Moments in Winter

1 Capítulo 1: The girl who brings the change


“Todos aceitam a juventude em suas vidas, recebem-na como o ápice da adolescência, na frustrada ilusão de que, deste momento em diante, tudo melhorará. Pobre coitado, pobre enganado.

Meu nome é Makoto Yuuki, não passo de um simples e errôneo humano, assim como todos. Há quinze anos vivo nesta cidade, Tóquio, não que eu desgoste daqui, mas aposto que uma casa em qualquer lugar afastado do barulho das buzinas me faria mais feliz. Minha era finalmente começou, sou um estudante colegial, popular com as garotas, repleto de amigos que desejam meu melhor assim como desejo a eles. Bem, quem eu quero enganar?

Quinze anos vividos de maneira pacífica, no meu ritmo, do meu modo. É assim que pretendo passar o resto de minha longa e tediosa vida, e por mais que possa parecer maçante, é desse jeito que quero viver. Silêncio, calma, paz... Disso que eu gosto, é o que eu quero para meu presente-futuro.

A única pessoa que me dou relativamente bem é Akira Tamako, um amigo de infância. Otaku* e hiperativo, chegando ao ponto de gritar facilmente, pular, correr, e se duvidar, se tacar de um prédio, consegue cativar até o mais marrento mal-encarado. Talvez seja a personalidade adorável e explosiva, talvez a facilidade com que ele conduz a conversa... Há muitas coisas, muitos pontos positivos que tornam Akira um cara sensacional de se ter como amigo. Apesar de haver momentos em que ele realmente me irrita! Pra que tantos gritos? Pra que tanta felicidade logo às sete e cinquenta da manhã? Chego a torcer para que ele tenha um mau dia e fique emburrado às vezes.

Minha paixão, ó, doce paixão... Com suas cores que seduzem meus olhos, seu cheiro enlouquecedor, suas páginas brancas e finas... É, estou falando de livros, eles são meus maiores tesouros. Ler não se trata mais de diversão para mim, trata-se de reconhecer através de palavras, os sentimentos e emoções do autor. Li certa vez em algum livro qualquer, uma frase que me deixou um pouco confuso, havia coerência, mas eu não concordava. “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”.

Sinceramente, o modo como foi in—“

– Ei! E aí, Mako!!

Sentado em sua cadeira e completamente imerso em pensamentos, o colegial revirou-se com o susto ao perceber uma figura presente atrás de si. Era aquele bobo alegre, Akira.

– “Eu deveria ter imaginado... Mako, ele é o único que me chama dessa maneira, eu não gosto, mas sinceramente não ligo ao ponto de reclamar” – Pensou — E aí, Akira.

– Como sempre, pensando sobre várias coisas né?

– É o que eu faço de melhor.

– Huumm... Aposto que estava fazendo uma daquelas reflexões bem chatas que costuma fazer, talvez relembrando alguma frase de algum escritor famoso que conhece e pensando em seu verdadeiro significado.

– Pois é, você acertou. Meus parabéns.

– Você é um livro aberto, Mako!

Yuuki não respondeu, apenas fitou-o de volta e soltou um pequeno bocejo. Eram sete e meia e o sinal para a aula começar ainda demoraria a bater. Aquela manhã chuvosa casada à fina neblina proporcionava um perfeito cenário para alguma cena de terror, a imaginação fértil e muito bem ativa de Akira tomou impulso. Uma ideia havia chegado àquele “brilhante” cérebro.

– Ei, ei, Mako, você gosta de terror? – Disse, aproximando-se e sentando em uma cadeira próxima a Yuuki.

– Não conheço muito sobre o gênero, mas há alguns livros qu—

– Estou falando de terror real, não fictício. – Interrompeu.

– Ah... Não tenho qualquer experiência com isso.

– Como imaginei! Então, que tal se nós formos ao cemitério?

– E fazer o que lá?

– Ué, sei lá... Andar por aí, só pra não desperdiçarmos esse clima de hoje!

– Obrigado, mas eu recuso. Não estou nem um pouco a fim de ficar resfriado, além do mais, se quer algo aterrorizante para essa tarde, vá ler alguns mangás ou jogar algo de terror.

– Já zerei e li tudo que tenho em casa, não tem mais graça. Aposto que você também está sem nada pra fazer, não custa nada!!

– Vou ser direto... Eu não quero ir, pronto.

– E se... Eu disser que há certa lenda urbana que lhe interessaria muito!?

– Duvido. Lendas urbanas não passam de contos inventados e espalhados pela população, não sou interessado em ta—

– Tem haver com livros.

– Me conte mais, estou muito interessado.

Akira não conteve o sorriso, Makoto havia fisgado a isca perfeitamente. O conto era curto e não possuía complicações em seu entendimento, tratava-se apenas de uma lenda folclórica japonesa extremamente conhecida... Por ele, apenas. A história de que um Kappa* habita o cemitério há centenas de anos tentava conquistar a curiosidade de Yuuki.

– Certo... E onde está a parte do livro?

– Calma, calma, ela é agora! Kappas são criaturas bem conhecidas por todo Japão e não seria estranho haver um por aqui, o diferente do nosso Kappa é que... Ele é um Kappa nerd!

Makoto olhou para seu amigo com um olhar depravado, a esperança de que realmente fosse algo interessante havia sumido por completo.

– “E eu fui acreditar nesse bobo...” – Refletiu decepcionado.

– Não é bobeira!! Os anciões da cidade dizem tê-lo visto andando por aí entre às seis da tarde e meia-noite, além de possuir um jeitinho de rico, ele caminha com dois ou três livros embaixo de seu braç—

– TAMAKO!! — Um grito feminino e agudo ecoou por seus ouvidos, com uma velocidade absurdamente alta, um par de peitos enormes encostou-se em Akira. Juntamente a eles estava Kirichi Kana, uma alegre e bonita aluna desta mesma classe, agarrada ao braço esquerdo do garoto. – Estou tão ansiosa pelo nosso encontro de hoje!!! O que acha que devemos fazer primeiro? Tomar sorvete? Comer alguns crepes? Ir ao cinema? Ir ao karaokê? Talvez devamos fazer compras!!

– “Eu havia me esquecido completamente desse encontro...” – Pensou o estudante – Você pode escolher, Kana. Prometo fazer dessa, uma tarde incrível! – Falou, com um belo sorriso em seu rosto.

– Awwnn!! Vou me esforçar também! – Só então, deu-se conta da existência de Makoto ao lado de seu grande amor, o olhar frio e vazio dele surpreendeu-a – Ah, eu nem havia te visto aí. Bom dia, Makoto!

– Bom dia... – Respondeu, com outro bocejo logo em seguida.

A menina não disse mais nenhuma palavra, deu um singelo beijo na bochecha de Akira e correu até suas amigas no outro canto da sala. Yuuki olhava profundamente os orbes verdes de seu amigo com uma eminente frase estampada em sua cara. “Como você conseguiu esquecer um encontro com uma das meninas mais populares da classe?”

– Err... Bem...

– Sua memória realmente não presta, Akira. E deixe-me adivinhar uma coisa. Essa história do Kappa, ela é falsa, certo?

– Desculpe! – Retrucou juntando suas mãos e implorando pelo perdão. – Eu e a Kana marcamos de sair e passar a tarde juntos hoje, e quanto à história... Err... Sim.

– “Bem, era uma história ridícula, afinal de contas.” – Pensou – Não se preocupe, está tudo bem... – Makoto fixou seus olhos na garota ao longe, de certa forma, até ele reconhecia sua beleza. Os cabelos longos e louros, a pele clara e aparentemente macia, sem falar nos avantajados seios... Certamente era uma adolescente linda. – Você realmente tem sorte. A Kirichi deve ser assediada dezenas de vezes por vários garotos diferentes, e mesmo assim ela gosta de você. Então isso que é ser popular...

– Se quer saber, eu não tenho certeza se estou apaixonado por ela. Mas de certa forma temos uma relação que ultrapassa um pouco o nível da amizade. – Disse Akira, também com os olhos redirecionados à garota. – Mas e você, Mako!? Como vai o coração aí?

– Vazio. Meu amor são os livros, essa é uma realidade imutável.

– Frio como sempre... Bem, aposto que é só uma questão de tempo até alguém aparecer e fazer esse coração disparar feito bala, e quando menos perceber, vai estar completamente apaixonado!

– Hmm... – Makoto parou por um momento, ficou raciocinando um pouco sobre tais palavras, e após alguns segundos, formulou uma resposta. – Impossível.

Logo após o fim desta fala, o sinal soou. Vinte minutos haviam se passado e as aulas começariam. Rapidamente, os alunos acomodaram-se em suas respectivas mesas e cadeiras, a fama de ser a sala mais organizada e com melhor desempenho não era à toa.

Testes foram entregues nesta aula, as notas de Makoto Yuuki e Akira Tamako estavam perfeitamente sincronizadas – como sempre -, noventa e oito pontos, os melhores da classe. Apesar de não se parecer à primeira vista, ambos eram gênios reconhecidos em quesito escolar, com as mesmas notas e mesmos desempenhos acadêmicos, eles “lutavam” pela primeira posição de sua turma de jeito amigável.

...

As gélidas brisas adentravam pelas escancaradas janelas da casa, para combatê-las, um cobertor de fina lã cobria Makoto até sua barriga. Em seu quarto iluminado e de ambientação rústica, o jovem permanecia imóvel e completamente submerso nas páginas de “O trunfo espacial”, o mais novo livro que adentrara em sua imensa coleção.

As paredes do lado esquerdo eram praticamente impossíveis de se ver por inteira, com duas gigantescas estantes feitas de genuína madeira japonesa, o mar de livros que a preenchia aumentava ainda mais o aspecto “fino e antigo” deste cômodo. Era o âmbito perfeito para Yuuki.

Duas batidas na porta foram dadas, a atenção do garoto sequer foi redirecionada àquele lugar, com ela abrindo-se logo em seguida, já era certo quem estava lá. Com seus cabelos castanhos presos por um rabo de cavalo, olhos tão azuladamente deslumbrantes e bochechas róseas, Rina Yuuki mostrava-se presente no quarto de seu irmão mais novo. Apesar de aparente beleza, sua feição não era das mais receptíveis, parecia claramente brava ou incomodada com algo.

– Irmão, o que você vai querer para a janta? Preciso comprar algumas coisas dependendo do que vai pedir.

– Nossa, isso me pegou de surpresa. Qual o motivo de eu ter ganho a escolha do que jantar hoje? Além do mais... Ainda são cinco horas, não é meio cedo para a janta? – Respondeu, sem ao menos tirar os olhos do livro.

– Você está dando duro na escola, certo? Conseguiu outra vez ser o melhor da turma, acho que eu preciso dar-lhe alguma recompensa às vezes. – Falou, gesticulando com as mãos também. — Tenho que sair com umas amigas hoje às sete e meia, abriu uma boate nova na cidade e vamos passar de lá, dependendo do que for pedir, preciso começar a preparar desde já.

O garoto pegou o marcador de páginas mais próximo possível, deixou-o na folha que estava e fechou seu livro cuidadosamente.

– Bem, então... Já que amanhã é o primeiro dia do inverno, que tal um yosenabe?* — Concluiu, com certa água na boca.

– Isso é bem trabalhoso... Tsc.

Com uma batida abrupta e forte, a porta foi fechada e o silêncio voltara a reinar no “Pequeno mundo de Yuuki Makoto”, com uma cara indecisa e indagável, retornou a sua posição original de conforto.

– “O que será que irritou aquela idiota? E mais importante... Ela vai fazer meu yosenabe ou não?”.

Três horas e meia se passaram em um piscar de olhos, engolindo duzentas e trinta páginas de forma frenética, o livro foi rapidamente concluído. A fome predominava, guardando sua leitura diária e correndo pela escada visando a cozinha, notou certo bilhete apoiado em uma embalagem de ramen instantâneo. Ele aproximou-se calmamente e leu em voz baixa.

“Desculpa, preparar um yosenabe seria muito trabalhoso. Em compensação, espero que goste do ramen* que eu comprei.”

– Então ela comprou algo que fica pronto em três minutos pensando que iria substituir um yosenabe... Isso é bem sua cara, irmã.

Tentado pela fome, deliciou-se com seu singelo macarrão. O sabor dos dois pratos nem poderia ser comparado, mas era o suficiente para saciá-lo. Em menos de 10 minutos, já não restava um único fiozinho sobrevivente da massa. Seu apetite era monstruoso e se havia um segundo amor dentro de seu coração, esse definitivamente era comer.

– “Droga... Ainda estou com fome.”.

...

Ao som de um ringtone eletrônico causado pelo alarme de seu celular, Makoto levantou-se de sua cama completamente desarrumada. Cinco horas da manhã eram mostradas no visor do aparelho, este era o horário ideal para o adolescente levantar.

Seu pijama amarelo aparentava simplicidade, aqueles de promoção “compre um e leve dois”, felizmente, aquecia-o adequadamente para o primeiro dia de inverno do ano. Os flocos delicados e tímidos decaiam do céu, cobrindo toda a cidade com uma branquidão sem fim. Carros, árvores, edifícios em geral, todos estavam escondidos abaixo de uma grossa camada de neve, resultantes da noite anterior. A beleza era nítida, uma neve tão macia, tão espessa e pura, embelezando Tóquio com sua cor e imensidão.

– “Finalmente começou. A era do frio”.

Não que estivesse realmente interessado, mas Yuuki dirigiu-se até a porta do lado, o quarto de sua irmã mais velha. Abriu-a cuidadosamente, evitando o máximo possível de ruídos, espiou pela pequena fresta e confirmou o que havia pensado.

– Então ela ainda não chegou... Bem, já era de se esperar, a boate nova deve ser realmente boa para encontros.

Seguindo pelo mesmo corredor, adentrou no grande e espaçoso banheiro presente em sua casa. Ainda sonolento, escovou seus dentes com calma e penteou os desorganizados fios escuros de sua cabeça, voltou ao quarto e organizou suas vestes, equipou-se com um par de luvas claras, tênis negros, uma jaqueta de mesma coloração e um cachecol marinho de pura lã. Em questão de minutos, lá estava Makoto Yuuki, pronto para sair.

A caminhada matinal fazia parte de sua rotina, respirar o ar puro de uma gélida manhã era algo que o garoto não perderia por nada no mundo, a não ser o lançamento de um livro novo. Sua residência possuía locação privilegiada, há pouco mais de dois quarteirões, uma extensa ponte cortando o rio Arakawa* mostrava-se presente, atravessá-la fazia parte do curto percurso de sempre. Mal sabia ele que fazer seu caminho habitual, dessa vez, geraria uma significante virada em sua vida.

Os efeitos do frio eram claros, não havia sequer uma alma presente nas ruas neste exato momento, o que proporcionava a Yuuki mais paz durante seu trajeto. Tais ares que sopravam penetravam em sua roupa e arrepiavam o garoto desde os dedos do pé até seu último fio de cabelo, nada que ele desgostasse, muito pelo contrário, sentir esse pequeno arrepio era uma de suas sensações prediletas.

Toda a calmaria fora imediatamente quebrada, um alto estrondo pôde ser ouvido por detrás do adolescente, alguém parecia ter caído ou tropeçado brutalmente. Yuuki virou-se com certa lentidão e mirou em direção pela qual havia ouvido tal barulho, para sua surpresa, não havia sequer sinais de que algo teria acontecido naquele exato momento.

– “Que estranho, eu podia jurar que ouvi algo vindo de lá...”.

Ao virar-se para continuar, deu-se de frente com alguém, o choque fez com que o outro caísse e soltado um pequeno gemido, um gemido... Feminino. Deparou-se com uma garota caída bem na sua frente, seu olhar rapidamente foi tomado pela beleza que a menina expelia, olhos tão limpidamente claros que mais pareciam transparentes, cabelos negros e bustos enormes, sua atenção havia sido completamente tomada.

– “... Como? Não havia ninguém na minha frente!”.

Mesmo assustado, Makoto ajudou-a a levantar, porém não parava de se perguntar o que havia acontecido, aquela situação estava estranha, uma garota tão linda aparecer assim do nada, sem mais nem menos? Ela não estava lá a um segundo atrás! Perguntas preenchiam sua cabeça, mas sem que nem ao menos tivesse tempo para formular respostas lógicas, a menina recuperou-se da trombada e começou seu questionário.

– Eh, com licença senhor. Poderia me dizer onde eu estou?

– Em T-Tóquio ué... — “Que tipo de pergunta é essa?”

– Tóquio..? – Ela pôs seu dedo indicador na boca e olhou ao longe, mas logo voltou a fitar Yuuki. – O que é Tóquio?

– “Uma pergunta mais estranha do que a outra!” – Bem... Pra começo de conversa, quem é você? Qual o seu nome?

– Meu nome? ... Eu não sei.

Notas finais
Glossário: Otaku = No Brasil, o otaku é conhecido como uma pessoa que gosta de mangás/animes, ou a cultura japonesa em geral. Kappas = Criatura representada pelo espírito anfíbio no folclore japonês. Possui o tamanho de uma criança de dez anos e é hermafrodita, possui rosto similar ao do macaco, um casco em suas costas e membranas no pé e nas mãos. Yosenabe = Receita típica para o inverno no Japão. Leva acelga, cogumelos, carnes, dentre muitas outras coisas. Devido à quantidade de ingredientes, seu preparo é extremamente difícil. Rio Arakawa = Rio que atravessa a cidade de Tóquio, com sua nascente no Monte Kobushi, possui sua foz na Baía de Tóquio.