Moira
16 Os Fios que Unem as Coroas.
Notas iniciais
Alguns momentos da vida são como divisores de água e quando acordei naquele sábado a primeira coisa que vi foi o vestido disposto sobre um manequim no canto do quarto.
A luz dourada da manhã destacava cada detalhe da renda e dos bordados, fazendo ele parecer quase uma obra de arte. Por alguns segundos permaneci observando-o em silêncio. Em poucas horas ele me acompanharia na caminhada que mudaria tudo.
Era a última vez que acordaria naquele quarto que ocupei pelos últimos oito anos. Em algumas horas eu seria a mais nova Senhora Mellark e minha vida seria dividida entre o antes e o depois do casamento.
Tudo iria mudar.
Não que eu me importasse com aquele lugar. Pelo contrário, aquela casa nunca foi um lar. Ainda assim, era assustador pensar no que viria depois. Assustador saber que eu não moraria mais sob o mesmo teto que minha irmã e que não fazia ideia de como seria minha vida dali para frente. O que me incomodava não era deixar aquele quarto para trás. Era a incerteza. Era não saber como seria viver ao lado do homem com quem me casaria dentro de algumas horas.
“Você já está acordada?” Prim entrou no quarto ainda de pijama e se jogou na cama ao meu lado. “Nervosa?”
“Um pouco”, admiti com um pequeno sorriso.
“Você vai ser a noiva mais linda que Thalessi viu em décadas.” Sorri diante da empolgação dela. “Ah, e a equipe chega em duas horas.” Concordei com a cabeça e continuamos conversando por alguns minutos. Pouco depois, Mags apareceu carregando uma bandeja com o café da manhã.
Meu avô havia saído cedo, então passamos a hora seguinte juntas. Enquanto Prim falava sobre os últimos detalhes do casamento e Mags tentava fazê-la comer alguma coisa antes de começar a se arrumar, e me peguei observando as duas.
Na manhã seguinte eu não acordaria mais naquela casa. Não dividiria mais o café da manhã com minha irmã. Não ouviria sua voz do outro lado do corredor nem a encontraria quando chegasse da universidade. Eu sabia que ela ficaria bem. Sabia que estaria segura, mas isso não tornava a ideia de ficar longe dela mais fácil.
Sabia que Mags continuaria cuidando dela, mas não seria a mesma coisa. Prim era minha família e eu nunca havia me afastado dela. Nos últimos anos eu havia cuidado da minha irmã e feito de tudo para que fosse feliz com a vida que tínhamos.
No horário combinado a equipe chegou e transformou meu quarto em um verdadeiro salão de beleza. Flavius e Venia estavam animadíssimos e não demorou para Annie, que seria minha madrinha, chegar. Quase ao mesmo tempo Cressida apareceu e cumpriu o que havia prometido durante o ensaio pré-casamento, tornando-se minha sombra enquanto registrava diversos momentos das horas seguintes.
Pouco mais de duas horas depois entregaram um arranjo de lírios brancos e laranja que fez Flavius suspirar. Peguei o cartão escrito com uma letra caprichada.
A gentileza dele acabou sendo assunto pelos minutos seguintes e confesso que achei o gesto extremamente gentil. Effie entrou no quarto algum tempo depois com o cabelo preso em um penteado impecável e satisfeita por tudo estar saindo exatamente como planejado. Ela levou Prim para se vestir em seu quarto e Mags a acompanhou.
Quando minha irmã voltou, pouco mais de uma hora depois, já estava pronta. O vestido verde-claro combinava perfeitamente com ela e as tranças elaboradas em seu cabelo denunciavam que havia participado da escolha do penteado.
Não demorou para Annie retornar também. Ela usava um vestido no mesmo tom de verde de Prim e o contraste com seus cabelos a deixava elegante.
Assim que me olhei no espelho tive dificuldade para acreditar que aquele vestido havia sido feito para mim. Cinna havia se superado sem dúvida.
A saia caía em camadas suaves de seda e tule, formando uma silhueta elegante sem um volume exagerado. O corpete ajustado era inteiramente trabalhado em renda delicada inspirada nos padrões encontrados nos antigos bordados gregos, com pequenos detalhes bordados à mão que se espalhavam pelo tecido.
As mangas eram transparentes e terminavam logo abaixo dos cotovelos, adornadas pelos mesmos desenhos delicados da renda. As costas possuíam uma abertura delicada e equilibrada pela discrição da frente do vestido.
A cintura era marcada por uma faixa fina de seda e o véu, preso sob um coque baixo cuidadosamente elaborado, caía até o chão em uma única camada leve que parecia flutuar a cada movimento.
Cressida saiu com Effie logo após as fotos com o vestido e voltou alguns minutos depois sozinha, garantindo que o noivo já estava pronto e que os convidados começavam a chegar à igreja.
Começamos a nos organizar para a saída. Seriam três carros partindo da casa do meu avô e, para minha surpresa, fui colocada sozinha em um deles.
O trajeto durou poucos minutos. Assim que chegamos fui conduzida até uma sala reservada onde aguardaria a cerimônia começar. Respirei fundo e no instante seguinte bateram na porta. Me surpreendi quando Wiress apareceu e meu coração acelerou. Logo depois minha mãe entrou lentamente na sala.
O olhar ainda era perdido, mas ela estava incrivelmente bonita com um vestido creme elegante e os cabelos cuidadosamente arrumados.
Pequenas memórias da minha infância vieram à mente. Parada a poucos centímetros de mim estava o mais próximo da lembrança que eu tinha do que havia sido minha mãe. Sem as roupas da clínica, ela parecia muito mais com a mulher que esteve presente nos primeiros anos da minha vida.
“Eleutheria.” Wiress chamou sua atenção. Até aquele momento minha mãe observava um dos arranjos de flores próximos à janela. “Katniss não está linda? Sua filha está uma noiva perfeita, não está?” Ela voltou o olhar para mim.
“A Katniss é linda. Ela se parece tanto com o Arvid.” Segurei as lágrimas. Quando concordei em tentar trazê-la para o casamento, poucos dias depois da proposta de Peeta, jamais imaginei que ela realmente conseguiria estar ali. Que me veria antes da cerimônia. De certa forma, vê-la fora da clínica ainda parecia algo impossível. “Você vai se casar.” Ela se aproximou lentamente. “Está bonita. Parece uma princesa.” Sua mão tocou meu rosto com carinho. Meu coração acelerou. Fazia tanto tempo desde a última vez que senti aquele toque. “Meu vestido também tinha renda.” Olhei para ela surpresa. “Fica bonito. É um clássico.”
Sorri. Eu sabia disso. Ainda guardava uma fotografia do casamento dos meus pais e no fundo parte da razão para eu ter pedido aqueles detalhes no vestido era por conta daquela imagem.
“Sim, um clássico.”
“Seu noivo...” Ela interrompeu a frase procurando um nome.
“Peeta”, Wiress ajudou. “Você se lembra dele. Ele visitou você com a Katniss depois do Natal.”
“Ele foi?” Concordamos com a cabeça. Mesmo sem lembrar, ela continuou.
“Peeta tem muita sorte.” Franzi a testa. “Vai cuidar de você, não vai?” Concordei sem conseguir responder. “O dia do casamento é especial. É mágico. É o começo de algo novo.”
Eu estava a um passo de desmoronar em lágrimas quando alguém bateu na porta. Cressida entrou carregando a câmera.
“Vim tirar uma foto da convidada de honra.” Minha mãe olhou ao redor da sala.
“Onde está a convidada de honra?”
“Você é a convidada de honra, querida.”
“Sou?” A inocência na voz dela fez o nó na minha garganta aumentar. Nos posicionamos para a fotografia e tentei controlar as lágrimas enquanto o flash disparava. “Onde está...” Ela olhou ao redor da sala e a frase morreu antes de ser concluída.
Wiress percebeu imediatamente quem ela procurava.
“O que acha de irmos para os nossos lugares esperar os noivos?” ela perguntou com suavidade. “Acho que devemos ir ouvi dizer que teremos lugares especiais com uma bela vista.” Peeta havia conversado na igreja e minha mãe não ficaria com os demais convidados, e sim em uma parte superior onde o coral geralmente ficava, mas que hoje ficaria em outra parte da igreja.
Minha mãe concordou com a cabeça. Observei as duas saírem pela porta enquanto uma das enfermeiras as aguardava do lado de fora. Quando fiquei sozinha novamente, respirei fundo e tentei controlar as lágrimas.
A presença dela ali mexeu comigo mais do que eu esperava.
Talvez Peeta estivesse mesmo certo.
Talvez ela não se lembrasse daquele dia quando acordasse amanhã.
Talvez, daqui a algumas semanas, nem soubesse que esteve ali. Mas eu saberia. Eu lembraria. E isso era o que importava.
Não demorou para que viessem me buscar. Respirei fundo uma última vez antes de deixar a sala. Parei diante das portas fechadas enquanto Flavius fazia os últimos ajustes no meu véu e verificava minha maquiagem. Quando ele finalmente saiu, fiquei sozinha por alguns segundos.
Quando as portas se abriram, o perfume do incenso pairava no ar e os cânticos ecoavam pelo templo.
Peeta já estava lá.
Pela primeira vez naquele dia o vi usando o terno escuro feito sob medida para a cerimônia. Ele parecia tão tranquilo quanto durante todos os preparativos, e sorriu ao me ver.
Meu avô e os pais dele estavam próximos à ele. Annie, Finnick, Delly e Thresh também. Eu havia conhecido Thresh apenas na semana anterior e descoberto que ele era o melhor amigo de Peeta e namorado de Delly. Os dois casais eram nossas escolhas como padrinhos.
Todos os convidados observavam em silêncio. O padre esperou que eu me aproximasse antes de iniciar as primeiras orações.
Em seguida vieram as alianças.
Após abençoá-las, ele as colocou em nossos dedos. A aliança de ouro branco que havíamos escolhido juntos complementava bem o anel no meu anelar direito. Delly então se aproximou e trocou as alianças entre nós três vezes, simbolizando nossa promessa silenciosa de fidelidade e igualdade.
Quando aquela parte terminou, Peeta sorriu e sorri de volta quase automaticamente.
Logo depois recebemos as velas acesas, e concentrei minha atenção na pequena chama enquanto o padre nos conduzia pela nave da igreja em meio aos convidados. Delly vinha logo atrás, já que havia sido escolhida para ser a madrinha principal, depois dela seguiam meu avô, os pais de dele e os demais padrinhos.
Por um instante tive a sensação de estar participando de algo muito maior do que nós dois. Assim que todos se posicionaram diante do altar, as orações continuaram.
Então vieram as coroas, as delicadas stefana foram colocadas sobre nossas cabeças e senti meu coração acelerar. Embora minha mãe tivesse me batizado na Igreja Ortodoxa, nunca me imaginei vivendo aquele momento.
Principalmente nos últimos anos. Gale não era batizado por nenhuma igreja cristã reconhecida pela Santíssima Trindade, o que impedia até mesmo um casamento misto como havia sido o dos meus pais. E nunca teve qualquer intenção de se converter.
Ainda assim, ali estava eu. Sendo coroada ao lado de Peeta com a promessa de nos tornarmos o rei e a rainha de um novo lar.
Aquilo tornava tudo real.
Mais real do que o vestido.
Mais real do que as flores.
Mais real do que qualquer documento que eu havia assinado nas últimas semanas.
Peeta encontrou meu olhar por um breve instante. Nenhum de nós disse nada. Atrás de nós, Delly trocou as coroas entre nossas cabeças três vezes enquanto o padre recitava as bênçãos.
As leituras continuaram e, em seguida, compartilhamos a mesma taça de vinho.
Três goles cada um. Para que as alegrias fossem multiplicadas e as tristezas divididas, era isso que aquele gesto representava, compartilhar tudo daquele momento em diante.
Só então nossas mãos foram unidas e o padre as cobriu com sua estola e começou a nos conduzir ao redor do altar.
Nossos primeiros passos como marido e mulher. Delly seguia logo atrás segurando a fita que unia nossas coroas e tomando cuidado com a cauda do meu vestido enquanto o coral entoava novos cânticos. Observei as chamas das velas dançando a cada passo.
Três voltas.
Três promessas silenciosas.
Três passos em direção a uma vida que eu ainda não sabia como seria.
Ao final da terceira volta retornamos aos nossos lugares e as coroas foram retiradas e a bênção final foi pronunciada.
Então percebi que estava casada. Só então Peeta se aproximou. Primeiro ele beijou minha testa e só depois meus lábios.
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