Eu estava no ônibus, pensava no quanto me dizem que eu devia sorrir mais, socializar, nunca reclamar, agradecer por tudo que eu tenho; eu não consigo.Olhava pela janela o sol refletia nos óculos escuro que escondiam olhos inchados por chorar até dormir.Esse não era o ônibus que eu pegava para ir para casa, eu não ia voltar, estava decidida, aquele era meu último dia.

Na penúltima parada, eu desci, no centro da cidade, olhei para cima, não haviam pássaros ou arvores, olhei para frente um mar de gente andava de um lado para o outro, todos se viam, ninguém se notava, um prédio grande estava na minha frente, uma ponte direto para o paraíso.

Entrei pela porta da frente, ninguém se importou, ninguém nunca se importa, chamei o elevador de serviços, com o meu bafo de álcool, não me deixariam usar o social, subi até o nono andar que era o último em que o elevador chegava, subi um lance de escadas.Abri a única porta daquele lugar, ficando assim, na cobertura, um grande espaço de nada misturado com coisa alguma, grande o bastante para por quatro vezes minha casa.Andei até a sacada, passei uma perna pela grade de segurança, outra, e me sentei na borda do prédio, 15 centimetros de concreto me separando da morte certa, minha mochila logo ao lado, eu a abri, vi meus cadernos de desenho, tiro uma folha e solto acima da multidão que nunca olhava pra cima, uma segunda folha, terceira, quarta, e logo comecei a arrancar montes de folha e solta-las ao vento, não sei quanto tempo se passou, mas uma pequena multidão percebeu que eu estava ali, começaram à apontar, eu acenei.

Me pus de pé, pronta pra pular, já estava procurando um carro onde cair, e então, chegou o som, com a facilmente reconhecida alteração causada pelo uso de um megafone. "Moça, sai da sacada, você é muito nova pra morrer"Olhando pra baixo vi um carro de bombeiros, um deles estava com a máquina, eu gritei para ele me deixar em paz, ninguém pareceu ouvir o que eu disse, então peguei um papel, escrevi duas letras P e Q, seguidas de um ponto de interrogação.Arremessei o papel no ar, e por algum motivo, o homem conseguiu pega-lo.

Ele leu e não sabia o que responder, pelo visto bombeiros não nasceram para negociar com suicidas.

Eu estava pronta para saltar quando ele disse."Que tal você me contar a razão de tudo isso entre uns copos de café?"