Momentâneo? Talvez não.
4 Primeiro dia de aula, velhos hábitos - Megan
Meu celular vibrou de manhã avisando que já era hora de acordar. Apesar de estar fazendo sol, eu estava melancolia. Era o primeiro dia de aula, e apesar de ter tido o verão inteiro para descansar e me preparar para isso, eu me sentia insegura. Espero que ninguém mais lembre do escândalo do fim do ano, do mesmo jeito que eu estou me esforçando pra esquecer.
Levantei me e segui até o banheiro, passei pelo quarto de Blar, que ainda dormia. Ela chegou tarde ontem, e posso apostar que uma festinha de família não se prolonga até as 2h da madrugada. Ela com certeza estendeu a noite em algum barzinho. Após me arrumar, fui até a cozinha e preparei uma torrada para mim e outra para Blar. Entrei em seu quarto e já fui abrindo a janela, mesmo sabendo o quanto isso a irrita.
—Me deixa dormir. -Ela murmurou mal-humorada e se enterrou mais ainda nas cobertas.
—Vamos, Blarzinha da minha vida, não vai me deixar sozinha no primeiro dia, né. -Sentei me na beira de sua cama, mas ela nem se mexeu. -Eu te fiz um torrada. -Como mágica ela levantou sua cabeça e me olhou curiosa.
Saímos atrasadas, como de costume. Moramos no sexto andar, mas parece que demorou uma eternidade até o elevador chegar ao térreo. Apesar do nosso prédio ser próximo ao colégio, fomos de carro para ganhar tempo.
A primeira coisa que fizemos ao chegar na escola foi ir até o mural no saguão principal, pois lá indicava qual seriam as nossas turmas. O saguão estava abarrotado de atrasados que deixaram para ver sua turma em cima da hora, assim como nós. Foi difícil chegar ao mural, pois havia se formado um bolinho de gente em volta. Blar ia abrindo espaço com cotoveladas e me puxando pela mão. Quando conseguimos chegar ao mural, disse pra ela que procurasse nossos nomes na 131 enquanto eu procurava na 132.
— Não vamos estudar juntas. -Falei ao reparar que apenas o meu nome constava na lista da 132.
Ela me olhou triste e veio até o meu lado para conferir a lista da minha turma. Sua mão apertou forte a minha quando meu dedo percorreu a lista e parou em cima do nome tão temido. Henry Koch. Naquele momento eu pude ver que aquele ano seria um pesadelo. Sem Blar. Com Henry. Pelo menos Barbara não estava na lista. Cansada de encarar aquele nome no meio da lista, puxei Blar para dar uma olhada em sua própria lista.
—Olha -ela apontou para um nome na lista- meu primo vai estudar comigo. -Abriu um sorriso de canto e seguiu seu dedo pelos nomes. Até que sua unha preta apontou um nome "Gustavo Bittencourt" — Não pode ser. -o sorriso sumiu de seu rosto.
—Por que, Blar? Quem é ele?
Quando ela abriu a boca para me responder, a irritante voz da diretora soou pelos autos falantes "Bem vindos a mais um ano escolar. Peço que se dirijam ao auditório para orientações e avisos".
—Não vou falar nada que vocês já não saibam. -Blar imitou a voz da diretora em meu ouvido, e rindo fomos até o auditório.
Realmente, depois de estudar quatro anos aqui, nada do que ela disse durante a uma hora que passamos no auditório era novidade para mim. Ao final da "palestra de boas vindas", eu já escorava minha cabeça no ombro de Blar e desconfiava que ela estava dormindo. A diretora foi liberando uma turma por vez, e depois de ir ver o auditório ir se esvaziando, escutei:
—Turma 132, por favor acompanhem o professor Mello.
Dei um beijo na bochecha de Blar e levantei, pelos seus olhos vermelhos ela com certeza estava dormindo. Segui o fluxo de pessoas até o pátio, e logo reconheci alguns rostos conhecidos. Me aproximei de Emmi e seu namorado, Cristian, que me cumprimentaram de imediato. Jô logo veio se juntar a nós, ela havia cortado curto seu longo cabelo. Eu estava elogiando seu novo corte e falando como ela havia ficado bonita quando ele entrou em meu campo de visão. Ao me vez, ele abriu um sorrisinho terrivelmente charmoso. Como em um clique, várias memórias vieram em minha mente. Tanto de momentos bons quanto de momentos não tão bons assim.
—Megan? -Cristian estralou os dedos na frente do meu rosto, me fazendo sair do transe.
—O que?
—Eu que pergunto -Emmily falou. — Você estava falando do cabelo da Jô, e do nada ficou branca, parou de falar.
—Parece que viu um fantasma. -Jô completou.
—Eu preferia ter visto.
—Oi, gente. -Nem havia percebido que Henry vinha em nossa direção até ele parar em minha frente. -Qual é, Emmi, você já foi mais educada, isso é cara de receber um amigo?
Olhei para Emmi e ela o olhava com uma cara mortífera. Senti os dedos de Cristian se fecharem delicadamente em meu ombro e o ouvi dizer:
—Cara, não perturba, vai procurar a tua turma.
—Você é a minha turma. -Ele falou olhando diretamente para mim.
—Não força, Henry, sai daqui. -Emmily falou por fim.
Ele deu uma longa olhada para mim e por fim constatou que o melhor a fazer era ir mesmo. Jô se virou para mim e acariciou meu braço enquanto perguntava se eu estava bem. Só naquele momento percebi que estava paralisada. Eu não havia dito nada, mas também não havia conseguido evitar olhar para ele.
—Estou, estou bem sim. Obrigada por isso, galera.
Naquele momento, o professor nos orientou a ir ao ginásio, pois nossa primeira aula seria de educação física. A aula de educação física do último ano era a mesma para as duas turmas, isso significava, além de ter aula com Blar, passar vergonha na frente de duas turmas. Não que eu fosse um ruim, eu apenas era um desastre iminente em qualquer atividade física.
Encontrei Blar no vestuário, e ela havia guardado um armário para mim ao lado do dela. Enquanto colocávamos roupas apropriadas para a aula, contei a ela sobre meu encontro com Henry. A minha raiva por ele já havia esfriado, só havia ficado a mágoa e uma sensação de aperto no peito. Mas a raiva de Blar ainda queimava, como se a traição tivesse acontecido com ela própria.
—Eu tenho vontade de torcer o pescoço dele! -Ela exclamava enquanto demonstrava com as mãos o que queria fazer.
—Tá, como quiser. Mas antes senta aí, eu amarrar o teu cabelo. -Ela se sentou no banco e me entregou uma borrachinha para eu prender seu cabelo.
Os cabelos de Blar eram realmente lindos. Eles eram castanhos e com um brilho sem igual, lisos, mas não escorridos, pois suas pontas continham delicados cachos, e eram muito longos. Levei pouco tempo para prender seu cabelo, e menos ainda para fazer um coque desajeitado no meu.
Saímos do vestiário e a quadra estava lotada por pessoas que demoraram menos tempo que a gente para se trocar e não tinha fofoca pra colocar em dia. Vi Henry em um lado da quadra e rumei para o outro. Nos juntamos aos nossos amigos, e eu pude dar oi aos que ainda não tinha visto. Steve e Austin não haviam mudado nada nas férias, continuavam enormes e sempre com a camisa do time de futebol. Arthur e Amélia ainda se provocavam, como cão e gato, e eu me pergunto se vai demorar mais um ano para que percebam que são afim um do outro. Eu havia sentido falta da acidez de Morgan durante as férias, e ver ela dando patadas no Steve foi como me sentir em casa.
Austin estava contando empolgado uma história que havia acontecido com ele e com uma garota nas férias. Algo como ele ter levado ela para acampar e a garota ser alérgica a mosquitos, não sei, eu não estava prestando atenção. Foi quando o meu olhar cruzou com o dele. Olhos verdes que mesmo de longe faziam sua intensidade pesar. Olhos que tentavam me dizer algo, mas que eu não entendia. De repente eu lembrei de ter visto esses olhos na pista de dança, lembrei de eles terem me acompanhado até o bar e lembrei deles me olhando quando acordei ontem. Não podia ser verdade, muito azar para um dia só. Ele, então, deu um passo à frente, e outro, e veio vindo.
—Gente, vou ao banheiro, já volto. -Falei e lancei um olhar a Blar.
—Tá, vou terminar de ouvir a história. -Enquanto ela falava, olhei por cima de seu ombro, ele estava quase chegando.
—Blar, eu preciso de ajuda para fazer xixi, vem! -Ela sentiu a urgência na minha voz e não protestou quando sai correndo puxando-a.
—Sua louca, o que tá acontecendo? — Ela deu uma olhada para traz enquanto corria. -Calma, acho que o meu primo está abanando para mim.
Ela parou, mas eu segui a diante. Não sabia o que fazer, por isso me misturei ao bolo de calouros que também não faziam ideia do que estavam fazendo. Ouvi o apito da professora, o que me fez parar onde eu estava.
—Vamos jogar "queimado" para aquecer. Preciso de duas pessoas escolhendo os times. -Ela falou em uma voz bem alta para que todos a ouvissem.
Vi uma mão erguida, e quando fui ver de quem era vi que um garoto de cabelo preto havia levando o braço do cara de quem eu estava fugindo. Os dois devem ser amigos, pois após fazer isso o garoto de cabelos pretos ficou rindo e dando batidinhas no ombro do outro que parecia desconcertado. Outra mão erguida, e essa pertencia a Henry. Estranhei, pois ele nunca se empolgou muito para educação física.
—Eu começo escolhendo! -Henry gritou e apontou para mim.
Todos viraram seu olhar para ver quem ele havia escolhido, e quando viram que era eu, as conversas cessaram na hora. Eles queriam ver como eu iria reagir a isso. Achei melhor não fazer cena, e apenas cruzei a quadra com os olhares cravados em mim.
A primeira pessoa escolhida pelo time oposto foi o garoto de cabelos pretos e olhos azuis. Henry escolheu um de seus amigos, e Blar foi a escolha do outro time. Não acompanhei mais as escolhas e fui me sentar na arquibancada onde planejava ficar até o jogo começar. Henry veio atrás de mim, sentou ao meu lado mas eu nem olhei para ele.
—Qual é a sua com o capitão do outro time? -Ele soltou na maior normalidade.
Olhei pra ele com uma cara de espantada. Droga, eu me entrego muito fácil pelas minhas reações, não sei disfarçar.
—É, o cara não parou de olhar pra você desde que chegou. Aposto que se você olhar agora, ele ainda vai estar te olhando. -Ele falou escorando as costas no banco de trás.
Realmente, ele ainda me olhava. Me levantei pra ir me juntar ao time, já havia passado mais tempo com Henry do que ele merecia. Ele pegou na minha mão, me fazendo parar.
—Espera, por favor. Posso passar depois no seu ape? A gente precisa conversar.
Puxei minha mão, tentando me soltar. Ele apertou mais forte. Eu tentei mais uma vez, queria gritar para que me soltasse, mas não consegui dizer nada. Quanto mais eu puxava, mas ele apertava. Ele repetiu sua pergunta, mas a única coisa que eu queria era sair dali.
—Hey, o jogo já começou. -Steve parou no pé da arquibancada e ficou olhando feio para Henry.
No momento em que ele libertou minha mão, eu saí. Steve me ajudou a descer no último degrau e fomos nós juntar ao time.
—Se ele te perturbar de novo, me fala, ok? -Steve falou baixinho, e eu apenas balancei a cabeça em afirmativa.
Logo quando a primeira bola foi lançada eu senti que aquele jogo não seria brincadeira. Como Henry havia escolhido o time primeiro, o garoto de olhos verdes começou com a bola. Ele havia arremessado a bola com imensa força em Henry, e se o mesmo não tivesse segurado, iria se machucar feio. Ao ver a cara que Henry fez eu soube que havia ficado realmente irritado. A bola foi devolvida com raiva, de uma forma muito agressiva, mas o garoto de olhos verdes segurou. E o jogo seguiu assim, ninguém havia pegado na bola a não ser os dois. Todos se olhavam, sentindo a pressão no ar.
Olhei para a professora, não era possível que ela deixasse isso, mas ela parecia estar se divertindo. E foi quando voltei minha atenção para o jogo que sentia o enorme impacto da bola meu corpo. A força foi tanta que ao colidir com o meu corpo que me derrubou. E eu senti dor. Muita dor. Ao cair, meu pé acabou torcendo, e isso desencadeou uma dor que queimava.
Senti alguém se ajoelhar ao meu lado esquerdo e tirar o cabelo do meu rosto, outra pessoa se ajoelhou do meu lado direito e segurou minha mão.
— Sai daqui, foi você que fez isso! -Mesmo sem abri os olhos, sabia que a pessoa do meu lado direito era Henry.
—A bola era para ti, seu covarde, não deveria ter saído da frente! -Apesar de estar tonta, tentei abrir os olhos. Quando minha vista voltou desanuviou um pouco, percebi olhos verdes preocupados do meu lado esquerdo.
—Eu não vi que ela estava atrás! -De repente Henry foi arrancado do meu lado e Blar tomou seu lugar.
Uma onda de dor fez eu me contorcer e gemer. Peguei a mão de Blar e apertei por reflexo. O garoto ao meu lado esquerdo estava falando alguma coisa, eu não sabia se era para mim ou não. Ouvi a voz da professora de algum lugar perguntar o que eu havia machucado. O garoto de olhos verdes segurou meu rosto entre as mãos e falou de maneira gentil:
—Olha pra mim, por favor, onde está doendo?
—Tornozelo. -Falei tão baixo que não sabia se ele havia escutado, mas ele olhou para baixo e falou:
—O tornozelo dela tá fora do lugar.
A professora falou algo que eu novamente não entendi. Blar soltou minha mão, e eu olhei para ela com medo, então fui erguida do chão como se pesasse 5kg. Olhei para cima e era o garoto com que acordei ontem que me carregava.
Ele saiu do ginásio que estava em puro burburinho e seguiu para o caminho que eu imaginava ser da enfermaria. A mão que antes Blar segurava agora gravava as unhas no pescoço do garoto, quando vi que estava fazendo aquilo, parei, mas ele não pareceu notar. Ele dava passos determinados, como se soubesse exatamente para onde estava indo, mas ele era novato e eu tinha medo que estivesse perdido. Foi quando ele virou de costas e empurrou as portas brancas da enfermaria que eu relaxei.
Uma enfermeira veio ao nosso encontro com uma maca. Ele me deitou delicadamente e começou a relatar o que havia acontecido.
—Chama o Dr. Clark. -Ela falou para uma segunda enfermeira que eu nem havia reparado presença.
Enquanto o médico não chegava, a enfermeira e meu acompanhante manejaram a maca até um leito. Meus olhos marejaram, mas eu me recusei a chorar. Ele pegou a minha mão e fez carinho em seu dorso. O Dr. entrou e eu me esforcei a sentar.
—Primeiro dia de aula e você já está aqui, senhorita Amorim? Vai ser um bom ano. -Dr. Clark foi o único que riu da sua piadinha infeliz. -Bom, vamos ver esse tornozelo.
Ele analisou vários ângulos, mas quando colocou a mão não aguentei e gritei.
—Parece que algo não está em seu lugar. -Ele riu. E olhou para enfermeira. -Vá buscar pomada e comprimido anestésico. -Voltou seu olhar para mim e deu uma risadinha. -Você nem sentiu a maior dor ainda.
E sem nenhum aviso prévio, o Dr. torceu meu tornozelo para o outro lado. A dor foi tanta que achei que fosse desmaiar. Escorei minha cabeça no garoto ao meu lado, e ele passou seu braço pelas minhas costas, deve ter achado também que eu iria desmaiar. Não gritei, não me mexi, apenas lágrimas silenciosas escorreram. O médico voltou a examinar meu tornozelo e ficou satisfeito. Antes de sair, acompanhado pelas enfermeiras, ele me deu um remédio e me deixou uma pomada para que eu passasse quando a dor diminuísse o bastante até não ser torturante encostar no tornozelo.
Vi meu acompanhante puxar uma cadeira para mais próximo de mim e se sentar na mesma.
—Isso deve estar doendo, né -Eu balancei a cabeça em afirmativa. -Está ficando inchado, eu quase consigo ver latejar daqui.
—Por favor, vamos falar de outra coisa, qualquer coisa que me distraia. -Logo depois de falar isso, receei que não havia sido uma boa ideia, pois ele poderia pensar que eu queria falar sobre ontem.
—Então, você vem sempre aqui? -Olhei para ele incrédula.
—Você realmente acha que estamos em um momento propício a cantadas?
—Não, não é isso. -Ele riu. -É que o Dr. falou como já te conhecesse e como se você viesse aqui com frequência.
—Ah, sim, pode ser dizer que eu não sou a pessoa mais equilibrada dessa escola.
De repente ouvimos notificações seguidas de mensagem. Ele pegou seu celular do bolso, desbloqueou e disse:
—Blar quer saber como você está.
—Blar? -Eu provavelmente fiz uma cara confusa, pois ele me olhou esperando que eu completasse. -Só não sabia que vocês se conheciam.
—Ah, nos conhecemos a um tempão. 18 anos, para ser mais exato. Ela é minha prima. -Naquele momento eu percebi o quanto seria difícil evitar ele.
—Peter, certo? Estava fazendo intercâmbio.
—Isso mesmo, Camile.
—Como? -Droga, por achar que nunca mais o veria menti meu nome, havia me esquecido disso. -Ah, sim, sim, não lembrava que havia te dito meu nome, por isso estranhei.
—É, você não falou muito sobre você ontem.
—Mas vamos falar de você. -Falei no intuito de mudar de assunto. -A rápida olhada que deu ao meu tornozelo já foi suficiente para saber que ele estava fora do lugar, como fez isso?
—Tanto meu pai quanto minha mãe são médicos, e eu sempre fui muito curioso, sei muitas coisas sobre este universo. Além disso, minha mãe sempre me levava para o trabalho com ela, já vi mais ossos fora do lugar do que poderia contar.
—Que legal, e você pretende seguir essa profissão?
—Sim, não quero me gabar, mas eu tenho jeito para isso. Eu poderia, por exemplo, ter posto seu tornozelo no lugar de maneira bem mais delicada do que este tal “dr. Clark”. -Ele fez esforço para falar essa última parte bem alto, o que me fez rir.
De repente minha risada se transformou em um bocejo, e minhas pálpebras foram ficando pesadas.
-Os comprimidos que o Dr. te deu são fortes, é melhor você dormir um pouco, eu vou ficar aqui.
A voz do meu acompanhante foi a última coisa que ouvi antes de dormir.
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