Momentâneo? Talvez não.
3 Um estranho conhecido - Blar
Notas iniciais
Após nos falarmos pelo telefone, Megan não demorou a chegar no nosso ape. Ela foi direito para o banheiro tomar banho, e eu a segui e sentei me no chão escorada na parede, para podermos conversar sobre nossas noites.
—Aconteceu algo muito estranho comigo. -Ela falou enquanto tirava sua roupa.
—Comigo também. Mas estranho não é a palavra ideal para descrever, eu optaria por dizer "Surpreendente". -Ela deu uma risadinha e entrou no chuveiro. Essa risadinha ela só dava quando estava nervosa.
—Bom, posso afirmar que você também vai ficar muito surpresa com a minha estranha história.
Ela relatou como foi acordada hoje e ao final a única coisa que eu conseguia fazer era rir.
—Eu estava tão feliz por você ter ficado no bar por estar de olho em alguém pra você me dizer que não aconteceu nada? -Perguntei me divertindo com a situação.
—Blar, não ria de mim, você sabe que eu não estou acostumada a essas situações como você. Foi muito estranho acordar com um cara desconhecido.
—Não, o estranho foi você não ter trepado com ele. -Ela abriu vagamente a cortina do box e me atirou um pouco de água. Ela riu enquanto eu secava meu rosto com a manga do meu casaco. — Mas, enfim, depois de você ter contado a sua noite, a minha perdeu a graça. Vou buscar algo pra você ver.
Levantei me escorando no móvel da pia, pois minha ressaca não estava colaborando comigo. Peguei o bilhete improvisado que a minha companhia de ontem à noite havia deixado pra mim. Ao voltar ao banheiro, Megan se enrolava em uma toalha amarela. Entreguei o pequeno pedaço de papel e me escorei na soleira da porta. Ela leu com uma cara curiosa e disse:
—Ok, isso foi -Fez uma pausa para encontrar a palavra certa- ... Peculiar. Mas achei fofo. Nenhuma das tuas transas sem compromisso foi tão atenciosa, ele deve ser um cara legal.
—Nem sei o nome dele. -Dei de ombros, não me importando muito. -Mas de uma coisa eu sei: Foi uma das melhores transas. Isso se não foi a melhor.
—Ué, o cara deve ser bom mesmo. — O telefone de Megan vibrou em cima da pia, e ela conferiu a mensagem que havia chegado. -Huum, a Emmi tá convidando a gente pra jantar hoje à noite, "Temos que aproveitar nossa última noite antes de voltar às aulas" — Ela tentou imitar a voz fina de Emmi.
—Hoje não rola. Meu primo está voltando do intercâmbio, minha família vai fazer uma festa de boas vindas. Não me olha com essa cara confusa, eu já te falei sobre ele.
—Aah, sim, lembrei. -Ela falou enquanto cruzávamos o corredor para chegar ao seu quarto. Ou ela mentia muito mal ou eu a conhecia muito bem.
—Lembrou nada. Você nunca presta atenção em mim. -Fingi estar ofendida enquanto ela procurava alguma roupa no guarda roupas para vestir. -Em suma, ele era meu melhor amigo na infância e pré adolescência. Quando completou 14 anos, meus tios mandaram ele pro Canadá para fazer um intercâmbio de um ano. Mas a família dele foi tão acolhedora que ele convenceu os pais a deixá-lo mais um ano. No final desse outro ano, ele estava namorando e muito feliz. Ele acabou passando 4 anos lá. Apesar de meus tios irem seguido visitar ele, e ele também ter vindo passar alguns feriados aqui, a saudade bateu, e ele decidiu fazer seu último ano escolar aqui.
—Ele saiu pra fazer um ano de intercâmbio e ficou quatro? Ele deve ter um poder de persuasão enorme. Deve ser de família. -Meg fala por fim.
—Quer ir comigo nessa minha animada festa de família? -Perguntei ironizando.
—Mais uma festa sendo cantada pelo teu tio Mark? Obrigada, vou acabar indo jantar com a Emmi e os outros.
—Tio Mark está malhando agora, não sabe o que está perdendo. -Saí de seu quarto rindo.
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—O tio Mark, vai ficar triste, tem certeza que não quer ir comigo? — Perguntei enquanto estacionava o carro na frente de um restaurante Mexicano.
A noite estava fria, e Megan usava um vestido preto simples debaixo de seu sobretudo azul-marinho. Ela começou a retocar seu batom e falou:
—Pede desculpas pra ele, diz que na próxima eu vou. -Ela sorriu, mas eu estava preocupada. Passei a tarde tentando fazer ela mudar de ideia quanto a ir a essa janta.
—Mas falando sério, você sabe quem pode encontrar, não é mesmo? Eu queria muito estar contigo quando acontecesse isso, não quero te deixar sozinha. -Ela fechou o batom, guardou em sua bolsa e se virou pra mim.
—Miga, tá tudo bem. Eu já pensei nisso. Mas uma hora vai acontecer, é inevitável. Além do mais, não é como se fosse só nós, a galera toda vai estar lá. -Ela disse enquanto segurava em minha mão com sua mãozinha fria.
—Tá, mas promete que vai me ligar se acontecer qualquer coisa? Eu venho na hora te buscar. Claro, antes eu vou lá e dou uns tapas na cara daquele crápula.
—Prometo que te ligo imediatamente -Ela me deu um abraço rápido e abriu a porta. -Não esquece de dar um beijo no tio Mark por mim. -Ela falou antes de sair do carro.
À luz da fachada do restaurante fez brilhar seu cabelo ruivo, e eu a observei até ela entrar. Ela podia enganar a todos fingindo que nem se importa mais com o que aconteceu, mas eu sei que apesar de ter se passado quase três meses, quando ela o ver vai ficar arrasada.
Segui até à casa da tia Lilian de maneira distraída. Pensava nos acontecimentos do final do ano passado, e como vai ser difícil pra Meg esse novo ano. Quando dei por mim já estava no local da festa. Desci do carro me perguntando como havia chego tão rápido.
A primeira hora da festa foi bem chata. Eu apenas cumprimentei a todos, puxando conversa com ou outro. Havia encontrado meus pais logo que adentrei o lugar. Dei um abraço apertado e demorado em meu pai e respondi todas as mil perguntas da minha mãe, como de costume.
—Mãe, já faz dois anos que moro com a Megan e nunca tivemos problemas. Você já deveria estar mais acostumada, ou menos preocupada.
—Parece que mãe coruja nunca muda. -Ela me respondeu alisando meu cabelo.
Estranhei estar lá a tanto tempo e não ter visto o meu primo. Por isso fui até minha tia e perguntei onde meu primo estava. Ela respondeu que estava em seu quarto, e eu prontamente agradeci e subi as escadas até chegar lá. Passei boa parte da minha infância nessa casa, papai viaja muito a negócios e mamãe gostava de o acompanhar, eu sempre preferi ficar pra brincar com meu primo. Nas paredes não haviam apenas fotos de Peter e Ellen crianças nas paredes, mas também fotos minhas.
Bati duas vezes na porta branca até ouvir um "pode entrar". Abri a porta devagar e vi meu primo arrumando a gola de sua camisa. Ele definitivamente não era o mesmo garotinho desengonçado que jogava futebol comigo. Ele agora era um cara alto, e seus músculos definitivamente estavam maiores, seu cabelo era mais escuro, agora se transformou em um castanho quase loiro. Mas seus olhos verdes não mudaram. Quando ele viu que era eu, sorriu de orelha a orelha, e abriu seus braços para mim. Eu corri e me joguei em cima dele. Ele me apertou forte contra si enquanto falava o quanto estava com saudades.
—Eu ainda lembro de quando era maior que você. -Disse quando paramos de nos abraçar. -E olha pra você agora, tá enorme. Mas trinta centímetros são só de testa, isso não mudou.
—O que não mudou foram as suas implicâncias.
De repente o chuveiro, que eu nem havia percebido que estava ligado, desligou. E eu, que estava de costas, ouvi a porta do banheiro abrir.
—Qual é, cara, minha priminha tá aqui. Vai colocar uma roupa, ou pelo menos se enrolar na toalha. -Peter exclamou pra quem quer que estivesse saindo do banheiro. Reprimi o impulso de me virar pra ver, e apenas dei risada da situação.
—Desculpe, priminha -foi ridículo ouvir aquela voz grave tentar imitar a voz de uma criança ao falar isso.- do Peter. -E a porta se fechou de novo.
—Bem... -Dei um beijo na bochecha do Peter e caminhei até a porta falando -vou deixar você e o seu namoradinho a sós.
Fechei a porta e Peter gritou algo como "Eu sou hetero, caralho".
O desenrolar da festa aconteceu da forma mais tediosa e monótona possível. Ainda bem que eu sempre estou preparada para eventos chatos, e sempre levo um cantil com vodka na bolsa. Misturei com o refrigerante que estava tomando e me senti melhor. Troquei algumas mensagens com Meg, e parece que estava tudo bem, ele não havia dado as caras por lá. Fiquei aliviada por ela. Foi quando levantei os olhos do celular que me deparei com um cara estranhamente conhecido do outro lado da sala. Ele tinha cabelos bem escuros que estavam com aquela aparência de "Acabei de acordar, mas acordei sexy", sua pele era bem clara, seus músculos marcavam sua camisa branca e tive que segurar meu queixo pra ele não cair. Ele era realmente muito lindo.
Demorei alguns instantes até lembrar de onde eu o conhecia, e desejei não ter lembrado. Ele era o cara com quem eu havia passado a última noite. Não lembro o seu nome, acho que ele nem me disse, mas não há dúvidas. É ele.
Tinha muita gente na sala, ele ainda não havia me visto. Isso me deu tempo pra decidir o que fazer. O melhor seria dar meia volta e ir embora, mas a maldita da curiosidade não me deixou fazer isso. Quando eu vi, já estava me aproximando. Ele estava tendo uma conversa com alguém e estava realmente muito entretido naquilo.
—Com licença, ãã -Até aquele momento eu não havia reparado com quem ele estava falando. -Tio Mark, posso conversar com o seu amigo um pouco?
—Morena? -O jovem falou de maneira confusa.
—Nem pensar, minha querida, estamos falando de gatos. E você sabe o quanto eu adoro falar sobre isso. Por falar nisso, onde está aquela sua amiga? -Ele me deu um empurrãozinho no braço enquanto sorria.
—Ela não pode vir, mas eu preciso muito falar com ele agora, desculpe. -Com a mão que eu não segurava o copo, tentei puxa-lo. Ele nem se moveu.
—Não mesmo, estou adorando saber mais sobre esses lindo animaizinhos. Você sabia que um gato consegue correr a 49km por hora em curtas distâncias? — Ele me olhou com uma cara de deboche, e eu apenas ergui a sobrancelha.
—Você não está entendendo. Eu preciso falar com você! -Fiz minha melhor cara se brava, o que o fez abrir um sorriso. Isso me irritou muito, mas não tanto quanto a covinha que se formou em sua bochecha.
—Pena que não vai ser possível. -Então ele olhou pra meu tio me ignorando completamente- Prossiga, por favor, de onde paramos?
—Vem comigo, agora! -falei me pondo entre os dois.
—Não.
—Vem!
—Não vou!
—Eu estou te pedindo pra vir de boa vontade, não me obrigue a... -Ele me interrompeu.
—O que a teimosinha vai fazer?
Ele falou comigo no diminutivo. Ah, ele falou mesmo comigo no diminutivo. Nesse momento minha raiva tomou conta de mim e eu derramei o líquido todo que estava em meu copo nele. Ele baixou a cabeça e ficou olhando pra sua camisa encharcada, não sei se ele estava puto por aquilo ou não. Todos que estavam em volta nos observaram, e eu como boa atriz que sou disse:
—Nossa, como sou descuidada. Não se preocupe, eu te ajudo com isso. -Peguei sua mão e ele magicamente aceitou ser conduzido por mim.
Todos por quem passávamos olharam curiosos. Eu o levei até o banheiro e fechei a porta atrás de mim depois de entrar. Eu esperei por gritos e xingões, mas a única coisa que veio foram risadas.
—Ontem eu percebi que você não era muito normal, mas hoje eu constatei. Você é bem louca. -Ele falou enquanto desabotoava a camisa.
—Louca, eu? Pelo menos eu não persigo minhas fodas de uma noite e apareço do nada em suas festas de família.
—Eu não persegui ninguém. Eu sou tipo um irmão pro teu primo. Aliás, era você no quarto dele antes, né?
—Que desculpa esfarrapada, cara, ele estava em um intercâmbio de quatro anos e voltou ontem.-Revirei os olhos.
—Eu sei, ele tava na minha casa. -Ele tirou a camisa e eu temo ter encarado de maneira pouco discreta aquele abdômen definido, pois ele passou o dedo no canto da minha boca e disse -Baba menos, por favor.
—Enfim -arrumei minha postura- não pode ser. Eu vi uma foto do tal cara de quem meu primo havia ficado tão amigo, não parece você.
—Pois é, sua prima Ellen também disse que eu sou mais bonito pessoalmente.
—Fica longe da minha prima!
—Tá com ciúmes? -E riu.
—Eu nem te conheço. -Olhei pro lado e tentei fazer uma cara de indiferente.
—Prazer, Gustavo. -Ele estendeu a mão pra mim. E depois de ver que eu não ia apertar, recolheu ela. -Mas pode me chamar de Gus, nós temos intimidade para isso.
—Esquece esquece o que aconteceu! -falei olhando brava pra ele. -Eu te mato se você contar isso pro meu primo.
—Capaz, quem me mata é ele. Não tenho planos de contar pra ninguém o que aconteceu. -Pela primeira vez ele pareceu estar falando sério.
—Ótimo, assunto encerrado.
Sai batendo forte a porta.
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