Mon Bijou
2 Capítulo 2 - Furcht
O loiro entrou com rapidez e fechou a porta. Ele ergueu um pouco o olhar, buscando um pequeno armário no canto, onde se dirigiu. Ele o abriu e retirou um vinho, assim como uma taça.
— O s-senhor deseja...uma... — Loiue tentou servir o vinho, porém suas mãos tremiam tanto que ele molhava a mesa. — M-Me desculpe..eu...eu...não...
— Deixes a garrafa na mesa. Não desejo beber. — Loiue quase quebrou a garrafa da forma que a pôs na mesa com força. -...eu estava preparando para fumar.
O menino voltou os olhos para ele afim de perguntar se desejava ajuda com o fumo, porém suas palavras não deixaram seus lábios quando ele reconheceu o homem. O alemão tirou do bolso uma pequena caixa de fósforo e mordeu o bico do cachimbo. Louie correu até ele para acender seu cachimbo.
— M-Me deixe...E-eu...
Shneider deixou o menino apanhar o fósforo, porém ele riscou quatro vezes e apagou a chama antes dela queimar o fumo. O loiro soluçou e tentou riscar outro. A mãozinha tremia, segurando o fósforo, de forma que ele o deixou cair. Louie se curvou para apanhá-lo, porém as mãos maiores lhe tocaram os braços, impedindo-o. O moreno se curvou, recolheu um dos fósforos e o riscou contra a sola da bota, acendendo-o, para depois aquecer o fumo. Ele alimentou o calor puxando o fumo e assoprando, até que estivesse queimado, para então tragar. O loiro o fitava incerto, assustando-se quando o maior lhe murmurou.
— Tens as mãos fracas?
— Sim senhor. E-eu nasci...e...é...assim...e...e-eu... — Ele se curvou. — Não me mande embora por isso, p-por favor!
— Está tudo bem. Se lhe serve, eu não tenho um ombro direito bom. — Diante de um franzir de cenho, o maior continuou. — Eu levei uma vez uma bala no ombro, e fui operado no campo com uma faca. Não tenho uma mira tão boa quanto antes, por causa do recuo da arma que reverbera para o ombro. Dependendo da arma, o tiro faz arder o meu ombro.
Shneider desceu para o lado a gola da camisa, mostrando ao menor a cicatriz da costura no ombro. O loiro pareceu se assustar com o recuo da roupa, como se fosse um aviso de que ele tiraria a peça. O alemão ponderou longamente, até tragar.
— Porque você teve medo de que eu o expulsa-se do quarto? — Diante da mudez do outro, ele continuou. — Você precisa fazer algo importante antes?
— Eu....não.... — Louie afastou uma mecha para trás da orelha, nervoso.
O mais velho umedeceu o bico do cachimbo e suspirou.
— Aquela mulher lhe deu ordens do que devia fazer antes de sair, não era? — O loiro corou e abaixou a face ao soluçar. Shneider retirou o cachimbo dos lábios e abaixou o tom de voz. — Ela está ouvindo atrás da porta, não está? Se não...não estaria tão nervoso em fazer....algo, antes de me deixar. — Louie soluçou novamente, fazendo um sinal positivo com a cabeça. -.....entendo.
Shneider desviou seu olhar para a porta fechada e se ergueu. Ele caminhou devagar até a pequena adega, fitando-a. Seus olhos encontraram os do loiro em um instante, antes dele apoiar a mão sobre a mesa, e em um golpe, derrubar a prataria.
Taças e pratos despencaram espalhando seus destroços pelo chão. Louie se assustou de forma que gritou no momento, dando um salto para trás. O homem o fitou e ergueu o indicador, chamando sua atenção, antes de derrubar um vaso. Fitando o menino, ele apontou para uma cadeira ao seu lado. O loiro a fitou, sem saber o que ele queria que fizesse, até compreender por sua mimica, que era para derrubá-la. Sem jeito, ele derrubou a cadeira, encolhendo-se depois do baque. Os orbes bicolores buscaram os do mais velho, vendo um sorriso contente sob o bigode da barba escura.
Shneider socou duas vezes a parede e apontou para o menino, pedindo que ele continuasse a sinfonia violenta. Louie derrubou um travesseiro, sem saber ao certo o que fazia. Ele derrubou um quadro da parede e chutou a cama, parando ao sinal do mais velho. Shneider colou o ouvido na parede.
A senhora sorriu maldosamente e deixou a porta, fazendo o som de seu salto ser ouvido pelo alemão. Finalmente a sós, o maior respirou fundo e voltou para a cama, onde queimou outra vez o fumo e tragou. O loiro estava de pé ao canto, sem saber o que fazer.
— O que tu faria é algo que resulta de um pequeno caos no quarto, não é mesmo? Improvisei. — Ele fumou e assoprou uma fumaça circular no ar.
— Mas...o....senhor....não.......quer....nada de...mim......?
Shneider ergueu os orbes claros para o jovem, não tendo a pressa em respondê-lo.
— ...Sim, eu quero. — Respondeu, afastando o cachimbo dos lábios. O menino estremeceu, e ele continuou. — Como se diz em francês....?Ah. Curiosidade. Eu tenho uma curiosidade ao seu respeito, e gostaria que comentasse.
O soldado fitou a fumaça que escapava pelo cachimbo, escolhendo bem suas palavras.
— ... Eu vim beber aqui porque a noite estava fria, e na base ficamos sem álcool. O estoque atrasou. A chuva cobre as estradas de lama, comendo os pneus dos caminhões. — Ele fumou novamente antes de continuar. — O curioso é que ao retorno de uma destas cargas, notamos uma....falta. Eu estou investigando a falta dessa carga. Bebidas, comidas, mantimentos para os soldados, sabe? Eu me pergunto como o dono deste lugar ainda se mantém. — Louie arregalou os orbes e o viu tragar. — Mas o que mais me impacta, é que estejas com eles. Eu vejo órfãos nas ruas todos os dias, e eles não precisam abrir as pernas para um soldado. Não por ordens de alguém que poderias ter deixado a casa. — Shneider tossiu baixo e mordeu o bico do cachimbo. — Por isso...me pergunto se sejas um judeu.
O loirinho soluçou e cobriu os lábios.
- Eu.....eu...não...
- Na verdade não um judeu qualquer, mas um rato judeu. Sabes o que é um rato judeu? — Ele fez uma pausa, como se fosse para o menor responder. — Um rato judeu é alguém como você, pequeno o suficiente para se infiltrar em buracos e cantos onde os homens não alcançam.
Com naturalidade, o soldado recolheu de repente uma pequena pistola e caminhou com ela na direção do órfão. A fumar o cachimbo, ele começou a avaliar a arma, polindo-a.
- Sabe o que fazemos com ratos judeus? — ele buscou os orbes bicolores que tinham medo de fitá-lo. — Metemos uma bala. Um tiro limpo, para não sujar a dispensa. Da mesma forma que qualquer outra peste.
O loiro começou a chorar de forma que chamou a atenção do mais velho. Ele guardou a arma e respirou fundo.
— ... Eu não quero ver isso acontecer. — Os dedos tocaram suavemente o queixo delicado do órfão, erguendo sua face. Ele sentiu as lágrimas tocarem seus dígitos ao correrem pela face alva. — ...e eu não acho que os donos deste lugar lhe dão somente tarefas domésticas. Se eles lhe entregam a um soldado, então não tem problemas em lhe expor ao perigo.
Shneider lhe afagou a face e desviou o olhar, retornando a fumar o cachimbo. Ele se sentou ao pé da cama, fumando silenciosamente, até ver o menor subir devagar na cama, no canto extremo. Os fios loiros cobriam parcialmente sua face, ocultando sua beleza.
— Eu...não....roubo..o que eu não... — ele fez uma pausa, encolhendo-se ao centro da cama. Seu corpo deitou, enquanto as mãos afagaram a coberta macia. — ...eu só pego o que ninguém mais quer. E-Eu....eles não....me....dão muito...eles estão com problemas com dinheiro...então...eu...não...
O alemão correu rapidamente os olhos pelo corpo esguio e pálido do menor. Ele podia notar as curvas miúdas das costelas sob o tecido fino, assim como também o relevo de um pequeno botão no mamilo. Ele era...magro. Seus braços eram finos e delicados, que recebiam leves tremores periodicamente, entre medo e doença.
Shneider se aproximou dele, assoprando para o ar pesado a fumaça do fumo. Uma das mãos lhe afagaram os fios loiros em sinal de compaixão. O menino tocou suavemente a mão que o afagou, fazendo com que ele parasse o carinho.
— O senhor não...não precisa de nada de...mim....?
O homem franziu o cenho, encontrando o par bicolor ainda a ter lágrimas, como se elas fizessem parte dele. Sua expressão relaxou aos poucos, assim como os seus músculos, diante do toque suave em sua pele. Shneider afagou a mãozinha que o tocava, brincando com ela.
-... Eu preciso... — O moreno cerrou um orbes um momento, apreciando o toque da pequena mão. — ...eu não mereço nada que eu peça a ti.
O loiro sentiu a falta da mão maior, que voltou a segurar o cachimbo para fumar. O soldado admirou a fumaça se dispersar devagar no ar, enquanto ele respirava pausadamente. Louie abraçou o próprio corpo antes de se sentar e buscar novamente o homem.
— Mas....o senhor....me recebeu...então...todos os homens....me....porque o senhor...não....?
Shneider encarou o menino e assoprou a fumaça próximo dele, assustando-o.
— Lhe digo então que quero de ti três coisas, para que tua consciência de judeu não peses. — Ele abaixou o cachimbo e levou uma das mãos até a pequena face, vendo-o estremecer. O alemão fitou longamente o par de orbes brilhantes, onde um castanho rajado cortava o azul. Em uma pausa, ele deslizou uma mecha atrás da pequena orelha. — ...quero que não escondas tanto o teu rosto. Tens belos....olhos.
Louie corou e deixou o olhar cair para o próprio colo, envergonhado.
— E...e....a....segunda coisa...é...?
— Não te quero ver se enfiando nas dispensas para roubar. É perigoso. Todos sabem que ratos judeus existem, então preparam ratoeiras. Uma hora ou outra um cai em uma. Dificilmente não é fatal.
Louie soluçou baixinho.
— E....E....depois...? O...o terceiro....é..?
O menor pareceu apreensivo. Suas mãos voltaram a tremer, então ele segurou os lençóis.
— O que te peço...você pode me dar....somente se realmente querer. — Murmurou ele, em resposta. — ...Mas mesmo assim, eu não posso pedir, porque não desejo ser como os outros soldados.
Louie viu o homem fitar brevemente seus ferimentos. Ele abraçou o corpo, sentindo vergonha de si mesmo.
— O....o que....era....?
Shneider entreabriu os lábios, porém os selou.
-...Nada. — O homem se afastou. Ele sentiu nojo por tal pensamento ter cruzado sua mente. O judeu era...era um garoto. Não que ele não gostava de garotos. Quando mais novo, ele amou seu melhor amigo, envolvendo-se com ele até que o perdeu em um acidente. Shneider já amara outros e outras, porém jamais alguém tão....frágil...ou jovem. Além do porque, ele não era o mesmo que vinte anos atrás, e não voltaria a ser. Ele era um homem. Um homem com responsabilidades, vícios e pesadelos. Não havia espaço em sua vida para...algo tão...bom. Ele não era bom. Nunca fora. Nunca seria.
Louie franziu o olhar e arrumou devagar suas vestes. Ele esperou alguma palavra do soldado, porém não a recebeu.
— Eu... — Sua voz suave chamou a atenção do mais velho. — ...eu posso....saber...como o senhor se chama?
— Já sabes meu sobrenome. Não é o suficiente?
O judeu se manteve no centro da cama, a afagar o tecido da camisola.
— ... Eu só...queria saber.
— O que te seria útil? Queres meu nome para chorar a um soldado se for preso? Eles não lhe dariam tempo para pronunciar uma palavra.
E novamente ele havia o assustado. Louie se encolheu e soluçou, imaginando a cena em que era morto por um soldado. Shneider respirou fundo e coçou os fios negros da barba.
-... Wolfang Shneider.
— Wol....fan...fang...? — Ele fez uma careta ao pronunciar o nome, tendo certa dificuldade. — Wolfang. — Um pequenino sorriso surgiu em seus lábios machucados. — Eu....eu...tenho o sobrenome da minha mãe, Bijou.
O alemão o encarou de repente e pela primeira vez riu baixinho. O pequeno engatinhou devagar até a ponta da cama, para ficar mais próximo dele.
— O....o...que foi...? Qual o problema?
— Machst du Witze? Bijou? Teu sobrenome é Bijou? — Wolfang sorriu para o menino. — ...isso te faz um...petit bijou, não é? Um petit bijou.
— Mach duí....? — O pequeno tentou repetir a citação em alemão, confuso.
— Perguntei se isso era um brincadeira. — Esclareceu, pousando o cachimbo terminado sobre uma cômoda. — ...mas acho que este nome te cai bem. Realmente tens olhos....únicos. Petit Bijou. Uma pequena jóia.
O pequeno se envergonhou e abraçou um travesseiro, afundando a face nele. O soldado sorriu diante de tal gesto gracioso. Após um longo pensar, ele afrouxou mais a gola da camisa.
— Imagino que...já ficamos tempo o suficiente juntos para que eles pensem que tu trabalhaste. Podes voltar para teu leito. Já é tarde.
Bijou fitou o homem, abraçando mais forte o travesseiro.
— Eu...não...não tenho....bem..um...leito. Mas se o senhor....quiser..e-eu...
O alemão se deitou, colocando as mãos atrás da cabeça. Ele se sentia a vontade com o menor. Talvez porque sabia que ele não puxaria de repente uma arma para matá-lo, como outros fariam. Ele tinha o sangue judeu correndo, o sangue que como dos negros, tinham um estímulo à servidão. Se bem que ele preferia negros, porque trabalhavam mais, como animais, enquanto judeus se rebelavam de hora em hora tentanto fugir para reencontrar seus entes queridos. A época em que ele trabalhou vigiando judeus nos campos de carvão não foram seus melhores anos. Homens fortes sempre lutam. Meninos como Loiue sempre morriam no meio disso.
— Onde dormes?
— Meus tios me deixam dormir na área de serviço, debaixo do tanque. Eu tenho um lavabo para mim, ao menos, onde eu guardo minhas coisas.
O mais velho coçou novamente a barba escura, pensativo, estreitando a vista.
— O que tens?
— Algumas coisas que eu acho quando eu vou... — Diante do olhar franzido do soldado, ele cortou a informação que encontrava nas dispensas dos alemães. — ....e...outras que clientes deixam e não são úteis para os meus tios. Eu tenho algumas moedas...broches...botões. Eu gosto muito de botões. Tenho um que tem um brilho muito bonito.
O alemão sorriu e o convidou a se deitar ao lado dele. Bijou, ainda abraçado ao travesseiro, se deitou de lado.
— Tu és um colecionador...então?
O loirinho fez um sinal positivo com a cabeça.
-...Verei o que encontro, para lhe ajudar em sua coleção.
— O-obrigado, senhor. — Ele assoprou os fios loiros que cutucavam a ponta do seu nariz. — ...E o que o senhor gosta de fazer?
Wolfang fez uma pausa, refletindo. Por um momento ele havia esquecido o que fazia antes de todo....de todo aquele inferno começar.
-...Eu gostava do campo. Olhar para o horizonte e não ver nada além de campos de trigo. Eu gostava de meus cavalos...Até que eles foram levados para a guerra...como eu.
Bijou franziu o cenho, sentindo pena do homem.
— O senhor não...gosta mais? — O homem o encarou, arqueando uma sobrancelha. — É que disse que “gostava”. Quer dizer que não gosta mais?
— .... — Wolfang respirou fundo. — ...Acho que...ainda gosto...claro. — Ele se virou, ficando de frente para o menino. — Eu tenho, muito longe daqui, uma pequena casa no campo. Há muitos anos que eu não vou até lá...mas ainda está no meu nome, afinal, quando a guerra acabar eu pretendo voltar lá. Talvez comprar um cavalo e...esquecer de tudo isso.
Louie repousou a cabeça na cama, tendo um olhar sonhador.
— Como...é a sua casa, senhor?
Shneider fechou os olhos, como que tentando se lembrar.
— Ela...é pequena, pois eu morava só. Nunca tive mulher ou filhos. Acho que a cor era...um verde claro. Ela tinha um telhado escuro, e vigas brancas. Um pequeno caminho de pedras a unia com o portãozinho, nada muito impressionante. Não é a maior casa da região, ou a menor. Era...suficiente. Eu gostava de ir na feira da cidade aos sábados bem cedo e comprar as hortaliças, a linguiça e as batatas. Acho que tenho ainda algumas garrafas de vinho guardadas no sótão, debaixo de algumas caixas. Eu guardei objetos de valor no sótão, caso...algo acontecesse durante os anos de guerra, como um saque ou desastre natural. Nunca se sabe.
— E... o fumo do senhor?
— Deixei meu melhor cachimbo em casa, porque queria ter uma razão para voltar. — Murmurou. — ...mas acho que levei todo fumo. — ele fez uma pausa. — ...mas...não acho que um cachimbo é suficiente para me dar alguma razão neste mundo.
O loiro abaixou o olhar e se aproximou do outro.
— Não...- o menor umedeceu os lábios. — ....não morra por...qualquer coisa.
— Porque não? Isso é uma guerra, eu realmente não controlo onde uma bala inimiga vai parar.
— Eu...- Loiue abraçou com força o travesseiro, afundando a face nele. — ...eu....gostei do senhor. Eu ficaria triste se o senhor...
Wolfang entreabriu os lábios. Ele desejou contrariar aquela declaração, indagando como o menino poderia ter criado tal laço de amizade tão rápido com um soldado alemão, mas ele se lembrou que ele era uma criança. Crianças se apegam rapidamente as pessoas. Elas confiam rapidamente nas pessoas. Por isso tantas se perdiam nos campos, quando um homem lhes oferecia um pedaço de pão e os levavam para a escuridão. Ele havia lhe oferecido palavras e aparentemente um leito, pois não o deixaria a dormir no frio, e agora era seu amigo.
O homem riu diante de tamanha inocência. Ele viu o menino se aninhar próximo dele, e ele sentiu seus dedos desejarem tocar seus fios. Ele gostaria de pensar que não era um lobo que o machucaria aquele cordeiro, e sim de fato um....homem bom, como ele gostaria de ser. Como ele achava que foi um dia, no campo com seus cavalos.
Havia muito tempo que ele não pensava em seus cavalos, talvez porque antes doía imaginar que eles provavelmente morreram servindo a guerra, carregando canhões até que suas patas se quebrassem. Ele não pensava em nada mais do que a guerra, as mortes, os tolos, os estupros, as cadeias, como se sua vida antes daquilo tivesse sido incinerada. Sua juventude, sua infância a correr pelas florestas e rios. Seus amores, seus desejos. Os primeiros beijos, primeiras camas. Ele havia....esquecido de tudo aquilo.
O pequeno diante dele o fez lembrar de tempos doces, mas isso lhe deu vergonha por ter se tornado o homem que era. Ao menos uma pessoa...gostava deve. Uma criança, mas era o máximo que talvez ele poderia ter, diante de tanta atrocidade que já fizera e testemunhara.
Um leve umedecer dos lábios rubros chamou a atenção do alemão. Ele teve o olhar voltado a sua boca, e em seguida ao par de olhos raros, a fitá-lo.
-...Monsieur...? — Ele viu o brilho azulado entre os fios loiros jogados sobre sua face, quase a ocultando por completo. — ...o que o senhor iria me pedir...?
Wolfang respirou fundo antes de responder.
-...Não te preocupes com isso, meine liebe. Não era nada importante.
— “Manilibe”? O que...? — Perguntou o menor, franzindo o narizinho.
-... O mesmo que “mon amour”, se não me engano.
Loiue pareceu corar brevemente. Ele arranhou o travesseiro que estava abraçado e voltou a fitar.
— Monsieur... — Ele afastou uma mecha do rosto. — ...o senhor pode me dizer o que desejava. Do contrário, não teria me chamado. — Ele abaixou os orbes. — ...eu posso ser....especial... — a mão estremeceu de leve e ele a escondeu entre as pernas. — ...mas não sou...tolo. — Louie fez uma pausa, mordendo os lábios.- Eu....eu....sei...qual é o interesse dos homens nestes quartos. Eu....já vi meninas mais novas do que eu...e... — Ele suspirou e ergueu o olhar. — ...Eu não acredito que pudesse ser algo tão ruim...porque...o monsieur teve a educação de me sugerir uma escolha. Eu...nunca...tive escolhas antes. Nenhum homem veio até mim e perguntou se...podia...fazer algo...comigo. Eles sempre chegavam de forma violenta, não me ouvindo...ou...ou mesmo...mesmo invadindo meu...próprio leito....onde eu poderia pensar que era...seguro....então...eu...
Shneider franziu o olhar. Ele tivera a impressão que o menino fosse mais...ingênuo. As suas palavras lhe deram vergonha, o fazendo desviar o olhar.
-... Eu não ousaria...
— O senhor pode...pedir. — Um pequeno sorriso surgiu nos lábios machucados. — ...Eu...eu sei se...algumas coisas que...os soldados gostam. Se for...isso...eu...
— Apenas um beijo. — Respondeu ele rapidamente, cortando o menor.
Louie pareceu espantado, o que de certo modo contrariava sua aparente experiência. Ele corou e abraçou com mais força o travesseiro.
-... O...Monsieur....quando me viu...só...só desejou...um beijo?
O mais velho franziu o olhar e se sentou devagar na cama. Ele coçou a barba devagar, pensativo.
-...Patético, não? Um homem que não possui qualquer tipo de afeto clama por um beijo de um jovem. Deves...se sentir enojado por tal degradação. Eu...sei...mas...
— E-Esta...tudo bem. — Murmurou o menor de repente, lhe chamando a atenção. — Mas é...não....é...q-que... — Ele corou mais, afundando a face no travesseiro, onde permaneceu por alguns segundos, voltando afoito pela falta de ar. Estava nervoso. — E-Eu imaginei que fosse pedir outras...o-outras coisas...e-eu...e-eu nunca...!
Shneider arqueou uma sobrancelha diante de um corar tão intenso nas pequenas bochechas macias.
— ...Tu dizes...que...jamais...? — O menor pareceu ter um véu rubro a cobrir sua face inteiramente, fazendo desaparecer as pintinhas de seu corpo por um instante.
— S-Soldados não....não pedem...esse tipo de coisa.
O homem ergueu ambas as sobrancelhas e acompanhou o intenso e quente vermelho da face menor, que voltou a se esconder no travesseiro. Louie novamente se mostrava tão...gracioso. Ele não notou, porém o canto de seus lábios se curvaram minimamente em um meio sorriso, que foi notado pelos orbes mistos do mais novo.
— O senhor... — Louie lhe diria sobre o sorriso, porém de volta a ele, o homem regulara os lábios, deixando-os na mesma linha séria de antes. O menino suspirou, apoiando o pequeno queixo sobre o travesseiro, abraçando-o entre as coxas. — ...Porque o senhor nunca...sorri?
— Não há o porque sorrir nesta era. Não onde crianças morrem de fome sem teus pais que foram mortos a bala por mera diversão. Não enquanto existem jovens dando suas vidas em trincheiras tendo seus amigos a apodrecer ao seu lado. Não há alegria na guerra.
O loiro abaixou o olhar, assustando-se com tais imagens que o homem lhe ditava. Ele apertou o travesseiro e se aproximou do outro em um engatinhar vagaroso.
— M-Mas...existem...existem...coisas...coisas boas. Como... Como... — Louie olhou para o alto, tentando se recordar. — C-Como...os...os pardais...e... — Ele gesticulou o voar de um passarinho com as mãos. — E...e as nuvens...que...que formam bichinhos...Sabe? É possível ver tudo lá. Existe um reino inteiro no céu. Lá não existe lágrimas o-ou máquinas. Só...Só coisas....boas...e...bonitas. — Louie sorriu de leve, voltando a abraçar o travesseiro. — ...Acredito que mamãe esteja lá.
Wolfang estreitou o olhar e fitou brevemente os nós dos próprios dedos cruzados.
— ...Espero que isso seja verdade. — Ele fez uma pausa.
O olhar do homem estava fixo em um ponto qualquer, voltado ao seus próprios pensamentos, quando ele sentiu um toque suave em sua face. Erguendo o olhar, ele viu o judeu a tocar em seu rosto com a ponta dos dedos em uma delicadeza que o fez arrepiar os fios do corpo.
-...Louie...?
— O senhor possui um olhar triste. — Murmurou o menino. Os pequeninos dedos afagaram as olheiras abaixo de seus olhos que tornava seu olhar duro e sério. — ...O senhor...não...tem tempo para dormir..?
— ...Sim, eu tenho. — Respondeu ele, em um fio de voz, como se o toque do menino lhe tirasse as forças de uma maneira deleitosa. — ...Eu...tenho um tempo livre agora que...mudei de área. Prefiro...o trabalho burocrático da guerra....porém...isso não apaga as coisas que fiz. — Ele cerrou os olhos, sentindo somente o carinho que era feito em sua pele. — ...Eu levei a covas comuns muitos judeus e homens. Já vi tantas coisas que...estou cansado disso. Mas não posso...fugir...Somente tenho pesadelos.
Wolfang entreabriu os lábios no momento em que sentiu o perfume do menino mais forte. Era um perfume feminino, suave, mesclado com o seu natural. Ele estava perto. A maciez dos lábios tocaram suas pálpebras cerradas, em um gesto de carinho francês, que foi seguidos de um roçar por seu rosto até a maçã forte, cutucando sua boca com os fios da barba. O menino lhe beijou os lados do rosto e fez uma pausa ao resvalar por seu queixo.
O homem sentiu a boca menor lhe tocar a dele em um beijo incerto, cobrindo somente metade de sua boca, em um tempo pequenino demais, e um mover mínimo. Wolfang reabriu os olhos, vendo novamente a face delicada pontilhada por pintinhas que se destoavam da pele leitosa. O mais novo deixou os dedos fugirem do seu rosto, sentindo antes rapidamente sua barba na área do maxilar.
— ...Desculpe..por...não...saber...como...fazer...e... — Louie corou suavemente, envergonhado.
— Porque fez?
Os orbes mistos buscaram os dele, deixando um silêncio separá-los por alguns minutos antes de responder.
— ...Eu...eu sempre vi pessoas felizes se beijando. — Confessou, envergonhado. — Achei que se eu beijasse o senhor, eu te....faria f-feliz.
Wolfang sorriu de canto sutilmente outra vez por alguns segundos. Como aquele menino conseguia ser encantador.
-...Acredito que essas pessoas que viu trocaram um beijo estavam alegres porque haviam se reencontrado, e não por causa do beijo.
Tal declaração fez o menino corar fortemente. Ele agarrou os fios loiros em sinal de horror e espanto, desejando enterrar a própria face de tamanha vergonha que estava.
— M-Monsieur, me perdoe! E-Eu realmente achei que...q-que...o senho iria...iria...ficar feliz...e...e...
O moreno se divertiu vendo seu pequeno descabelar desesperado, tornando a cena memorável.
— Não devias, mesmo assim, beijar um desconhecido.
O menor parou seu descabelar, terminando com todos os fios loiros revoltos.
-B-beijar....o...que...?
— Meninos de tua idade devem sonhar ainda com suas esposas e filhas, e não com um velho como eu. — O soldado correu rapidamente os dedos nos fios do judeu, arrumando-os. — Não é...certo.
Louie abaixou os orbes e encolheu os ombros, porém não recusou o cuidado nos fios.
— Meu tio me chama de aberração. — Comentou, coçando um dos braços de leve. — Eu...gosto de colecionar coisas usadas e antigas.
Wolfang arqueou uma sobrancelha, desafiante.
— Quer dizer que tens simpatia por mim por eu ser igualmente usado e velho? Repense suas palavras.
Louie corou fortemente e gaguejou.
— N-não! É que eu gosto de coisas que ninguém....digo...e-eu tenho um gosto...de....e...não é assim....e-eu-!
O soldado sorriu um pouco mais abertamente e voltou a se deitar, vendo o menino a acompanhá-lo. Ele o sentiu se aproximar, diminuindo o tom da sua voz.
-...Porque o senhor não vai embora? Foge? Se eu tivesse documentos como o senhor...eu teria...
— Fugitivos são fuzilados. Eu somente tenho uma vida diferente de outros soldados porque matei uma cota de judeus para a vida inteira. As pessoas me respeitam e me procuram porque sei bem o que fiz, como...um...dom maldito de matar judeus.
O pequeno judeu soluçou baixinho, desviando o olhar. O casal permaneceu por longos minutos em silêncio, sendo tempo o suficiente para o mais velho sentar-se e se virar, jogando as pernas para fora da cama. Talvez fosse hora de ir.
— Me desculpe por isso. Acho que...irei.
Louie se ergueu, surpreso.
— M-Mas....agora? — As mãozinhas buscaram o braço maior, impedindo-o. — E-Está tarde, para onde o senhor vai?
— ...Podes ficar aqui e passar a noite, afinal não tens um leito....respeitável. — Murmurou. — Eu...não costumo dormir, na verdade. Gosto de andar...e...fumar...talvez...
As mãozinhas o apertaram com mais firmeza.
— N-Não vá embora! Se meus tios verem que tu foste, eles podem me colocar com outro cliente e....e-eu...
O alemão o encarou, vendo os belos orbes se encherem de lágrimas. Ele realmente devia estar desesperado em preferir a companhia de um soldado do que de outro homem. Ou talvez ele mesmo que estivesse desesperado em ficar ali, a preferir outra noite com um desconhecido para aquecer seu corpo por algumas horas.
Em um suspirar, ele deixou a cama, caminhando até o pequeno bar, onde se serviu com um pouco de licor. Ele averiguou a garrafa, notando que estava velha, com o papel do rótulo a sair do vidro. Se servindo, ele tomou um gole, pensativo, tendo o par colorido a fitá-lo. Ele guardou a mão livre no bolso, apoiando-se na parede e parou, sentindo algo na ponta dos dedos. Retirando-o, ele recolheu um pequeno tablete de chocolate embalado em um papel verde escuro sem título. Voltando-se ao menor, ele ergueu o doce.
— Já comestes isso? — Lhe perguntou, fazendo-o se esticar, curioso.
— O que é?
— Chocolate. — Respondeu, lhe jogando o tabletinho. O judeu o pegou com as duas mãos e ficou sem saber o que fazer com ele. — Este chocolate tem um pouco de álcool, mas acho que não é forte demais para você.
Louie ficou a encarar o tablete, e novamente fitou o homem, incerto.
— É...para mim?
— Sim. — Respondeu, vendo-o abrir um grande sorriso.
— M-Merci, senhor! E-Eu...
O loiro se agitou a segurar o tablete e o abriu com cuidado, como se fosse algo precioso, sorrindo ao ver a parte escura surgir ao rasgar do papel. Ele o mordeu na pontinha, experimentando, e em seguida mordeu um pedacinho maior, fazendo em seguida uma careta.
— É forte? — Perguntou-o, vendo seu contorcer suave.
O menor tossiu.
— U-Um pouco. M-Mas obrigado. — Ele fitou a outra metade do tablete e olhou o homem. — ...Posso...?
— Ele é todo seu. — Respondeu, fazendo o menor ter uma alegria espantosa. Ele o viu terminar de comer, mesmo em careta, e em seguida abanar o rosto que ficara quente pela sensação ardente da bebida. E ele achava tão fraco. Talvez fosse um bêbado. Ou apenas adulto.
A criança lambeu os dedinhos e beiços sujos pelo doce com rapidez enquanto o mais velho se aproximava com a bebida em mãos, a sorver devagar.
Ele riu de sua face vermelha e se sentou, tomando com calma o licor. Ele desabotoou outro botão e olhou o menino ainda a sofrer. Ele se pegou tendo um pequeno riso baixinho, e logo se afastou dele, colocando o copo sobre uma bancada.
— Se não se importa, irei tirar o uniforme e me lavarei. — Comentou ele se erguendo, indo na direção de uma porta velha ao canto do quarto onde era o lavado. O menino recolheu os últimos grãos de chocolate do rosto e corou novamente.
— C-Certo. E-Eu....eu....espero. Arrumarei a cama para o senhor. — Avisou, se levantando.
Wolfang, antes de entrar no lavabo foi capaz de vê-lo tentar erguer a pesada roupa de cama acima da cabeça e cair para trás, desajeitado. Ele sorriu, erguendo as covinhas no canto dos lábios e adentrou o local.
O lavabo não se passava de um estreito cômodo com pia, vaso, um espelho antigo e um chuveiro de cobre com banheira. Ele retirou suas vestes, dobrando-as sobre um pequeno banco ao canto e puxou a cortina ao entrar. A cordinha longa foi movida de cima para baixo, abrindo o registro, fazendo cair em seu corpo a água fria. Ele não se importava na verdade. Água já lhe fora algo tão raro na guerra. Tê-la ali para ele era um luxo.
As gotas frias correram por seus músculos do corpo. Ele era um homem digno somente ao vestir uma farda, pois sem ela, era somente um homem com cicatrizes. Ele se banhou com rapidez, ignorando os cortes em seu peito, pernas e costas. Alguns cortes de facas, outras de balas. Os mais finos eram de arame farpado, presentes nos antebraços. Os fios foram jogados para trás, sentindo os pontos de uma bala que correu rente ao crânio.
Ele puxou novamente a cordinha longa, parando a água que correu pelo ralo da banheira. Vestiria parte de suas vestes novamente, pois não viera com mala. Enquanto pensava nisso, ele puxou a cortina e viu o par colorido a sua frente. O pequenino fugiu para trás da pia ao vê-lo, como se fosse para se esconder. Estando nu, ele encarou o topo da cabeleira loira atrás do móvel e puxou uma toalha para secar o corpo.
— Algum problema? — Perguntou, o vendo se estremecer ao “descoberto”.
— E-eu... — O menino se ergueu somente um pouco, corando ao ter os olhos em seu corpo. — e-eu....e-eu queria...perguntar...só....só...se...eu...poderia....me...lavar...é...que....e-eu... — Louie abaixou os orbes. — E-u não queria me deitar com o senhor estando....a-assim.
O maior o fitou longamente, secando os cabelos escuros. Ele correu a toalha pela barba, secando o rosto.
-... Assim como?
— M-Minha tia não me deixou me lavar direito antes....então...e-eu...
O alemão secou os braços fortes e em seguida as costas, indo na direção do menor que corou ainda mais.
— Estás a falar que fedes? — Sorriu com o canto dos lábios, amarrando a toalha na cintura. Ele o viu se encolher em vergonha, então abriu a porta. — Claro que podes.
O menino não se moveu, encolhidinho até a saída do maior. Ele recolheu suas vestes e o deixou, fechando a porta. Wolfang terminou de secar o corpo, sacodindo os fios, deixando-os rebeldes sobre os orbes. A peça íntima e a calça foi colocada, e assim ele se deitou. O menino havia tentado arrumar a cama, porém ela estava na verdade mais desarrumada do que antes, tendo lençóis pesados no chão, ou tortos. Ele compreendeu sua dificuldade e apreciou a tentativa. Uma das mãos correu pela cama, ouvindo-o se lavar.
Seu ventre queimou com a imagem de seu corpo nu, então o homem se deitou de lado, tentando ignorá-lo. O menino demorou. Ele tinha as mãos trêmulas a lavar com dificuldade o corpo sujo. O perfume de sua mãe foi embora, e seus fios foram lavados e penteados, luxo que ele tinha poucas vezes.
A porta foi aberta, e o alemão sentiu os fios da nuca arrepiarem. Como estava deitado, ele somente foi capaz de ouvir os passos suaves. O menino pareceu achar que ele adormecera, então caminhou devagar até a cama. Ele pareceu incerto em seus movimentos, demorando em ter o peso sobre o colchão.
Louie subiu na cama e fitou longamente o soldado. Ele sentiu um toque suave em seus fios, em um carinho trêmulo de suas mãos inquietas. O menino pareceu murmurar algo baixinho, surpreso na verdade com a serenidade que um soldado podia ter em seu semblante. Shneider também notou sua calma. Talvez fosse sua presença.
O judeu recolheu um lençol da cama e logo desceu dela, deitando no tapete ao lado, se cobrindo com o lençol. O alemão estava acordando, porém de olhos fechados. Ele esperou que o menor voltasse para cama, porém como ele não o fez, ele se sentou, vendo-o adormecido no chão. Talvez tivesse sido um misto de medo, vergonha e respeito por ele ter o quarto em seu nome naquela noite. Shneider se perguntou se o tapete era melhor do que o leito original do pequeno. O quarto estava agradável. O menino devia ter tão pouco que dormir em um cômodo com teto já lhe era um luxo.
Wolfang foi para a ponta da cama, fitando-o. Ele admirou a silhueta esguia cujas curvas eram cobertas pelo lençol antigo. Sua pele estava ainda mais alva após o banho, lhe tornando quase um modelo de pintura a óleo, com os fios loiros de corte revoltado sobre a pequenina face de boneca. As mãozinhas estavam do lado de fora do casulinho de tecido, e o homem desejou tocar em uma delas, porém se manteve apenas a observá-lo.
Louie se encolheu como uma bolinha, cobrindo a face com os bracinhos, e o homem deixou a cama. Com cuidado, ele apanhou o corpo dele do tapete e o deitou no centro da cama, vendo-o ronronar baixinho ao ter a face a tocar a maciez do travesseiro. Louie se virou, adormecido, e abraçou o pescoço forte do homem, aproximando-o de si em um movimento onde seus lábios se tocaram outra vez. O homem o beijou, vendo-o a responder vagamente o movimento, dormindo em seguida.
O moreno suspirou e o cobriu com um pesado cobertor e deixou a cama, acomodando-se no outro extremo, em uma poltrona de couro escuro. Ele se serviu de outra dose de licor e observou longamente os movimentos sonolentos do menino, talvez até por mais do que seria o indicado. Ele sentia o seu ventre queimar em desejo por ele, e tentava calar-se com a bebida. Porém o álcool parecia não tirar o gosto da boca do outro.
Após beber, ele descansou o copo ao seu lado em um criado mudo e olhou para o alto, cruzando os braços. Daquela forma ele dormiu por talvez uma ou duas horas, até que a insônia o visitasse novamente como companheira fiel, abraçando-o. Ela sussurrou em seu ouvido desejos com aquele menino, tendo a criatividade aflorada em razão da bebida.
Ele fitou o menino e foi até o lavabo, onde lavou o rosto e penteou os cabelos para trás, divididos perfeitamente de lado de forma militar, e trajou novamente seu uniforme.
Ao retornar e buscar suas botas, ele acompanhou o despertar do pequenino, que parecia um animalzinho e se remexer debaixo das cobertas, até que uma cabeleira completamente revolta surgisse debaixo dela. O menino piscou um par de vezes, vendo-o se trajar. Após de fato despertar, ele notou que estava na cama e se agitou.
— O-o que faço eu na...n-na... — Gaguejou, cobrindo o próprio corpo com mil lençóis, envergonhado.
— A dormir. — Respondeu a ele, calçando as botinas. O menor retirou alguns fios da face e engatinhou até a ponta da cama, fitando-o.
-...Vais embora?
Wolfang apanhou a gravata e começou a dar o nó, caminhando na direção do lavabo para se observar no espelho.
— Sim.
— Mas... — O menino olhou para fora, vendo uma chuva suave a bater na janela, não podendo ser vista devido a escuridão. — ...Ainda é noite.
— Talvez por ainda três horas. Logo irá amanhecer.
— Mas....isso é o raiar do dia. Meus senhores somente abrem serviço às oito da manhã, isso somam mais...- Ele contou nos dedinhos. — ...mais...duas...três horas...?....que o senhor poderia ficar e descansar.
Wolfang pisou novamente no quarto, sendo acompanhado pelos orbes coloridos do outro.
— Não sou de dormir. — Comentou, arrumando as abotoaduras da camisa.
— M-Mas...se...se....o...senhor...for...como....eu...f-faço...
— Teus tios e qualquer homem que possa lhe ferir não se encontra desperto. — Respondeu com rapidez, checando os documentos nos bolsos e o relógio no cós. -... Ou...somente um se encontra, melhor falando.
Louie franziu o cenho e se encolheu na cama.
— O senhor...vai...voltar...?
— Ainda hoje? Não.
— N-Não...eu.....digo....- O loiro abaixou o olhar e mordeu os lábios.
— Não. — Respondeu ele, seco. — Não pretendo voltar mais.
O judeu o encarou e se ajeitou na cama, descobrindo o corpinho.
— E-Eu....fiz...mal..? Algo...mal? M-Me desculpe...eu...eu....dormi? Eu achei que poderia...já...que...que o senhor....estava...e-então....e-eu....na....eu não vim para a cama, vim? E-Eu não lembro de ter acordado e subido....então....não...n-não conte a meus tios, p-por favor, e-eu na próxima faço melhor...e...e...!
Wolfang caminhou pelo quarto ouvindo o menor a começar a soluçar, e logo se virou para ele raivoso, fechando os punhos.
— Eu estou indo e não tenho intenções de voltar porque tua presença desperta em mim um lado doente que eu não ouso dar atenção. Agora...somente me deixes.
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