Monólogo
1 Monólogo
Notas iniciais
As mãos da moça batiam com força contra aquela caixa escura. Ela arranhou, bateu a cabeça, deu socos, chutes e arranhões. Nada abria a caixa. Nada adiantava. Ela gritou, gritou muito na verdade. Nada continuava acontecendo.
É difícil falar de tempo quando não temos nada de base. Sem conceito de dia e noite, sem luz do sol, sem relógio. Há quanto tempo ela está ali? Bom, ninguém sabe.
De dentro da caixa de madeira soterrada a voz de alguém que estava prestes a surtar podia ser ouvida. Quer dizer, se alguém cavasse uns palmos na terra e ficasse prestando atenção, coisa que (obviamente) não aconteceu.
— Pouco falamos sobre morte. Na verdade, tentamos evitar ela ao máximo, tentamos evitar o medo que ela traz, o sofrimento e o luto. A gente não liga pra morte dos animais que estão no nosso prato, nem pra porra das plantas que a gente arranca do chão sem pena. A morte nos mantém vivos, a morte dos nossos sonhos, das nossas expectativas dos nossos medos e de tudo que possamos imaginar. Eu tava viva por causa da morte, assim como tudo tá vivo por causa da morte. A morte é a maior causa da vida..
Fechou os olhos dentro daquele lugar escuro, sabia que de alguma forma não conseguiria sair dali tão cedo. A tampa daquela caixa retangular de madeira já havia corroído parte dos seus dedos, ato denunciado pelo sangue que ali estava. Sangue que já estava seco, por sinal. A dor latejante de ter a pele corroída por madeira e os fiapos que entraram eram um problema, mas dada a situação não passava de um pequeno incômodo. Os machucados já estavam cicatrizados, não totalmente, mas o suficiente pra estancar o sangue outrora corrente das pontas dos dedos. Os longos fios louros sedosos que uma hora foram motivos de orgulho, agora eram apenas um conforto pra sua cabeça dentro da caixa escura. Seu vestido, rose madder – que por acaso era sua cor favorita – agora nada mais era que sua última vestimenta e estava feliz com isso.
Em uma última tentativa achou que gritar seria a solução, mas ninguém ouve nada 7 palmos sobre a terra. Pelo menos, ia morrer tranquila sabendo que morreu como viveu, sendo completamente ignorada por tudo e todos ao seu redor.
Voltou a pensar no monólogo que teve consigo mesmo a pouco tempo e realmente eram ideias geniais. Ideias que deviam ser jogadas para o mundo para serem discutidas e desmembradas, mas não adiantava de nada agora.
Não adiantava gritar, gemer ou bater naquele momento. Sua morte seria a vida para os vermes que a consumiriam em um futuro próximo. Agora só basta saber se a causa mortis vai ser anóxia, inanição ou desidratação.
Notas finais
(Eu sou um incompetente do caralho e quem tá postando é minha namorada, mas ela não revisou o texto pq ela tava com preguiça).
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