Notas iniciais
Olá amoras, bom estava escrevendo está one a semanas, e finalmente ela ficou pronta. É um especial para o dia das mães, e como não estarei por aqui na próxima semana, postei hoje logo.
Espero que gostem!

Um dia você vai entender que amor de mãe não vem da barriga, vem da alma.”

Maio de 2010 – Rio de Janeiro

Por Bella

Enxerguei a luz com apenas um dos meus olhos aberto, talvez eu estivesse protelando para finalmente levantar daquele ninho quente que era o braços do meu amado marido em volta do meu corpo. O som da chuva era algo realmente pouco frequente na cidade, bom, aqui no Rio do Janeiro um dos principais estados turísticos do Brasil não costumava chover com frequência, mesmo que estivéssemos nos aproximando de uma época do ano em que a chuva deveria ser inevitável. Sorri, voltando a fechar o olho, já sentindo o calor dos beijos de Edward por meu pescoço.

—Você já deveria estar de pé... — apenas deixei o arrepio passar por minha pele. O seu sotaque britânico causava essa sensação em mim.

Edward e eu nos conhecemos quando ele veio até o meu país de origem para resolver alguns negócios na filial de sua empresa de marketing, isso foi a cinco anos, eu era apenas uma estudante de relações públicas na época, mas a atração foi instantânea, foi impossível não nos aventurar naquele romance e há dois anos estávamos casados e morando no Leblon. Bom, a única pessoa que não havia aceitado muito bem essa repentina mudança foi minha sogra, que tratava o filho como um bebê e não havia ficado contente em ter o seu primogênito morando do outro lado do mundo.

A decisão de termos residência fixa no Brasil partiu de nós dois, algo que sentamos e discutimos juntos já que a estabilidade de Edward aqui era um pouco menos sólida do que a minha, e toda a sua adaptação com um lugar desconhecido. Bom ele sabe falar português como ninguém e é capaz de fazer qualquer mulher molhar a calcinha com aquele sotaque sexy.

—E você também, Sr Cullen... — sussurrei já abrindo os dois olhos e me arrastando até pairar sobre ele, diante do frio gostoso, tudo o que eu queria era ficar aconchegada a ele durante o resto do dia.

Ele sorriu um pouco antes de devorar os meus lábios, sua língua procurando a minha sensualmente, enquanto eu já enfiava os meus dedos em seus cabelos revoltos e macios. O beijo não durou o que deveria, e lamuriei quando nossos lábios se afastaram mesmo que minimamente. Sorri, meus olhos percorrendo o seu rosto de anjo, ele é um homem fantasticamente lindo, seus olhos verdes eram tão profundos que faziam os dedos dos meus pés se dobrarem, já havia dito isso antes, nosso filho seria perfeito.

—Por mim ficaríamos aqui o dia inteiro, Sra Cullen... Mas eu tenho algumas reuniões e muito provavelmente a Srta Nunes irá ligar, em alguns minutos na verdade.

Assenti.

—Tudo bem, eu preciso passar na clinica e depois vou trabalhar, irei fazer um jantar romântico pra nós dois, comemorar o que com certeza a Dra. Caroline irá dizer... — me apertei a ele empolgada, hoje eu iria até a obstetra para a análise de alguns exames que eu havia feito dias atrás. Estávamos tentando ter um filho, na verdade começamos a tentar quando estávamos com seis meses de casados, sempre foi o nosso sonho, principalmente eu que não via a hora de ter um bebê para cuidar e dar amor, um pedaço meu e de Edward que traria ainda mais alegrias para nossa união. — Estou feliz, sei que essa demora é apenas pela nossa empolgação em ver minha barriga se tornar planetária. Amor, você vai acarinhar minha barriga todos os dias, não é?

—Sempre que tiver a oportunidade, acho até que você ficará enjoada...

—A disso eu tenho certeza, irei ficar muito enjoada, mas não se preocupe que não vai ser por causa dos seus carinhos. — digo sorrindo, aquilo aquecia o meu coração com apenas a possibilidade de viver o momento, imagine quando for real.

Meus dedos foram de encontro a minha barriga ainda lisa, os de Edward se juntaram aos meus e sorrimos um para o outro com carinho.

—Imagine quando ele estiver chutando, amor... — disse sonhadora.

—Provavelmente ele será um jogador de futebol.

—O que?

—Eu sempre gostei da seleção brasileira, acho que poderemos ir aos jogos juntos. — retruca com os olhos brilhantes.

—Pode ser uma menina, sabia?

—Sim, mas meninas também gostam de futebol... E eu acho isso incrível, já assisti a seleção feminina jogar.

—É verdade, tenho certeza que vocês iram fazer muitas coisas juntos. — nossos dedos entrelaçados sobre minha barriga se movem com delicadeza.

Edward fica em silencio por algum tempo.

—Baby, será que podemos ter pelo menos uns seis filhos? — diz desconfiados e não consigo segurar a risada.

—Bom, eu não sei se vou suportar a dor do parto.... Mas sempre podemos recorrer a cesariana não é mesmo? Então talvez possamos ter sim.

O sorriso de menino aparece em seus lábios, ele está tão ansioso para aquilo quanto eu, era um plano que parecia estar se arrastando para se concretizar, mas eu sentia o quanto estava próximo para acontecer, finalmente. Além disso, acho que minha sogra gostaria um pouco mais de mim com uma criança linda e fofa para chamar de neto.

—Eu acho isso excelente... mas agora minha dorminhoca linda e futura mãe dos meus seis filhos, eu preciso que você leve essa sua bunda para o banheiro agora ou não conseguirei levantar daqui hoje.

Rindo levantei da cama um pouco rápido demais e quase cai devido ao lençol preso em minhas pernas, isso arrancou algumas risadas de Edward, eu bem poderia ameaça-lo com no mínimo duas semanas sem sexo, bom isso se eu mesma conseguisse suportar aquilo.

Tomei um banho quente, afinal o friozinho da manhã estava presente e gelando a ponta das minhas orelhas. Vesti uma lingerie azul celeste e optei por uma camisa de manga longa leve, já que poderia até estar chovendo agora, mas no que eu conhecia aquela cidade, logo logo esquentaria. Estava abotoando minha calça jeans skinny quando senti mãos um pouco geladas em minha cintura, o cheiro amadeirado do seu perfume foi o suficiente para que eu ficasse um pouco tentada a lhe jogar na cama e recomeçar o que fizemos na noite passada.

Ele como sempre estava lindo, vestia uma calça social cinza e uma camisa de botões branca, sexy demais. Sorri já virando o meu corpo ficando em frente do seu.

—Não se atrase pro jantar... — murmuro e entrelaço meus braços em seu pescoço.

—Pode deixar Sra Cullen. — seu sotaque era a minha perdição. Por sorte ainda não havia passado batom ou isso seria perda total. — Eu amo você.

—Eu também te amo, muito. — sussurrei já com os meus lábios junto aos seus, macios e molhados. Foi apenas um encostar de lábios, mas tão delicioso quanto todos os beijos que trocamos e tudo isso só me fazia deseja-lo ainda mais.

—Você está me atrasando, Sra Cullen. Preciso mesmo ir. — rir um pouco soltando-me de nosso contato. — Você é irresistível demais, nossa, socorro.

Foram as suas ultimas palavras antes de me deixar parada no meio do quarto com uma vontade louca de ficar em seus braços. Suspirei e voltei a missão de me arrumar, estava com aquele frio na barriga que acontece quando você está ansiosa ou nervosa, ou talvez um dos dois. Com saltos baixos, maquiagem leve e cabelos soltos finalmente peguei minha bolsa.

—Já vai dona Bella?

Maria já estava a postos na sala tentando por ordem na bagunça que estava se acumulando. Ela trabalhava para Edward e eu a um ano e era a nossa salvação para lidar com os dias de desordem naquele apartamento. Nós temos sorte em tê-la sempre por perto, além disso, ela também era uma pessoa fantástica, por quem tínhamos um carinho especial.

—Sim, vou na clínica... É hoje Maria, vou me consultar com a Dra Caroline, tenho certeza que volto com uma ótima noticia e logo vamos ter um pequeno ou pequena Cullen correndo por essa casa.

—Oh, isso é maravilhoso. Boa sorte, dona Bella.

—Obrigada... E ah, não precisa preparar o jantar, vou cozinhar para Edward hoje. — dou uma piscadela em sua direção e vou a caminho da porta.

Dirigir até a clínica não foi fácil, as ruas molhadas e o trânsito caótico contribuíram para que eu me atrasasse um pouco mais para a consulta. O lugar não ficava muito longe do apartamento, então eu deveria chegar bem rápido, claro que se o trânsito aquela hora da manhã ajudasse.

Luana a garota da recepção estava como sempre vestida com seu impecável uniforme azul e tinha um sorriso no rosto que aumentou de tamanho quando me viu.

—Olá Bella.

—Olá, estou bastante atrasada não é mesmo? — dou um sorriso amarelo.

—Não, na verdade a Dra Caroline chegou a pouco tempo... Eu vou registrar que já chegou. — assenti enquanto entregava a carteira do meu seguro saúde para ela.

A clínica era pequena, mas bastante aconchegante, certas vezes me perguntava se não parecia com o spa que eu frequento vez em quando. Luana avisou que eu deveria esperar um pouco, logo a Dra Caroline me chamaria. Sentei em uma das cadeiras confortáveis ali, bem ao lado de duas grávidas que pareciam estar trocando dicas. Sorri para elas que estavam aparentemente felizes por motivos óbvios. Me envolvi um pouco na conversa com ambas, estavam ali para mais uma consulta de pré-natal e aguardavam a enfermeira chegar, já que devido a chuva estava demorando um pouco.

Assim quando uma mulher baixinha de cabelos longos deixou o consultório da Dra Caroline, ela pediu para que eu a seguisse. Estava com um sorriso esticado nos lábios demonstrando o quanto estou contente, sentei a sua frente já entregando os papeis a médica que também sorria.

—E então Isabella, como está? — indaga já analisando os papeis, a Dra Caroline é uma senhora que provavelmente não havia chegado aos seus quarenta anos, loira e bastante bonita.

—Muito bem, confesso que não dormi muito ontem a noite só pensando na nossa consulta de hoje. Estou ansiosa sabe, é o sonho da minha vida, quero dizer da vida do meu marido também, acredita que ele quer ter seis filhos? Na verdade eu também quero, não vejo a hora de ouvir o chorinho do meu filho e de vê-lo me chamar de mamãe, ou então de amamenta-lo, as pessoas dizem que é magico esse momento... deve ser mesmo, a sensação de colaborar para uma vida ainda tão frágil e dependente...

—Isabella? — a médica chama a minha atenção, percebo que estou tagarelando sem parar.

—Desculpe!

—Tudo bem, querida. Não precisa pedir desculpas... Entendo que você está eufórica e ansiosa, mas... — ela suspira e eu me sinto repentinamente amedrontada, ela está séria e os seus olhos não refletem nada além de compreensão. — Precisamos conversar.

—Certo... — agora minhas mãos tremiam um pouco.

—Primeiro quero que saiba que nada do que direi aqui deverá te desanimar, certo? Preciso de você entusiasmada da forma que está, porque, Isabella... isso não é o fim do mundo.

—A senhora está me assustando...

—Tudo bem, pelos seus exames eu consegui verificar que você possui uma má formação uterina, mais especificamente um útero unicorno. Bom, é como chamamos o fato do útero da mulher ter metade do tamanho de um útero normal... — franzi o cenho enquanto a ouvia. — Bom, é bastante raro, mas acontece, geralmente por fatores genéticos ou semelhantes, que as mulheres só descobrem na fase adulta.

—Então por causa disso eu não engravidei esse tempo todo, quer dizer, eu... — digo hesitante e agora não quero fitar minha médica.

—Esse problema não à impede de engravidar, Isabella... Acredito que a causa principal para que você não tenha conseguido gerar uma criança até agora seja devido a sua ansiedade, muitas mulheres desconhecem o fato de que a ansiedade e o estresse contribui para que o processo de fertilização seja mais demorado que o normal, principalmente de forma instantânea. Então não, a anomalía em seu útero não causa a infertilidade...

—Sendo assim eu posso ter filhos? Preciso apenas controlar a minha ansiedade? — sorri um pouco mais calma, mas mesmo assim a médica apenas me encarou.

—Infelizmente não é tão simples assim, uma gravidez no seu caso requer um tratamento bastante metódico e eu preciso deixar claro os riscos de uma gestação em seu caso... — ela sorri minimamente como se quisesse me passar confiança. — Sua gravidez seria complicada, o espaço do seu útero não é o tradicional, ou seja, o espaço mínimo em seu útero pode ocasionar em abortos espontâneos, partos prematuros e morte fetal.

A ultima informação me abala, me deixa ainda mais trêmula do que já estava. O que eu havia feito de errado? Tudo que sempre quis, sonhei e pedi era um filho gerado por mim e agora era como se um balde de água gelada estivesse sendo jogada sobre minha cabeça.

Meus olhos a aquela altura já ardiam pelas lágrimas, eu queria ir embora, tentar buscar em minha mente o que de tão ruim eu havia feito para receber aquela noticia, triste e melancólica. Meu coração parecia se partir em dois.

—Isabella, nós vamos dar início a um tratamento e vamos buscar uma forma de manter o feto em seu útero, mesmo que leve tempo tenho...

—Como assim levar tempo? Doutora, a senhora não precisa tentar me enganar, eu sou incapaz de manter uma criança no meu útero defeituoso, sou estéril não é? É o simples fato de que nunca poderei ter uma criança, por que, por mais que consiga ela irá sofrer, tendo que ser mantida na UTI por sabe-se Deus quanto tempo... Tudo que sempre quis era gerar uma criança e fazê-la feliz, não a manter no sufoco e sofrendo por problemas com o meu útero doente.

—Isabella, podemos sanar suas duvidas e...

—Não, eu só quero ir embora... Por favor. — murmuro com minha mente divagando, estou com meu coração pesando em meu peito, como se eu tivesse acabado de ganhar uma punhalada e havia sido exatamente isso, recebi uma punhalada da vida.

A médica assentiu tão impotente quanto eu e me entregou aqueles papéis imbecis, papéis estes que comprovavam a minha incapacidade de gerar uma vida. Que detalhava o meu novo inferno particular. Guardei-os na bolsa de qualquer jeito, não me importava em amassa-los já que eles não teriam mais finalidade alguma, além de decepcionar o sonho de alguém.

Precisei suportar a vontade que tinha em derramar lagrimas na frente das futuras mamães de barriga planetária que tinha sorrisos no rosto. Eu nunca saberia como seria ter uma barriga planetária, não sentiria a sensação, simples e obvio, eu era incapaz de gerar um fruto de amor e dedicação. Que merda de jogo era aquele, me sentia ainda mais inútil com a imagem de tantas mulheres férteis e felizes passando em minha cabeça como um filme.

Percebi que a chuva havia dado lugar ao sol, como era típico de vários lugares em meu país. Não que eu estivesse me importando na possibilidade de caminhar na chuva até um lugar qualquer, nem mesmo me importei em pegar o meu carro estacionado em frente a clínica, naquele momento eu só queria pensar e fazer isso dirigindo não era uma boa combinação. As pessoas passavam por mim desligadas do mundo ao redor, não se importavam com o que estava afligindo a vida das outras, nos importávamos apenas com nós mesmos. Caminhei com meus saltos pelas calçadas ainda molhadas e apenas o fato de que eu nunca realizaria o meu maior sonho, passava pela minha cabeça como um fantasma. Talvez eu nunca mais me recuperasse do balde de água gelada que havia recebido hoje, mas não conseguia evitar aquele buraco que havia se formado em meu peito, me senti uma estranha em meio a tantas mulheres que nunca saberiam o que é ser infértil, o que é ter o sonho de gerar um bebê em seu ventre e não conseguir, elas não tinham um útero inútil como o meu.

O verde de algumas árvores chamou a minha atenção e percebi que estava em uma praça movimentada próximo a praia. Algumas pessoas estavam aproveitando o surgimento do sol para se exercitar e eu caminhei até um dos bancos de assento seco espalhados pelo espaço. Fiquei com os olhos focados no nada, minha bolsa descansando em meu colo. Eu devo ter me desligado por um longo tempo, mas não o suficiente para não ouvir o som do meu telefone tocar ou o choro infantil próximo.

Atraída pelo som que o bebê fazia vi uma moça de cabelos curtos, vestida com um vestido de mangas curtas liso e seus óculos de grau. O choro vinha do carrinho que estava parado a sua frente, mas ela parecia não se importar, pelo contrário sua expressão mostrava que ela não estava nem mesmo ouvindo o bebê chorar drasticamente e a mãe em mim quis pegá-lo em meu colo. Mas como eu faria isso? Provavelmente a mãe dele era ela, eu era apenas a estranha que não deveria dar palpites. Mas eu não consegui segurar a língua.

—Ele deve estar com fome. — comento olhando para o carrinho e sento ao lado da mulher. Uma manta branca cobre a criança que consigo notar que usa uma toca amarela, ajudando a esconder os seus cabelos. A mulher parece não ouvir a minha voz e apenas continua a olhar para o nada. — Moça?

Ouso tocar o seu braço para chamar sua atenção e ela apenas me olha como se eu fosse alguém de aparência duvidosa.

—Acredito que ele está com fome... — repito e ela apenas olha de mim para o bebê que continua a chorar de modo incessante.

—Não, ele comeu a pouco tempo... Ele está apenas querendo chamar a atenção. — dá de ombros despreocupada, mas não se manifesta para fazer alguma coisa.

—Ele é um bebê, acredito que não saiba o que seja chamar a atenção e bebês não choram sem um motivo. — minha voz soa um pouco rude e ela torce o nariz. — Talvez você deve-se pega-lo nos braços e nina-lo um pouco...

—Isso mesmo, ele deve estar sentindo apenas falta do calor de um colo... — uma loira aparece de repente e se inclina sobre o carrinho com um sorriso no rosto. — Como você é lindo.

—Você deveria...

—Parem de me dizer o que fazer, se estão tão incomodadas, façam vocês mesmas! — ela grita raivosa e sua voz alterada assusta ainda mais a criança.

—Você poderia pega-lo? Minha barriga não permite isso agora... — a loira pede me olhando e sua expressão demonstra que não gostou nada do jeito daquela mãe desconhecida. Analiso a barriga da loira e ela bastante elevada, assim como sonhei que a minha viesse a estar um dia.

—Claro! — um pouco trêmula levantei e fui até o carrinho onde o pequeno estava, ele mexia os pequenos bracinhos de maneira agitada e seu rostinho de anjo estava totalmente molhado pelas lágrimas, o acalentei em meus braços e passei a balançar o meu corpo de um lado para o outro, ninando aquele pequeno ser lindo e tão frágil.

—Você leva jeito... — a loira grávida admirou enquanto sentava, ocupando o meu lugar de minutos atrás.

—Ele é lindo... Qual o nome? — indaguei para aquela que deveria ser a mãe do bebê que agora havia parado de chorar.

—Daniel. — diz ainda com os olhos desfocados.

—Você é mesmo a mãe dele? — pergunto hesitante, não queria ser invasiva, mas a forma como aquela mulher lidava com aquela criança em nada lembrava uma mãe.

—Sou, sou a mãe dele. — ela me olha e parece reparar em mim. — Olha só, ele parou de chorar.

—Não parece. — a loira resmungou. — E digo isso pelo fato de que você não me parece preocupada com o bem estar do seu filho.

A mãe do bebê apenas dá de ombros como se não estivesse se importando com o que a mulher grávida ao seu lado estava dizendo e apenas se estica mais no banco.

—Está com quantos meses? — pergunto.

—Estou com seis meses e meio, logo ela estará nascendo... — ela rir, mas parece nervosa. — Qual o seu nome?

—Isabella, mas pode me chamar de Bella. — murmuro e volto a minha atenção para o bebê que por um instante resmungou fazendo uma careta.

—Sou Jessica... E o seu? — ela pergunta para a mulher de cabelos curtos.

—Alice. — diz a contragosto.

Continuo a nina-lo e o vejo sorri, doce e lento. Aquilo é uma caricia para o meu coração ferido. Me senti mãe, mesmo que por um momento e era fantástico. Sorri agraciada com aquele gesto tão simbólico e como se me chamasse encosto os meus lábios em sua testa, tão macia e cheirosa. Talvez eu devesse devolve-lo para a mãe antes que eu começasse a me apegar mais do que deveria.

—Ele parou de chorar, Alice. Você deveria pega-lo no colo... — digo me aproximando.

—O deixe no carrinho se quiser, não o quero em meu colo. — diz como se não fosse nada e vira o rosto.

—Mas é seu filho, deveria cuidar dele. — digo raivosa, aquilo era um absurdo, como uma mãe não gostaria de cuidar do seu filho. Droga, nessa hora eu me perguntava pra que ela tinha engravidado se não o queria.

—Já disse que não me importo, eu não consigo pega-lo em meu colo, não o quero perto de mim. Me obrigam a cuidar dele, mesmo eu dizendo com todas as letras que não suporto olha-lo... Algo dentro de mim odeia ser mãe, odeia ouvir o choro dele, odeia qualquer som ou cheiro que venha dele. Eu simplesmente não consigo encara-lo sem sentir esse sentimento de aversão ao fato de ter gerado ele dentro de mim. Agora mesmo eu só gostaria de sumir e nunca mais vê-lo na minha frente. — ela desabou, as lágrimas desciam de seus olhos e ela soluçava um pouco. Naquele momento eu entendi o que acontecia com Alice, ela estava rejeitando o seu filhos e isso era devido a depressão pós-parto que estava sofrendo.

—Já foi a um psicologo? — Jessica indaga tão tocada quanto eu com a reação de Alice.

—Porque todas as pessoas me perguntam isso? — diz irritada, suas mudanças de humor eram bruscas. — Sim, estou indo em todas as sessões mesmo que não tenha surtido efeito. Talvez eu apenas não o queira mesmo e repudie a ideia de ter uma criança para cuidar...

—Não acho que seja tão simples assim, você na verdade nem mesmo aceita o fato de que está com o problema e isso é um grande fator para as tentativas de ajuda serem frustradas. — Jessica diz, apenas paro para pensar em suas palavras que pareciam terem sido desenhadas para mim também.

—Como se você entende-se sobre isso, você nem mesmo deve ter problemas ou você... — ela me indica e eu franzo o cenho, ela jugava tudo muito errado.

—Eu tenho muitos problemas, na verdade, eu não os tinha antes. Eu sou orfã, fui criada pela minha avó paterna que me educou e se dedicou a mim enquanto viveu. Sempre quis ter bebês, mesmo quando ainda estava na faculdade e não tinha pretensões de casar, eu tinha o sonho de uma gravidez independente, não queria compartilhar com nenhum homem o meu filho e isso me fez buscar ajuda em uma clínica de fertilização. Fiz os procedimentos necessários e assim que me formei a dois anos, realizei a primeira tentativa para gerar um bebê, bom, não posso dizer que foi satisfatório já que fiz mais cinco novas tentativas para assim conseguir.... — ela suspira.

“Quando finalmente o meu obstetra afirmou que eu estava gravida, me senti nas nuvens, estava realizando o meu sonho e queria apenas que a minha avó estivesse aqui para compartilhar comigo o momento. A minha alegria durou até que na minha nona semana de gravidez, eu comecei a me sentir mais cansada do que o normal, com falta de ar. Confesso que aquilo me incomodou um pouco e ainda acompanhado de dores de cabeça constantes, mas marquei uma consulta com o meu médico em dois dias... Bom, não precisei esperar muito, estava no trabalho quando tive a minha primeira convulsão. Após ser levada para o hospital descobri que os sintomas da pré-eclampsia estavam se manifestando. Imaginem como foi para mim descobrir isso, meu médico estava ali, diante de mim e me olhava preocupado, não dava pra negar que aquilo era grave.”

“Ele explicou a gravidade da situação e me deu a opção de interromper a gravidez para salvar a minha vida, eu poderia arriscar ou simplesmente acabar de vez com o meu bebê, já que fantasiam que ele é uma ameaça a me matar. Mas como posso fazer isso? Ela é tudo o que sempre quis, que sempre sonhei, como desistir dela sem lutar? Então disse para ele que iria lutar por ela até o fim, não importa o que acontecer.”

—E mesmo assim você decidiu seguir a diante? — os olhos úmidos de Jéssica encararam os vazios de Alice, que parecia indiferente aos reais sentimentos que estavam fazendo Jessica optar por enfrentar as dificuldades para ter sua filha, mesmo que significasse não vê-la crescer. — Quero dizer, você talvez morra nessa história...

—Não importa, preciso fazer isso por mim e por ela, somos uma só e vou entregar nas mãos de Deus nossas vidas... sempre. — diz categórica.

—Isso é incrível, Jessica... Bom, você já é uma mãe incrível e tenho certeza que sua filha terá muito orgulho em ter você. — digo emocionada, era um gesto lindo de amor, amor entre mãe e filho.

O pequeno bebê resmunga algo em meus braços, estava começando a ficar sonolento e isso acalentava o meu coração, o seu cheirinho e o calor aquecia minha alma.

—Eu não queria um bebê, mas fui imprudente e acabei engravidando... O meu até então noivo gostou da ideia e assim que soube fez mil e um planos para nós três, como se a criança já estivesse aqui. Não me incomodava muito no inicio todo aquele cuidado e repreensões, mas depois de um tempo comecei a me sentir sufocada com as suas atitudes, eu nunca quis ter um filho e minha infância e adolescência foi regada a crises claustrofóbicas, segundo a psicologa ajudou para a minha rejeição. Minha mente associa que tudo o que penso sobre este bebê hoje é consequência de tudo o que ele me fez passar, pessoas comandando minha vida e recriminando qualquer escolha que eu viesse a fazer, eu avisei que estava enlouquecendo e em algum momento da minha gravidez eu tomei uma porrada de remédios, aquele foi o único momento em que tive sossego de verdade. — Alice suspirou por um fração de segundos, seus olhos estavam vagos.

“Eu me senti flutuar, queria apenas descansar a minha mente de tudo, fiz isso para acabar de vez com todo esse sofrimento. Talvez eu tenha sido fraca e imatura, apenas pensei em mim. Bom, o pior de tudo foi sair da inércia, parece que quando você volta do inferno tudo piora e foi exatamente isso que me aconteceu, cheguei ao ponto de nem mesmo querer encontrar ninguém, o isolamento parecia a melhor solução. Isso deixou Alex bastante frustrado, ele queria ser o pai presente, sentir o neném chutar, conversar com minha barriga como qualquer pai de primeira viagem idiota gosta de fazer, mas eu vetei tudo, qualquer proximidade, qualquer momento intimo.... E ele simplesmente desistiu, não tentou me tirar do poço, agiu com indiferença após um tempo, mas como eu poderia culpa-lo se eu mesma me afastei? Sou a idiota nisso tudo, dominada por essa coisa que não sai da minha cabeça, que me impede de viver a minha vida. E isso tudo apenas aumentou após ele nascer, vocês não entendem, eu nem mesmo consigo olha-lo por alguns segundos, não me sinto mãe.”

Seu desabafo desesperado toca o meu coração, começo a pensar em tudo o que aquela mulher precisa enfrentar, seus medos e receios. As pessoas costumam julgar aquela doença em particular como banal e totalmente sem importância, claramente nunca se sentiram como Alice, não sabem o real sentimento de ser vazia por dentro, de não querer viver.

—Eu ouço minha mãe me julgar, ouço Alex admitir que não quer me ver e tudo isso me faz ser a pior pessoa do mundo... — as lagrimas inundam seus olhos e transbordam como um mar agitado.

—Você não é Alice, você venceu tudo isso... Olha a criança linda que você trouxe ao mundo. Ele só quer ser o seu complemento, quer que você esteja por perto, por quê é isso que as crianças esperam de seus pais, que eles o cerquem de amor e carinho, de mimos e o adorem como se fossem as criaturas mais especiais do mundo. — assisto Jessica discursar enquanto pega as mãos de Alice entre as suas.

—Eu sei que não é fácil Alice, mas nada dura para sempre e se você realmente quiser ser a mãe que o seu filho precisa irá conseguir... Só precisa de calma e força de vontade, ele é tão pequeno e frágil, tudo o que você também já foi um dia. — murmuro com emoção, ela me encara por alguns instantes, com o vazio ainda fazendo parte de seus olhos.

—Mas e você, Isabella? Tem filhos? — indaga.

Paro de balançar o meu corpo, ficando imóvel deixando de ninar o delicado bebê em meus braços após a sua pergunta. Meus olhos não tem foco naquele momento, a dor a pouco adormecida retorna. Eu estava tão envolvida nas historias de vida das desconhecidas a minha frente que por um momento esqueci a minha dor, apenas me solidarizei com a delas e deixei minhas decepções em segundo plano. Mas a real dúvida era se eu gostaria de compartilhar com elas aquilo, se gostaria de expor a minha incapacidade de gerar uma criança com aquelas pessoas que nunca havia visto antes. Talvez fosse mais fácil, ajudaria quando desabafasse com meu marido sobre minha realidade incompleta.

—Eu queria, muito... Estávamos tentando, meu marido e eu, estávamos tão empenhados em conseguir. É o nosso sonho, até brincávamos em como ele seria alegre como eu e lindo como o pai, por mais que o meu marido dissesse o contrario. — rio com escárnio. — Mas eu estraguei tudo, tenho um útero doente, a minha médica apenas especificou que seria um útero de unicorno, não posso gerar uma criança nem mesmo com inseminação in vitro, essa droga de útero não aguentaria. Sabe, de todas as pessoas no mundo, eu precisava ser premiada com essa merda toda, talvez seja o meu castigo, apenas observar outras mães com seus bebês nos braços....

—Mas vocês podem adotar... — Jessica se aproxima de mim com uma expressão de compaixão.

—Eu sei, mas isso não inibe a realidade de que nunca vou sentir a minha barriga crescer como a sua, ou o meu bebê chutar e compartilhar os momentos, etapa por etapa com o meu marido... — meu rosto estava molhado, minha visão nublada. — Eu não nasci para gerar uma criança e preciso entender isso, mas quem disse que consigo?

Ficamos em silencio por alguns segundos, processando minha declaração. Era mais dificil lidar com tudo agora, com as incertezas e com as decepções, mas talvez quanto mais cedo coloca-las na mesa mais rápido elas iriam embora. Ou não!

—Irônico não? Uma mulher que daria tudo para ser mãe, outra que está arriscando a própria vida para por o filho no mundo e eu com a minha negação em amar um filho... — Alice divaga por algum tempo, perdida em suas próprias palavras.

Volto os meus olhos para o bebê que se mantém pacifico e silencioso, em seu mundo de sonhos, assim como um anjo. Aproximo os meus lábios mais uma vez de sua testa pequena e coberta por cabelinhos ralos e o beijo, cálido e suave, não quero acorda-lo, ele é lindo e sua mãe tinha sorte em tê-lo.

—Ele é o seu anjinho, Alice. Pense nisso. — me aproximo e lhe entrego a criança. Ela apenas o pega e encara, sem qualquer reação diferente, seu rosto é o espelho do vazio.

—Alice?

Ouço a voz masculina gritar, muito próxima de onde estávamos. Alice vira a cabeça na direção do homem que vem correndo até nós, está sem folego como se tivesse corrido uma maratona.

—Graças a Deus encontrei vocês... — diz ofegante.

—Não iria fazer nada de ruim, Alex. O trouxe apenas para passear. — ela se defende seca, mas o rapaz que aparentemente era bastante jovem não parece acreditar e pega o pequeno pacotinho em seus braços.

—Vamos embora... Como você está filho? — ele conversa com o bebê com carinho e aquilo me faz sorrir.

Vejo Alice apenas levantar como um robô e começar a empurrar o carrinho, mas antes nos olha com um sorriso triste, uma despedida muda.

—Alex? — Jessica o chama quando ele começa a se afastar, ainda conversando com o pequeno Daniel. Ele a olha desconfiado. — Ela precisa de você, apenas a ajude...

Ele franze o cenho diante do pedido de Jessica e apenas assente, olhando melhor para Alice naquele momento. Observo ambos caminharem lado a lado e se afastarem de nós duas. Eles formavam uma bela família, apenas precisavam de mais amor e companheirismo.

—Bom, acho que já vou... — digo.

—Bella, eu queria te dizer pra ser forte... Você pode ser feliz, mesmo que a criança não venha do seu ventre, você pode doar todo esse amor a uma criança que foi gerada por outra pessoa. — diz com carinho. — E provavelmente o seu marido irá entender.

—Obrigada! — sorrio um pouco.

—Olhe... — Ela senta mais uma vez e começa a vasculhar em sua bolsa, encontrando um pequeno bloquinho de papel e uma caneta, anotando alguns números em seguida. — Me ligue se quiser conversar, sou muito sozinha e isso inclui pouquíssimos amigos, então...

Pego o papel em meus dedos e balanço a cabeça concordando, talvez eu também precisasse de uma amiga muito em breve.

—De qualquer forma, se não ligar, espero que seja muito feliz... — deseja.

—Também, desejo o mesmo pra você e a sua filha.

Ela acaricia a barriga sorridente e eu apenas me afasto, voltando a minha realidade e o meu mundo que desabou a pouco tempo, que havia despertado um sentimento que nunca havia sentido antes, a impotência.

[…]

Um mês depois.

Minha cabeça descansava no colo de Edward, o carinho que ele fazia em meus cabelos com seus dedos estavam despertando o sono, talvez eu dormisse ali mesmo em meio as suas caricias suaves. Eu percebia que Edward estava tentando me fazer sentir viva de novo e me fazer encarar que eu poderia ser uma mãe sem precisar carregar um bebê em meu ventre por nove meses.

Acho que o fato de ele encarar tão bem a minha incapacidade ajudou para que eu não ficasse remoendo toda hora a noticia. Claro que ficou triste, calado durante alguns dias, mas mesmo assim me deu forças para seguir durante aquele mês inteiro, assim como Jessica, a amiga que fiz a algumas semanas, era uma pessoa positiva e que nunca se mostrava cansada com os meus desabafos.

—Quer que eu te leve pra cama? — indaga tentando me olhar, o filme que estávamos vendo ainda não havia acabado, mesmo que eu não estivesse prestando atenção nele.

—Hum, aqui esta tão gostoso... — murmuro.

—Você é tão manhosa, gosto disso. — rimos, logo sinto os seus lábios em meus cabelos. — Eu te amo tanto...

—Eu também te amo, demais. — devolvo com emoção e antes que eu possa me aproximar um pouco para beija-lo o meu celular toca interrompendo o momento.

Com o aparelho em mãos franzo o cenho, não reconheci o número, mesmo assim atendi um pouco duvidosa.

—Sra Isabella? — uma voz suave soa do outro lado da linha um pouco temerosa.

—Sim, é ela. Quem fala?

—Eu sou a enfermeira Ana, do hospital e maternidade Santa Lúcia, e que a Srta Jessica Castro deu entrada na maternidade a algumas horas, pediu para avisá-la... Bom, o seu médico pediu para verificar se a senhora conseguiria vir até aqui e...

—Sim, estou a caminho. — interrompo a mulher e apenas me despeço sem mais conversa, Edward me olha preocupado e apenas digo que Jessica irá dar a luz ao seu bebê e que precisava ir até a maternidade.

Edward me acompanha, solidário como sempre foi. Sabia que Jessica não tinha família, após me ver relatar várias vezes a sua historia, triste e tão bonita. Estaria mentindo se dissesse que a preocupação não estava me consumindo, Jessica ainda estava lutando até alguns dias contra a sua hipertensão e já havia dito que o médico muito provavelmente induziria o parto, para assim diminuir os riscos, mas claro que ele permanecia lá para atormentar.

Edward dirigiu até Humaitá com pressa e sempre tocando minha mão, ele me conhecia bem demais para saber o quanto eu estava nervosa, nem mesmo cheguei um dia a imaginar que me apegaria tanto a uma desconhecida, mas ela me ajudou tanto, tinha palavras de conforto em todas as horas e acabou se transformando em alguém muito querido.

Assim que passei pelas portas e após um tempo aguardando que alguém me ajudasse a encontrar onde Jessica estava, a enfermeira Ana apareceu. Era magra e com cabelos longos, tinha um olhar neutro que nada transparecia.

—Sra Isabella, o médico responsável quer vê-la... — diz e não me dá a chance de retrucar apenas fazendo um gesto para que eu a seguisse.

Os corredores do hospital estão lotados, esse era o caos que a população enfrenta todos os dias com a área de saúde decadente como a que o país possui. Sem olhar muito para nada especifico, já que estou fervilhando por noticias de Jessica, a enfermeira finalmente para diante de uma sala e apenas pede pare que eu entre. Sinto Edward em meu encalço, sua mão em minhas costas me guiando, não deixa me sentir sozinha.

Assim que entramos, um homem com cabelos brancos está sentado atrás de uma mesa de metal, ele não sorri ao me olhar, apenas indica com a mão a cadeira a minha frente.

—Sou o doutor Inácio, você deve ser Isabella... — apenas confirmo com a cabeça.

—Este é o meu marido, Edward. — murmuro e o médico olha para Edward por alguns instantes. — Como ela está? Quero vê-la...

Ele suspira e me oferece um pedaço de papel, franzo o cenho desconfiada, mas ele não me diz nada, apenas aguarda que eu o pegue em meus dedos. Assim o faço.

—O que é isso? — inquiro.

—Jessica pediu que entregasse a senhora. — diz e recosta na cadeira, me fitando.

Com os dedos tremendo um pouco abro o papel, identificando logo a letra bem desenhada de Jessica, a mesma letra que escreveu a sequência de números do seu telefone em um simples papel a um mês atrás.

“Bella, se você recebeu essa carta significa que os meus sonhos não seguiram da forma que imaginei um dia, eu deveria estar triste em estar escrevendo isto pra você, mas não estou, sei que todos terão orgulho do que fui para a minha filha. Bom, infelizmente não conseguirei ver o seu rostinho de anjo, não irei conseguir leva-la a escola em seu primeiro dia de aula, não irei ser sua confidente, não vou poder estar presente em seu primeiro aniversário ou quando ela fizer quinze anos, não conseguirei dar conselhos sobre amores e vitórias, tudo o que sempre sonhei, não poderei vê-la crescer e se tornar alguém fantástico, isso dói e nesse momento eu sinto exatamente o que você narrou tantas e tantas vezes em nossas conversas recentes, não vou poder doar o meu amor físico e sentimental para a minha filha, Bella.

Agora sim estou chorando, apenas por imaginar que isso poderá acontecer, mas mesmo assim eu quero fazer um pedido. Sei que não tenho direito, e você não precisa se sentir obrigada a faze-lo apenas por achar que deve, isso precisa ser uma decisão sua e de seu marido. Bom, gostaria que você fosse a mãe que não poderei ser para a minha Vitória, eu sei que ela ficará segura com você. Pelo pouco que conversamos sei que é uma pessoa incrível e que se dedica demais a quem ama, e sei que pode ama-la, mesmo que ela não tenha sido gerada em seu ventre, ainda assim sei que poderá ser um exemplo de amor para a minha filha, talvez nossa filha. Caso você possa atender o meu pedido Bella, saiba que serei eternamente grata a você, pela sua bondade e todos momentos sendo a amiga que sempre sonhei em ter, que durou por um breve momento, mas tenho você no meu coração e levarei onde quer que esteja.

Apenas a deixe saber que tem duas mães, uma que estará sempre presente nos momentos de sua vida com corpo, alma e coração, e outra mamãe que irá acompanha-la do céu, com todo o amor que poderei oferecer a ela, sendo o seu anjo da guarda, assim como sei que ela será o seu.

Lembre-se Bella, amor de mãe não vem da barriga, vem da alma.

Com amor, Jessica!”

As lágrimas banharam o meu rosto e senti os braços de Edward me rodearem em conforto, apenas o abracei de volta deixando o momento doloroso me dominar, eu precisava desabar um pouco, não apenas por Jessica, mas por tudo, pela vida que um dia eu julguei injusta. Passei um bom tempo apenas molhando a camisa do meu marido, para depois sair do meu estado de dor. Fitei o médico que ainda estava ali, agora respondendo algumas perguntas de Edward.

—Gostaria de vê-la... — peço com a voz baixa.

—Como eu estava dizendo ao seu marido, Vitória está na UTI neonatal e precisa de cuidados, já que nasceu prematuramente. Mas a senhora pode vê-la de longe, ela é uma pequena guerreira senhora Isabella, confesso que por um momento acreditei que ela também não resistiria, mas ela é forte mesmo sendo tão minúscula. — ouço o médico murmurar, sorrio um pouco por imaginar que Jessica teria mesmo doado toda a sua força para a sua filha.

Passamos por algumas salas até chegar ao corredor da UTI, em uma encubadora estava Vitória, não podíamos nos aproximar, mas ela parecia tão frágil e quebrável que senti uma pontada em meu peito.

—Jessica já havia declarado que não tem parentes e assim deixaria a criança para a adoção, mas antes ela procurou a assistente social aqui do hospital e relatou sobre vocês, como possíveis pais para a doce Vitória, mas ela deixou claro que seria apenas se vocês se sentissem bem com isso.

Estava concentrada demais tentando ver a pequena menininha através do vidro e o meu coração se encheu de amor, por um momento fitei Edward que permanecia ao meu lado e ele sorriu, lindo e transparente, dando-me a certeza de que ele estaria comigo no que quer que fossemos fazer. O amor que sentíamos era grande o suficiente.

[…]

13 de Maio de 2018

Querida você precisa se acalmar... — sussurrei olhando em seu rostinho lindo.

—Não consigo mamãe, preciso contar pro papai que o meu dente caiu e logo no seu dia e no da mamãe do céu. Dia das mães é tão bonito, e logo eu que tenho duas, bem lindas. — sorrio diante da sua empolgação.

Vitória era a luz das nossas vidas, sempre doce e amável, com seu jeitinho espoleta conquistava todos a sua volta. Nem mesmo parecia ter lutado pela vida quando nasceu, tinha uma vida saudável como qualquer criança da sua idade.

Ouvimos a porta se abrir e uma garotinha peralta sair correndo do quarto como se não tivesse ouvido nada do que eu havia acabado de dizer, as vezes me perguntava se Jessica teria sido assim tão teimosa, mas é claro que deveria ter sido. Sorri olhando para o céu pela janela do apartamento, quando eu olhava aquele azul lembrava da minha amiga e agradecia pelo presente fantástico que ela nos deixou.

—Você é incrível – declaro feliz.

—Mamãe, o papai falou que vai me levar ao parque, mas você precisa vir também já que é o seu dia... — ela adentra no quarto dessa vez nos braços de meu tão amado marido que me apoiou em todos os momentos. — Mas e o meu dentinho? Será que iram rir de mim?

—Claro que não querida, você está mais linda assim com essa janelinha. — Edward esclarece já salpicando beijos em sua bochecha gordinha.

—Você está chorando, mamãe? — indaga preocupada.

—Estou apenas feliz por ter você, só isso...

—Tá, só não fica triste... papai posso entregar o presente da mamãe agora? Não aguento mais esperar... — revira os olhos nos fazendo rir.

—Tudo bem, vai lá. — ele concorda e ela desce de seu colo partindo em disparada para o outro comodo.

—Não gosto de vê-la chorando... — diz com o seu sotaque lindo, que eu pedia a Deus que nunca sumisse.

—Mas é de alegria... — informo e ele me abraça por trás depositando alguns beijos em meus cabelos.

—Olha mamãe, é uma moldura com o desenho que eu fiz... — ela murmura já rasgando o papel que envolvia o porta-retratos, apenas rir.

—Você já abriu, filha. — Edward lamenta.

—Ah pai, a mamãe não liga, né? — balanço a cabeça e pego o objeto em meus dedos, era branco e delicado, dentro dele tinha um papel branco com três pessoas desenhadas em frente a uma casa e uma cabeça discreta desenhada entre as nuvens.

—Essa aqui sou eu, aqui é você, o papai e aqui é a minha mamãe do céu... ficou bonito? — ela me olha em expectativa, mas apenas consigo deixar as lagrimas rolarem, quentes pelo meu rosto. — Você não gostou?

—Eu adorei querida... — murmuro entre o choro e agarro o seu corpinho em meus braços, dedicando todo o amor que possuía em meu peito a ela, a minha luz. Edward se aproxima e nos envolve em seus braços, ali me sinto inteira, com os amores da minha vida.

[…]

Nossa princesa corre entre as outras crianças com alegria pelo parque, está feliz e isso faz com que Edward e eu nos sentíssemos da mesma forma. Ao longe penso ter visto alguém conhecido e inclino minha cabeça um pouco mais tentando visualizar a cena. Era uma mulher de cabelos curtos que sorria, enquanto um pequeno menino dançava a sua frente em meio as brincadeiras.

Mesmo distante eu a reconheci, mesmo após oito anos, Alice parecia a mesma, apenas a sua expressão era mais viva, alegre e encantada. Sorri ainda mais largo quando vi Alex se aproximar dos dois tentando equilibrar três casquinhas de sorvete em suas mãos, entregando um para cada. Pelo jeito Jessica conseguiu fazer muito mais do que imaginava.

Ela rir mais um pouco e sua cabeça vira, assim seus olhos encontram os meus e como se estivesse iluminada ela sorri feliz em minha direção, assim que Vitória se agarra as minhas pernas quase me levando ao chão, mas Edward foi mais rápido e nos segurou, abraçando a nós duas com seu improviso. Sorri para Alice, estava feliz, afinal mesmo com todas as dificuldades havíamos conseguido alcançar a felicidade, e um anjo chamado Jessica havia colaborado para que aquilo tivesse um final lindo, assim como sempre desejou.

—Acho que deveríamos começar as pensar em adotar outro filho, amor. — Edward sussurra em meu ouvido e eu sorrio, acaricio os cabelos da nossa filha e me viro um pouco para olha-lo.

—Eu vou achar incrível, afinal nós queremos seis crianças não é mesmo? Então, vamos fazer isso sim. — concordo me sentindo plena e viva.

Ele beija os meus lábios rapidamente e logo volta a dar atenção a loirinha questionadora a nossa frente. Era exatamente assim, eu entendi que não precisava ser mãe ao modo tradicional, isso não diminuiria nunca o amor incondicional que sinto pela minha Vitória, apenas se mostrou maior do que cheguei um dia a imaginar que seria. E basta, esse amor, nos basta.

Notas finais
É isso, o que acharam? A ideia surgiu a algum tempo e adorei escreve-la e espero que vcs tenham curtido tbm;

Não esqueçam de comentar, favoritar e recomendar tbm, amo vcs!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!