Modified - Interativa.
9 Amigos
Notas iniciais
De acordo com o falecido irmão mais velho de Allec, o eterno era uma farsa. Não existia esse truque barato de “seja eterno enquanto dure”. Para Louis, o eterno era sua escolha. Allec não sabia por que sua mente divagava assim, e então fez uma retrospectiva sobre o que havia acontecido com ele naquele lugar.
Seu pai há duas horas havia o largado na sala de testes, na qual uma médica chamada Suzanne, que estava completamente vestida com um conjunto de borracha coletou sangue do garoto, juntamente com alguns fios de cabelo e saliva. O colocaram dentro de uma máquina enorme que ele desmaiou só de chegar perto, e quando acordou, estava algemado a uma cama. Berrou pelo pai, que apareceu logo depois e falou alguma coisa com a equipe de médicos que eram liderados por Suzanne, que depois de algum momento discutindo, finalmente desamarraram Allec da maca.
Mais rápido do que a luz, Allec saiu correndo da maca, mas o frio nos pés o fez perceber que estava sem as pesadas botas do exercito. Na verdade, estava sem a camiseta preta e os jeans, e vestia calças e uma camiseta brancas de algodão. Estava descalço. Isso desencadeou um acesso de fúria, e depois de socar três homens, cinco seguranças com armas enormes, vestidos de preto e com óculos escuros invadiram o cômodo e apontaram todas as armas que tinham – que não eram poucas – para o garoto, que na hora congelou. Ele não estava sonhando, estava tendo um pesadelo.
Agora, estava dentro do carro do pai, fora da fábrica abandonada, mas sentindo que inúmeras câmeras o vigiavam. Ele esperava o pai ainda dentro da Área, provavelmente falando coisas sem sentido com os colegas de serviço e verificando o filho por alguma câmera. Allec então se aprumou no banco do carro e fechou os olhos, tentando dormir.
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A limusine preta de Grim estacionou num pedaço de terra batida, que era o “estacionamento” do acampamento, que era um terreno de mata tropical de vinte hectares que foi alugada pelo ministério de educação do estado da Califórnia. O lugar onde armariam as barracas era bem amplo, cheio de grama verde e território de terra batida. Os demais ônibus, carros e motos estacionaram ao lado da limusine. Daphne e Grim desceram, tentando a todo custo não atolar os sapatos na terra.
– Senhorita Grim, as malas. – Wey, o mordomo, que também havia trazido Grim até o acampamento, pegou a mochila de Daphne e entregou as malas para Grim. Grim agradeceu e Wey entrou na limusine e foi embora, deixando a garota para trás.
Olhando ao redor, perceberam que não eram as únicas com problemas na terra. As botas pretas de salto alto de Grim afundaram. Daphne, de sapatilhas, se sentiu desconfortável na terra.
– Esse lugar é até bonito ignorando essa terra. – Daphne disse, respirando fundo. San Francisco era uma cidade bem verde e ampla, cheia de árvores e plantas. Mas Daphne não estava acostumada com tudo verde.
– Isso é viver como selvagens. Eu teria vindo dirigindo se soubesse que vamos acampar no chão. – Grim se queixou. Não tinha o habito de se queixar para os outros, mas mesmo assim, falou.
– Bem, pelo menos não precisaremos armar as barracas. – Daphne apontou para onde dormiriam. No lado direito do enorme campo de terra batida, circulado pela mata, havia no mínimo vinte barracas cor de rosa com limite de três pessoas. No ponto mais longe possível, se via as barracas azuis destinadas aos garotos. – Acho que temos que escolher as nossas o quanto antes.
– As mais afastadas possíveis, por favor. – Grim concordou, puxando a mala. Por todo o lugar, as pessoas iam até barracas, tentando escolher. Grim e Daphne escolheram uma barraca afastada, mas não tanto. Entrando, perceberam que era até bem espaçosa. Cabiam na verdade, cinco pessoas, mas apenas havia três colchonetes, um lampião a querosene e uma garrafa de água. Já havia uma garota de cabelos verdes dentro da barraca, mas não havia nem sinal de outras pessoas. Grim e Daphne se acomodaram nos colchonetes, uma ao lado da outra.
– Oi, meu nome é Catherine. – Se apresentou ela.
– Eu sou Daphne e esta é Grim. – A ruiva disse, sabendo que a amiga não diria nada. – Prazer em conhecê-la, Catherine.
– O prazer é meu. – A garota sorriu meio desconfortável. – Acho melhor vocês trocarem de roupa, sabe? Aqui tem insetos e a terra em alguns pontos é lamacenta. Vocês vão sujar toda a roupa.
– É, eu estava pensando nisso. – Daphne suspirou, procurando roupas na mala. Havia colocado poucos jeans na mala, e algumas blusas de tecido leve.
– Eu vou deixar vocês mais a vontade. – Cath saiu da barraca, deixando Grim e Daphne lá dentro.
– Você se veste e eu cuido da porta, ok? – Sugeriu a ruiva, que sem esperar resposta, saiu da barraca e ficou de pé do lado de fora, cuidando pra que nenhum espertinho entrasse. Grim escolheu as roupas calmamente. Uma camiseta preta de mangas compridas, mas continuou com a saia que estava. Com dor no coração, trocou as botas pelo sapato mais simples que tinha: um all star preto. Tentou fazer um rabo de cavalo no cabelo comprido, mas o peso era insuportável. Por fim, deixou as madeixas soltas e saiu da barraca.
– Sua vez. – Anunciou Grim.
Daphne entrou na barraca e vestiu as roupas que havia escolhido: uma calça jeans de lavagem clara, uma camiseta de manga curta que tinha a mesma cor dos cabelos ruivos e um all star botinha branca. Também prendeu o cabelo em um rabo de cavalo, e o atou com um laço branco. Ela sempre atava o cabelo com um laço. Saindo da barraca, cuidou para que nenhum objeto seu estivesse fora do lugar e começou a passear pelo campo ao lado de Grim.
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Rafael e Hugo estavam conversando sobre quais seriam as provas do Torneio quando viram a barraca em que ficariam.
– Cara, essas barracas são meio gays, não são? – Rafael disse.
– Rafael, dá pra calar a boca? – Hugo pediu. Rafael era do tipo que não calava a boca, mas era um bom amigo.
– Cara, fala sério. – Rafael bufou. Então, os dois foram até a barraca azul que escolheram. Dentro da barraca, já havia um garoto, que calmamente lia um livro.
– Errr... Bom dia. – Hugo gaguejou.
– Bom dia. – Oliver sorriu. Adorava ver a expressão das pessoas quando o viam. Era sempre a mesma: choque. As pessoas eram acostumadas a ver albinos pela televisão, mas pela vida real era muito estranho. – Eu sou Oliver Sonenclar, mas vocês podem me chamar de Ollie.
– Prazer. – Rafael estendeu a mão, que Oliver apertou brevemente. – Eu sou Rafael Reinholz.
– E eu sou Hugo Bennett. – O moreno sorriu, estendendo a mão também. – De que escola você veio?
– Centaur. – Respondeu ele. – Vocês devem ser da Lion, não é?
– Hugo, acabamos de conhecer um vidente. – Rafael murmurou.
– Vocês só parecem ser de lá. – Oliver deu de ombros. Ouve uma pausa e ele virou a cabeça de um jeito que pudesse ver o campo fora da barraca. Pelo canto dos olhos, viu a garota de cabelos verdes entrando na mata. – Bem, até outra hora. – Oliver saiu da barraca e procurou Cath, sabendo que de algum modo ele tinha que segui-la, ver quem era ela.
– Legal ele, não é? – Comentou Hugo.
– Um exemplo de sociabilidade. – Bufou Rafael.
– Nem todos são como você, o engraçadinho da turma que tem cinquenta amigos. – Hugo retrucou.
–Hey, não culpe se todos querem ser amigos desse carinha aqui. – Rafael riu, fazendo Hugo bufar. – Eu vou dar uma saidinha pra conferir as gatinhas, porque é isso que um ser humano hetero faz.
– Isso mesmo, saia e me deixe com minha gayzice e os meus seriados. – Hugo pegou o notebook da mala, onde tinha todos os episódios de todas as temporadas de Sherlock.
– É por isso que você não tem namorada. – Rafael saiu da barraca e começou a andar pelo perímetro, vasculhando com o olhar todos os presentes.
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Connor estava encostado em uma árvore quando avistou Catherine vindo em sua direção. Ele sabia que Cath o entendia, sobre o que ele podia fazer, mas mesmo assim, se sentiu meio desconfortável em lembrar de como confiara cegamente nela e mostrara o que podia fazer.
– Hey, Haynes. – Ela o cumprimentou.
– Jones. – Ele retrucou. – O que está fazendo aqui?
– Você tá de brincadeira comigo? Eu finalmente descubro que não sou a única anormal no mundo e você não quer que eu te siga pra todo o lugar? – Disse Cath, com um sorriso sarcástico, deixando Connor sem saber se ela estava dizendo a verdade ou fora apenas uma brincadeira.
– Agora que já sabe, vai ser legal você ficar um pouco mais longe, digamos, uns cinco metros? – Sugeriu ele.
– Ah, vamos lá, você sabe que não pode ser super herói sozinho! – Cath sorriu. Mas logo perdeu o riso, ficando imobilizada.
– O que foi? – Connor se assustou com a expressão da garota. A face estava completamente vazia, os olhos abertos e o maxilar trincado.
– Cala a boca. – Mandou ela. Connor abriu a boca pra dizer que ninguém o mandava a nada, mas ela foi rápida e tapou a boca dele com a mão direita. Olhou bem fundo nos olhos dele, como se dissesse: “diga alguma coisa ou eu vou te derrubar aqui mesmo”. Ele resistiu ao impulso de sair correndo. Catherine tinha um jeito horripilante. – Tem alguma coisa se mexendo ali. – Ela sussurrou, apontando para a esquerda, na mata. Antes mesmo de Connor piscar, ela pegou velocidade e correu para mata adentro, pulando sobre galhos no caminho. Viu a sombra de um garoto e pegou impulso em uma pedra. Foi um salto digno de uma medalha. O impulso foi suficiente pra cair sobre o espião, o imobilizando no chão. Ela colocou os joelhos no peito do rapaz, que a encarava, horrorizado. Percebeu que ele era albino, e os olhos azuis estavam arregalados de terror. – Quem é você?
– Oliver Sonenclar. – Ele respondeu, ainda atemorizado. Havia caído sobre alguns galhos, e o fato de Catherine estar com os joelhos no peito dele, o empurrando pra baixo e impedindo a respiração, não ajudou. – Eu juro, eu não tava fazendo nada, meus pais são professores, eu só quero me levantar do chão.
Nesse momento, Connor apareceu esbaforido. Ele se curvou pra puxar fôlego.
– Você corre, hein? – Comentou ele. Então percebeu o garoto albino no chão e retomou a compostura. – Quem é esse?
– Oliver Sonenclar. – Catherine respondeu, se levantando da posição que aprendera no judô e estendendo a mão para Oliver se levantar. – E ele estava prestes a dizer o que estava fazendo aqui, não é, Olliver?
– Eu estava vigiando vocês. – Respondeu ele. Connor o deu um olhar fulminante, e Ollie sentiu as pernas bambearem involuntariamente. – Eu ouvi o que vocês disseram no ônibus. Eu queria dizer que não são os únicos Power Rangers aqui. Acho que somos três.
– Você também tem...
– Teletransporte. – Oliver disse. De repente, sentiu um peso sair dos ombros. Era inimaginável a liberdade que ele tinha em dizer isso. – E você deve ser a lagartixa humana. E você, pelo que eu percebi, controla o corpo das pessoas, não é?
– Lagartixa humana? – Repetiu Catherine, chocada. Não sabia se estava mais chocada por ter encontrado outro garoto que tinha poderes ou se era por ter sido chamada de lagartixa.
– É, você sabe, as lagartixas reconstroem a parte do corpo que perderam, como o rabo. Como o seu poder, regeneração. – Connor explicou. Mas logo parou, ao receber outro olhar fulminante de Cath.
– Teletransporte, é? – Ela disse, com sarcasmo pingando na voz. – Prova.
Ollie riu, com ironia. Fechou os olhos, se concentrando no ponto atrás de Catherine. Ouviu um estampido, como se estivesse sido quebrado em milhões de pedaços e então, quando abriu os olhos, estava atrás de Catherine. Connor o olhou, de boca aberta. Catherine deu um passo para trás, assustada.
– Bem, acho que agora seremos um trio de super-heróis, não? – Ela riu.
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