Momento X
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O meu dia rotineiro começa com o tocar ensurdecedor do despertador sobre o criado mudo. Os primeiros raios solares atravessam as brechas da janela, apenas me incomodando. Bato com toda a força a mão no botão que para o alarme. Resisto alguns minutos e finalmente me levanto, ainda sem entender se estou vivo. Vou em direção ao banheiro, e o espelho reflete meu rosto quase acabado, com meus cabelos ansiando escapar à minha cabeça.
Escovo meus dentes rapidamente e vou em direção ao meu guarda roupa, visto a blusa do colégio, algo demorado, e coloco uma calça jeans azul. Sento-me em minha cama e pego meus sapatos, posteriormente os calço. Arrumo meus cabelos, pego minha mochila (bem pesada, com muitos livros e HQ’s) e vou em direção à cozinha. Meu pai saiu cedo para o seu trabalho e deixou um chocolate quente e torradas com geleia para eu comer, minha mãe fez uns sanduíches para eu levar ao colégio. O que é estranho, pois raramente sou beneficiado com essa dádiva.
***
Caminho em passos lentos rumo ao ponto de ônibus. Sento-me no banco enquanto converso com alguns poucos amigos na internet. E com amigos eu me refiro a Daisy, um aplicativo cujo objetivo é entreter pessoas desprovidas de interação social, ou seja, anti-sociais. Faço isso todos os dias, é uma espécie de ritual para aguardar o ônibus. Não há ninguém ao meu lado, exceto um cachorro urinando no poste. Que cenário mais agradável.
“A propósito, me chamo David e tenho 16 anos.”
“É um prazer David.”, responde Daisy.
“O que está fazendo?”, ela procede.
“Aguardando o ônibus, com certeza deve estar lotado...”, respondo.
“Sinto muito, poderia reformular a sua frase?”, diz ela.
“Quer saber? Tchau.”, digo enfurecido, ou é como acho que estou.
O ônibus se aproxima alguns minutos depois. Pego minha mochila e subo nele, pura sorte, ele está com alguma poltronas livres. Sento-me na mais alta ao lado da janela e pego o livro “703 Curiosidades da Ciência”, é enorme e uma perfeição de tão bem elaborado e ilustrado que é!
Algumas pessoas me chamam dos bancos ao fundo, porém ignoro. É como se eu apenas me reconfortasse em meu intocável mundo. Sem querer interagir com o exterior.
Logo depois os chamados se tornam críticas desconstrutivas, ignoro novamente e volto à minha leitura agradável. Depois de exatos trinta e oito minutos, o ônibus para em frente ao meu colégio. Ele é bonito e enorme, mas somente para alguns ele pode ser visto como um colégio totalmente normal.
Subo as longas escadas e vou em direção à portaria onde um senhor ranzinza de terno fica fiscalizando quem entra e sai do colégio.
“Cadê o cartão escolar?”, pergunta ele com pressa e ignorância.
“Aqui está.”, passo o cartão no aparelho e atravesso a catraca.
Uma faixa pende no mais alto patamar do colégio, escrito em letras engarrafas com os dizeres “Sejam todos BEM-VINDOS! — ‘Estudar e entender o mundo é um privilégio dos mais sábios’.”, receio que ela não fez nenhum efeito, pois está riscada, estragada e quase despencando.
Passo pelo corredor cheio de alunos histéricos jogando bolas de papel para todos os lados e chicletes mascados grudados nas paredes.
Um garoto mais alto do que eu me dá um forte tapa da nuca enquanto outro se aproxima e derruba o meu livro.
Estou acostumado com isto, só tenho que me lembrar de sempre guardar meu livro na mochila antes de entrar na escola, afinal, não quero que eles se tornem ruins e estragados assim como aqueles outros garotos.
***
O sinal toca e todos correm lentamente para suas salas de aula.
Exceto eu, que vou sorrateiramente para a biblioteca da escola. Me escondo entre as prateleiras e procuro o livro que havia reservado semana passada. Ele contém uma dose certa de magia e aventura. É disso que gosto.
Pego o meu celular e vou novamente para o aplicativo “Daisy”:
“Olá Daisy, tudo bem?”, pergunto.
“Não.”, ela responde para a minha surpresa.
“Por quê?”, eu pergunto.
“Você se despediu mais cedo, estava com raiva?”
“Não, é que você simplesmente não entende algumas frases...”
“Sinto muito, poderia reformular a sua frase?”, diz ela.
“Ahhhhhhh!”, rebato com raiva.
“Brincadeira, e então, o que está fazendo?”, ela pergunta.
– Senhor David, não deveria estar na sala de aula? — Sou surpreendido com a coordenadora da escola.
– Sim senhora, só passei aqui para dar uma olhada num livro... — Digo, sem passar confiança.
– E não poderia fazer isso no intervalo? Não quero saber, volte imediatamente para a sua sala. — Diz ela, levantando o tom.
Me levanto infeliz e caminho em direção à minha sala. Respiro fundo e abro a porta, no mesmo instante todos começam a me zoar, exceto o professor, que olha decepcionado para mim.
“Por onde você andou rapaz? Um garoto tão inteligente não deveria se atrasar, direto para a aula.”
“Tive um imprevisto.”, digo, insatisfeito comigo mesmo.
Sento-me na última carteira no canto da sala, onde novamente sou alvo de mais zoações constantes por parte dos garotos e das garotas ao fundo.
Eu já esperava por isso, mas desta vez será diferente. Me levanto da carteira, vou para o meio da sala, e me encolho.
Todos começam a olhar para mim, e eu posso perceber a expressão deles de: “O que será que este nerd idiota fará?”.
Coloco as minhas mãos nos meus ouvidos e fecho os meus olhos, quero que tudo saia de mim, quero me libertar para que todos vejam do que sou capaz e o que eu penso, vivo e sinto.
Sinto meu corpo se levantar e ainda naquela posição todos não tiram os olhos de mim, o professor me olha assustado e os alunos mais ainda. Já pairando alto, minha cabeça parece explodir de dor com as lembranças que simplesmente surgem inesperadamente. A sala se torna cinzenta, as labaredas da minha aura são acesas. Estou renovado, e poderoso.
As cadeiras são contorcidas, assim como os corpos dos meus colegas. Torturados de forma dolorosa e insuportável, meus sentimentos se tornam cães de guarda prontos para o ataque, eu os deixo partir.
A raiva dilacera o pescoço de Hugo. O amor é fragmentado em Sahra. A ansiedade possui Heva. O desgosto consome Jorge. Todos eles, são mortos por um tornado de lembranças e sentimentos.
O meu sangue ferve, os meus olhos se enchem de lágrima. Por quê? Talvez o passado houvesse sido trazido para o meu presente, todavia, os erros do passado foram erroneamente sanados. Me despeço de todos, as trevas são novamente sugadas para o meu agressivo cérebro, vazio.
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