Mockingbird

1 Oneshoot - Daddy, mommy and sis


Notas iniciais
Pra ler ouvindo: Haillies Song - Enimem

O copo sobre o balcão foi cheio e novamente aquilo que deveria ser seu conteúdo sumiu em um único gole. A mão esquerda, adornada de um único anel, dourado e imponente, se enfiou em meio aos fios grossos de cabelo castanho enquanto ele suspirava e deixava a testa descansar contra a mão livre. O nó na garganta foi relativamente bem mais difícil de engolir que todo o álcool já consumido naquele bar.

Outra mulher se sentou a seu lado e sem diferença com as outras, ela foi ignorada. A irritação o fez apertar os dedos ainda entre os cabelos. A vontade que ele tinha era de gritar que não, não queria companhia. Não naquela hora, não naquele dia, não naquela semana. Não, porra!

Só não.

Depois de mais alguns minutos sem uma única palavra dele, ela se levantou. Ele sentiu o cheiro de orgulho ferido quando ela passou por suas costas e quase teve vontade de rir.
Pelo que ele pensou ser a décima sexta vez só naquela noite, se perguntou o porquê de ter se tornado um frequentador assíduo daquele lugar.

Mais bebida em seu copo, mais álcool em seu corpo.

Os músculos ganhos ainda na época do colégio permaneciam, agora mantidos com certo esforço na academia que ficava na rua de seu escritório. Agarrou a gravata já arruinada outra vez, puxando o nó que já se tornara insuportavelmente apertado um pouco mais para baixo.
Só se deu por satisfeito quando a jogou de qualquer jeito ao lado do copo pela metade.
Uma lágrima. Uma única lágrima. Foi o que ele se permitiu.

Esfregou a cabeça novamente. Dessa vez com as duas mãos, sentindo falta do corte punk que costumava trazer e que precisou ser abandonado tão logo os estágios da faculdade de economia começaram.

A única coisa que conseguiu enxergar quando fechou os olhos foi o olhar de Shelby quando o médico de sua menina havia dado o veredicto final: Ele não era compatível.

De que adiantou tanto cuidado com a saúde? Horas e mais horas na esteira para manter o coração saudável e os pulmões intactos? De que adiantaram os exames periódicos, feito às escondidas para não levantar as suspeitas da esposa, para se manter longe dessas doenças que podem sem pegas de outra pessoa quando se transa sem camisinha? De que adiantou ser forte como um touro, imune até mesmo à mais sem importância das gripes, se quando toda essa saúde foi necessária, mostrou-se ridiculamente inútil?

Sorveu o que ainda continha em seu copo, com raiva de quem quer que fosse que fizesse as regras nesse mundo injusto em que uma criança de pouco menos de dez anos tem uma doença cuja cura dependia única e exclusivamente dele e ironicamente sua medula não servia.
O celular tocou outra vez e ele simplesmente ignorou, como havia feito desde as seis da tarde quando saíra do hospital com o resultado de compatibilidade negativa entre sua medula e a medula de Elisabeth.

Sabia que Shelby precisava dele. Sabia que Beth precisava dele. Sabia que Quinn precisava dele. Mas naquele momento, quem mais precisava de Noah Puckerman, era o próprio Noah.
Estava perdendo sua menininha. Perdendo sua menininha numa luta muito injusta, em que ele podia apenas observar picarem os bracinhos delicados em busca de outra punção venosa.
A estavam envenenando e ele só podia assistir, porque também era a única coisa que se podia fazer por Beth: envenená-la em busca de melhoras significativas.

Os cabelos loiros já não emolduravam o rosto de olhos verdes e boca farta. O tom de pêssego das maçãs do rosto já não era pêssego. Aquela doença, aquela maldita doença estava minando sua princesa... E ele se sentia minar também, gota a gota. Um ritmo tão lento quanto o soro que eles usavam na chamada “quimioterapia”.

Outra lágrima teimosa. Contra essa ele simplesmente não lutou.

Uma das mãos se desvencilhou dos cabelos agora fartos e como por vontade própria alcançou o maço de cigarros no bolso do paletó ainda vestido.

O primeiro trago trouxe consigo todo o relaxamento que o álcool já não lhe proporcionava e o ritmo das lágrimas se intensificou.

Soluçou e o barman fingiu não ver. Ganhou a gratidão de Puck como recompensa.
Ele sentiu quando elas chegaram.

Nunca soube explicar o que era aquilo, ele simplesmente sentia.

Mesmo no colegial, quando elas se odiavam, ele sentia quando se aproximavam dele juntas. E para Noah, era uma coisa tão comum, tão rotineira que o estranho era que as outras pessoas não conseguissem sentir também.

Sentiu a mão que ele mantinha agora sobre o balcão ser coberta por uma outra mão extremamente delicada. Mãos de pianista. Os dedos dançaram sobre as costas da mão masculina e então se agarraram a ela. O toque de Quinn continuava tão reconfortante quanto era no ensino médio e um sorriso brincou nos lábios do jovem homem judeu. Por um segundo, ele se lembrou o porquê de todos os adolescentes mentalmente saudáveis pelo menos uma vez haviam se apaixonado pela loira ex-líder de torcida. Não demorou para ter a outra menina atrás de suas costas, as mãos embrenhadas também aos cabelos grossos e então ele se lembrou o porquê de ter sido ela a escolhida de Quinn.

Outro trago no cigarro.

Não demorou para as lágrimas voltarem, agora mais torrenciais que a primeira vez. Sentiu-se sendo abraçado por trás, enquanto Rachel descansava sua cabeça na curva do pescoço dele e Quinn apertava a mão que agora ela tinha entre as suas.

A única coisa que Noah conseguia pensar era que o mundo não era nenhum pouco justo. Sua filha tinha tanta coisa para viver, tanta coisa para ver que chegava a ser doloroso comparar seus vinte e seis anos muito bem vividos com a pouca idade de Beth.

- Puck... – A voz de Quinn soou um pouco mais rouca que o normal e ele soube que ela lhe acompanhava no choro sentido. Ela limpou a garganta, tentando amenizar um pouco o tremor na voz antes de falar. – Noah, olha pra mim.

Puck demorou ainda um par de minutos antes de erguer os olhos vermelhos em razão do álcool e do choro para encontrar os de Quinn na mesma situação que os seus.

O abraço de Rachel afrouxou um pouco e ele se sentiu livre antes de ter o pescoço novamente envolvido, dessa vez pela mulher de cabelos dourados.

- Nós vamos conseguir... – Ela sussurrou-lhe antes de continuar a falar.

O barman se aproximou com a garrafa de whisky em mãos, mas apenas um gesto de Rachel foi o suficiente para que ele se fosse, deixando o copo de Noah ainda vazio.

Rachel abandonou seu posto atrás das costas fortes e se postou ao lado da esposa, a mão esquerda alcançando o ombro de Quinn, como que para dar-lhe força, quando por fim o abraço se desfez.

- Eu e Rachel conversamos. Achamos uma solução. — Puck a olhava, forçando-se a prestar atenção e ignorar a embriaguez a que se submetera. – Nós vamos fazer isso.

Ele piscou algumas vezes, como se tivesse entendido alguma coisa errada.
— Fazer... o que?

- Outro bebê.

Ele franziu as sobrancelhas grossas, meneando a cabeça.

- O quê?!

- Outro bebê, Noah. É o único jeito.

- Você não pode engravidar.

Ela empertigou-se, se ajeitando no banco nada confortável do balcão do bar e a mão esquerda procurou a de Rachel, ainda sobre seu ombro.

- Na verdade... – Os olhos de Noah passaram de Quinn para Rachel, cuja voz só se fizera ouvir agora. – Nós... Nós procuramos um especialista. E com tratamento e um pouco de sorte, talvez nós...

- Fertilização in vitro. – Quinn concluiu.

- Vocês já não estão tentando isso faz quase uns três anos? Você perdeu dois bebês, Quinn! – Ele apontou, voltando-se para o copo. – Garçon, meu copo está vazio! – A voz do rapaz se ergueu. O barman olhou para Rachel, que negou com um único gesto de cabeça. – Garçon! – Noah reclamou, ofendido, voltando a se debruçar sobre o balcão. – Eu sou um inútil. Minha filha está morrendo e eu não posso fazer absolutamente nada.

- Noah... – Quinn alcançou-lhe o ombro outra vez, apertando-o com carinho.

- Eu vou fazer. – Rachel disse de uma única vez e ele voltou a erguer a cabeça.

- O... O que?

- Eu vou fazer. – Berry engoliu em seco, concordando com a cabeça, como que para fortalecer o que acabara de dizer.

- Mas...

- Ela é minha irmã, afinal de contas e... – Engoliu em seco outra vez — ... bem... Nós queremos um bebê faz tempo já. Acho que é a melhor maneira.

Quinn observava Noah, em silêncio. Ele se demorou alguns segundos, como se pensasse na possibilidade.

- E como faríamos?

- Seu espermatozoide, o óvulo de Quinn, meu útero.

Rachel respondeu com simplicidade e ele a encarou por alguns segundos, antes de deixar que os olhos rolassem para Quinn que ainda o olhava.

- Você está de acordo com isso?

Ela concordou, firme. Não tão firme quanto Rachel, ainda assim concordou.

Puck suspirou, as mãos novamente passando por entre os cabelos castanhos em puro desespero.

- Garçon, se você não encher o meu copo agora, eu pulo esse balcão e pego por mim mesmo.
Dessa vez ele foi atendido... E outra vez a dose de whisky não durou mais que um gole.

Notas finais
Sejam bonzinhos, sim?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!