Moira

9 Pequenos Nós (Parte 1)


Notas iniciais
Boa noite! Espero que estejam bem. Vamos ao capítulo.

As seis semanas que seguiram a partida de Gale foram uma loucura por vários motivos. O primeiro deles era que, por mais que tentasse culpá-lo ou sentir raiva dele, eu simplesmente não conseguia. E aquilo me irritava ainda mais. Porque, no fim, a falta de explicações doía mais do que a partida em si.

De algum modo teria sido mais fácil ouvir que ele não me amava mais. Que tinha desistido de nós. Qualquer verdade teria machucado menos do que o silêncio, menos do que o fato de ele simplesmente não ter aparecido naquela noite na rodoviária mesmo sabendo todos os riscos que corri ao sair escondida da mansão.

Riscos que incluíam Prim.

E um possível afastamento definitivo entre nós duas caso meu avô descobrisse. Por outro lado, eu também não tive muito tempo para pensar durante aquelas semanas. Porque não foi apenas Effie Mellark que comentou sobre a escolha da data do casamento.

Meu avô também fez questão disso, mas ao contrário dela ele não deixou muita abertura para adiamentos. Então Peeta marcou um encontro poucos dias depois da festa da colheita para conversarmos sobre o assunto e, mesmo que ele tenha pedido minha opinião sobre as datas possíveis, eu não tentei prolongar nada. O casamento era inevitável agora. Adiar só faria meu avô pressionar ainda mais.

E no fim decidimos por um intervalo de apenas três meses até o casamento. Tempo que Effie considerou uma missão quase impossível, afinal tudo seria organizado às pressas. Dessa forma a semana seguinte acabou sendo marcada por idas constantes à igreja. Reuniões rápidas depois das missas da tarde.

Assinaturas e documentos.

Conversas sobre padrinhos, leituras e os detalhes da cerimônia religiosa que Effie parecia considerar assuntos de extrema importância enquanto meu avô apenas perguntava se tudo estaria pronto até a data marcada.

Também foi preciso resolver os documentos de batismo, confirmar registros familiares e organizar os encontros obrigatórios para noivos que aconteceriam ao longo das semanas seguintes na sala paroquial atrás da igreja principal de Thalessi.

Effie apareceu no primeiro deles carregando uma pasta muito organizada que fez o padre rir discretamente e logo depois que a data foi oficialmente marcada ela começou a telefonar quase todos os dias para meu novo aparelho celular.

Um presente do meu avô junto com um número novo, já que segundo ele, seria “mais apropriado” agora. No começo Effie ligava apenas para perguntar coisas simples.

Flores, doces e convites.

Mas bastou a primeira visita dela à mansão para tudo sair completamente do controle. Sentamos na sala, junto com Mags para conversar sobre os preparativos ainda inexistentes da recepção. Duas horas depois havia amostras de tecido espalhadas pelos sofás, catálogos abertos sobre a mesa de centro e Effie falando sobre arranjos de flores como se estivesse organizando um casamento de uma celebridade.

Ninguém mais conseguiu colocar um freio nela depois disso.

Então, menos de três semana após ver meu verdadeiro namorado partir da cidade, me vi completamente atolada em preparativos para meu casamento com Peeta Mellark. Era comum a noiva usar o vestido da mãe, mas não tinha essa opção então Effie decidiu quase imediatamente que eu precisava de um vestido exclusivo.

Então chamou um estilista de Atenas chamado Cinna para vir até a cidade. Segundo Prim, ele era praticamente uma celebridade no mundo da moda e fazia vestidos para esposas de políticos e mulheres famosas de Atenas.

Sinceramente, não dei muita importância até conhecê-lo, mas bastaram poucos minutos observando os desenhos espalhados diante dele para entender por que elas parecia tão obcecada pelo trabalho daquele homem.

Cinna era absurdamente talentoso e surpreendentemente gentil. Portia, a estilista responsável pelas roupas masculinas que trabalhava ao lado dele havia anos, também parecia genuinamente animada com o casamento. Os dois conheciam os Mellark fazia muito tempo e pareciam felizes por finalmente terem um motivo para passar alguns dias em Thalessi.

Cinna ficou quase uma semana inteira na cidade, tirando medidas, escolhendo tecidos. Alterando detalhes dos desenhos enquanto Effie e Prim davam opiniões sobre praticamente tudo. A única coisa que pedi foi que tivesse detalhes em renda, pois achava realmente bonito.

E no final ele conseguiu criar um vestido que realmente gostei. O que imediatamente transformou Effie em uma ameaça ainda mais perigosa na organização. Porque agora ela tinha certeza absoluta de que estava certa sobre o que eu queria.

Obviamente o vestido era apenas uma pequena parte do problema já que existiam as escolhas dos músicos, das louças, toalhas, arranjos.

A escolha do local onde aconteceria a recepção, os lugares nas mesas, as stefanas da cerimônia, as taças da igreja, o coral. O hotel onde ficariam os convidados, afinal a maior parte da família dela viria de longe e precisava de hospedagem.

Ah a lista de convidados, Peeta chegou a sugerir algumas vezes uma cerimônia menor e mais íntima. Mas tanto Effie quanto meu avô ignoraram completamente a ideia. Ela porque não pretendia deixar nenhum parente mesmo que distante de fora da lista e meu avô porque fazia questão de transformar o casamento em um evento social com todas as famílias influentes da região.

Ele queria que toda a cidade visse o casamento da neta. Queria mostrar que tinha conseguido um bom casamento para a filha de um estrangeiro. Então, no fim, a cerimônia cresceu até alcançar quase quatrocentos convidados, mais da metade intitulados como da noiva e dos quais eu provavelmente conhecia de fato menos de dez.

E em meio a toda aquela loucura ainda existia a faculdade e a sensação constante de que minha vida estava acontecendo rápido demais para que eu conseguisse acompanhar.

“Delly, liga pro Peeta novamente, por favor.” Effie pediu pela terceira vez nos últimos trinta minutos, já claramente impaciente.

Estávamos na confeitaria mais conhecida da cidade, a mesma que ficaria responsável pelo bolo e pelos doces do casamento. O lugar inteiro cheirava a manteiga, mel e café fresco enquanto bandejas de baklava, kourabiedes e pequenos doces folhados ocupavam praticamente todas as vitrines.

“Ele já está chegando.” A loira respondeu alguns minutos depois sorrindo como se a impaciência de Effie não fosse absolutamente nada demais.

Delly Cartwright, pelo que soube, trabalhava para os Mellark há alguns anos e embora fosse bem jovem devia ter por volta de vinte e cinco anos. Assumiu o lugar da mãe na casa da família depois que ela faleceu, três anos atrás. Era bonita, simpática e parecia ter experiência suficiente para lidar com os Mellark em qualquer situação possível. Nas últimas semanas vinha acompanhando quase todos os preparativos do casamento com naturalidade.

“Desculpem o atraso.” Peeta apareceu na porta da confeitaria com toda tranquilidade do mundo como se não estivesse mais de meia hora atrasado. Sorriu ao cumprimentar Greasy Sae com um aperto de mão antes de beijar o rosto da mãe e de Delly, que estavam sentadas mais próximas da entrada. Depois veio diretamente até mim.

E beijou minha testa com naturalidade, nossa relação havia mudado aos poucos nas últimas semanas. Pequenos toques e gestos discretos. A proximidade cuidadosa de duas pessoas tentando aprender a conviver antes mesmo do casamento acontecer.

Sempre que podia ele ia me buscar na faculdade e em alguns finais de semana acabávamos saindo para caminhar pela cidade ou almoçar em algum restaurante perto da praça ou em Kallisttria. Na maioria das vezes Prim nos acompanhava porque meu avô considerava inadequado que ficássemos completamente sozinhos, o que sinceramente não fazia o menor sentido.

Peeta jamais tinha feito qualquer coisa que me deixasse desconfortável, muito pelo contrário. Desde que nos conhecemos ele parecia excessivamente cuidadoso comigo, sempre tentando me incluir em decisões que, segundo meu avô, sequer deveriam passar pela minha opinião. Ele não costumava telefonar, mas mandava mensagens perguntando sobre meu dia.

“É deselegante se atrasar, Peeta.” Effie reclamou imediatamente. “E você está mais de meia hora atrasado. Não foi essa a educação que eu te dei.”

“Desculpa, mãe.” Ele puxou a cadeira ao meu lado. “Alguns problemas surgiram no restaurante.”

“Seu pai sabia que tínhamos compromisso hoje.”

“Ele estava ocupado.” Peeta respondeu calmamente antes de olhar para as fotografias espalhadas sobre a mesa. “Mas então vamos aos bolos.”

“Katniss escolheu o modelo principal.” Ela recuperou toda a animação quase instantaneamente. “Mostra pra ele, querida.” Peguei a fotografia e entreguei a ele.

“Esse vai ficar na mesa principal”, explicou Greasy Sae enquanto Peeta observava atentamente a imagem.

Era um bolo clássico de três andares, branco, decorado com flores delicadas de açúcar e detalhes dourados discretos que Effie chamou de elegante e atemporal.

“É bonito.”

“Se você quiser podemos olhar outros”, sugeri embora sinceramente não tivesse forças psicológicas pra analisar mais modelos de bolo depois das horas que Effie me fez passar escolhendo flores de pasta americana.

“Se você gostou desse, então está ótimo.” Ele apoiou um braço na cadeira antes de completar. “Pra ser sincero, eu estou mais interessado no sabor.” Aquilo fez a doceira sorrir imediatamente.

Os minutos seguintes foram ocupados por uma quantidade absurda de degustações.

Nozes com mel, pistache, frutas vermelhas, creme de baunilha, laranja com canela, chocolate com avelã. E depois de experimentar praticamente metade da confeitaria, Peeta finalmente perguntou o que claramente queria perguntar desde o começo.

“A massa não pode ser de chocolate?” Effie interrompeu lentamente a conversa que estava tendo comigo sobre os recheios.

“O tradicional é massa amêndoa e nozes, querido.”

“Mas então pode ser de chocolate?” Ele repetiu como uma criança insistindo pela segunda vez na mesma pergunta. Precisei desviar o olhar pra esconder o riso.

Ele parecia realmente obcecado por qualquer coisa feita de chocolate.

“O que você achou desse de laranja, Katniss? Eu adorei.” Ela ignorou completamente o filho.

“É bom.” Assenti devagar. “Esse de frutas vermelhas também está ótimo.” Algo que aprendi nas últimas semanas era que precisava demonstrar participação suficiente ou ela insistiria na minha opinião por horas.

“Agora imagina isso com chocolate.” Peeta insistiu.

“Essa massa é ótima.” Respondi de forma neutra. Algo me dizia que Effie não pretendia ceder.

“Por que a Prim não veio? Ela concordaria comigo.” Sem dúvida concordaria, minha irmã provavelmente aceitaria chocolate até no jantar do casamento.

“Está na aula de etiqueta.” Me esforcei para não revirar os olhos. “Ela queria vir, mas meu avô foi irredutível.”

“Peeta, o recheio de chocolate com avelã ficou maravilhoso.” Delly comentou tentando ajudar. Ainda assim ele continuava claramente inconformado com a massa tradicional.

“Mãe, você me fez sair do restaurante no meio do expediente, me esperou por meia hora pra nem me deixar opinar no bolo? Eu sou o noivo.”

“E está opinando no recheio e nos doces.” Effie respondeu imediatamente. “Você pode escolher quantos doces de chocolate quiser que sejam servidos, mas não vamos transformar o bolo principal em sobremesa de aniversário infantil.”

“Não é infantil.”

“Meu bem, seja razoável.” Ela suspirou. “É um casamento, não uma festa de aniversário. Se quiser, eu compro um bolo de chocolate pra sobremesa de hoje, mas não vamos mexer nisso.”

“Você está sendo preconceituosa com chocolate.”

“E você está sendo dramático.”

“Peeta, não seja mimado.” Delly tentou contendo o riso.

“Eu não sou mimado.”

“Claro que não.” Ela apoiou o rosto na mão. “Você só está discutindo há varios minutos por causa de massa de bolo.”

“Porque ninguém aqui respeita minha opinião. Me deem um terno e me mandem aparecer no dia então.”

“Dramático.” Delly murmurou.

“Você tá concordando com a minha mãe só pra ganhar pontos.”

“Eu não preciso ganhar pontos.”

“Precisa sim.” Ele estreitou os olhos.

“Você chegou atrasado e querendo destruir tradições.” Acabei prendendo o riso observando a discussão dos três, existia alguma coisa estranhamente confortável naquela dinâmica.

Effie reclamando sem realmente estar irritada, Delly provocando Peeta sem o menor receio mesmo ele sendo tecnicamente o chefe dela e Peeta discutindo sobre chocolate com a mesma seriedade de alguém debatendo um assunto realmente importante.

Por alguns minutos parecia uma conversa normal, uma família normal organizando um casamento normal. Depois de mais alguns minutos de discussão, enquanto Greasy Sae se afastava discretamente para buscar mais café, acabei falando antes mesmo de pensar direito.

“E se tivesse um bolo separado?” Os três olharam pra mim ao mesmo tempo.

“Separado?” Effie repetiu imediatamente interessada.

“Eu vi em uma revista de casamentos.” Dei de ombros. “Alguns lugares estão fazendo um bolo menor só pro noivo. Algo mais informal, mas que represente ele.” Minha futura sogra pareceu considerar a ideia na mesma hora. “O principal continua tradicional”, continuei. “Mas esse outro pode ser diferente.” Peeta virou o rosto na minha direção claramente atento agora.

“Acho que chocolate representa bem você.” O sorriso que apareceu no rosto dele foi imediato, sincero o bastante pra me fazer sorrir de volta antes mesmo que eu percebesse.

“Viu?” Ele olhou imediatamente para a mãe. “Katniss entende minha visão.”

“Eu não chamaria isso de visão.” Delly murmurou divertida.

“Mas um segundo bolo pode funcionar.” Effie começava a pensar em voz alta. “Principalmente perto da mesa de doces. Algo menor… elegante… talvez com detalhes dourados pra combinar com o principal.”

“E chocolate.” ele acrescentou na mesma hora.

“Sim, Peeta.” Ela suspirou como alguém extremamente cansada. “De chocolate.” Greasy Sae voltou à mesa naquele instante equilibrando uma bandeja com pequenas xícaras de café e mais alguns pratos de degustação.

“Então temos um acordo?” ela perguntou sorrindo.

“Temos.” Effie respondeu antes que qualquer outra pessoa pudesse falar. “Um bolo principal de massa tradicional e um bolo menor de chocolate pro noivo não começar uma revolução antes do casamento.”

“Eu sabia que você me amava.”

“Não me faça mudar de ideia, Peeta.” Acabei sorrindo outra vez, abaixando o olhar para a xícara entre minhas mãos.

Seguimos experimentando os doces e, no fim, a escolha acabou saindo mais como uma variedade exagerada de opções do que qualquer decisão realmente organizada. Ainda assim, algumas escolhas de chocolate foram incluídas exclusivamente para evitar futuras reclamações do loiro.

“Quer que eu deixe vocês em casa, mãe?” Ele perguntou enquanto nos levantávamos da mesa.

“Estou de carro, não se preocupe.”

“Então vou levar Katniss em casa antes de voltar pro restaurante.” Nos despedimos e segui ao lado dele até o carro agora conhecido.

Thalessi parecia estranhamente tranquila naquele horário, o sol fraco de novembro já começava a desaparecer atrás das montanhas ao longe e o vento do fim da tarde soprava mais gelado do que nas semanas anteriores.

Algumas pessoas ainda ocupavam as mesas externas dos estabelecimentos e, por um instante, tudo pareceu calmo demais para a quantidade de mudanças acontecendo ao meu redor.

Peeta abriu a porta do carro para mim como de costume, um gesto pequeno e rotineiro. Esperei até ele fechar a porta antes de puxar o cinto, e só então ele deu a volta entrando no banco do motorista.

“Como foi sua semana?” perguntou enquanto saíamos devagar da rua principal. “Minha mãe comentou que você praticamente passou os últimos dias resolvendo coisas do casamento.”

“Não esperava que escolher flores, toalhas e o cardápio da recepção fosse tão demorado.”

“Parece cansativo.”

“Provavelmente não tanto quanto parece.” A mão dele deslizou devagar pelo volante, era estranho como conversar com ele parecia mais fácil a cada dia. De certa forma já não parecíamos dois estranhos presos em conversas cuidadosamente moldadas. Às vezes conseguíamos parecer apenas duas pessoas normais dividindo assuntos rotineiros. “E a viagem?” perguntei depois de alguns segundos. “Espero que tenha corrido tudo bem.”

“Correu.” Ele assentiu. “Finalmente encontramos um gerente pro restaurante novo.” Havia um evidente alívio na voz dele. “Confesso que o antigo gerente pedir demissão tão perto da inauguração quase me fez entrar em pânico.” Continuou. “Mas depois de dois dias inteiros de entrevista acho que encontramos alguém que realmente vai dar conta do desafio.”

Observei ele enquanto falava. Peeta nunca parecia desconfortável em conversar comigo sobre trabalho e sobre problemas reais. Aquilo ainda me surpreendia já que meu avô raramente falava qualquer coisa relacionada aos vinhedos ou aos negócios da família perto de mim.

“Isso é bom, eu acho.”

“É ótimo.” Ele soltou um pequeno suspiro cansado antes de apoiar melhor uma das mãos no volante. “Porque eu realmente não queria passar as próximas semanas indo e vindo de Atenas.”

“Imagino.” O silêncio que veio depois não foi desconfortável, só tranquilo.

“Sinto muito por precisar passar boa parte dessa semana fora.” Ele comentou depois de alguns segundos. “Minha mãe está muito empolgada com as coisas do casamento e eu sei que ela pode acabar sendo intensa.”

“Essa é uma forma educada de falar sobre a animação dela.” Ele riu baixo.

“É, provavelmente.” Acabei sorrindo também.

“Mas ela está sendo muito gentil comigo e ajudando muito.”

Aquilo era verdade. Effie Mellark tinha muito bom gosto e estava ajudando a resolver muitas coisas nas últimas semanas. O olhar dele desviou rapidamente para mim antes de voltar para a estrada.

“Fico feliz.” E pela forma simples como respondeu, percebi que aquilo realmente importava para ele. “Mesmo assim...” continuou. “Se achar que ela está exagerando, me avisa. Eu converso com ela.” Aquilo me pegou desprevenida de um jeito estranho.

Paramos diante dos portões da mansão, as luzes da entrada já estavam acesas, iluminando parcialmente as colunas de pedra clara cobertas por vinhas secas pelo frio do outono. Antes que eu pudesse destravar o cinto, Peeta se inclinou ligeiramente para pegar uma pequena sacola no banco de trás.

“Trouxe uma coisa pra você.” Franzi a testa, surpresa, enquanto ele colocava a sacola cuidadosamente em minhas mãos. “Eu não fazia ideia do que comprar.” Admitiu com uma pequena risada sem graça. “Confesso que pensei em alguma joia, mas... não sei. De alguma forma não pareceu a ideia certa.” Os dedos dele passaram distraidamente pela nuca antes de continuar. “Mas percebi que você gosta de ler, então...”

Abri a sacola devagar e lá dentro havia um exemplar de capa dura com detalhes dourados nas bordas. Um livro sobre a formação das cidades gregas e os conflitos políticos do período helenístico. Exatamente um dos temas discutidos nas minhas aulas nas últimas semanas.

Passei os dedos pela capa por alguns segundos, era realmente bonito.

“Muito obrigada.” Murmurei, levantando o olhar para ele. “É uma edição linda.” O sorriso dele surgiu pequeno, quase tímido.

“Encontrei numa livraria antiga em Atenas.” Explicou. “O dono praticamente ficou ofendido quando cogitei olhar outro.”

“Então você foi coagido a comprar.”

“Completamente.”

“Estou estudando isso agora.” Sorri outra vez enquanto abria o livro com cuidado. As páginas tinham aquele cheiro leve de papel novo.

“Eu lembro.” Ele respondeu, apoiando o braço no volante enquanto me observava folhear as primeiras páginas. “Você e Annie estavam falando disso aquele dia.” Demorei um segundo para entender do que ele estava falando. Então lembrei. Duas semanas antes Annie tinha pegado carona conosco na saída da faculdade até a cidade e passamos praticamente metade do caminho discutindo sobre a aula daquele dia. “Na verdade, comentei isso com o vendedor.” Continuou. “Acho que foi exatamente por isso que ele ficou tão insistente nessa edição.” Levantei o olhar para ele outra vez.

“Você realmente prestou atenção naquela conversa?” Perguntei antes de conseguir evitar, me sentindo levemente sem graça. Peeta soltou uma risada baixa.

“Katniss, minha mãe é o tipo de pessoa que consegue passar quarenta minutos discutindo tonalidades de branco pros guardanapos do restaurante.” Acabei sorrindo antes mesmo dele terminar. “E acredite, eu aprendi faz tempo que dizer ‘branco é branco’ não funciona.” O canto da boca dele se ergueu levemente. “O melhor é ouvir e tentar dar uma resposta coerente.” Balancei a cabeça, segurando o riso. “Além disso, depois de tanta papelada pra analisar e problemas pra resolver, sua conversa sobre o período helenístico acabou sendo a parte mais interessante daquela tarde.” A risada escapou antes que eu pudesse impedir.

Baixa, natural. E aquilo pareceu fazer o rosto dele relaxar imediatamente. Como se ele também não estivesse totalmente acostumado com momentos leves entre nós.

“Você presta atenção nas pessoas.” As palavras saíram antes que eu pudesse pensar melhor. Peeta pareceu levemente surpreso. Como se não esperasse ouvir aquilo.

“Eu tento.” O silêncio caiu entre nós outra vez. Mais confortável e meu olhar encontrou o dele rapidamente antes que eu finalmente desviasse para o livro em minhas mãos.

O homem ao meu lado não parecia alguém tentando me impressionar. Parecia apenas... alguém genuinamente gentil.



Notas finais
É isso, primeiro capítulo dos preparativos do casamento, espero que tenham gostado. Estou particularmente impressionada com a frequência das atualizações. Não prometo manter esse ritmo até o fim, mas vou tentar seguir com um ou dois capítulos por semana, aproveitando meu hiperfoco e a "tranquilidade" deste momento da minha vida. Mas me contem o que estão achando da do enredo até aqui? Adoro ler os comentários e saber o que vocês estão pensando. Aproveitando, quero indicar o novo enredo da Bel em coautoria com a Vi, que está participando do evento Entre Campos e Corações aqui no site. Quem puder, vale muito a pena conhecer. O primeiro capítulo já está disponível e está uma fofura. https://plusfiction.com/book/Sempre-Foi-Voc%C3%AA-818155 Beijos e até o próximo capítulo.