Moira

7 Fios Que Se Rompem (Parte 1)


Notas iniciais
Boa noite! Espero que estejam bem. Vamos para mais um capítulo.

Diferente do dia anterior, o domingo amanheceu cinza, coberto por nuvens baixas que escondiam parte das colinas ao redor da cidade. Uma garoa fina escorria pelos vidros da janela do meu quarto enquanto eu observava o jardim ainda úmido da chuva que começou logo no início da manhã.

Eu não tinha dormido nada depois de voltar da rodoviária, passei horas sentada no chão, abraçando os joelhos, ouvindo o silêncio da casa e tentando entender em que momento tudo tinha desmoronado.

Quando comecei a ouvir a movimentação no corredor, resolvi levantar. Tirei as roupas da mochila antes que alguém encontrasse qualquer coisa suspeita, escondi o pouco dinheiro que ainda restava e me preparei para descer. Se meu avô havia feito algo contra Gale, eu precisava descobrir.

Já estava pronta para sair do quarto quando Prim entrou sem bater, fechando a porta atrás de si. Ela já estava vestida para o dia, os cabelos claros presos em uma trança cuidadosa, provavelmente feita por Lavinia.

“O que foi aquilo ontem à noite?” A pergunta veio direta.

“Prim…”

“Acho que a gente precisa conversar.” Eu sabia que aquele momento chegaria. Só não imaginei que seria tão cedo.

“Podemos conversar depois? Já deve estar quase na hora do café.”

“O vovô não está.” Ela cruzou os braços. “Somos só nós duas. Não tem problema atrasar alguns minutos.” Fiquei em silêncio. “Katniss…” A voz dela suavizou um pouco. “Você sabe que pode me contar qualquer coisa.” Desviei o olhar para a chuva fina do lado de fora.

“É complicado.”

“O que é complicado?” Ela insistiu. “Você me tirou de casa no meio da noite sem explicar nada. Depois voltou sem explicar nada. Então me diz o que está acontecendo.” Fechei os olhos por um instante, não podia contar a verdade. Não podia envolver Prim em algo que talvez nem eu entendesse completamente ainda. Eu não sabia o que tinha acontecido com Gale. Não sabia por que ele não apareceu. Não sabia se meu avô estava envolvido.

E enquanto eu não soubesse… Prim ficaria fora disso.

“Eu entrei em pânico.” Assim que falei, percebi como aquilo soava fraco até mesmo para ser usado como desculpa para minha irmã de nove anos.

“Pânico?” Ela franziu a testa. “Como assim?”

“Muita coisa aconteceu nos últimos dias.” Passei a mão pelos cabelos. “Casar com alguém que eu mal conheço… pensar em ficar longe de você… eu simplesmente não consegui lidar.” Elaborei melhor a resposta e vi que a expressão dela suavizou imediatamente.

“Katniss…” Ela se aproximou da cama e segurou minha mão. “Você não precisa ficar assustada assim. O casamento não é amanhã. Você vai conhecer o Peeta melhor.” O nome ainda parecia estranho pra mim. “E nós vamos continuar perto.” Ela sorriu de leve. “O vovô nunca escolheria alguém ruim pra você. Ele jamais afastaria a gente.”

Aquilo apertou meu peito de um jeito quase cruel.

Prim acreditava nele.

Confiava nele.

Porque diferente de mim, ela praticamente tinha crescido naquela casa. As lembranças dela começavam ali. No conforto, na estabilidade, nas regras silenciosas daquela mansão.

Ela nunca conheceu de verdade o homem por trás do avô paciente e carinhoso que fazia suas vontades.

“Eu sei.” Forcei um sorriso pequeno. “Ontem eu só… fiquei assustada.”

“Não precisa ficar.” Ela apertou minha mão mais uma vez. “Vamos estar sempre juntas.”

“Eu vou estar sempre aqui”, falei baixo.

E era verdade. Eu estaria ali por ela mesmo que eu precisasse destruir a mim mesma para isso. Prim sorriu satisfeita, como se finalmente tivesse conseguido resolver o problema.

“Vamos tomar café. Hoje é dia de visitar a mamãe. Depois podemos fazer alguma coisa juntas”, ela sugeriu animada. “Talvez assistir aquele filme que Mags falou.”

“Claro.”

Durante o café da manhã, Prim conversou normalmente com Lavinia sobre a escola e sobre como nossa mãe tinha parecido melhor na maior parte da última visita. Enquanto passei boa parte do tempo observando a cadeira vazia na ponta da mesa.

Meu avô realmente não estava ali e isso era muito estranho e tudo piorou uma hora depois, quando descobri que iriamos para a clínica de táxi.

Aquilo nunca acontecia.

Normalmente Seneca nos levava e buscava, sempre em silêncio, sempre atento demais.

“Mags disse que o vovô ligou cedo”, Prim comentou enquanto observava a chuva pela janela. “Falou que podíamos ir sozinhas.”

Assenti sem responder.

Aquilo não me tranquilizava.

Só significava que ele estava ocupado demais com alguma coisa.

Depois da burocracia na recepção, seguimos para a sala de visitas interna por causa do tempo ruim.

O cômodo era grande e aconchegante de uma forma artificial. Sofás claros espalhados pelo ambiente, uma lareira apagada, cheiro de madeira antiga e chá de ervas.

As janelas amplas mostravam os jardins molhados pela chuva.

Alguns pacientes recebiam visitas em silêncio.

No canto mais distante, um senhor ria baixinho enquanto jogava cartas com um menino pequeno. Em outro sofá, uma mulher discutia irritada com o filho sobre quando poderia voltar para casa.

Nem todos ali estavam presos dentro da própria mente como minha mãe, alguns apenas tinham sido colocados ali porque era mais conveniente.

Meus olhos encontraram Wiress quase imediatamente, ela estava sentada perto das janelas com um livro fechado no colo e sorriu assim que nos viu.

Minha mãe permanecia de pé diante de um cavalete de madeira, completamente concentrada na tela à sua frente. Prim praticamente correu até ela.

“Mamãe!” ela virou devagar e por um instante, o rosto dela pareceu realmente desperto.

“Prim...” O sorriso da minha irmã iluminou o ambiente inteiro, era um dia bom, ela reconheceu Prim, não como filha, mas sabia ao menos que era um rosto conhecido.

Cumprimentei as duas e me sentei perto de Wiress enquanto observava Prim conversar animadamente.

“Ela está tendo um bom dia hoje”, Wiress comentou em voz baixa. “Acordou calma. Pediu para pintar logo cedo.”

Olhei novamente para minha mãe.

Ela segurava o pincel com delicadeza, inclinando levemente a cabeça enquanto misturava as tintas. Mesmo depois de tantos anos, ainda existiam momentos em que algum traço da mulher que ela tinha sido reaparecia.

“Minha filha Katniss também gosta de pintar”, ouvi minha mãe comentar de repente com Prim. “Ela faz bagunça com as minhas tintas.” Minha garganta apertou. “Arvid disse que vai comprar tintas pra ela”, continuou ela, sorrindo levemente. “Ela herdou meu talento.”

O nome do meu pai vindo daquela forma sempre parecia abrir alguma coisa dentro dela e dentro de mim também.

“Então ela deve ser muito talentosa”, Prim respondeu com paciência. “A senhora pinta muito bem.” Minha mãe sorriu satisfeita e começou a mostrar algo na tela para ela.

Observei as duas em silêncio, queria conseguir fazer aquilo como minha irmã fazia. Sentar ao lado da nossa mãe sem sentir o peito apertar. Sem aquela sensação sufocante de estar olhando para alguém que ainda estava ali… e ao mesmo tempo já tinha ido embora há anos.

Mas toda vez que a encarava, tudo o que eu conseguia enxergar era perda. Eu nem mesmo conseguia pegar em um pincel nos últimos anos. Mesmo tendo plena consciência do quanto adorava pintar com ela na infância.

A chuva aumentou lá fora, batendo contra os vidros altos da sala de visitas enquanto o céu adquiria aquele tom cinza-escuro antes de uma tempestade cair de verdade. Acabamos ficando mais tempo do que o costume.

Prim ajudava nossa mãe com as tintas enquanto Wiress observava as duas de longe, com aquele olhar paciente de quem já tinha aprendido a reconhecer pequenos momentos de paz quando eles apareciam.

Só fomos embora quando uma das recepcionistas surgiu avisando que o carro havia chegado.

Me despedi da minha mãe com um beijo leve em sua testa. Ela sequer percebeu nossa saída de imediato, distraída demais misturando tinta azul e branca sobre a paleta em seu colo.

Foi apenas quando atravessamos as portas de vidro da clínica que percebi que não era o táxi esperando por nós.

Seneca estava próximo ao carro segurando um guarda-chuva escuro e veio imediatamente em nossa direção assim que nos viu. A chuva já caía mais fina e constante.

Meu avô permanecia sentado no banco traseiro lendo o jornal como se aquilo fosse apenas mais um domingo comum. Como se não controlasse cada detalhe da nossa vida.

“Vovô, você veio!”, Prim disse surpresa assim que entrou no carro ao lado dele.

“Precisava resolver algumas coisas aqui no vilarejo. ” Ele respondeu com tranquilidade antes de dobrar uma das páginas do jornal. “Então aproveitei para buscá-las.”

Claro.

Tudo nele parecia cuidadosamente casual.

Até as coincidências.

O que exatamente ele poderia precisar resolver em Sérvia em um domingo eu não fazia ideia. Mas conhecendo meu avô, dificilmente aquilo teria sido uma decisão de última hora.

Durante boa parte do caminho Prim falou animada sobre os desenhos da nossa mãe, sobre como ela tinha parecido lúcida naquela manhã e sobre a promessa de ensiná-la a pintar flores de oliveira na próxima visita.

Meu avô ouviu tudo com atenção e assentia nos momentos certos, fazia perguntas suaves.

Sorria com facilidade.

Interpretava perfeitamente o papel de avô gentil e preocupado e talvez fosse justamente isso que mais me incomodasse.

A facilidade das mentiras.

Porque às vezes, olhando para ele daquela forma, até eu conseguia entender por que Prim acreditava tanto naquela versão dele. Foi em meio a essa encenação que ele sugeriu pararmos para almoçar antes de voltar para casa.

O restaurante ficava na praça central, próximo à igreja de pedras claras que dominava parte da avenida principal. Mesmo com a chuva fina, algumas mesas continuavam ocupadas sob os toldos enquanto o cheiro de comida, vinho e ervas se espalhava pela rua aquele horário.

As ruas de pedra brilhavam molhadas pela garoa constante e algumas pessoas caminhavam apressadas entre as pequenas lojas ainda abertas apesar do tempo fechado. Eu mal consegui tocar na comida já que minha cabeça continuava presa na noite anterior. Quando meu avô pediu a conta, pedi licença para esperar no carro.

Eu precisava respirar.

Precisava ficar longe dele por alguns minutos, assim que me viu Seneca veio em minha direção colocando o guarda-chuva acima da minha cabeça e me conduzindo até o carro e foi então que eu o vi.

Gale.

Ele saía de uma pequena lanchonete acompanhado dos irmãos. Ele ria de alguma coisa que o mais novo tinha dito.

Vivo.

Bem.

Seguro.

Meu coração disparou tão forte que chegou a doer, o sorriso desapareceu no instante em que ele me viu. Ficamos nos encarando por alguns segundos que pareceram longos demais.

Procurei alguma explicação.

Qualquer uma.

Por que ele não apareceu na rodoviária?

Por que me deixou esperando sozinha com Prim?

Por que não foi embora comigo?

Mas não encontrei nada.

“Não vai entrar, senhorita?”

A voz de Seneca me arrancou do momento e só então percebi a porta do carro aberta ao meu lado. Desviei o olhar rapidamente e entrei sem dizer uma palavra.

Quando olhei novamente pela janela, Gale ainda permanecia parado diante da pequena lanchonete, o olhar na minha direção enquanto algumas pessoas atravessavam a praça sob guarda-chuvas.

Como se ele também procurasse respostas. Seneca fechou a porta e voltou para perto do restaurante.

Por um instante, tive vontade de descer.

Correr até ele.

Exigir uma explicação.

Mas eu não podia.

Não com Seneca ali ou com meu avô a poucos metros de distância.

Alguns minutos depois, eles voltaram.

E observei Gale enquanto o carro partia e durante todo o caminho de volta senti o olhar silencioso do meu avô sobre mim.

Não tive coragem de encará-lo. Assim que chegamos, subi direto para o quarto.

Nada fazia sentido.

Se Gale estava bem… por que não apareceu?

Passei o resto da tarde perdida em pensamentos.

Quando Mags bateu na porta avisando que o jantar seria servido, levei alguns segundos para perceber que já tinha anoitecido.

Foi então que vi o anel sobre a mesa de cabeceira, e me aproximei devagar. Peguei a joia entre os dedos e a observei por um longo instante antes de colocá-la novamente no anelar direito.




A semana passou lentamente, e minha cabeça parecia cada vez mais confusa. Eu queria conversar com Gale. Queria ouvir uma explicação. Porque, de algum jeito idiota, eu ainda tentava encontrar motivos para o que ele tinha feito. Ou melhor… para o que ele não tinha feito.

Mas a imagem dele saindo tranquilamente daquela lanchonete com os irmãos, como se nada tivesse acontecido, continuava voltando à minha mente o tempo inteiro.

Esperei que ele me procurasse na faculdade, mas ele não procurou.

E eu também não tive oportunidade alguma de ir atrás dele.

Meu avô fez questão de colocar Seneca para me acompanhar durante toda a semana. Ida e volta da faculdade, pequenas saídas para o centro, qualquer coisa que me tirasse da mansão acontecia sob os olhos atentos dele.

De forma sutil, elegante e impossível de questionar, meu avô tinha me transformado em prisioneira usando o velho discurso de proteção.

E ele parecia satisfeito demais com aquilo.

Na terça, essa satisfação aumentou ainda mais quando uma pequena nota apareceu na coluna social do jornal da cidade anunciando meu noivado.

Meu nome sequer foi citado.

Eu era apenas “a neta de um dos mais tradicionais produtores de vinho da região”.

E talvez fosse exatamente isso que tivesse deixado meu avô tão satisfeito.

Quando a última aula de sexta-feira terminou, diferente da maioria dos alunos, não tive pressa alguma para sair da sala de aula. Eu sabia exatamente o que encontraria do lado de fora, o carro preto estacionado e Seneca atento à movimentação dos estudantes para garantir que eu não fosse a lugar algum sem ele.

Tudo em nome da reputação do meu avô.

Ao redor, os corredores estavam mais barulhentos do que o normal. O festival da colheita começaria no dia seguinte e toda a região parecia tomada pela expectativa das comemorações.

As praças seriam decoradas. As vinícolas abririam para visitas. Haveria música tradicional pelas ruas, barracas de comida e danças até tarde da noite.

Annie falava sem parar sobre aquilo desde o começo da semana.

“Finn jurou que esse ano vai ganhar a competição de pisa da uva”, comentou animada enquanto saíamos do prédio principal. “O que é impossível, porque ele perde equilíbrio até parado.”

“Hum”, murmurei distraída.

“Você não ouviu nada do que eu falei não é.”

“Ouvi sim.”

“É mesmo? O que eu disse?”

“Alguma coisa envolvendo seu marido passar vergonha em público.”

“Isso serve.” Annie suspirou. “Katniss, você anda tão distraída que chega a ser preocupante.” Antes que eu respondesse, ela diminuiu o passo de repente. “Olha quem está ali.”

Acompanhei a direção do olhar dela e encontrei Peeta parado próximo aos degraus do prédio de História. As mãos estavam nos bolsos da calça escura e ele parecia completamente tranquilo em meio à movimentação dos alunos deixando a faculdade e assim que nos aproximamos, ele sorriu.

“Boa tarde, senhora Odair. Senhorita Everdeen.”

“Senhora Odair é a minha sogra, Peeta. Não começa.” Annie riu imediatamente, ele levou a mão ao peito em falsa rendição.

“Perdão. Annie, então.” Inclinou levemente a cabeça. “Como vai?”

“Muito bem. E você?”

“Agora melhor.”

Annie abriu um sorriso satisfeito com a resposta.

“Finn e eu ainda estamos esperando uma data para aquele jantar lá em casa.”

Peeta soltou uma risada baixa.

“Vou avisar meus pais que já estamos sendo cobrados oficialmente.”

Os dois haviam se conhecido no jantar na casa dos Mellark no sábado anterior e, desde então, Annie não falava de outra coisa além de como a família dele parecia absurdamente simpática.

“Sua mãe é um amor”, Annie continuou animada. “Ela me fez experimentar uns três tipos diferentes de torta.”

“Só três?” Ele pareceu genuinamente surpreso. “Então ela estava se controlando.”

Annie riu.

“Sua mãe é ótima.”

“Minha mãe tem facilidade com pessoas”, respondeu com um pequeno sorriso. “Ela provavelmente já está planejando outro jantar nesse exato momento.”

Ela lançou um olhar rápido entre nós dois antes de sorrir discretamente.

“Bom… acho que vou deixar vocês conversarem. Ou sei lá, recuperarem o tempo perdido.”

“Annie…”, comecei, mas ela já estava rindo.

“Você anda séria demais ultimamente.” Ela beijou minha bochecha. “Tenta se divertir um pouco.”

“Até mais, Annie”, ele disse educado.

“Até, não façam nada que eu não faria.”

Observei Annie atravessar o pátio praticamente sorrindo sozinha antes de voltar minha atenção para ele.

“Desculpa por isso. Geralmente ela não é tão invasiva… não sei o que aconteceu hoje.”

“Não precisa.” Ele parecia sinceramente divertido. “Eu gosto dela. Acho que isso vem um pouco da convivência com o Finn. Ele é… bem invasivo.”

“Não conheço muito o Finnick.”

“Então considere isso um aviso.” Ele inclinou a cabeça, ainda com um leve sorriso. “Ele não tem muito filtro. Nenhum, na verdade.”

Começamos a caminhar lado a lado em direção ao estacionamento e só então percebi que o carro do meu avô não estava onde costumava ficar.

Olhei discretamente ao redor.

“Espero que não fique chateada”, Peeta comentou depois de alguns segundos. “Mas seu motorista não vem hoje.”

Claro.

“Então você falou com meu avô antes de vir.”

“Falei.” Ele soltou um pequeno suspiro, como se ainda estivesse escolhendo as palavras. “Seu avô é… bastante cuidadoso.”

“Essa é uma maneira educada de falar sobre ele.”

Um sorriso discreto apareceu no rosto dele.

“Eu estava tentando ser diplomático.”

“E conseguiu?”

“Não sei.” Ele olhou rapidamente na minha direção. “Ainda estou aprendendo a lidar com Coriolano Snow.”

“Boa sorte com isso.”

Ele soltou uma risada curta.

“Vou precisar... Espero que não se importe por eu ter vindo te buscar”, continuou. “Na verdade, pedi seu telefone ao seu avô primeiro, mas ele disse que você estava sem aparelho. Algo sobre ter quebrado.”

“Estou mesmo.” Passei a alça da bolsa melhor pelo ombro.

Ele fez um gesto leve com a mão em direção à bolsa.

“Deixa que eu levo.”

Hesitei por um segundo, mas acabei entregando. Era estranho a facilidade com que ele fazia aquilo, sem parecer se incomodar com o fato de sermos dois estranhos.

“Eu queria me desculpar por não ter aparecido essa semana”, ele disse depois de um momento, um pouco sem jeito.

“Estamos abrindo um restaurante novo, como falamos na sexta”, ele explicou enquanto caminhávamos pelo estacionamento em direção a um carro esportivo prata, elegante e bonito. Ele abriu a porta para mim e entrei com certo receio. “Estou cuidando de toda a parte burocrática e isso acabou tomando mais tempo do que eu planejei.” Comentou assim que assumiu o volante.

“Não tem problema.” A resposta veio mais automática do que sincera. “Eu entendo.”

E era verdade de um jeito superficial. Eu não estava esperando por ele. Na verdade, minha cabeça nem tinha espaço para isso. “Fico feliz que tenha conseguido um dia de folga.”

“Na verdade estou em horário de almoço.” Ele sorriu de lado enquanto saíamos. “Não vou ter muitas folgas até a inauguração. Mas eu queria te ver. Como disse naquele dia… queria que a gente tivesse a chance de se conhecer melhor antes do casamento.”

O jeito que ele dizia aquilo ainda soava estranho. Não errado. Só… distante da realidade. Afinal, aquele acordo já tinha sido decidido em outro lugar, por outras pessoas.

“Então… o que acha de darmos uma volta antes de eu te levar pra casa?”

Houve uma pequena pausa.

“Tudo bem.”

“Algum lugar que você goste por aqui?”

“Não conheço muito a cidade.” Dei de ombros. “Normalmente só venho direto pra faculdade.”

“Certo.” Ele pensou por um instante, seguindo pela rua em direção ao centro. “Então vamos descobrir um juntos. Eu já vim algumas vezes por aqui… tem alguns lugares bons mais para o centro.”

Embora eu não conhecesse tão bem, sabia que Kallisttria era o coração universitário da região. Uma cidade dividida entre o antigo e o novo.

De um lado, as construções de pedra clara, igrejas de cúpulas simples e ruas estreitas que subiam e desciam entre colinas suaves, como se a própria cidade tivesse sido desenhada sem pressa. Do outro, cafés cheios de estudantes, livrarias pequenas com mesas na calçada e murais discretos de arte espalhados pelos muros.

Durante o dia, Kallisttria tinha um ritmo leve, quase preguiçoso. Estudantes caminhavam com livros debaixo do braço, conversando em grupos, sentados nas escadarias da universidade ou nas praças abertas.

Grande parte dos moradores eram estudantes ou professores, o que dava a sensação de que todos se conheciam de vista.

E ainda assim, ninguém sabia de verdade nada sobre ninguém.

Annie dizia que, à noite, a cidade ganhava outra energia, mais viva, quase caótica, com os jovens ocupando os bares e as ruas, como se ali fosse possível ser outra pessoa por algumas horas.

Eu mal conhecia a biblioteca pública que ficava no centro

O carro seguiu devagar pelas ruas. Apesar do horário tranquilo, já era possível ver os preparativos para o festival do fim de semana espalhados pelo centro. Cordões de luzes começavam a ser presos entre os postes, barracas de madeira ocupavam parte da praça principal e algumas vitrines exibiam ramos de oliveira, uvas e tecidos em tons terrosos anunciando as festividades da colheita.

Peeta estacionou próximo à praça universitária e descemos do carro.

O centro estava mais movimentado naquele horário. Estudantes ocupavam as mesas externas dos cafés enquanto pequenos grupos atravessavam as ruas estreitas carregando livros e copos de café nas mãos.

Foi então que ele parou ao lado de uma gelateria pequena e iluminada por lâmpadas amarelas.

“O que acha de um gelato?”

Olhei para a vitrine lotada de sabores coloridos antes de encará-lo novamente.

“Você vai almoçar gelato?”

A pergunta o fez rir imediatamente.

“É a realização de um sonho de infância almoçar doce.” Ele abriu a porta para mim antes de entrar logo atrás. “Trabalhar com comida parece ótimo até você perceber que quase nunca tem tempo pra sentar e comer direito na hora do almoço, geralmente como algo na minha mesa mesmo.” Acabei sorrindo de leve enquanto observava ele analisar os sabores. “Um fato importante sobre Peeta Mellark”, continuou enquanto apontava para os potes de gelato, “eu gosto de praticamente qualquer coisa gelada. Gelato, sorvete, frozen yogurt… principalmente se for de chocolate. Quando eu era pequeno, pedi pro meu pai abrir uma sorveteria.”

“E ele abriu?”

“Não.” Ele riu baixo enquanto pegava um dos copinhos. “Segundo ele, o máximo que podia fazer era adicionar sobremesas geladas no cardápio dos restaurantes.”

“Imagino sua decepção.”

“Foi trágico.” Ele colocou a mão no peito dramático. “Mas sobrevivi.”

Acabei soltando uma risada pequena antes de adicionar uma bola de pistache ao meu potinho.

Nos sentamos em uma das mesas do lado de fora enquanto o movimento da rua seguia ao nosso redor.

E, de forma inesperada, a conversa ficou fácil.

Peeta falava sobre comida com um entusiasmo quase contagiante. Contou sobre sabores estranhos que já tinha experimentado em suas viagens, reclamou da existência de gelato de lavanda e defendeu com convicção que chocolate sempre seria superior a pistache.

Discordei imediatamente.

O que levou a uma discussão absurdamente longa sobre sabores de gelato.

E pela primeira vez em dias, minha cabeça ficou silenciosa por alguns minutos.

Só o som baixo das pessoas conversando ao redor e o vento fresco atravessando a praça.

Em algum momento, me peguei lembrando vagamente dos passeios que fazia com meu pai na sorveteria de Thalessi quando era pequena. Memórias rápidas demais para serem completas, mas felizes o suficiente para existirem.

Quando terminamos, voltamos a caminhar devagar em direção ao carro e embora eu tivesse certeza de que o caminho de volta seria estranho, não foi.

“Obrigada por me buscar”, falei quando ele estacionou diante dos portões da mansão. “E pelo gelato.”

“Não foi nada.” Ele manteve as mãos apoiadas no volante por um instante antes de continuar. “Katniss… pra ser sincero, eu ainda não sei muito bem como tudo isso funciona.”

“O noivado?”

“É.” Ele soltou uma pequena risada sem humor. “Não sei se existem regras específicas. Não sei exatamente o que você espera de mim.”

Observei ele em silêncio.

“Mas eu realmente queria conhecer você melhor.” O tom dele continuava calmo. Gentil. “Sem pressão. Sem parecer só… um acordo entre famílias.” Ele desviou o olhar rapidamente para frente antes de voltar a me encarar. “Não gosto muito da ideia de resolver tudo com seu avô e simplesmente aparecer depois como se isso bastasse.” Meu peito apertou de forma inesperada. “E eu espero que a gente possa sair outras vezes.” Ele sorriu de leve. “Se você não se importar.”

Aquilo me pegou desprevenida.

Porque seria muito mais fácil lidar com Peeta se ele fosse arrogante.

Ou indiferente.

“Então queria saber…” Ele hesitou por um segundo. “Você gostaria de ir comigo amanhã na festa da cidade?”

Fiquei em silêncio por um instante.

Ele não precisava perguntar.

Bastava conversar com meu avô e tudo estaria decidido.

Mas ainda assim, estava perguntando.

Me dando escolha.

Mesmo pequena.

“Se meu avô permitir…” respondi automaticamente.

Peeta me observou por um breve momento, como se tentasse entender o que existia por trás daquela resposta.

Assim como tinha feito naquela noite no jardim.

“Então vou falar com ele.”

Assenti.

Por um segundo, achei que ele fosse se inclinar ou tentar me beijar, mas Peeta apenas saiu do carro e abriu a porta para mim do lado de fora.

“Espero ver você amanhã.”

“Eu também.”






Notas finais
É isso. Particularmente, eu amo esse momento dos dois na sorveteria. Talvez por ser o primeiro momento em que eles ficam sozinhos e conseguem agir de forma mais natural um com o outro e gosto muito dessa cena desde Maktub. Espero que tenham gostado da leitura. No próximo capítulo teremos mais desse casal. Até o próximo! Beijos.