Moira
13 O Fio Entre Nós (Parte 3)
Notas iniciais
Domingo amanheceu um pouco mais quente, embora ainda tivesse aquele frio preguiçoso. E dessa vez minha irmã parecia cansada demais para acordar cedo, então acabamos descendo para o café um pouco mais tarde, assim como os Mellark.
Depois do café da manhã nos preparamos para sair outra vez, mas dessa vez seríamos apenas eu, Peeta e Prim. Mags ficaria no hotel com Effie porque, segundo ela, “o dia anterior definitivamente justificava uma tarde inteira no spa.” Não que Mags parecesse animada com a ideia, mas estava claro que ela ainda sentia o cansaço do passeio anterior, então nem tentou protestar muito quando foi praticamente arrastada em direção aos elevadores com uma promessa de um tratamento revitalizante.
Prim permaneceu curiosa durante praticamente todo o trajeto tentando descobrir para onde estávamos indo.
“Você vai ver logo.” Peeta respondeu divertido depois da terceira tentativa dela.
Acabei ficando curiosa também quando percebi que já estávamos tempo demais na estrada para qualquer lugar dentro do centro, ainda assim não perguntei. A cidade foi desaparecendo aos poucos atrás das janelas enquanto as avenidas davam espaço para ruas mais abertas e prédios baixos e cerca de uma hora e meia depois ele finalmente estacionou.
“O passeio de ontem foi um pouco mais voltado pra você.” Comentou olhando pra mim antes de desligar o carro. “Então hoje resolvi escolher uma coisa pra sua irmã.”
“Onde estamos?”. O lugar onde estacionamos ficava de frente para avenidas tranquilas, mas assim que começamos a caminhar consegui enxergar o destino entre as ruas estreitas logo adiante e não consegui evitar sorrir.
“Eu sei que não estamos exatamente na época ideal pra isso.” Comentou enquanto colocava as mãos nos bolsos do casaco por causa do frio. “Mas ouvi dizer que alguém aqui queria muito conhecer o mar.” Então apontou para frente. E assim que Prim viu a praia os olhos dela praticamente brilharam.
“Uau.” Apertei a mão dela sabendo que existia uma chance muito real dela simplesmente começar a correr sem olhar pra trás. Nos aproximamos devagar da orla e, apesar do frio, minha irmã parecia completamente encantada.
Depois do dia anterior, era difícil imaginar ela conseguindo ficar ainda mais animada com alguma coisa. Mas ela ficou.
“Atenas não é exatamente conhecida pelas praias. As ilhas definitivamente têm mais a oferecer nesse sentido.” Ele deu um pequeno sorriso olhando para Prim. “Ainda assim achei que valia a pena passar o dia aqui.”
Seguimos caminhando até uma pequena bilheteria logo adiante e Prim franziu a testa imediatamente ao perceber o funcionário.
“Tem que pagar pra entrar na praia?”
“Algumas praias aqui funcionam assim.” Peeta explicou enquanto tirava a carteira do bolso da calça. “Tem praias públicas também. Várias, na verdade. Mas algumas praias privadas acabam cobrando porque oferecem estrutura, restaurantes, espreguiçadeiras, esse tipo de coisa.”
“Você paga pra entrar no mar?” Prim perguntou ainda claramente indignada e ele riu baixo.
“Basicamente isso.”
“Isso é muito estranho.”
“Concordo.” Murmurei enquanto observava o movimento tranquilo ao redor. Aquele lugar parecia sofisticado demais.
“Esse assunto costuma gerar discussão por aqui.” Ele comentou depois de pegar os ingressos. “Principalmente entre turistas.” Então olhou rapidamente para Prim. “Mas hoje temos praticamente uma praia inteira só pra nós.”
E honestamente...
Parecia mesmo.
Assim que atravessamos a entrada consegui enxergar o mar completamente diante de nós.
A água tinha aquele azul absurdo que parecia quase artificial sob a luz clara de dezembro. O vento carregava cheiro de sal enquanto pequenas ondas quebravam continuamente na areia quase vazia.
Prim ficou imóvel por alguns segundos apenas olhando e Peeta acabou sorrindo discretamente antes de se abaixar um pouco na altura dela.
“Vamos fazer um trato.” Disse num tom calmo. “Você fica sempre perto da gente. Não sai correndo sozinha mesmo que encontre alguma coisa muito interessante.” Apontou rapidamente para a faixa de areia mais adiante. “Pode explorar o quanto quiser, mas sempre num ponto onde ainda consiga ver a gente direito. E nada de entrar na água. Combinado?”
Ela concordou imediatamente e só então soltei a mão dela que saiu andando alguns passos à frente quase sem conseguir esconder a animação enquanto observava tudo ao redor como se tentasse absorver cada detalhe daquele lugar de uma vez só.
Passamos boa parte da manhã caminhando pela areia enquanto Prim tentava encontrar conchas pequenas entre as pedras próximas do mar.
Sem sucesso.
Pelo que Peeta comentou, dificilmente encontraria alguma ali, mas nenhum de nós falou isso e apenas deixamos ela continuar a busca completamente concentrada, como se realmente estivesse prestes a descobrir um tesouro escondido.
Em determinado momento nos sentamos em uma das espreguiçadeiras apenas observando ela alguns metros mais longe. O vento frio deixava as bochechas dela avermelhadas, mas Prim parecia feliz demais para realmente se importar. Foi só alguns minutos depois que ela voltou correndo na nossa direção apontando animada para o horizonte.
“Tem barcos ali! Podemos andar neles?” Olhei na direção indicada por ela e consegui enxergar alguns navios atravessando lentamente o mar ao longe.
“Naqueles não.” Peeta respondeu divertido. “São cruzeiros indo em direção ao porto. Muitos param na cidade por algumas horas para os passageiros conhecerem.”
Ela continuou observando os navios enquanto ele explicava sobre as lanchas e embarcações menores que faziam passeios pela costa e comentou casualmente que poderíamos fazer algo assim mais tarde.
Acabei me perdendo por alguns instantes observando aquelas embarcações enormes atravessando lentamente a água. Inevitavelmente pensando em Gale, mesmo de longe os cruzeiros ainda pareciam gigantescos contra a imensidão azul do mar.
Mais tarde almoçamos em um dos restaurantes de frente para a praia. As mesas externas estavam quase vazias, mas acabamos escolhendo um lugar perto dos aquecedores.
Peeta pediu frutos do mar para ele e tentou convencer Prim a experimentar polvo grelhado “como uma turista de verdade”, o que resultou numa expressão genuinamente horrorizada antes dela decidir continuar com suas batatas fritas.
Depois do almoço fizemos um passeio curto de barco pela costa. Nada muito turístico, só uma pequena embarcação atravessando lentamente parte do litoral enquanto o vento bagunçava nossos cabelos . Prim passou praticamente o passeio inteiro apoiada na lateral do barco observando o mar em silêncio. Como se ainda estivesse tentando entender que aquilo tudo era real.
Voltamos para o hotel apenas para um banho rápido antes de sairmos novamente.
Segundo o loiro, a ideia era aproveitar o máximo possível o dia. O que incluía uma passada na Vila Brilhante, uma atração montada todos os anos na Technopolis durante o período de Natal.
Então, no instante em que atravessamos a entrada iluminada do complexo, minha irmã praticamente vibrou ao meu lado. Luzes douradas por toda parte enquanto árvores de Natal gigantes decoravam os corredores entre uma atração e outra. Músicas natalinas ecoavam misturadas ao som dos brinquedos, das conversas e das pessoas caminhando entre barracas de doces, chocolate quente e lembranças.
Crianças correndo de um lado para o outro segurando algodão-doce e maçãs caramelizadas. Peeta e Prim pareciam ter exatamente a mesma idade no segundo em que começaram a decidir quais atrações fariam primeiro e assim como na Festa da Colheita, eles passaram primeiro pelas barracas de jogos, acumulando prêmios completamente inúteis que minha irmã fazia questão de carregar, antes de seguirem para as atrações.
Carrinho de bate-bate, trampolins, o pequeno trem que atravessava parte da vila.
Um carrossel iluminado que Prim insistiu em andar duas vezes.
Ela saía de cada brinquedo com as bochechas vermelhas e animação enquanto Peeta ria como se aquilo tudo fosse perfeitamente normal.
O carrinho de bate-bate virou praticamente uma perseguição coletiva comigo tentando escapar enquanto os dois claramente faziam alianças temporárias apenas para bater no meu carro outra vez. Já era tarde quando acabamos parando diante da roda-gigante iluminada no centro do parque.
“Acho que vou esperar vocês aqui.” Comentei olhando outra vez para a estrutura alta demais.
“Vai ser divertido, Katniss. Nem é tão alta.” Prim respondeu antes de entrar no primeiro banco que parou diante dela.
Quando o próximo parou na nossa frente percebi que não tinha mais como fugir, então me sentei ainda desconfiada enquanto o banco balançava levemente para trás. Peeta entrou ao meu lado com um sorriso claramente divertido antes de abaixar a trava de segurança.
“Você está segura.” Comentou tranquilo enquanto começavamos a subir devagar. “Prometo.”
“Esses negócios claramente não parecem seguros.”
“Katniss…”
“Estou falando sério.” Resmunguei segurando na lateral do banco quando ele balançou outra vez. “Isso pode virar ou cair.” Ele soltou uma risada baixa antes de apoiar o braço atrás dos meus ombros.
“Então você tem medo de altura?”
“Não tenho medo de altura.” Rebati. “Só não confio em ferragens duvidosas montadas temporariamente.”
“Tenho quase certeza de que a roda-gigante não vai despencar hoje.” Comentou divertido. Depois o sorriso suavizou só um pouco. “Mas estava pensando... acho que depois de ontem podemos conversar um pouco mais, expandir nossas conversas para algo mais pessoal.” Senti certa apreensão com a ideia. “Por exemplo...” continuou olhando rapidamente as luzes espalhadas pelo local. “Qual sua cor favorita?” Acabei soltando uma pequena risada involuntária.
“Sério? Isso é pessoal?” Ele confirmou com a cabeça e pensei por alguns segundos antes de responder.
“Verde, eu acho e a sua?”
“Boa escolha.” Comentou. “A minha é laranja.”
“Laranja?”
“Mas não qualquer laranja.” Explicou olhando novamente para o horizonte. “Aquele tom específico do pôr do sol antes de escurecer completamente.”
O vento frio atravessou nossos cabelos enquanto a roda continuava girando lentamente. "Agora é sua vez pode perguntar alguma coisa também.” Meu lado racional dizia para não fazer isso. Porque perguntas pessoais inevitavelmente levavam para lugares perigosos.
"Nada específico,só fala alguma coisa que ainda não sei.” Ele virou o rosto na minha direção.
“Eu estou gostando cada vez mais de estar com você.”
A roda-gigante parou lentamente no topo, a cidade iluminada se espalhava abaixo de nós enquanto senti meu coração acelerar de forma completamente involuntária.
“Eu também gosto de estar com você.” Admiti antes de pensar demais.
Porque era verdade, as últimas semanas, principalmente os últimos dias ao lado dele, tinham sido fáceis. Leves de um jeito que eu não esperava.
Peeta sustentou meu olhar por alguns segundos antes de diminuir a distância entre nós devagar.
O beijo veio calmo, quente apesar do vento frio que fazia ali no alto. Levei uma das mãos até a nuca dele quase sem perceber enquanto o brinquedo voltava a se mover lentamente. De alguma forma beija-lo parecia diferente.
Não existia o peso do segredo.
Nem o medo constante de alguém descobrir.
Estávamos em um lugar onde ninguém se importava com quem éramos. E o anel no meu dedo tornava aquilo aceitável até mesmo para meu avô e suas regras absurdas. Quando ele se afastou ainda deixou alguns selinhos rápidos antes de sorrir.
“Acho que você está menos nervosa agora.”
“Talvez.” Murmurei e ele me puxou um pouco mais para perto enquanto observávamos a vista.
Depois da roda-gigante fomos procurar alguma coisa para comer e logo depois Prim insistiu em ir “só mais uma vez” no carrinho de bate-bate.
Acabamos esperando próximos à atração, de onde conseguíamos vê-la na fila. Foi então que Peeta pareceu reconhecer alguém no meio da movimentação.
“Eu não acredito.” Soltou imediatamente antes de sorrir. “Boggs?” Olhei na direção indicada e vi um homem alto se aproximando usando um casaco escuro pesado.
“Peeta Mellark.” O homem respondeu apertando a mão dele. “Bom te ver outra vez.”
“Você também.” Peeta respondeu antes de olhar para mim. “Katniss, esse é Ali Boggs. Um amigo da família.”
Nos cumprimentamos rapidamente.
“Então essa é sua noiva.” Comentou com um pequeno sorriso. “Recebi o convite.”
“Minha mãe está praticamente transformando isso num evento diplomático.” Respondeu divertido.
“Imagino, afinal o único filho dela vai casar.” O homem riu. “Sua avó estaria ainda pior. Como ela ainda não se envolveu nisso?”
“Ela está no Brasil com meu avô, mas já estão voltando.”
“Ah, isso explica muita coisa.” Os dois continuaram conversando enquanto meus olhos acabaram desviando involuntariamente para a movimentação das barracas. “Estamos praticamente presos no porto até amanhã cedo.” Boggs comentava ao longe. “Apesar da baixa temporada ainda tem muito turista. Pelo menos a maior parte da tripulação conseguiu folga hoje.”
Não consegui prestar atenção no restante. Porque foi nesse instante que reconheci Gale parado alguns metros atrás dele.
A postura séria, parado próximo a uma barraca de jogos. O olhar encontrando o meu quase imediatamente. Meu coração acelerou tão rápido que chegou a doer.
Por um instante todo o barulho ao redor pareceu desaparecer, eu ainda queria respostas. Ainda queria entender por que ele tinha me deixado naquela rodoviária.
Mas acima de tudo... eu ainda queria ir até ele, mesmo sabendo que não devia.
Olhei rapidamente para Peeta, ainda distraído na conversa. Prim estava prestes a entrar no brinquedo. Então me afastei alguns passos fingindo observar uma barraca cheia de enfeites natalinos próxima de onde Gale estava.
Ele permaneceu imóvel me observando e só de olhar para ele senti tudo ameaçar mudar outra vez. Me aproximei mais, fingindo observar um homem tentando derrubar uma fileira de latas com uma carabina de pressão, varias pessoas estavam assistindo a tentativa. Parei ao lado de Gale sem olha-lo diretamente.
“Por quê?” Perguntei baixo e ele ficou alguns segundos em silencio.
“Katniss...” Vi o movimento discreto da mão dele se aproximando da minha entre as pessoas e me afastei um passo antes que pudesse me tocar.
“Não.” Pedi imediatamente. “Não faz isso.” O silêncio se prolongou por alguns segundos. À nossa frente o jogador errou novamente e arrancou uma sequência de reclamações divertidas dos amigos. Algumas mulheres próximas lamentaram o resultado enquanto o atendente oferecia mais uma tentativa. “Só me explica.”
Gale passou uma das mãos pelos cabelos antes de voltar a atenção para o jogo.
“É complicado.” Aquilo me deixou instantaneamente irritada.
“Complicado?” Mantive a voz baixa e os olhos na barraca, mesmo que minha vontade fosse de olhar pra ele e exigir respostas aos berros. “Você desapareceu. Me deixou naquela rodoviária sem uma explicação e isso é tudo que tem pra dizer?”
“Eu não desapareci.”
“Parece que desapareceu.” A mandíbula dele se contraiu.
“Eu não tive escolha.”
“Não foi você quem disse que todo mundo tem escolha.”
“Acho que estava errado afinal.” A resposta veio rápida e firme demais.
O homem finalmente acertou uma das latas e os amigos começaram a comemorar como se fosse uma grande vitória e as palmas e risadas preencheram o silêncio entre nós.
“Você mentiu pra mim.” Minha voz saiu ainda mais baixa. “Me fez acreditar que fugiríamos juntos. Que me amava.” Gale soltou uma respiração lenta.
“Eu nunca menti sobre nós.” Senti um nó se formar na minha garganta. “Você não tem ideia do quanto eu amo você.” Por um instante não consegui responder. Porque não parecia mentira e isso tornava tudo pior.
“Então me explica.” Insisti. “Me dá um motivo para ter me deixado naquela rodoviária. Me dá um motivo para não ter ido comigo e com a Prim.” Ele pareceu inquieto como se estivesse lutando contra alguma coisa.
“Eu não posso.”
“Não pode ou não quer?”
“Não agora.” A voz saiu baixa. “Não assim.” Aquilo me deixou ainda mais frustrada. “Você não entenderia.”
“Então me faz entender.” Por um instante achei que ele fosse responder. Achei que finalmente teria alguma explicação, mas o olhar dele passou por cima do meu ombro. Foi então que ouvi a voz de Prim se aproximando.
“Katniss!” Gale continuou olhando para frente, como se fôssemos completos estranhos dividindo o mesmo espaço.
“Eu penso em você todos os dias.” Disse tão baixo que quase não ouvi. “Todos os dias.” Então deu um passo para o lado. No instante seguinte Prim apareceu correndo entre as pessoas.
“Você viu?” Perguntou ofegante. “Eu quase bati em todo mundo!” Sorri ou pelo menos tentei.
“Você é ótima nisso.”
“Katniss?” Virei o rosto e encontrei Peeta se aproximando logo atrás dela. “Está tudo bem?” Demorei um segundo para responder.
“Está.” Forcei um sorriso. “Só parei pra ver o jogo.”
“Esse pessoal está levando as latas muito a sério.” Comentou divertido.
“Podemos comer doce agora ?” Minha irmã perguntou animada e vi Peeta concordar enquanto segurava minha mão.
Olhei novamente para o moreno, mas Gale já estava se afastando novamente no meio da aglomeração de pessoas comemorando. Como se nunca tivesse falado comigo. Mesmo assim meu coração continuou acelerado.
Porque apesar da raiva.
Da mágoa.
E de tudo que ele tinha destruído.
Uma parte de mim ainda queria correr atrás dele.


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