Momentos Chave De Nossas Vidas
9 Capítulo 9
Notas iniciais
16 de março de 2024
Finn se despediu da esposa antes que ela saísse do elevador, e subiu mais um andar, chegando à presidência do grupo GHShow, para mais um dia de trabalho. Passou, como sempre, por vários funcionários, cumprimentando-os, animado, e perguntando sobre o filho de um, que tivera febre na semana anterior, a noiva do outro, que estivera se queixando de estar sendo enrolada, o time de futebol americano do seguinte, que tivera uma vitória incrível no final de semana.
"Bom dia, Rose." Desejou à ultima pessoa com quem falaria antes de entrar, finalmente, em sua sala, mas ao invés de simplesmente responder de volta com um sorriso, como fazia diariamente, a secretária levantou-se, colocando-se na frente dele e fazendo com que parasse de caminhar.
"Bom dia, Finn. Quer dizer..." Fez uma pausa, respirando fundo, para tentar se acalmar, o que não surtiu efeito. "Eu temo que seu dia não vá começar tão bem assim, mas, veja bem, eu não tive como impedir e, quando eu soube era tarde e eu já tinha deixado..."
"Calma, Rose." Ele pediu, colocando a mão em um dos ombros da nervosa garota. "Me diz o que aconteceu."
"Há uma mulher sentada na sua sala." Ela disse, um pouco mais lentamente. "Eu deixei entrar porque você sempre recebe todo mundo, e mantém até as portas literalmente abertas. Só depois o Edgar venho até aqui e me disse que acha que é a sua sogra... e que você não fala com a sua sogra. Eu sinto muito!"
"Shelby?????" Ele disse, e dizer que ele estava surpreso seria minimizar muito o seu estado. Ele não via a mãe de Rachel havia mais ou menos vinte anos!
"Sim, foi esse o nome que ela me deu mesmo." A funcionária afirmou, ficando ainda mais preocupada ao ver o semblante do chefe.
"Tá tudo bem, Rose. Você não teve culpa." Assegurou. "A única coisa que eu vou te pedir é que transfira essa senhora para a sala de reuniões e eu estarei lá, daqui a pouco." Ia saindo, mas voltou. "Pede também ao Jim pra levar chá pra gente, depois que eu entrar. Camomila, de preferência, ou outra coisa calmante."
Finn foi ao banheiro e lavou o rosto, mais de uma vez. Alguma coisa muito séria deveria estar acontecendo para que Shelby fosse procurar por ele, e o próprio encontro era motivo de preocupação, pois ele não tinha capacidade de prever como se comportaria ao ficar cara a cara com ela. Passou mais ou menos uns dez minutos dentro do banheiro, que lhe pareceram apenas segundos, porque ele queria poder continuar ali e não enfrentar qualquer diálogo com a sogra.
Para Shelby, no entanto, os minutos durante os quais esperou o genro pareceram horas! Precisava falar com ele, o mais rápido possível pois demorara muito para decidir procurar pela filha e, ainda mais, para decidir que seria melhor falar com ele primeiro, mas, uma vez tomada a decisão, ansiedade por aquela conversa era a coisa mais forte que conseguia sentir. Havia muita tristeza, vazio, saudades, que eram os sentimentos que tinham levado à própria decisão, mas eles tinham, no momento, a sua força diminuída pelo medo de senti-los para sempre.
"Bom dia." Finn disse, em tom solene, fechando a porta atrás de si.
"Bom dia." A mulher que o aguardava respondeu, baixinho e com a voz trêmula.
"Quantos anos, Shelby!" Ele comentou, sentando-se em uma cadeira de frente para a que ela ocupava, observando as próprias mãos, pousadas sobre o colo. Não pode deixar de reparar que ela estava bem diferente da mulher que conhecera tanto tempo antes, não somente pela idade, mas pela sobriedade de suas roupas, pelo rosto praticamente limpo de maquiagem, por estar bem mais magra e até um pouco abatida, e por estar praticamente encolhida na cadeira, parecendo temer olhá-lo. "Eu não gostaria de ser rude, mas não posso deixar de perguntar o que faz aqui."
"É claro, Finn." Ela levantou os olhos, encontrando os dele, afinal, mas sem o olhar superior e desafiador de outros tempos. Até sorriu de um modo que ele classificaria como tímido, antes de continuar falando. "É óbvio que se surpreende com a minha visita. Não o culpo."
"Eu pedi chá de camomila. Espero que seja do seu gosto." Ele falou, quando foram interrompidos pelo copeiro, e ela acenou positivamente.
"Açúcar ou adoçante?" O rapaz perguntou, servindo-a.
"Açúcar. Obrigada!" Ela respondeu com simpatia e Finn enrugou a testa, mas ela não percebeu, pois tinha os olhos perdidos no líquido que o garoto mexia. "Finn, eu não vou fazer rodeios, porque não quero tomar seu tempo e porque não tenho eu muito tempo também para adiar mais o que vim fazer aqui." Continuou, tomando um gole do chá. "Queria procurar minha filha, mas sei que ela não me receberia. Sei que ela se sentiria traindo você, se me visse, depois de tudo que fiz a vocês dois."
"Você é mãe dela e, se ela quisesse te ver, te perdoar, eu não poderia me sentir traído."
"Você tem certeza?"
"Só não sei se ela quer, Shelby. Eu não me sentiria traído por ela, mas não sei se ela quer isso!" Afirmou, sincero.
"Você me deixaria conhecer minhas netas, Finn? Suas filhas?" Perguntou e ele ficou pensativo. Como Rachel nunca falava da mãe, ele nunca havia pensado em, um dia, ter que tomar essa decisão.
"Não acho que eu tenha o direito de impedir, se a mãe delas quiser que você conheça as duas." Decidiu. "Mas você mesma disse que ela não falaria com você e... não acho que esteja muito errada quando diz isso, então..." Deu de ombros.
"Você ajudaria uma pessoa que só te fez mal na vida, Finn? Me ajudaria, convencendo Rachel a falar comigo... a me deixar ver suas filhas, a me deixar participar das festas de famílias, durante os poucos anos que me restam?" Ele a olhou, incerto sobre o que responder. "Sei que estou te pedindo generosidade demais, sem merecer um pingo dela, Finn! Nem mesmo quando você e Rachel se casaram, eu reconheci que o que tinha feito, anos antes, tinha sido errado, e isso fez de mim uma mãe da pior espécie, uma pessoa da pior espécie! Mas a verdade é que não tenho a quem recorrer. Merecendo ou não, tenho que te pedir... te implorar, para que fale com ela."
"Por que agora? Por que depois de tantos anos?"
"Porque só agora posso pedir perdão a ela... a vocês dois. Porque só agora, velha, fraca, sozinha, eu entendi o sentido da palavra família. Só perdendo o único homem que amei para um câncer devastador como o que Giancarlo teve, eu passei a acreditar em amor, em amor de verdade." Tomou mais um gole de chá, deixando que se misturassem em seus lábios o doce da bebida e o sal das lágrimas que escorriam livremente. Finn nunca tinha pensado em ver aquela mulher tão desarmada! "Gian me deixou muitos bens, sabe? E, no entanto, eu não tenho vontade de estar na mansão da Riviera Francesa, pois cada canto me lembra os olhos dele, o seu sorriso largo. Não tenho vontade de estar no apartamento em Paris, porque escuto a risada dele, como se estivesse no cômodo ao lado e nem de velejar em nosso iate, porque não tenho os braços dele a minha volta, me protegendo do vento."
"Eu sinto muito." Finn falou, com toda a sinceridade, pois não estava nele regozijar-se com o sofrimento alheio, mesmo que a pessoa que o carregava tivesse errado com ele como nenhuma outra.
"Só quando cuidava do meu marido, eu entendi o que minha filha entendeu quando ela ainda era uma adolescente. Quando amamos alguém, amamos pra valer alguém, não há nada que possa nos completar ou ser mais importante do que a presença da pessoa ao nosso lado. Por isso, agora, sei que o que fiz foi errado. Só agora! E só agora posso pedir perdão."
"Entendo." Ele também bebeu chá, tentando ganhar tempo. Não sabia muito bem como lidar com aquilo. "Mas talvez não seja tão simples pra Rachel aceitar seu pedido." Escolheu o caminho da honestidade. "Ou talvez ela te perdoe, mas não seja tão simples conviver com você."
"Você pode, pelo menos, dizer a ela que não se opõe, assim como me disse?" Questionou, levantando-se. "E entregar isso a ela?" Deu a ele um envelope e pegou a bolsa que estava a seu lado.
"Isso eu posso fazer." Confirmou e apertou a mão que ela lhe ofereceu, observando a mulher caminhar, cabisbaixa, e deixar a sala de reuniões.
Tentou trabalhar por algumas horas, mas Shelby não saía da sua cabeça, então, na hora do almoço, pediu que Rose desmarcasse seus compromissos daquela tarde e foi até a presidência da TVZoom. Entrou na sala da mulher e a encontrou ao telefone, falando animadamente com algum diretor de um dos programas da emissora, mas ela o conhecia tão bem que, ao ver seu semblante carregado, não somente se despediu apressadamente de seu interlocutor, como seu sorriso sumiu, dando lugar a uma testa franzida que denotava preocupação.
"Aconteceu alguma coisa, meu amor?" Perguntou, se aproximando e começando a mexer com os botões da camisa dele.
"Eu preciso conversar com você, Rach. Será que a gente pode almoçar?"
"Eu tenho uma hora, sim, mas é alguma coisa grave? Alguma coisa com as meninas?"
"Não é nada com as meninas e nem grave, mas talvez seja melhor você desmarcar seus compromissos da tarde. Eu desmarquei os meus."
"E não é grave?" Ela riu de nervoso.
"É sério." Ele pegou as mãos dela nas suas, beijando-as. "É um assunto delicado. Mas não é grave, porque não envolve saúde, nenhum acidente, nada disso. Não precisa ficar nervosa."
"Okay." Ela não se convenceu, afinal tinha que ser sério para eles estarem deixando ambos de trabalhar por uma tarde inteira. Fez, no entanto, o que ele disse, pegando sua bolsa e seguindo-o até o carro que ele mesmo fazia questão de dirigir todas as manhãs.
Foram almoçar em um restaurante isolado, onde foram atendidos por um maitre que já os conhecia e que lhes acompanhou até uma mesa também isolada em relação às dos demais clientes. Pediram vinho, água e entradas, Finn pediu ao garçom que lhes desse um pouco mais de tempo para fazer suas escolhas, e o rapaz felizmente entendeu perfeitamente bem o pedido de privacidade.
Então, Finn contou a Rachel sobre a visita de sua mãe e sobre a conversa que os dois haviam tido, surpreendendo a esposa, que havia pensado em vários problemas, mas por cuja cabeça não tinha passado nem por um milésimo de segundo a possibilidade da volta de um fantasma como Shelby para suas vidas.
"E você me disse que não era grave!" Massageou as têmporas, fechando os olhos. Estava se sentindo mal como há muito tempo não se sentia.
"Eu disse que não era uma questão do tipo vida ou morte, mas que era sério."
"Me dá a tal carta." Pediu, e ele lhe entregou o pedaço de papel.
"Então?" Foi ele quem ficou nervoso, depois de minutos de silêncio com ela olhando o conteúdo do envelope.
"Ela me pede perdão e diz que quer fazer isso pessoalmente, se eu der a chance a ela. Pede pra eu deixar que ela conheça as meninas, e que participe das coisas da família, porque ela está afastada também dos meus irmãos, já que fazemos tudo juntos... as festas e tal."
"Sei que é difícil pensar em conviver com ela, Rach." Afirmou, segurando a mão dela por cima da mesa. "Mas eu acho que você deve pensar bem! Ela tá velha, sem ninguém, abatida, e você pode se sentir culpada depois, se der as costas pra ela."
"Foi ela quem escolheu isso, Finn."
"Eu sei. Sei melhor que ninguém! Poderia ter ficado sem você pro resto da minha vida, por causa dela." Lembrou. "Mas você não precisa ser a melhor amiga dela, de uma hora pra outra. Você não precisa ter uma relação de intimidade e cumplicidade com ela. Só deixa ela fazer parte da família... ir aos aniversários dos netos, às comemorações do final do ano."
"Eu não sei se eu quero ela perto das minhas filhas, meu amor."
"Ela não pode mais nos fazer mal, babe. Ela não pode fazer nenhum mal às meninas e, sinceramente, eu nem acho que ela pense mais do jeito como ela pensava antes, pra tentar passar algum valor equivocado pra Brie e pra Aubrey."
Rachel trocou um olhar triste com ele, que apertou mais a mão dela, passando segurança. Ela sabia que ele apoiaria qualquer decisão que ela tomasse, mas ainda queria saber como ele se sentia de verdade em relação à presença de Shelby. Afinal, ele não tinha qualquer obrigação de parente, e também teria que lidar com ela, se Rachel decidisse dar uma chance à mãe.
"Como você se sentiria com ela dentro da sua casa? Como você se sentiria com ela convivendo com as SUAS filhas? Essa decisão não pode ser só minha, quando ela também fez tanto mal pra você."
"Eu vi a fragilidade dela, Rach. Ela PRECISA de você, dos seus irmãos, dos netos. Eu não ficaria com a minha consciência tranquila, se, pra não conviver com ela, eu acabasse me tornando responsável por ela continuar sozinha... passar os últimos anos dela assim." Ele bebeu vinho, mas continuou quando Rachel permaneceu em silêncio. "Não é que eu tenha esquecido tudo, e vá me tornar um genro super próximo dela, mas eu tenho compaixão. E as meninas também tem curiosidade pra conhecer a avó. Elas acham que ela mora longe, mas, se souberem que ela voltou pra cá, vão fazer perguntas." Acrescentou.
"Ela diz na carta que tá morando em Nova York. Veio a Los Angeles só pra falar com você mesmo e volta amanhã pra lá. Você acha que poderíamos fazer uma viagem rápida, no fim de semana?" Ele sorriu, apoiando a decisão dela, e disse que não haveria qualquer problema em viajar na sexta-feira. Então os dois almoçaram e só voltaram a tocar no assunto em casa, quando contaram para as meninas que a avó tinha voltado da Europa e queria conhecê-las.
A semana foi super agitada com as duas garotas enchendo os pais de perguntas, e o final de semana começou bastante estranho, porque Rachel não tinha vontade alguma de abraçar a mãe, mas também não queria que as meninas desconfiassem de nada e os enchessem ainda mais de questões, o que acabou fazendo com que as duas se cumprimentassem com um abraço rápido e envergonhado. Finn, por sua vez, cumprimentou a sogra com um aperto de mão como o que haviam trocado na empresa, mas isso não chamou a atenção das meninas, porque elas achavam que o pai não conhecia direito a avó por ela ter morado fora por muitos anos.
As meninas, por sua vez, foram super carinhosas com a velha senhora, que, também querendo ser a melhor avó que pudesse, assim que soube que as receberia, providenciou um lanche delicioso e presentes. Rachel ficou um pouco irritada com a parte dos presentes e, apesar de Shelby não conhecer a filha tão bem quanto poderia ter conhecido, se tivesse dado uma real chance à vida, percebeu o descontentamento e tratou de lidar com ele, quando teve oportunidade.
"Eu não estou tentando comprar suas filhas, Rach." Disse, quando Finn foi com as meninas pra a mesa do lanche primeiro, deixando as duas mulheres sozinhas. "Eu dei presentes dessa vez, porque é a primeira vez que nos vemos, e eu tinha trazido tudo comigo da França, mesmo sem saber se as veria. Mas será a única vez, eu prometo! Só vou comprar presentes nos aniversários e no Natal e, se for pra gostarem de mim, não será por isso."
"Tudo bem."
"E não precisa se preocupar, porque não vou dar maus conselhos, ou falar mal do pai delas... nada desse tipo. Na verdade, admiro muito seu marido e fico feliz que, apesar de mim, você tenha esse homem que te ama tanto a seu lado. E não diria a elas nada contra o amor, pois foi o amor que me salvou, mesmo que quase no fim da minha vida."
"Sinto pelo que aconteceu com o Giancarlo. Ravid me contou, mas..."
"Tudo bem, minha filha! Eu colhi o que plantei e não merecia a sua preocupação." Shelby se aproximou e Rachel sentiu o coração disparar dentro do peito. "Eu não espero que a gente consiga ter uma relação de mãe e filha, ou mesmo de grandes amigas, mas eu sou grata pela oportunidade que você está me dando, de estar perto de todos vocês. Será que você aceitaria uma coisa em agradecimento?"
"Não é necessário." Balançou a cabeça negativamente.
"Por favor." Suplicou, tirando de seu pescoço um cordão com um pingente em forma de anjo e colocando no pescoço da filha. "Que esse pequeno anjo te proteja sempre de pessoas negativas, como a que eu fui por toda a minha vida." Sorriu, tristemente. "Vamos lanchar com as minhas netas?" Chamou e a pegou pela mão, levando-a consigo até o outro cômodo.
Naquele momento, Rachel teve a certeza de que a relação com sua mãe sempre seria delicada e que elas nunca se sentiriam totalmente à vontade uma com a outra.
Porém, naquele mesmo momento, ela também percebeu o quanto era bom tirar a mágoa do coração e dar lugar a sentimentos positivos, assim como à paz que só o perdão genuíno é capaz de oferecer.
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