Moça, sai da sacada
3 III
Meus olhos se abriram devagar, o relógio na cabeceira da comoda indicava que era o fim da tarde, olhei pro lado e o vi, ele estava sentado numa cadeira, lendo um livro grosso, a cortina estava semiaberta, pra não me acordar.
Assim que levantei metade do corpo, ele me olhou sem mexer a cabeça, sorriu e fechou o livro, levantou da cadeira e se sentou na lateral da cama.
"O quê você estava lendo?"
"Crimes, do Ferdinand von Schirach" Assim que ele disse isso eu o encarei como se ele estivesse louco
"por que está lendo von Sui...Schr...Schich..."
"Schirach"
"Isso ai, por que está lendo isso?"
"É um livro quase obrigatório quando se faz advocacia"disse ele com um sorriso
"Obrigado pelos pais?"
"Não"A resposta me deve ter feito ficar com uma cara engraçada, porque ele deu uma risadinha "Eles querem que eu seja bombeiro, igual meu pai e meu avô, eu que quero fazer advocacia"
"Nossa, que incrível" e foi ai que a depressão me bateu como um soco na boca do estômago, as lagrimas começaram a brotar "você é incrível, mas fica aqui, perdendo tempo com alguém como eu, a merda de uma depressiva que nem consegue se matar"
"Ei, não é assim" ele tentava falar calmo, como se eu fosse um bicho nervoso à ser domado
"É assim" eu acabei por gritar "você é todo perfeito, bombeiro, advogado, bonito, mas fica qui perdendo a sua vida comigo" eu dei um tapa derrubando o relógio da comoda
"Para de falar assim" ele tentou segurar as minhas mãos, mas não conseguiu
"Eu não nasci pra ser feliz, você sim"Eu sai da cama numa espontânea, súbita e furiosa tristeza "Eu fico prendendo você, eu merecia ser feliz, mas não consigo, eu não consigo!É uma merda!"
Ele se levantou, e segurou meus braços num abraço forte.
"Para de chorar, não suporto ver você chorando"Eu soluçava no peito dele
"Eu não mereço tudo isso, eu não mereço você, eu nã..."Ele me interrompeu, colando os lábios dele nos meus.Eu ainda não sei se naquele momento meu coração parou de bater, ou bateu o mais rápido que eu me lembre.
Não sei quanto tempo ficamos lá, aninhados um no peito do outro, algumas lágrimas furtivas ainda me escapavam.
O relógio instalado dentro do celular dele começou apitar, anunciando que o horário de visita acabará.
"Fica, por favor"
"Eu não vou embora"
Não me lembro quando ou como, mas quando dei por mim, estávamos deitados de conchinha na cama hospitalar, uma mensagem surgiu no celular dele.
"PQ N FOI NA PROVA??C SABIA Q IA TER, MANO, C BOTO ATE ALARME"
Eu devia ter acordado ele, e brigado por ele ter abandonado uma prova por mim, mas fechei os olhos e voltei à adormecer naquele abraço.
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