Moira
10 Pequenos Nós (Parte 2)
Notas iniciais
Fotos são recordações. Pequenas lembranças impressas ou não de momentos vividos. Na maioria das vezes, bons momentos. Mais do que congelar um instante, para algumas pessoas fotografia era uma arte. Uma forma de eternizar emoções antes que elas desaparecessem.
E embora a maioria parecesse gostar desses pequenos fragmentos do passado guardados em molduras, álbuns ou telas de celular, eu definitivamente não fazia parte desse grupo.
Desde que me lembrava nunca gostei muito de fotos, nunca fui fotogênica. Nunca tive realmente uma fotografia minha da qual gostasse. A maioria das poucas fotos que guardava existiam porque Prim insistia em tirá-las quando visitávamos minha mãe em datas especiais ou durante algum almoço de família em que ela decidia que “Precisávamos registrar o momento”.
“Katniss, sorria um pouco.”
Tentei obedecer ou pelo menos tentei fazer algo próximo disso. As luzes fortes continuavam apontadas na minha direção enquanto outro clique da câmera ecoava pela sala principal do casarão. O cômodo inteiro era iluminado pela luz dourada e fraca do fim da tarde que atravessava as enormes janelas de vidro voltadas para os jardins da propriedade.
O final do outono deixava dezembro mais frio em Thalessi, mas ainda existia alguma coisa absurdamente bonita naquela luz.
Quente, quase suave. Refletindo nos móveis antigos, nas cortinas claras e no mármore creme da lareira acesa ao fundo.
“Eu preciso que você relaxe e tente parecer o mais natural possível.” Cressida sorriu antes de tirar outra fotografia. Ela era a responsável pela minha tarde de tortura.
Effie garantiu mais de uma vez que ela era uma das melhores fotógrafas que conhecia e que já trabalhava com os Mellark havia anos. Portanto, naturalmente, também seria responsável pelas fotos do casamento. E pelo visto ela levava isso extremamente a sério.
Cressida provavelmente tinha pouco mais de trinta anos, mas existia alguma coisa extremamente moderna nela. O cabelo raspado de um lado revelava parcialmente a tatuagem de uma planta trepadeira que subia discretamente pelo pescoço enquanto diversas pulseiras metálicas balançavam toda vez que ela ajustava a câmera.
Messalla, o assistente dela, tinha um estilo parecido embora parecesse um pouco mais jovem. Piercings pequenos espalhados pelas orelhas, algumas tatuagens aparecendo sob as mangas dobradas da camisa e uma habilidade quase assustadora de entender exatamente o que ela precisava antes mesmo dela pedir.
“Essas não são suficientes?” perguntei depois de mais um flash. “O Peeta não precisou tirar tantas fotos assim.”
Não era mentira, poucos minutos foram suficientes para que ele fosse liberado da frente das câmeras enquanto eu parecia presa ali há horas.
“A ideia é justamente deixar você mais à vontade na frente das câmeras.” Cressida explicou paciente enquanto desviava o olhar na direção onde Peeta estava. Ele caminhava lentamente alguns metros adiante enquanto falava no celular mais uma vez, provavelmente resolvendo algum problema relacionado ao restaurante. Mesmo de longe parecia concentrado, uma das mãos mantinha o celular próximo ao ouvido enquanto a outra segurava uma pequena xícara de café já quase vazia. “Ei, Peeta.” Cressida chamou erguendo a câmera. “Sorri pra mim.”
Ele levantou o olhar imediatamente, o sorriso surgiu fácil. Natural.
Então ele ergueu a xícara na direção dela em um brinde silencioso antes de voltar a atenção para a ligação, completamente confortável diante do flash que seguiu.
“Viu? Ele não precisa ficar mais à vontade que isso.” Suspirei baixo.
“Certo.” Tentei sorrir outra vez. Provavelmente sem muito sucesso, já que tanto Effie quanto Prim, que acompanhavam tudo de perto no sofá próximo às janelas, trocaram olhares claramente desconfiados entre si.
“Olha...” Cressida abaixou a câmera por alguns segundos enquanto me observava com uma expressão mais gentil. “Pelo que percebi, você não gosta muito de fotos.”
“Isso está tão óbvio assim?”
“Um pouco.” Messalla respondeu ao fundo, ganhando um olhar divertido dela imediatamente.
“Mas tudo bem.” Disse calmamente. “Nem todo mundo gosta de câmera. Só que eu vou registrar um dos dias mais importantes da sua vida.” Ela ajustou a lente novamente. “Vou praticamente virar sua sombra no dia do casamento tentando capturar os melhores momentos.” Revirei os olhos discretamente. O que apenas fez ela rir. “A noiva é o centro do universo no dia do casamento.” Continuou. “A protagonista absoluta. O dia inteiro gira ao redor dela.”
“Isso parece um pouco assustador.”
“É assustador.” Messalla concordou imediatamente. “Mas essa é a magia dos casamentos.”
“Mas não vai ser só comigo.” Tentei argumentar. “Tem o Peeta.” Na minha cabeça parecia lógico. Se parte da atenção estivesse voltada para ele, talvez tudo ficasse menos sufocante.
“Peeta vai ser praticamente um figurante antes da cerimônia.” Cressida respondeu sem hesitar. “E talvez depois dela também.”
“Estou ouvindo isso.” A voz dele surgiu alguns passos atrás dela.
Levantei o olhar a tempo de vê-lo guardando o celular no bolso do casaco enquanto caminhava de volta na nossa direção.
“O noivo sempre acha que tem participação importante.” Ela continuou sem parecer minimamente intimidada. “Até perceber que ninguém realmente liga pro terno dele. Todo mundo quer ver o vestido da noiva.” Ele levou a mão ao peito como se tivesse acabado de sofrer uma ofensa profunda.
“Isso foi cruel.” Murmurou. “Portia ficaria devastada ouvindo uma coisa dessas. Você não faz ideia do quanto meu terno está ficando bonito.”
“Mas ela sabe que o vestido do Cinna vai roubar toda atenção.” Messalla comentou naturalmente enquanto ajustava uma das luzes próximas da lareira. “Literalmente o trabalho dele é transformar a noiva na estrela do dia.” Acabei soltando uma risada baixa antes que pudesse evitar.
Pequena, mas pela forma como o olhar de Peeta desviou rapidamente para mim, percebi que ele tinha notado aquilo.
“Estou sendo realista.” Cressida deu de ombros. “Mas prometo tirar algumas fotos suas antes da cerimônia também, mas vai ser rápido.”
“Eu vou cobrar.” O celular dele voltou a tocar exatamente naquele instante.
Effie lançou um olhar claramente desaprovador assim que viu a tela iluminada nas mãos dele.
“Peeta Mellark.” Ela suspirou enquanto pegava uma taça de água da bandeja deixada perto da lareira. “Você deveria estar de folga. Os restaurantes conseguem sobreviver sem você por algumas horas.”
“Pelo visto o contador discorda disso, mãe.” Ele respondeu olhando rapidamente a tela outra vez. “Segundo ele é uma emergência.” Depois sorriu de lado. “Então acho que pelo menos pra ele eu sou protagonista.”
“Dramático igual ao pai.” Effie murmurou antes de beber um gole da água. Peeta apenas pareceu achar graça.
“Desculpa.” Disse em voz baixa antes de olhar rapidamente para mim e depois para Cressida. “Já volto.”
Então se afastou mais uma vez para atender. Observei ele caminhar lentamente pela sala ampla do casarão enquanto passava a mão pelos cabelos claros já levemente bagunçados pelo vento frio que entrava pelas portas abertas do jardim.
Mesmo dividindo a atenção entre trabalho, família, fornecedores do casamento e aquele ensaio interminável, ele parecia estranhamente confortável no meio da confusão.
Como se já tivesse aprendido a existir naquele tipo de caos e talvez fosse exatamente por isso que Effie quase nunca se preocupava de verdade mesmo quando ele parecia assumir responsabilidades demais. Peeta simplesmente fazia tudo parecer mais fácil do que realmente era.
“Agora tenta relaxar um pouco.” Cressida voltou a chamar minha atenção. “E lembre-se nenhuma foto vai pro álbum sem sua aprovação.” Aquilo pelo menos pareceu minimamente reconfortante. Nos minutos seguintes tentei seguir cada orientação dela.
Inclinar levemente o rosto.
Olhar para a câmera.
Sorrir menos.
Sorrir mais.
E eu provavelmente falhei em quase todas.
“Certo.” Cressida abaixou a câmera por um instante. “Venia, ajeita o cabelo dela pra mim, por favor.”
Venia apareceu imediatamente ao meu lado, arrumando algumas mechas enquanto Flavius observava tudo com atenção quase dramática demais, como se um único fio fora do lugar fosse capaz de destruir completamente o ensaio.
“Agora vamos começar oficialmente as fotos dos dois.” Cressida anunciou já voltando ao trabalho. “Messalla, prepara o espaço perto da lareira. Quero algumas fotos mais clássicas lá antes de perdermos a luz natural.” Ela começou a coordenar tudo ao redor como alguém que já tinha cada imagem pronta dentro da própria cabeça. “Vou fazer algumas aqui primeiro só pra aquecer.” A câmera voltou para as mãos dela. “Onde está o noivo? Ah, sim. No telefone outra vez.” Ela ergueu uma sobrancelha antes de apontar diretamente para Peeta, que observava o jardim através das portas de vidro enquanto falava no celular, uma das mãos no bolso do casaco escuro. “Peeta, preciso de você aqui.” Ele levantou o olhar imediatamente. “E entrega esse celular pra sua mãe.” Continuou sem dar espaço para discussão. “Quero você focado aqui agora. Sem ligações. Sem trabalho. Só fotos.”
Para minha surpresa, ele disse algo rápido no telefone e depois entregou o aparelho para Effie sem protestar, quase aliviado.
“Finalmente.” Effie murmurou satisfeita ao pegar o celular e jogá-lo dentro da bolsa como se estivesse confiscando uma arma perigosa.
Peeta apenas sorriu de lado antes de caminhar até parar ao meu lado. Perto demais, mas sem realmente invadir meu espaço.
“Vamos começar com o básico.” Cressida explicou. “Peeta fica atrás dela. Katniss na frente olhando pra mim.”
Ouvi os passos dele se aproximando devagar antes de sentir suas mãos pousarem com cuidado na minha cintura.
Hesitantes.
Como se ele estivesse tentando descobrir qual era a distância aceitável entre nós sem me deixar desconfortável.
Mesmo assim meu corpo ficou automaticamente tenso sob o toque dele, consciente demais da proximidade, das mãos quentes sobre o tecido fino do vestido e do fato de que existiam câmeras registrando cada segundo daquilo.
“Katniss...” Cressida abaixou a câmera por um instante. “A ideia é progredir, não regredir. Você está parecendo alguém prestes a enfrentar uma execução pública.” Messalla riu imediatamente do outro lado da sala. Até Flavius soltou um suspiro dramático. “Acredite, já fotografei casais bem piores.” Cressida continuou tranquila. “Vocês combinam. Só precisam ficar mais à vontade na frente das câmeras.”
Não tive tempo de responder. Porque senti Peeta se afastar apenas alguns centímetros numa tentativa discreta de me deixar mais confortável.
Pequena, quase imperceptível. Mas educada o suficiente para que eu notasse.
“Melhor assim?” ele perguntou baixo, sem tirar o sorriso leve do rosto. Assenti minimamente. E pela forma como as mãos dele relaxaram na minha cintura logo depois, tive a impressão de que aquela resposta realmente importava pra ele.
Então o flash voltou a iluminar a sala outra vez.
Aquilo me lembrou exatamente por que eu não queria um ensaio pré-casamento.
Por que parecia íntimo demais, o tipo de coisa feita por casais apaixonados.
E nós não éramos isso. Pelo menos não de verdade.
A tradição normalmente envolvia apenas uma fotografia formal dos noivos antes da cerimônia religiosa. Geralmente já vestidos para o casamento, em uma pose mais clássica que depois ficava no álbum de assinaturas da recepção ou em algum porta-retrato dourado na entrada da festa.
Mas Effie odiava a ideia de um ensaio no estilo first look.
Segundo ela, “o melhor momento de qualquer casamento minimamente elegante era o instante em que o noivo via o vestido da noiva pela primeira vez.”
Então decidiu que a alternativa moderna seria um ensaio completo antes do casamento.
Algo que, nas palavras dela, “ajudaria nossa proximidade diante das câmeras”. E Prim, obviamente, adorou a ideia no mesmo instante. O que praticamente eliminou qualquer possibilidade de recusa da minha parte.
Cressida passou os quarenta minutos seguintes tentando criar algum tipo de milagre fotográfico. Sentamos no chão perto da lareira acesa enquanto ela dizia que queria algo “aconchegante e espontâneo”.
Depois diante das enormes janelas de vidro do casarão, onde o céu acinzentado se misturava aos vinhedos das colinas ao fundo.
O casarão era conhecido na região justamente por isso.
Os jardins amplos, os cômodos antigos. As oliveiras espalhadas pela propriedade.
Muita gente fazia ensaios e recepções ali.Ela nos colocou sentados próximos demais em um sofá antigo de veludo claro enquanto tentava criar poses que parecessem naturais.
Uma mão no braço dele, olhares discretos, sorrisos leves.
Peeta até parecia confortável, eu, definitivamente, não. Mas pela expressão dela enquanto analisava as imagens na câmera, ficava claro que ela ainda não estava satisfeita.
“Vocês estão bonitos.” Ela comentou observando as fotografias. “Só não estão esquecendo que existe uma câmera aqui.”
“Isso porque existe uma câmera aqui.” Murmurei.
Messalla riu imediatamente, claramente se divertindo com a situação. Então veio a troca de roupas. Venia refez minha maquiagem em tons mais suaves enquanto Flavius reorganizava meu cabelo em um penteado mais clássico, prendendo a maior parte dele em um coque baixo e deixando apenas duas mechas soltas caindo ao lado do rosto.
O vestido escolhido por Effie daquela vez era diferente dos anteriores.
Mais elegante e tradicional também.
O tecido creme caía reto pelo corpo em camadas leves de seda enquanto mangas longas transparentes bordadas à mão desciam até meus pulsos. Pequenas linhas douradas costuradas na renda lembravam desenhos antigos que eu costumava ver nas toalhas bordadas da minha avó e nos tecidos usados nas festas religiosas da cidade.
Era o tipo de vestido sofisticado e atemporal que parecia ter saído de alguma fotografia antiga de família.
Bonito demais para algo que seria usado apenas em um ensaio. Quando saí novamente encontrei Peeta sentado no sofá conversando com Messalla. Dessa vez ele usava calça social escura, camisa clara no mesmo tom do meu vestido e um colete bege ajustado ao corpo que deixava toda a roupa elegante e clássica sem parecer exagerada. As mangas dobradas até os antebraços impediam que o visual ficasse formal demais.
Parecia o tipo de roupa que homens usavam nas fotografias antigas espalhadas pelas casas dos moradores mais velhos de Thalessi.
Quando me viu, ele se levantou quase imediatamente. O olhar deslizou rapidamente pelo vestido antes dele sorrir de leve.
“Você está linda.” A naturalidade com que disse aquilo me pegou desprevenida, como se fosse apenas um fato simples. Não um elogio cuidadosamente pensado.
“Obrigada.” Murmurei baixo.
“Estou começando a me sentir numa fotografia dos anos cinquenta.” Comentou enquanto eu me sentava ao lado dele no sofá. “Você não?”
Olhei ao redor, a lareira acesa aquecendo o cômodo. As luzes douradas refletindo nos espelhos antigos e os móveis escuros de madeira. Tudo realmente parecia uma daquelas fotografias antigas esquecidas em alguma casa de família do interior da Grécia.
“Um pouco.” Admiti e ele sorriu satisfeito.
“Ótimo. Achei que eu estivesse enlouquecendo sozinho.” Acabei sorrindo de leve também. “Podemos fazer um trato?” perguntou em tom conspiratório enquanto Cressida ajustava alguma coisa na câmera do outro lado da sala. “Nenhuma dessas fotos pode ser mostrada em público sem autorização dos envolvidos.”
“Isso parece uma ótima ideia.”
“Especialmente uma perto da lareira que tiraram enquanto você se arrumava.” Murmurou discretamente. “Tenho quase certeza de que Messalla tentou me transformar num protagonista de novela.”
O comentário me fez prender uma risada baixa e talvez tenha sido justamente aquilo que começou a ajudar. Porque em algum momento deixei de pensar tanto na câmera. Seguimos com as fotos por mais algum tempo.
Peeta fazia comentários baixos entre uma pose e outra, quase sempre absurdos o suficiente para me distrair antes do flash. Outras vezes apenas dizia alguma coisa aleatória perto o bastante para só eu ouvir.
E sem perceber comecei a relaxar um pouco mais ao lado dele. Não porque tivesse deixado de achar tudo aquilo estranho, mas porque ele parecia fazer um esforço genuíno para tornar aquilo menos desconfortável pra mim.
Depois de mais algumas fotos seguimos para o jardim principal da propriedade. O casarão escolhido por Effie para o casamento ficava nas colinas próximas de Thalessi e costumava receber grandes eventos durante o ano.
Mesmo no fim da estação o lugar continuava bonito, as árvores parcialmente douradas cercavam o lago ao fundo enquanto o vento frio espalhava folhas secas pelos caminhos de pedra clara. Mais adiante era possível ver os vinhedos já quase adormecidos para o inverno cobrindo parte das colinas próximas de Servia.
“Já que temos as fotos formais...” Cressida comentou animada enquanto ajustava a câmera novamente. “Agora quero algo mais natural.”
Natural, definitivamente ela esperava demais de mim.
Tiramos fotos caminhando perto do lago, outras sentados em um banco antigo de pedra parcialmente coberto por folhas secas. Mais algumas entre as oliveiras próximas da entrada lateral do jardim.
Mas ainda parecia que aquele ensaio jamais terminaria.
“Intervalo de dez minutos.” Anunciou por fim antes de começar uma conversa animada com Effie alguns metros adiante.
Peeta observou o lago por alguns segundos.
“Ainda acho uma pena o casamento não ser aqui fora.”
Olhei ao redor e a vista era realmente bonita.
“ Em janeiro provavelmente vai estar nevando.” Comentei. “Acho que deixar mais de trezentas pessoas congelando no jardim seria considerado deselegante.”
“Definitivamente deselegante.” Ele concordou sorrindo de lado. “Mas seria bonito.” O vento atravessou as árvores lentamente, fazendo algumas folhas secas girarem pelos caminhos de pedra. “Imagina uma pista de dança bem aqui.” Continuou olhando para o lago. “O pôr do sol primeiro... depois as luzes refletindo na água à noite.” O sorriso aumentou levemente. “Seria incrível dançar uma syrtaki num lugar assim.” Acabei imaginando a cena involuntariamente.
Realmente parecia bonito.
“Seria encantador.” Admiti antes de olhar para ele outra vez. “Mas você dança?”
“Claro.” Antes mesmo que eu pudesse falar qualquer coisa, Peeta deu um pequeno salto lateral imitando um dos passos típicos de dança, abrindo os braços rapidamente naquele movimento alinhado que homens costumavam fazer durante festas e comemorações. “Opa!”. Acabei soltando uma risada baixa.
“Isso definitivamente parece ensaiado.”
“Anos de festas de família.” Ele respondeu divertido. “E uma avó que acredita que dançar resolve praticamente qualquer problema.”
“Ela parece sábia.”
“Às vezes ela é assustadoramente sábia.” O sorriso dele aumentou por um instante antes de estender a mão na minha direção. “Vamos testar a teoria, senhorita Everdeen. Ver se dançar aqui é realmente tão encantador.”
Franzi a testa imediatamente.
“Não tem música.”
“As pessoas superestimam música às vezes.” Ele respondeu tranquilamente. “A música está em tudo. Basta você pensar nela.” Antes que eu pudesse protestar de verdade, ele me puxou delicadamente para mais perto.
Uma das mãos pousou na minha cintura enquanto a outra segurava minha mão entre nós. Então começou a se mover lentamente. Como se realmente existisse alguma melodia tocando ao redor. No começo acompanhei os passos quase por reflexo.
Mais preocupada em não tropeçar do que propriamente dançar, mas depois de alguns segundos percebi que Peeta conduzia com tanta naturalidade que parecia impossível errar.
Ele me girou devagar.
A brisa fria atravessou meu rosto por um instante antes dele me puxar de volta.
Dessa vez mais perto.
“Então além de advogado, amante de sorvete e obcecado por chocolate...” Murmurei quando ele me girou outra vez. “Você também é dançarino nas horas vagas?” Ele riu baixo.
“Segundo minha mãe, todo homem minimamente decente precisa saber dançar um passo aqui e outro ali.”
“Isso parece exatamente o tipo de coisa que Effie diria.”
“Ela e minha avó vivem repetindo isso.” Comentou divertido enquanto me conduzia em mais um giro lento. “Então em algum momento eu simplesmente aceitei meu destino.” Acabei sorrindo outra vez.
O vento frio atravessou o jardim fazendo algumas folhas secas girarem ao nosso redor enquanto ele diminuía o ritmo dos passos, ainda segurando minha mão.
Havia alguma coisa tranquila naquele momento. Talvez porque pela primeira vez durante todo o ensaio ninguém estivesse me mandando sorrir. Ou porque Peeta parecia genuinamente confortável ali. Como se dançar no meio de um jardim fosse a coisa mais natural do mundo.
Sorri involuntariamente quando ele inclinou meu corpo com uma facilidade surpreendente. A mão firme na minha cintura impediu qualquer possibilidade de desequilíbrio enquanto ele me segurava com cuidado suficiente para não parecer invasivo. E foi ali que percebi o quão perto estávamos.
Perto demais.
Nossos rostos separados por poucos centímetros enquanto o vento frio atravessava lentamente o jardim ao redor. Pela primeira vez reparei de verdade nos olhos dele.
Azuis.
Mas não claros como eu sempre imaginei.
Era um tom mais escuro, principalmente próximo das bordas. E naquela distância parecia impossível não notar o jeito como ele ainda sorria levemente enquanto me observava. Como se aquele momento fosse simples.
Natural.
Como se nós realmente soubéssemos fazer aquilo e foi exatamente nesse momento que ouvi aplausos. Levantei o olhar imediatamente e vi Prim parada alguns metros atrás de nós batendo palmas animada enquanto Effie observava a cena com um sorriso praticamente vitorioso.
Flavius tinha as duas mãos pressionadas contra o peito como se estivesse abalado demais para lidar com aquilo.
“Finalmente.” Cressida murmurou satisfeita abaixando a câmera por um instante. “Agora sim vocês esqueceram que ela existia.” Meu rosto aqueceu imediatamente ao perceber que estavam fotografando fazia algum tempo.
Tentei me afastar discretamente, mas Peeta ainda segurava minha mão enquanto terminava o movimento da dança antes de me soltar devagar.
“Vocês estavam observando isso há quanto tempo?” perguntei tentando ignorar o constrangimento na minha voz.
“Tempo suficiente.” Messalla respondeu tranquilamente do outro lado do jardim. “E honestamente? Valeu cada segundo.”
“Essas provavelmente foram as melhores fotos do dia.” Cressida completou analisando rapidamente as imagens na câmera.
“Eu sabia que vocês só precisavam relaxar.” Effie comentou satisfeita. “Olha isso, ficaram lindas.” O comentário fez meu olhar desviar automaticamente para Peeta, mas ele apenas sorriu de lado, completamente tranquilo.
Como se toda aquela situação não tivesse peso nenhum para ele.
Effie e Prim continuaram analisando as fotografias na câmera de Cressida enquanto Flavius fazia comentários dramáticos demais sobre iluminação e “aura romântica espontânea”.
E pela primeira vez naquela tarde inteira me senti aliviada. O ensaio finalmente tinha acabado. Depois da pequena euforia em torno das fotos, voltei para dentro do casarão para trocar o vestido pela roupa que havia usado na chegada.
O céu do lado de fora já começava a escurecer lentamente. E foi durante a troca que Effie apareceu com uma nova ideia.
“Vamos jantar na vila de Servia.” Anunciou como se aquilo já estivesse decidido por todos. “Precisamos comemorar o ensaio.” Minha primeira reação foi pensar no meu avô e no horário.
No quanto ele provavelmente não gostaria da ideia de eu passar mais tempo fora, mas antes que eu pudesse inventar alguma desculpa, Prim já parecia animada demais e Peeta confirmou o convite com naturalidade suficiente para tornar difícil recusar. Então acabei concordando.
A vila de Servia ficava iluminada pelas luzes douradas espalhadas ao longo das ruas estreitas de pedra quando chegamos e existia alguma coisa acolhedora nela durante a noite.
Os restaurantes ocupavam construções antigas cobertas por trepadeiras secas do inverno enquanto música baixa escapava pelas portas abertas.
Algumas pessoas caminhavam pela praça central apesar do frio. Casais, famílias, senhores mais velhos sentados do lado de fora dos cafés conversando tranquilamente como se o tempo passasse mais devagar ali.
O restaurante onde jantamos ficava perto da parte mais alta da vila, as paredes de pedra clara e as janelas grandes davam vista para as montanhas escuras ao longe. Em algum momento me peguei apenas observando a mesa. As conversas animadas, Prim rindo de alguma história exagerada de Flavius.
Effie discutindo flores de casamento com Venia enquanto Messalla implicava discretamente com Cressida. Enquanto Peeta parecia pertencer naturalmente àquilo tudo.
Conversava e sorria com facilidade.
“Podemos conversar um pouco?” A voz dele surgiu baixa ao meu lado quando já estávamos deixando o restaurante. Olhei rapidamente para frente. Prim caminhava alguns passos adiante junto de Effie. Então diminuímos o ritmo ficando um pouco atrás do restante do grupo enquanto seguíamos pelas ruelas iluminadas da vila. “Na próxima sexta vai ser a inauguração do restaurante.” Ele começou olhando rapidamente para mim. “E eu queria saber se você gostaria de ir comigo.” Fiquei surpresa com o convite. O restaurante ficava em Atenas.
E eu praticamente nunca saía de Thalessi além das idas a faculdade ou a clínica para visitar minha mãe.
“O restaurante é em Atenas, eu...” comecei hesitante.
“Eu sei.” Ele interrompeu calmamente. “E sei também que você está cheia de coisas da faculdade e atolada com os preparativos do casamento.” Soltou uma pequena respiração antes de continuar. “Mas esse restaurante é importante pra mim.” O tom dele mudou ligeiramente. “Meus pais sempre fizeram tudo juntos.” Continuou enquanto caminhávamos devagar. “Desde que se conheceram minha mãe esteve do lado do meu pai em cada restaurante novo, cada problema, cada inauguração.” O sorriso dele surgiu pequeno dessa vez. “E eu acho isso bonito. A forma como eles realmente dividem as coisas.” Fiquei em silêncio ouvindo. “Esse é o primeiro restaurante em que eu me envolvi de verdade.” Disse olhando rapidamente para frente antes de voltar os olhos para mim. “Tem muito de mim ali. E eu gostaria de ter você comigo nesse momento.” Aquilo me pegou desprevenida de uma forma estranha. Porque não parecia um convite feito apenas por obrigação. “Eu sei que você está ocupada.” Continuou. “Mas seriam só quatro dias. A gente viaja sexta de manhã e volta na segunda.”
Parei por um instante olhando para ele.
“Peeta... eu adoraria ir.” E era verdade. Nas últimas semanas tinha visto o quanto ele estava se dedicando àquele restaurante. O cansaço constante que ele quase sempre fingia não sentir. “Mas eu não posso.” Completei mais baixo. “Meu avô não vai deixar.” Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
“Mas se eu convencer ele... você iria?” Soltei uma pequena risada desacreditada.
“Se você convencer meu avô eu realmente vou começar a acreditar que você consegue qualquer coisa.”
“Isso não respondeu minha pergunta.” Olhei para ele outra vez e a ideia de sair da cidade pareceu ótima. Leve.
“Sim.” Admiti por fim. “Eu gostaria de ir.”
O sorriso dele apareceu imediatamente.
“Ótimo.” Disse simplesmente. “Então deixa o resto comigo.” Embora eu duvidasse seriamente que meu avô permitisse algo assim, não duvidei nem por um segundo de que ele realmente tentaria.
E pela expressão determinada no rosto dele enquanto continuávamos caminhando pela vila iluminada, tive a sensação de que talvez existisse uma chance real dele conseguir.


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