sua garganta para ficar doente também.
-Você podia agradecer por eu estar disposto a ficar doente só pra ficar perto de você. – John disse, correndo os dedos por seu cabelo novamente.
-Aquela quantidade de saliva não é o bastante. Saliva que eles mencionam é a quantidade transmitida pelo beijo, não um... dedo. – disse ainda mais irritado, fechando os olhos e se virando na cama, dando, mais acesso aos dedos de John.
Adorava que mexessem em seu cabelo.
-Se deixar, eu te beijo. – John disse. Só por muito auto-controle que Jesse não arregalou os olhos naquele instante, ao contrário, riu.
-Sua mãe me mata se você ficar doente. – abriu um olho, encarando John. –Seu gay.
-Hey! Eu não estou falando de te beijar porque eu estou atraído por você ou algo do tipo! Eu tenho uma namorada.
-Sei, sei. – Jesse continuou rindo, se ajeitando na cama. –Vai pra casa.
John continuou em silêncio, fazendo cafuné no melhor amigo até que sua respiração ficasse pesada, indicando que finalmente ele havia pegado no sono, ali, com os cachinhos claros caindo sobre as pálpebras delicadamente fechadas sobre as irias azuis.
Queria tanto cuidar dele, ficar ali com ele, tomar conta do seu protótipo de pequeno príncipe.
John olhou ao redor do quarto um tempo, depois voltou a olhar Jesse, tão fragilizado...
Era incrível como tudo que tinha que acontecer de ruim, acontecida com ele. Era como se Jesse fosse um tanto amaldiçoado.
Se inclinou sobre o corpo pequeno, não pensando muito no que estava fazendo, pousando fraquinho os lábios sobre os dele. Jesse não merecia ficar doente.
Lavantou e pulou a janela de volta para sua bicicleta jogada no jardim.
Só quando ouviu o barulho dos pedais da bicicleta velha de John indo para longe de sua casa que Jesse abriu os olhos, tocando os próprios lábios com a ponta dos dedos, sorrindo.
Devia ter pedido para John o beijar de verdade.
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