Moiras
6 Rota de Fuga
Jane saiu sem destino certo. Não houve tempo para detalhar um plano ou avaliar corretamente suas consequências. Quando se está submergido num mar de inseguranças, tudo o que se quer é ir à tona para respirar.
Kurt, o bebê, Roman, o coelho... variáveis impossíveis de equacionar sem um resultado negativo.
Os últimos meses de trabalho no FBI ofereceram a Jane uma rede de possibilidade para deixar o país por transportes não convencionais e dificilmente rastreáveis por Patterson. O ponto de chegada não seria bem uma escolha. Ela só tinha uma exigência: distância, o mais longe que seu dinheiro e rede de contatos pudesse levá-la.
Impulsionada por seus instintos, ela chegou ao Nepal. Parou numa aldeia isolada no alto de uma montanha. Acolhida pelos monges sem ter que prestar contas sobre quem era ela, ali encontrou a possibilidade de tentar conter o tornado que devastava sua alma. Se ela tivesse uma escolha, uma única escolha naquele momento, seria a vida e a saúde do seu bebê.
Ilusão... Foco no que você pode controlar!
Ela não sabia quanto tempo levaria para que o bebê fosse afetado pelos efeitos nocivos da radiotividade nela, mas estava decidida a conter seu medo, seu desespero e sua tristeza para dar a ele todo o acolhimento e amor que uma criança merece. Para isso, ela precisava esconder as possibilidades de si mesma. Sua distância afastaria Roman de Kurt. Ele estava seguro, era forte e iria superar.
Deus, como isso dói.
Meditações, caminhadas e o tempo ofereceram o caminho para aprender a controlar a dor. Pena não terem o mesmo efeito sobre a saudade...
Os meses foram passando e a gravidez foi se tornando perceptível. As primeiras vibrações no pé da barriga não foram identificadas imediatamente com o bebê. Com o aumento de sua frequência e intensidade, Jane compreendeu que era ele ali. Isso lhe trouxe um raio de felicidade onde ela já não imaginava mais ser capaz de brotar qualquer tipo de alegria.
Ali, isolada do mundo e da realidade, Jane podia fingir que aquela maldita substância radioativa nunca foi injetada nela e que a conversa com Patterson nunca aconteceu. Ali, ela podia sonhar que o bebê dentro dela crescia forte e saudável.
20 semanas. Não eram apenas tremores agora. Ela podia sentir cada movimento do bebê. Era como se ele retribuísse todo o amor que ela dedicava a ele. Impossível não recordar a primeira vez que viu Kurt com sua filha nos braços. Foi a cena mais linda que ela já tinha visto. O sorriso no rosto dele e o carinho com o qual tocava Bethany foi inesquecível. Desfrutar dos momentos de Kurt com a bebê tinha feito o amor de Jane por ele aumentar ainda mais. Ela estava certa desde o começo: ele era um ótimo pai.
Nesses momentos, ela sentia um aperto forte no peito. Ela tinha separado Kurt de seu segundo filho. Esse bebê que ela carregava não podia sentir o carinho de seu pai, ouvir sua voz...
Talvez, se eu tivesse contado a verdade, ele estivesse aqui conosco. Mas afastá-lo de Bethany? E Roman poderia nos encontrar aqui também. Se eu cheguei até aqui, Ian também pode fazê-lo. Não! Kurt está seguro em Nova York, ele pode reconstruir sua vida e ser feliz com sua filha. Eu sinto muito, baby, muito mesmo...
Com 23 semanas os movimentos do bebê diminuíram sensivelmente.
Será que já está ficando apertado aí dentro?
No final da 24ª semana, pararam completamente e as contrações começaram. Quase 48 horas depois, Jane ainda não tinha sido capaz de expelir o feto que estava em posição pélvica. As mulheres da aldeia se reuniram dentro da tenda, ao redor de Jane, entoando canções milenares, enquanto a mais velha monja se posicionou atrás dela dizendo:
— Shenpa, Jane. Você sabe que precisa deixá-lo ir.
O canto suave e a docilidade com que as palavras eram sussurradas em seu ouvidos e se misturavam com as ondas intermináveis de dor das contrações, foram fortalecendo Jane e ajudando-a a permitir que o parto acontecesse. Assim que o bebê saiu, uma das mulheres o envolveu num xale e o entregou a Jane que o recebeu como se ainda vivesse beijando sua cabecinha e acariando seu rostinho.
Meu menino, como você parece seu pai. Obrigada por tudo. Eu te amo e vou ficar bem.
Entre as mulheres presentes na tenda estava uma Angolana recém-chegada. Ainda bem jovem, Aduke estava viajando pelo mundo para conhecer diferentes culturas. Extasiada com o momento, ela não se conteve, puxou seu celular e tirou algumas fotos.
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