Mon Bijou

5 Capítulo final - Mon Bijou


Na manhã seguinte, ele se assustou com a quantidade de horas que havia dormido. Ainda era cedo, o sol começara a tocar as cortinas, porém ele não estava acostumado a dormir tão profundamente, a ponto de estranhar a claridade do cômodo.

Fitando a sua volta, ele respirou fundo e se sentou. Seus orbes repousaram no menino ao seu lado, com o corpo desengonçado, quase a cair da cama. Seus lábios se moveram em um sorriso, e ele o ajeitou na cama, cobrindo-o e lhe dando um beijo nos cabelos. Seus dedos lhe afagaram a face rosada, e em seguida ele se ergueu. Devia partir.

O alemão apanhou seu relógio de bolso dentro do casaco e checou as horas antes, para ver quantos minutos lhe restavam. A passos cautelosos para não acordar o menor, o soldado somente lavou o rosto e penteou os cabelos, para apresentar um semblante mais desperto, e agitou a cabeça, tentando acordar. Ele tossiu e respirou fundo, secando com rapidez a face com uma toalha velha.

Deixando o lavabo, ele recolheu suas vestes e se arrumou com rapidez, checando todos os seus pertences, medalhas e detalhes que poderiam ter se perdido no meio da noite. Ele assumiu novamente identidade aterradora de soldado alemão, apertou a gravata e endireitou os botões do casaco negro, para em seguida apanhar o quepe angular. Fitando uma última vez para a criança, ele sorriu e fechou a porta, colocando sobre os fios o quepe, e partindo para o andar debaixo.

Descendo as escadas, ele se encontrou novamente no balcão sujo francês, onde o senhor e a senhora do local já se encontravam. A mulher estava a arrumar as mesas, enquanto o homem lia o jornal. Eles pararam com suas tarefas ao vê-lo. Wolfang avistou mais três soldados no local a tomar café preto, e os cumprimentou. Os soldados se ergueram rapidamente para lhe dar uma saudação e convida-lo para se sentar, porém ele forçou um sorriso por educação e pagou ao senhor.

- Estou de saída. — Falou aos homens, que sorriram, alegres em ver um assassino judeu legítimo, e em seguida conversarem baixinho entre si, como menininhas empolgadas. Ele rodou os orbes e já estava de saída, quando o senhor lhe chamou.

— Senhor? — Wolfang se virou, fitando-o. — ...Se...ouso...perguntar...como...como o.. — Ele fitou os outros soldados, como se preocupado se eles entendessem francês, o que era pouco provável. — ...como...está o desempenho do bastardo?

— ...O garoto? — Indagou. Ele sentiu o peso do olhar da mulher, e em seguida deu as costas para ambos, arrumando o casaco. -...suficiente para ter minha atenção. É uma foda, não é mesmo? Somente isso. Um buraco para se enfiar e passar o tempo, enquanto não mato ninguém. Se me permite...

Shneider foi até a porta e sentiu a frieza da maçaneta mesmo usando luvas. Ele partia, até o momento em que ouviu um soluço. Os orbes se voltaram vagarosos para trás do ombro, arregalando-os ao ver a face pálida do seu menino de encontro as escadas. Ele mal penteara os fios, como se tivesse despertado e o seguido para se despedir. Ao cruzar do olhar, a criança soluçou novamente, chamando atenção dos demais.

— Eu....eu....sou...o...que....? — Indagou, em um pranto estrangulado na garganta.

O alemão notou que os soldados agora o fitavam, não compreendendo a situação. Mas os tios sabiam francês.

— O que tu queres, francês? Teu cu arde em desejo por mim ainda? Esperas outro para te satisfazer, pois me vou.

Louie arregalou os belos orbes e foi contra o homem, sendo necessário que a tia do menino se apressa-se em empurra-lo escada acima.

— Vista-se, e depois venha aqui!

O menor tentou se desvencilhar dos braços da mulher, e gritou na direção do homem.

— Ouça a mulher. Se ficares aqui de camisola, posso bem querer te foder novamente.

— O.....O que o senhor fala?! O senhor me...me amou por agora mesmo...e....!

— ...Amou....? Do que o garoto fala, senhor? — Indagou de repente um dos soldados que se revelava como entendedor.

Wolfang forçou um riso e fitou os soldados.

— Todo bastardo é um viado que abre as pernas ao primeiro que diz que o ama. Todos dizem que amam no sexo, pelo gosto da fantasia.

— Mentiroso! — soluçou o menino, em pranto. — Monstro! Monstro!! Eu te odeio!!!

A mulher o apertou contra ela e foi ajudada pelo marido que deu um tapa no menino. Wolfang foi até a escada para pedir o menino se acalmar, porém foi atingido por um cuspe de desgosto do menino. Esta afronta fez os soldados se erguerem, sendo necessário que ele intervisse rapidamente, chamando-os para fora.

— Não fiquemos mais neste lugar francês imundo. Vamos.

Um dos soldados chutou uma cadeira e revirou uma mesa, fazendo os copos quebrarem, antes de segui-lo. Wolfang olhou rapidamente para a escada, antes de sair, porém o menino já havia sido arrastado para o andar de cima.

O alemão ouviu os demais reclamarem do serviço do lugar, e indagaram sua postura. Shneider murmurou algo semelhante a uma promessa de tortura ao menino na próxima noite, que lhe tiraria os dentes, e outras monstruosidades que pôde se lembrar. Os homens citaram outras, como quebrar seus dedinhos e cortar fora eu sexo, e passaram a dividir experiências com judeus que haviam participado.

Wolfang não se focou mais nos soldados, de forma que nem notara quando eles foram embora. Sua mente estava totalmente voltada à face vermelha em prato do amante. As horas passaram, e ele não trabalhava, sendo atormentado por seu olhar ao descobri-lo como um monstro.

A noite caíra, e ele deitou na cama do prédio onde estava a trabalhar há alguns meses, onde guardava seus parcos pertences. Ele desejou ver o menino naquela noite, porém não foi. Tinha vergonha de encontrá-lo. Talvez fosse melhor, depois do que lhe fizera. Ele aguardou o raiar do dia para deixar sua acomodação e se dirigir para as pequenas lojas que aprendera a frequentar por causa do menino. Enquanto retirava as luvas de couro, ele avistou sobre uma das prateleiras uma pequenina caixinha de música redonda tendo um laço dourado em cima. Ao abrir da caixinha, uma pequenina dançarina de balé rodopiava ao som de uma melodia suave. O alemão sorriu de leve e tornou a fechar a caixinha, e foi até o caixa. O senhor, um homem muito magro de longo bigode branco sorriu e recebeu o dinheiro.

- É para tua filha, meu senhor? — Perguntou ele, falando em alemão. Shneider fitou a caixinha e a afagou com os dedos.

- ...Não.

- Queres que seja para presente?

Shneider ignorou o homem, guardando a caixinha no bolso do pesado casaco negro. Ele avançou para fora e olhou as horas. Nunca havia ido até o menino antes tão cedo, porém precisava se desculpar com ele. Ele se apressou pelos corredores da cidade, cruzando outros soldados e militares no caminho. A cidade estava tomada por bandeiras nazistas que não permitiam que nenhum francês se esquecesse de sua presença.

Entre as cortinas vermelhas com branco onde a suástica brilhava triunfante, fileiras de judeus sem rumo que perderam suas posses esperavam a sopa da manhã. Na fila ele viu crianças da idade de Louie. Jamais permitiria que ele chegasse naquela situação. As crianças apostavam a chance de mais um prato de sopa, o que era mais fácil ser conseguido do que mais um dia de vida.

Aproximando-se do bairro onde o bar se espremia entre outros dois grandes prédios cinzentos, ele buscou a fachada, não a encontrando pela luz da manhã. Ele franziu o olhar e se orientou pelas placas e escadas retorcidas dos prédios vizinhos, até avistar uma janela de grades negras que reconhecia. Apressando o passo, ele passou pela frente dos prédios, porém foi forçado a parar ao não encontrar o letreiro.

- Mas...

Ele deu mais duas voltas naquela rua, chegando ao mesmo ponto. As portas estavam fechadas, mas sem qualquer aviso. Wolfang olhou em volta e tocou a maçaneta, fitando-a profundamente. Era esta porta, tinha certeza. Ele a forçou, porém ela não cedeu. Forçando-a novamente, a porta chorou um ruído sofrido de tranca. Não era tão cedo assim, era? Recordava-se de que o menino lhe dissera que eles abriam após as oito da amanhã.

Shneider deu alguns passos para trás e buscou qualquer silhueta pelas janelas, porém elas estavam cobertas. Frustrado, ele voltou a tentar abrir a porta, fazendo-a ranger, até bater o corpo contra ela um par de vezes, até ouvir um carro se aproximar, fazendo-o parar.

O carro negro estacionou próximo, e de dentro dele dois alemães desceram, sendo escoltados por um soldado. Um dos alemães trazia com ele um papel amarelado que cheirava a tinta fresca. Com um martelo, ele cravou na porta do bar um mandato qualquer, pois franceses não eram capazes de ler mesmo assim. Shneider, porém, foi até eles, colocando as mãos nos bolsos. Aproximando-se, ele os saudou e foi recebido cordialmente.

- Senhores. — Wolfang tentou ocultar seu nervosismo que deixava suas mãos a tremer. — ...Posso lhes perguntar o que houve com este espaço?

O outro alemão que somente observava aquele que colocava o mandato na porta, se aproximou do soldado e lhe murmurou algumas palavras antes de se direcionar ao moreno.

- Este espaço? — Ele indicou o bar. — Servirá a um bem maior. — Ele chamou novamente o soldado. — Vamos, ainda temos dois outros endereços.

- Com licença, senhor. — Apressou-se Wolfang, se colocando na frente deles. — ...Digo...Eu estava a frequentar este espaço recentemente, junto de outros soldados. Não era um local já servido ao alemães?

- De certo que sim. — Respondeu ele. — No entanto, o casal, com quem ano passado nós construímos um acordo, possuía a custódia de um judeu ilegalizado, sem qualquer documento.

O homem sentiu um ardor queimar em sua garganta. Ele viu os homens avançarem, porém os segurou por mais um instante.

- ...Se me cabe perguntar...o que houve com eles, senhor?

O jovem que terminara de pregar o papel na porta se aproximou, e colocando debaixo do braço mais um maço de papéis, fitou o moreno enquanto os mais velhos entravam no carro.

- Procedimento padrão, senhor. Os franceses foram presos e condenados a morte por traição, e o judeu encaminhado para uma central. Com licença, senhor.

Shneider permaneceu estático até a saída do carro, que engatou ruidoso e saiu a cuspir fumaça, limpando a garganta até desaparecer em uma curva. O alemão sentiu suor lhe correr pela tez e tocar seu queixo, enquanto imaginava onde o menino estaria naquele momento. Despertando do transe que o engoliu em uma surdez absoluta, ele sacou o relógio de bolso e o abriu, e viu os ponteiros correrem mais rápido do que jamais havia visto. Ele o enfiou de volta no casaco e correu para a cidade. Tinha um trabalho para fazer. E não tinha muito tempo.

Um murmurinho baixo e ranger de dentes era abafado pelas mãos trêmulas do loiro. Ele cobria seus ouvidos, tendo a cabeça curvada contra os joelhos. Seu corpo balançava com o movimento bruto da carga do caminhão que se encontrava juntamente de mais tantas pessoas que não era capaz se respirar apropriadamente. Ele estremeceu e ficou a murmurar uma melodia suave em voz baixa, enquanto uma criança de colo começava a chorar no colo da mãe. Os homens não protestavam, estando moribundos, alguns até mesmo parecendo não possuir qualquer um dos sentidos, de tão letárgicos que estavam. Uma senhora tentava acalmar a filha, lhe confortando por ser bela, pois as belas não era mortas, o que era uma bela mentira, pois as moças jovens somente tinham a morte prolongada, enquanto eram forçadas a ter relações com oficiais e seus camaradas.

Louie soluçou. Sua boca ainda doía de um soco que recebera, então cerrou os dentes e se curvou o máximo que pôde, assustado e com medo. Uma mulher passou a bater nas paredes de metal da carga, pedindo para que o deixassem ir, porém os alemães responderam com palavras duras em sua língua, e deram golpes na carga. O loiro ergueu um pouco os olhos e encontrou o olhar de um senhor de densa barba. Ele soluçou e segurou as mãos trêmulas.

- ....Para onde estão nos levando, senhor? — O homem desviou devagar o olhar e suspirou pesadamente, não o respondendo. — ...senhor...?

O caminhão parou de repente, agitando os corpos. Todos se encolheram e fugiram da luz ao que a comporta se abriu, como baratas temendo o dia. Dois soldados armados surgiram, apontando as armas para que os demais não tentassem fugir.

- O que esta havendo?! — Indagou uma mulher.

Um dos soldados fitou um papel e em seguida adentrou a carga, e deu alguns golpes em dois homens, retirando-os de lá. Ele se apressou na direção de Louie, e após fitá-lo longamente, também o arrastou para fora.

- P-Pare! Por favor! — Louie entrou em pranto, sendo puxado para fora da carga. Quando ele saía, outro homem era empurrado para dentro, batendo brevemente contra o seu corpo.

Ele viu que já era tarde da noite. A luz vinha de lanternas, de muitos homens na estrada. Cães grandes e escuros rosnavam para ele e os homens, sendo carregados estrada abaixo.

Louie se assustou com o caminho que levavam, descendo uma colina, afastando-se dos demais. O caminhão foi fechado e partiu. Um dos homens que havia sido retirado da carga aproveitou um deslize nas mãos do soldado e correu. Louie quase fez o mesmo, porém ficou paralisado de medo ao ouvir um som de tiro. O homem caiu, e eles seguiram descendo a colina. A grama úmida esfriava os seus pés e pernas. Ele avistou três outros caminhões, e um trêm. O trêm, longo e vermelho, cuspia fumaça tênue, preparando-se para partir. Louie voltou a chorar e buscou os olhos do soldado, tentando ter piedade dele. Ele soubera de que os alemães enchiam os vagões de judeus, e raramente eles voltavam a cidade cheios.

Assim como ele, outros judeus passaram a se desesperar, enquanto outros se mantinham em uma marcha silenciosa. Os homens foram juntados a massa muda, e Louie foi empurrado para dentro do trem. Nele, o espaço era mínimo. Muitos judeus estavam com malas e vestimentas mais quentes, como se esperassem que fossem somente transferidos para outra cidade, e reencontrar sua família que partiu em outro trem mais cedo.

Louie vagou incerto pelos corredores, assustado, buscando uma saída, até bater o corpo contra um soldado. Este, era um rapaz alto, robusto, de barba feita e cabelos curtos castanhos penteados para trás. Ele fitou longamente o menino e o roubou do corredor, avançando para uma classe repleta de alemães. O soldado o puxou com força e o jogou dentro de uma das cabines vazias, fechando a porta atrás de si.

O menino olhou em volta e se encolheu entre o par de bancos da pequena cabine, soluçando. O soldado o fitava com intensidade. Em um mover sutil de lábios, ao colocar as mãos dentro do casaco, ele lhe falou, seco, e carregado de sotaque.

- Tire.

Louie soluçou e protegeu o corpo com as braços.

- Senhor...por...por favor...e-eu...

- Tire. — O soldado avançou em sua direção, impassível. — Roupa. Fora. — Murmurou arranhado na garganta.

- P-por favor... — O menino começou a chorar, assustado. — Por favor...não....!

- Fora. — Rosnou com mais firmeza. — Agora.

O loiro se curvou devagar e levou as mãos trêmulas até as costas puxando por cima da cabeça a roupinha pobre que vestia. O tecido revoltou os fios e expos o peito magro marcado por socos e chutes recentes. Muito trêmulo, a segurar na garganta o pranto, o menino se desfez devagar das vestes, até estar nu diante do soldado. Encolhendo o corpinho, ele levou as mãos até o sexo, cobrindo-o, mantendo os olhos baixos. O mais velho se aproximou dele, fazendo-o soluçar mais forte.

O soldado ergueu os braços, assustando o menino, passando os braços sobre o seu corpo. As mãos do soldado abriram uma das comportas do cômodo, apanhando uma sacola, e a entregou ao mais novo. Louie recolheu a sacola e a abriu com cuidado, até ver uma veste azul escura.

- Veste. — O mais velho foi até a janela e olhou através dela, dando espaço ao menor para se vestir.

- Porque....O senhor...o que é isso?- Louie sentiu o tecido macio e estreitou a vista.

O homem o encarou brevemente com um olhar forte, e lhe murmurou com sotaque.

- Veste.

Louie se virou de costas e desdobrou as roupas, colocando-as sobre um dos bancos. Seu temor não diminuiu, fazendo-o fitar o soldado em alguns momentos, para ter certeza de que ele não apresentava algum comportamento suspeito. O moreno se mantinha a fitar o cenário da janela que ao soar de um apito, começou a se mover. Como um sinal, o soldado lhe murmurou mais forte.

- Veste.

O menino se apressou, colocando a camisetinha de mangas longas, tendo nos punhos botões pequenos e pretos. Ele vestiu o short, calçou as meias e os sapatos com borda de couro. Com rapidez, ele colocou o chapeuzinho na cabeça e se sentou, ficando paralisado, de olhos baixos. O soldado fitou sobre os ombros, e vendo-o vestido, se aproximou dele.

- Ihre haare kämmen. — Pediu ele, para que o menino arrumasse os cabelos rebeldes.

O menino o encarou e franziu o olhar.

- O...o que?

- Ihre haare kämmen!

O soldado rodou os orbes e apanhou uma fita negra do bolso, e em seguida arrumou rapidamente os cabelos do jovem, puxando-os para trás e prendendo-os. Ele tentou prender também sua franja, porém não conseguiu, resmungou algo e deu alguns passos para trás. O soldado se aproximou da porta, olhou para fora um par de vezes de forma sutil e a abriu. Antes de sair, ele apanhou dentro do casaco um pequenino pacote, e o entregou.

Louie recebeu o pacotinho e o fitou brevemente,vendo em seguida o homem deixar a cabine e trancar a porta. Ele correu até ela, agitando a maçaneta, não conseguindo abrir. Ao passar de um soldado ele se encolheu até o chão, escondendo-se, e em seguida engatinhou até o canto da cabine. Ele respirou fundo e fitou o pacotinho em mãos, e encolhendo-se, o abriu.

Dentro do pacotinho seus dedos apanharam uma carta um pouco amassada ao ser transportada em um bolso. Ele fitou o lacre formal da carta e o rompeu ao abrir, deparando-se com um texto francês em uma letra amassada e curva, feita com tinta, tendo respingos ao longo do papel. A carta começava com um pequeno “Para Louie Bijou.”:


“Primeiramente, devo-lhe pedir desculpas pela pressa com que escrevo esta carta. Eu soube do teu paradeiro hoje cedo, e desde então tento encontrar-te, de forma que não tive o gozo de produzir uma letra bem elaborada. Lhe digo que escrevo muito melhor do que isso, porém isso não vem em questão. Louie, eu te peço perdão pelo o que te fiz, o que falei. Fui um tolo a vida toda, e isso não me deixou mudar quando você mais precisou. Tua voz chamando-me de monstro ainda ecoam em minha mente, como um mantra que não me permite descansar até que estejas em segurança.

O homem com que tu deves ter encontrado, quem lhe entregou esta carta, posso dizer que é um colega. Ele se chama Drewek Bächtold, e deve-me um favor grande o suficiente para lhe manter vivo. Peço que tu o ouças e respeite. Se ele lhe falar para ficar, fiques. Para andar, andes. O seu francês não é bom, mas é o suficiente. Não siga as ordens que qualquer outro neste trem.

Ele irá escoltá-lo até uma parada de trem em Luxemburgo que irá te levar a Stuttgart. Peço que esperes, pois será uma longa viajem, mas valerá a pena. O último trem que pegará te levará a área rural de Stuttgart, onde tu deverá seguir a pé, para ser mais seguro. Lembras que eu havia lhe dito que possuía uma casa na Alemanha? Bem, imagino que ela ainda esteja da forma como deixei, há quatro anos. Tu tens juntamente desta carta, documentos falsos e a posse desta terra. Não é muita coisa... Mas é o melhor que posso fazer com o tempo que tenho.

Eu gostaria muito de dizer que quando tu chegar, nós nos encontraríamos finalmente.... porém não posso dizer tal coisa.


Louie parou de ler um momento e franziu o olhar para compreender a próximas palavras do homem, mais ligeiras que as anteriores.


Não tenho muito tempo, então buscarei ser breve. Em outro momento, eu...havia lhe disto que aqueles que fogem, são mortos, não foi? Eu não tenho poder suficiente para sair da frança. Meus últimos favores foram pagos para mantê-lo bem. Mesmo se eu fugisse contigo, eles me descobririam, e me matariam, e logo te matariam em seguida, por ser judeu. Você agora esta vestido de estudante alemão em intercâmbio, então nada acontecerá contigo. No entanto...


O menino segurou a carta mais próxima do rosto e soluçou baixinho.


...A contagem alemã é precisa. Seu nome estava entre aqueles no vagão que seriam esvaziados na volta. Se eu somente te roubasse, eles também sentiriam falta de um nome. Especialmente por teu pai ter sido um alemão. Por isso, sinto dizer que...eu tomei o seu lugar.


Bijou se ergueu com rapidez e fitou para a noite que passava devagar com o trêm lento e voltou a fitar a carta.


Provavelmente você não me verá quando isso acontecer, pois será muito rápido, mas eu farei questão de tocá-lo ao menos uma última vez antes de fecharem a carga do caminhão.


Louie apertou com força a carta, e correu veloz por sua mente o homem que chocara contra o seu corpo quando foi retirado da carga. Seu olhar estava distante para ter visto que aquele homem fora Wolfang. Tendo tal realização, o menino foi atacado por um pranto forte que o forçou a cobrir a mão com a boca, para abafá-lo.


A única tristeza que carrego deste mundo é não poder ter visto seu sorrir uma última vez. Quando te ver, tu deves estar de uma forma que jamais desejei que estivesse. Contudo, tu me fizestes feliz por tantas vezes, que tentarei me lembrar destes momentos. Te peço perdão por tudo o que te fiz, e não fiz, Louie. Inclusive isso. Não se culpe por nada. Nada disso é culpa sua.


O loiro se encolheu devagar, a soluçar forte. Ele correu a mão nos olhos, pois as lágrimas ocultavam as palavras de tinta.


Sou grato por ti, pois por tantos anos eu fiz tanto mal...a tantos...que jamais me imaginei como uma pessoa boa. Tua presença na minha vida reanimou meu coração de uma forma que eu me senti....bom...de verdade. Eu consegui dormir ao teu lado sem ter os pesadelos de morte que tanto me assombraram a vida toda.


Drewek se aproximou da porta, porém ao ouvir o pranto do menino, repousou a cabeça contra a porta, respirando fundo, voltou para o corredor.


Devo ir agora. Saibas que eu sempre estarei contigo, mesmo nas noites mais frias, e te amarei para sempre... mon bijou.


Ao longe, onde foram deitados em sequência os prisioneiros, com rosto voltado para a terra, Wolfang viu o trem correr. Ele sorriu, e um som de tiro perfurou o coração do francês. Louie olhou para fora, ouvindo mais uma sequência de tiros que brilhavam na noite. Ele se jogou contra a janela e a espancou, chorando alto. Drewek entrou com rapidez, tirando-o de encontro a janela, e tentou segurá-lo, vendo-o se debater em seus braços.

- NÃO! N-NÃO!!

O soldado o apertou contra ele, acolhendo-o no peito, sentindo-o ser molhado pelas lágrimas do menino. Louie chorou até perder a sua voz, cravando as unhas no uniforme do alemão. A cada morrer de voz ele voltava a gritar e tentar fugir da cabine, desejando encontrar o corpo do amado que era abandonado junto dos demais, em valas esquecidas. O corpo do seu homem jogado para ser deixado o assombrava, arranhando o seu peito. Ele chorou contra o soldado até que ficasse deitado no chão, ao canto, apertando com força a carta.

A noite foi engolindo-o, porém o sono estava distante. Sem voz, ele ficou a escutar a melodia baixinha da caixinha de música que o homem havia lhe dado. Ele afagava a caixinha e a apertava contra ele, como um tesouro, e voltava a chorar quando a música acabava, como se ela levasse consigo a lembrança de Wolfang.

Ele tocou nas próprias mãos, tentando se lembrar do seu toque nelas, as mãos fortes que o impediam de tremer. E agora, só, ele tremia tanto. O soldado zelava por sua segurança, deixando-o só por alguns momentos para trocar algumas palavras com outros homens, voltando em seguida. Louie era capaz de ouvir o murmuro e o choro baixinho dos judeus, onde um a um, passava pelo corredor e deixava o trem em paradas inexistentes, onde eram recebidos por outros grupos. Louie sempre temia estas paradas, principalmente quando Drewek não estava por perto. Ele se encolhia, com medo de que um soldado o visse, ou mesmo se deitava e abraçava a mala que o soldado havia lhe dado, onde se encontravam seus documentos, algumas vestes e livros, parte de sua fantasia, e fingia que dormia ao abrirem a porta.

O caminho foi longo e cansativo. Quando o trem ficou vazio, ele se sentiu mais seguro, de forma que Drewek se sentava ao seu lado. Eles não conversavam, pois não sabiam da língua do outro, porém repartiam pequenos momentos gentis, se comportando como irmãos. O soldado, pessoalmente, havia acolhido o pequeno como um irmãozinho, mesmo que estivesse contra toda aquela ação de Wolfang. Ele, porém, nada podia fazer quando o loiro adormecia encostado nele.

Louie ainda tinha a carta próxima dele, dobrada contra o peito, dentro da camisa, para que ficasse próxima do seu peito. O rapaz o deixou na última estação, e trocaram rapidamente um adeus mudo, enquanto o menino apanhava sozinho outro trem, este normal como todos os outros, com pessoas comuns, crianças, senhoras e homens a trabalho. Todos parecendo que nada tinham haver com a derramassão de sangue que acontecia nas cidades.

O campo lhe fora uma visão belíssima. Campos largos verdes cobertos por uma camada de tapete branco pela neve do inverno que os alcançava. Louie cobria o corpo com um pesado casaco, e puxou sua mala pesada consigo pela última parada. Ele sorriu a um homem e pagou uma carona, repetindo o nome do campo que a casa de Wolfang estava, como um mantra, até chegar ao lugar, algo que demorou quase um dia inteiro.

Um moinho era visto ao longe, a se mover com ação do vento. Nada havia mais próximo dele, então ele seguiu subindo o morro, sentindo a neve tocar em seus tornozelos. Alcançando o topo do morro, ele avistou uma fazenda de tamanho considerável, porém muito simples. Uma senhorinha estava juntamente do seu cachorro na varanda da casa, e ao vê-lo, se ergueu devagar e sorriu ao menino. Louie a encarou e forçou um sorriso, e logo seguiria por um caminhozinho ao lado da fazenda, quando ela o chamou, em francês.

- Menino, venha aqui.

Louie foi até ela, incerto, apertando a mala contra o peito. Ela lhe sorriu docemente e afastou com uma perna o cachorro que acordara e desejou cheirar o loiro.

- Ele não morde, meu querido, está quase tão velho quanto eu. — Ela sorriu novamente e repousou o corpo na pequena cerca que dava volta na propriedade. — ...perigoso que quando ele te morder, perder os dentes nisso. — Ela riu, e vendo o desconforto do menino, ela lhe falou mais baixo. — eu...recebi uma carta, há alguns dias. Um velho amigo meu me disse que um sobrinho dele estava a vir aqui cuidar da casa dele até ele voltar. Tu por acaso seria este tal de... — ela fez uma pausa, e cerrou os dentes. — ...Louie?

O menino respirou fundo, mais aliviado, e deitou a mala no chão.

- S-Sim...sim senhora...onde....onde seria...a...casa...?

- Um pouco mais embaixo. — Ela indicou outro morro. — existe muita grama em volta, até alta, por isso não é possível vê-la. Ele usava para treinar os cavalos...sabe? Mas isso há...muito tempo. — Ela fez uma pausa, voltando a fitá-lo. — ...poder ir na frente. Imagino que as chaves estejam debaixo do capacho, algo assim. Ele não era muito criativo quando morava aqui.

Louie fitou o caminho e apanhou novamente a mala, enquanto o chão deixava o portão e descia o morro, por onde ele seguiria.

- O...conheces há muito tempo? Se...se eu posso....saber.

- Tempo considerável. — Ela riu. — Não é porque sou velha que o vi desde pequeno, se é isso que achava. Quando meu esposo faleceu, que Deus o tenha....eu vim para cá, onde minha filha tinha a fazenda. Ela tinha um filho, Gaspar. Acredito que Wolfang e Gaspar foram amigos durante um bom tempo, até ela partir quando o menino ficou doente. Aqui é frio, sabes? Bom que tens um bom casaco contigo.

- A senhora....porque a senhora fala francês?

- Meu esposo era francês. Sei o bastante.

O menino ouviu o cão latir e se dirigiu até o caminho, sendo impedido somente pelas próximas palavras da mulher.

- Você...não é sobrinho dele, não é mesmo? — Louie engoliu o seco, e dirigiu devagar o olhar a senhora. Ela parecia séria, porém em seguida sorriu tristemente. — ...ele me disse na carta que voltaria, e você cuidaria da casa. Isso.....não vai acontecer....não é?

Louie soluçou, o que foi suficiente para a mulher fazer o mesmo e desviar o olhar para longe, além das montanhas claras cobertas de gelo. Seus lábios tremeram, mesmo ainda possuindo um sorriso neles.

- ....Imagino então que...tudo o que estiver lá, agora é teu. — Ela riu forçadamente, tentando ocultar o soluçar. — ...mas.....tu....pareces....- Ela fechou novamente o portão. — ...tu tens um bom olhar. Um olhar que... Gaspar tinha. Wolfang não seria tolo em lhe dar a casa se você não fosse bom. — Ela olhou para o alto, como se vendo o clima, e fez menção de voltar para a casa. — se....fiques a vontade. Se desejar jantar na minha casa, está convidado. Depois lhe....falo sobre as feiras....e...

A senhora não suportou um pranto e voltou para a casa, engolindo suas palavras. Louie a viu fechar a porta, e em seguida, de cabeça baixa, caminhou morro abaixo. Aos poucos ele viu uma casa surgir. Pequena, possuindo mais ao longe um celeiro antigo com as portas lacradas. A casa era de dois andares, porém pequenina, como se tivessem a apertado pelos lados. A madeira era crua e antiga, porém bela, tendo seus desenhos palpáveis. Uma pequena fachada de pedrinhas era fechada por uma cerca de madeira, tendo um portão baixo verde claro descascado. Louie afagou a maçaneta, sentindo-a, e com cuidado a abriu.

Ele seguiu até a casa, encontrando de fato a chave debaixo do tapete da entrada. Era uma chave de cabo longo preto, que fez a porta soltar um ronco ao aberta. Louie entrou, sentindo a casa estranhamente quente, como se o esperassem. De fato, a lareira estava acesa, assim como algumas luzes pequenas, como se a senhora havia preparado sua chegada. As mantas que cobriam os sofás haviam sido lavados, assim como as cortinas.

O loiro fechou a porta atrás de si e deitou a mala no chão, caminhando devagar pela casa. Ele foi até a cozinha, primeiro cômodo à direita, e abriu as gavetas. Todas estavam vazias, ou com canecas e copos. Ele apanhou um copo onde o perfume de álcool estava contido, e deslizou o dedo por sua borda, reconhecendo que os lábios do homem haviam estado nele. Deixando o copo sobre uma mesinha, ele deixou a cozinha, fitando todas as fotografias de família espalhadas em uma parede, redondas e antigas, de pessoas que ele não conhecia, até vê-lo alguns anos mais novo, sentado, sério. Louie sorriu e tocou o vidro da moldura, vendo como ele havia amadurecido. Parecia ter sua idade na foto.

Seguindo pela sala pequena, onde a chama crepitava ele afagou uma fileira de livros, apanhando alguns para buscar seu toque, suas digitais, o suor das mãos ao virar uma página. Em um livro ele encontrou algumas páginas dobradas no canto superior, ou mesmo rabiscados com anotações. O homem havia lhe dito a verdade. Ele sabia escrever melhor.

Louie riu tristemente e fechou o livro, guardando-o. Ele fitou em volta as coleções de pequenos objetos, relógios, pequenos cavalos, penas de escrever. Cada objeto foi visto e tocado, apreciando a sensação que eles lhe davam.

Alguns objetos eram antigos, com ar de herança ou pequenas memórias de infância. Louie sorriu ao tocar em um carrinho, e parou ao sentir uma caixa pequena de metal. Com cuidado, ele a abriu, e viu dentro alguns dos pequenos chocolates que havia comido antes. Ele soluçou e tornou a fechar a caixinha. Ele deu a volta e fitou a escada, indo em direção ao quarto.

Ao tocar os pés no piso superior, a madeira rangeu. Os orbes claros seguiram as formas do ambiente, e após respirar fundo, ele seguiu devagar, buscando a porta, abrindo as demais uma a uma, até encontrá-la.

O quarto do homem se encontrava entreaberto, deixando os dedos do menino se colocarem na fresta e afastá-la, devagar. O ar que tocou suas narinas apertou seu coração antes mesmo de entrar.

O quarto era pequeno e simples, de tons cinzentos, com lençóis azuis escuros. A cama estava arrumada, com quatro travesseiros e uma pequena manta no canto para o frio.

Louie caminhou devagar até a cama e subiu nela. Ele engatinhou até os travesseiros e deitou na cama, fitando o teto por um momento, até desviar o olhar para o lado. Sobre uma mesinha, ele viu um cachimbo longo com cabeça vermelha.

O menino deitou de lado, apanhou o cachimbo e o fitou longamente. Fechando os orbes, ele sentiu o cheiro do fumo do homem, e ao soluçar, desatou a chorar alto, sem vergonha, expondo todo o horror que sentia. Ele golpeou os travesseiros e mergulhou a face neles, apertando-os, amassando-os contra os dedos.

Louie parou somente ao ouvir a porta se abrir devagar. Fitando com o canto dos olhos, ele viu o cão da senhora entrar no quarto, como um aviso de que ela entrara na casa. Ele soluçou novamente e voltou a se deitar de lado. A mulher vinha para convidá-lo para comer, porém ele não tinha fome. O judeu fitou o cão a contornar a cama e jogar as patas próximo dele. Ele chorou baixinho e subiu na cama, agitando-a, até o sentir se deitar ao seu lado.

O loiro sorriu de leve e afagou as suas costas, cerrando os orbes, até a tristeza alcançá-lo novamente e fazê-lo se curvar, abraçando o animal, mantendo um pranto baixinho. Ele sentiu um toque suave em sua face, e apertou o cão, ouvindo-o murmurar baixo.

- Você...por acaso é meu novo amigo? — Ele sorriu, colocando a testa em seu pescoço. — ...você...tem um cheiro de carvão. — riu entre as lágrimas, sentindo o toque gentil em seus cabelos. — eu....realmente preciso de um amigo agora.

O loiro sentiu novamente o toque em seus fios, porém de forma mais pesada. Assustado, ele se ergueu e se deparou com uma grande figura diante de si, corpulenta, trajada de vestes simples e úmidas, molhadas pela neve. O judeu encarou o homem diante de si, de cabelos muito curtos e face suja de carvão. O cão latiu e saltou da cama, indo até o homem. Louie se encolheu, assustado, e protegeu-se com um travesseiro.

- Estou tão ruim assim? — o homem murmurou em um fio de voz rouco.

Imediatamente os orbes cristalinos do loiro buscaram novamente a face do homem. Ele sorriu com os lábios cortados, e casado, jogou o corpo sobre a cama, deitando-se, agitando a cama. O cão passou a lamber-lhe os dedos de uma das mãos que pendeu para fora, e mostrou-se agitado, abanando o rabo no ar. Louie ainda encarava o homem, até ele lhe fitar a face. Devagar, ele respirou fundo, como se o ato se erguer o tronco lhe doesse imensamente, e se inclinou até o menino, roubando-lhe a boca.

O judeu sentiu o gosto de álcool e tabaco misturado com o azedume de sangue, enquanto os lábios lhe acariciando a boca de forma que conhecia. Em um pranto, ele bateu no homem e lhe agarrou a face, fitando-a próxima dele.

-....s....Senhor...? — Seus olhos lacrimejaram. — S-senhor?!

Wolfang sorriu com o canto dos lábios machucados e afagou os fios loiros.

- Louie.

O menino voltou a bater no mais velho, descrente, apertando-o, correndo as mãos por sua face, tentando limpá-la da terra.

- O senhor está morto!

- Estou.

Louie pareceu ficar horrorizado com tal afirmação, que o fez se afastar, engolir o seco e se encolher.

- De....de verdade...? Eu....eu...

- Digo...estou...mas...ao mesmo tempo não. Não fiques assustado. — Ele riu e abriu a veste, apanhando algo dentro dos bolsos.

- E-eu...ouvi...os...tiros....você...você não foi baleado?

- Fui. — Respondeu. — Eu levei um tiro e fui jogado junto dos demais na vala. Quando, ainda na frança, eu o encontrei....lembra-se? Eu...eu tentei te entregar isso. — Ele abriu as mãos do menino e deixou um pedaço de metal torto. — ...bem...não era bem...”isso”. Quando descobri que você havia sido recolhido, eu invadi mais tarde o hotel e o vi revirado. No entanto, como você....tinha um local nos fundos, eu encontrei o perfume de tua mãe, e desejei entregá-lo...mas você não me viu...e...então ficou comigo.

Louie recebeu o metal torto queimado e o afagou, voltando em seguida a fitá-lo.

-Acredito que isso seja uma...espécie de “benção” de tua mãe....não acha? — Ele riu baixinho, com a voz fraca. — ...mas me desculpe por....entregá-lo nestas condições. O perfume em si, perdeu-se. Se quebrou contra a bala...então...

O loiro saltou sobre o corpo do homem, abraçando-o com força, iniciando outro pranto.

- Tu me perdoas? — Perguntou ele, abraçando o menino.

- Só...não...não morras outras vez!

Wolfang riu com tais palavras, porém prometeu, mesmo sendo um tanto absurdo. Ele então gemeu baixinho e o afastou do corpo.

- Me ajudarias se não me apertasse com tanta força.

O loiro fitou o seu peito manchado de sangue e afastou os botões para ver um curativo tosco.

- O...o senhor...esta...

- Eu já estive pior...acredite. Só precisei de uma faca para fechar o ferimento. — Ele deixou que o menino o tocasse, sorrindo de leve, feliz ao ver sua preocupação.

- Mas...Drewek....Drewek ficaria feliz se-

- Eu o encontrei no caminho. Ele na verdade desmaiou. — Riu baixinho, tornando a fechar a camisa. — Engraçado um homem de tal porte desmaiar ao me ver. Quando ele acordou me contou sobre você, como estava...e arrumou-me roupas um pouco melhores e dinheiro para chegar aqui. Acredito que sou eu que estou devendo para ele....como sempre.

Louie voltou a abraçá-lo, porém se afastou ao o ouvir murmurar com dor. O cão latiu alegre e correu para a porta do quarto, onde a senhora estava. Ela sorriu para os dois.

- Encontraram-se, enfim. — Ela se aproximou devagar, tendo o cão a circular em volta dela.

- A senhora já o tinha visto?

- Eu me assustei ao ver um homem pular a cerca como um louco. Imaginei que fosse um ladrão, e quase meto outra bala nele.

- Teria sido uma falta de sorte tremenda. Nunca consigo ficar com este garoto. — Riu ele, fazendo o mais novo corar.

A senhora sorriu e chamou o cão para descer as escadas.

- Louie, dê um trato a este homem. Ele parece não tomar banho a dias, ou mesmo semanas. Não quero um ladrão na minha casa. — Ela sorriu. — Vejo-os mais tarde.

- Meses, minha senhora. — Brincou o mais velho. — O que salvou-me fora um perfume. Pena que fora de mulher. Acharam que eu fosse de fato um louco bêbado pelas ruas. — Ele se voltou para o loiro. — lhe pareço selvagem com mais barba e menos cabelo?

- Um....pouco. — Sorriu, tocando-lhe de leve a barba escura. — ...irei separar-lhe algo para vestir.

A senhora desceu as escadas, deixando-os. O mais novo se apressou a abrir os armários, dedilhando suas vestes até apanhar um conjunto de terno, colete, camisa e calças escuras. Ele se curvou para recolher sua peça íntima e em seguida meias para os sapatos, e se assustou com seus braços contornando-o. Louie o fitou sobre o ombro, vendo-o a sentir o perfume dos seus cabelos.

- Senti demasiada falta de ti. — Murmurou o homem em sua voz rouca a falhada, com a face em seus fios loiros. Louie lhe tocou as mãos e soluçou baixinho. Ele virou o corpo, ficando de frente para o homem, e abraçando seu pescoço, ficou na ponta dos pézinhos para lhe beijar os lábios, demorando-se neles, apertando-o contra si, como se ao abrir os olhos o homem não estaria mais ali.

Eles caminharam para o banho, deixando as vestes pelo caminho. O homem possuía um sorriso leve nos lábios, mesmo que estivesse com dor ao andar e se mover. O menino o ajudou a afastar suas vestes, ao estar nu diante dele. Os dedos alvos lhe afagaram a cicatriz que se formava onde a bala havia riscado, e beijou-a, sentindo-o tremer os músculos do abdômen.

Wolfang deixou o restante das peças para trás e tomou novamente a boca vermelha do amante, enquanto as mãos marcavam suas nádegas. Eles se deitaram na banheira e trocaram carícias no corpo do outro, correndo as mãos pelo peito e ventre, até que o desejo sussurra-se para eles, pedindo que o homem colocasse sua virilidade dentro do jovem, apartando suas pernas, colocando-as apoiadas nas bordas da banheira.

Água ainda caíra sobre eles em uma chuvinha suave do chuveiro da banheira, molhando os seus corpos quentes que se uniam mais uma vez. Louie correu os dedos pelos fios cortados do homem, e sentiu na ponta dos dedos os golpes que ele havia sofrido, até depositar os dedos em seus lábios de maneira provocativa, em um pedido mudo para que os molhasse.

Shneider contornou os seus dedinhos com a língua e se deitou sobre ele, movendo-se bruscamente contra o menino, quente demais para deixá-lo preparado, mas o menino compreendia, e soluçava as dores da invasão prematura. Ele levou os dedinhos molhados até o próprio corpo, arranhando-o até os mamilos, onde sentiu as mãos do homem a segurá-los com força, e seguiu para o ventre, molhando o pequeno falo com a saliva do homem.

O moreno passou a desferir fortes golpes secos e lentos contra o menino, gostando da sensação se penetrá-lo com força e deixá-lo vagarosamente, para tornar a entrar, sentindo cada centímetro do loiro a possuí-lo em seu interior que fervia e o desejava. Louie contornou a cintura do mais velho com as pernas, convidando-o a aprofundar a intimidade deles, soluçando ao ter em seu corpo todo o membro teso do mais velho, de forma que ele sentia que se por acaso se movesse, morreria, mas se seu homem não fizesse coisa alguma, também teria o mesmo destino.

O alemão beijou a curva do seu pescoço enquanto lhe apertava o peito magro como se fossem seios, gostando de sua maciez juvenil e como a pele leitosa se tornava rubra, com as marcas dos seus dedos. Ele o penetrou profundamente, e erguendo um pouco o tronco, lhe desferiu fortes baques, chegando a mover levemente a banheira, derramando água para os lados. O menino o abraçou com força com as pernas e segurou o próprio sexo com as mãos que tremiam, até que o homem o ajudasse a se masturbar com uma das mãos, fazendo-o delirar loucamente, e em um arfar que o arqueou todo o corpo para o alto, ele jorrou contra a barriga do amante um gozo fino e longo seguido de mais dois curtos, até que o pequeno sexo estremecesse e pingasse algumas gotinhas, ainda sentindo a tensão do corpo do soldado dentro dele a lhe jorrar seu prazer abundante.

Louie soluçou a arfar alto, sem fôlego, e teve o corpo puxado pelo mais velho que se sentava na banheira. Ele foi colocado em seu colo, e teve água a cair em sua nuca, sentindo-a correr para suas costas. O alemão lhe beijou a orelha e em seguida procurou seus lábios, se permitindo sentir o falo deixar vagarosamente o corpo menor, ouvindo-o gemer baixinho até tê-lo fora, onde lhe melou as coxas.

- Tu me perdoas, Bijou? — Murmurou ele, afagando devagar suas costas.

- Se... — O menino soluçou e entreabriu os orbes pesados de prazer. — ...se...o senhor não...me deixar...eu...

- Estás a morrer outra vez? — Riu ele, vendo o menino sofrer e manter-se desperto. — Temos um jantar.

O loirinho resmungou algo, como se reclamasse da situação de ir jantar com as nádegas a arder por causa do homem. O alemão riu e o abraçou, deixando-o nos braços até ele desejar levantar, o que o menino não iria querer tão cedo.

- ...Não...não...vão...atrás...do senhor...vão...?

- Sou um homem morto para eles. Quando....tudo isso acabar, podemos ir para outro lugar...como....não sei, Inglaterra.

- Eu....eu gosto daqui.

- Então fiquemos.

Louie respirou fundo e apoiou o queixo no peito do amante, fitando-o longamente, até ter os orbes sobre ele.

- O que tanto olhas?

- ...o....- Ele fez uma pausa. — ...o senhor realmente precisa fazer um pouco tua barba.

- Claro....mas antes disso, irei atormentá-lo com ela.

Shneider afagou a barba em sua face, arranhando-o. O judeu riu e se agitou na água. Ele lhe deu tapinhas na face e no peito, até que o homem se deitasse novamente sobre ele, com paixão nos olhos. O pequeno francês sofreria naquela noite de jantar.

Notas finais
E assim acaba. ♥ Espero que Neiwomi goste deste romance, e todos vocês também! Sofri muito a escrevendo, a todo momento imaginando que estivesse horrível, decadente, brega. Bem, brega provavelmente tenha algumas coisas. Mas enfim, muito obrigada para você que chegou aqui, não sei se ileso, mas....bem, o que importa é que chegou!
Muitos e infinitos beijos para todos, e até a próxima! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!