Mochaccino
1 capítulo único
Notas iniciais
— Tem certeza de que essa roupa está boa? — Michele olhava-se no espelho, desamassando a camisa (passada duas vezes, só para garantir) e limpando uma sujeirinha inexistente das suas calças de sarja. — Você não acha que isso está demais? Nós só vamos a um café… aposto que ele vai achar que eu estou exagerando.
— Cale a boca, Mickey. Você está irresistível. — Sara respondeu da cama, tirando os olhos do celular por um momento para ver como o irmão estava vestido. — Ah, e se você acha que está formal demais, você pode usar aquela sua bomber jacket preta. Ou aquele tênis de skate que eu não sei por que você comprou, já que eu nunca vi você usando-o. Ou os dois, até.
Michele olhou-se mais um pouco no espelho, pensando em como a roupa ficaria em si, até que tomou sua decisão. Foi correndo para o closet em busca da jaqueta e dos tênis e vestiu-os, voltando rapidamente para o quarto, onde Sara esperava por ele.
— Eu disse! Maravilhoso, Mickey. — elogiou-o, largando o celular para bater palmas. — Mas já são duas e meia. Se não se apressar, vai acabar se atrasando.
Michele saiu correndo do quarto para pegar as chaves do carro e o celular, porém retornou antes de sair. Sara olhou-o torto, estranhando.
— Esqueci o perfume. — disse enquanto passava um pouco do perfume no pescoço e saía novamente do quarto, pegando as chaves do carro e o celular no caminho.
O trajeto foi silencioso, salvo algumas buzinadas (por que alguém sempre tinha que cortá-lo?). Não quis ligar o rádio, naquele horário nenhuma das estações estava reproduzindo música. Michele estava nervoso. Era o primeiro encontro dos dois como casal — não que nunca houvessem saído para beber ou tomar um café juntos, mas era a primeira vez que faziam isso desde que Emil pedira Michele em namoro.
O pedido foi bem engraçado, na frente da porta do seu quarto de hotel depois do programa livre da final do Grand Prix feminino. Emil insistira em acompanhar Michele, mesmo que seu próprio quarto fosse quase do outro lado do hotel. Assim que Mickey abriu a porta, Emil tocou seu ombro e fez o pedido. Do nada. O italiano ficou parado, perplexo. Nenhuma palavra saía da sua boca, e Emil já demonstrava sinais de nervosismo e arrependimento quando Michele conseguiu dizer um “sim”.
A lembrança fez Michele sorrir enquanto terminava de estacionar o carro do lado da rua oposto ao do café. Já que não viu o carro que Emil havia alugado, presumiu que este ainda não havia chegado. Porém, ao entrar no café, foi surpreendido com um abraço apertado, cheio de saudades. Pôde sentir Emil inalando seu perfume, soltando um suspiro agradável e relaxando os ombros. Isso era um bom sinal.
Assim que foi solto do enlace, perguntou se Emil não havia tido dificuldade em achar o lugar.
— Não, não se preocupe! — o mais novo sorriu-lhe carinhosamente. — Na verdade, eu consigo ver o café da janela do quarto do hotel, então eu vim a pé mesmo.
Ambos sentaram-se a uma mesa do lado de fora do café, aproveitando o sol e a temperatura amena. Uma garçonete deu-lhes boas-vindas e entregou dois cardápios. Michele já sabia exatamente o que iria pedir, mas Emil estava tendo algumas dificuldades para entender o cardápio.
— Já sabe o que vai pedir? — Michele perguntou.
— Erm… não. Uns eu conheço de nome, só, mas eu nunca provei. — Emil parecia envergonhado. — Eu não gosto muito de café. É muito amargo.
— Experimente o mochaccino. Eu não gosto porque eu acho doce demais, mas… você vai gostar. É bem doce e tem chocolate. — Mickey deu um sorrisinho quase imperceptível ao falar. Não era novidade para ninguém que Emil amava chocolate, mas Michele sabia que o outro ficaria feliz em ver que ele se lembrou desse detalhe.
— Então é esse mesmo que eu vou pedir! — disse Emil, rindo levemente. Michele não pode evitar rir também.
Michele chamou a garçonete, que voltou à mesa.
— Buonasera, signori. Il mio nome è Valentina, posso prendere il vostro ordine? — a moça, de cabelos castanhos e sorriso simpático, puxou um bloquinho e uma caneta do bolso do avental.
— Buonasera, Valentina. Per ora, voglio un espresso senza zucchero. Vuole un mochaccino. Quando sappiamo che cosa vogliamo mangiare ti chiamo, va bene?
A garçonete anotou o pedido e foi em direção à cozinha. Quando Michele virou-se para a frente de novo, Emil observava-o com um olhar encantado.
— Emil?
— Ah, sim?
— Por que você está me encarando?
— Por nada, não. Eu só amo quando você fala em italiano.
— Eu só fiz o nosso pedido.
— Eu sei. Mas a sua voz fica tão sexy quando você fala, sabe? Fica difícil resistir.
Michele desviou o olhar de Emil para o porta-guardanapos, corando. Só então que Emil se deu conta do que havia acabado de falar. O tcheco ficou completamente vermelho até as pontas das orelhas.
— Desculpe por isso, heh. — disse, pegando na mão de Mickey por cima da mesa.
Michele continuou calado, ainda evitando olhar nos olhos de Emil, porém correspondeu ao toque, acariciando levemente a mão do maior com o polegar. Esse gesto tirou um pouco da tensão que havia começado a se acumular nos ombros de Emil. Com o tempo, Michele conseguiu encará-lo novamente e começar uma conversa. Falaram sobre o que andavam fazendo, Emil comentou que queria ir para Morzine, na França, para participar de um evento de mountain bike, Michele comentou que Sara havia recém apresentado um novo pretendente a ele — e que, obviamente, ele não havia aprovado o garoto, mas não que isso fosse impedí-la de sair com ele, e, mesmo assim, ele desejou felicidades aos dois. Isso já era um progresso.
A garçonete chegou com o pedido dos dois, deixando as xícaras na mesa e desejando um buon appetito.
Como o esperado, Emil adorou o café. Michele observava as reações do mais novo com um sorriso bobo no rosto, tomando seu expresso.
— Bože, o que tem nisso daqui mesmo? — Emil perguntou.
— Café expresso, chocolate em pó, chantilly e canela.
— Só isso?!
Emil continuava falando, mas Michele só conseguia prestar atenção no jeito que seus olhos azuis brilhavam e em como a barba e o cabelo dele haviam crescido um pouco desde a última vez que eles conversaram por Skype e em como o cantinho da boca dele estava um pouco sujo do mochaccino e em como ele não acreditava que eles estavam mesmo juntos e-
— Mickey? Você está me ouvindo?
Michele pegou um guardanapo, levantou-se da cadeira e limpou a boca do outro, logo depois depositando um selinho no local e voltou a sentar-se. Emil encarava-o, perplexo e completamente corado.
— S-Scusa… a sua boca estava suja de café.
— Ah, sim… obrigado.
Alguns segundos de silêncio constrangedor depois, Michele perguntou se Emil queria comer alguma coisa. Emil disse que não estava com fome, e o silêncio voltou. Michele discretamente roçou sua perna na do outro e teve seu gesto correspondido.
— Você… você está muito bonito hoje. — Emil comentou, mexendo a colherinha na xícara já vazia, apenas para não olhar diretamente para Michele. — Não que você não esteja bonito em qualquer outro dia, claro, mas-
— Você também. Está muito bonito, digo. — disse Michele. Dava para ver que Emil havia se esforçado. Suas roupas eram geralmente casuais, mas naquele dia ele estava usando uma camisa polo branca que Mickey nunca havia visto ele usar, junto com uma jaqueta azul-marinho que realçava o azul dos seus olhos, e as calças jeans que ele estava usando tinham um caimento muito bom (e deixavam-no com uma bunda maravilhosa, mas Michele jamais admitiria isso). Ele provavelmente havia pedido ajuda para escolher a roupa, e o fato de Emil ter se preocupado com isso fez um calor confortável preencher seu peito. — Desculpe por ter te interrompido.
— Não, sem problema. — Emil deixou a mão solta em cima da mesa, esperando que Michele enlaçasse seus dedos; e foi exatamente isso que ele fez.
O silêncio outrora embaraçoso tornou-se aos poucos confortável. Uma música romântica vinda de dentro do café pôde ser ouvida — provavelmente tinham acabado de ligar o rádio — e Michele começou a embalar-se suavemente ao som. Ele conhecia aquela música. Graças àquilo, conseguiram engatar uma conversa novamente.
Mickey pediu mais um expresso, Emil resolveu que iria experimentar a torta de chocolate. A garçonete observava-os discretamente de dentro do estabelecimento, sorrindo. Enquanto esperavam, Michele arriscou uns versos da música que estava tocando enquanto Emil olhava-o com o mesmo semblante encantado de antes.
Conversa vai, conversa vem, entre xícaras de café e carinhos discretos, o casal foi pedir a conta com o sol já se pondo no céu. Michele não deixou Emil tocar na carteira — ele quem havia convidado-o, como se já não bastasse a despesa de ir até a Itália.
Michele também insistiu em levar Emil de volta ao hotel de carro, por mais que a distância fosse menor que três quadras, e em acompanhá-lo até a porta. Emil, então, sorriu e perguntou se ele queria “dar uma passadinha” no seu quarto.
O mais velho sorriu de volta, aceitando o pedido e subindo com ele de elevador até o andar certo. A noite havia apenas começado.
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