Mizpá
21 Fanaa
Notas iniciais
Ela parecia feliz. Era como se aquele lugar, fosse o seu paraíso, seu mundo particular, sua cúpula de vidro. Mesmo com aquele vento frio e o céu consideravelmente escuro, ela abriu os braços e rodopiou, como se estivesse sendo banhada por raios de sol imaginários, esvoaçando seus cabelos compridos e castanhos, com um sorriso suave nos lábios.
– Por que está tão feliz Iullia? – ela abriu os olhos e continuou sorrindo – Vai acabar caindo.
– Não se sente diferente nesse lugar, Sebastian?
Observei os pingentes de suas grossas pulseiras, que ela não tirava por nada há duas semanas, balançarem. Olhei para o céu escuro e continuei andando até o penhasco perto da praia, havíamos escolhido uma péssima época para viajar pra cá, mas mesmo assim, era um lugar relaxante, não isso tudo que Iullia estava sentindo, lógico.
O que ela sentia parecia ser especial demais.
– Sebastian... – estávamos perto do penhasco – Posso pedir um conselho?
– Acho que sim, por que não...
Nós paramos perto do penhasco, não muito perto da ponta e sentimos o vento balançar nossos cabelos e seu queixo tremer, ela provavelmente estava morrendo de frio.
– Se você está gostando de uma pessoa, o que você faz?
– Se sou eu corro atrás dela – fiz uma leve pausa – Mas como é você, devo quebrar a cara do marmanjo.
Ela gargalhou com todas as suas forças, mostrando seus dentes perfeitos.
– Seu bobão! Mas voltando... E se ela for uma pessoa... Que não é assim, tão alcançável?
– Inalcançáveis são os amigos imaginários, Iullia. – ela riu – Qualquer pessoa é alcançável.
Ela olhou para o horizonte e suspirou. Ela parecia pensar cuidadosamente no que iria falar, como se selecionasse cada palavra em sua mente e com o tempo ela começou a mover seus dedos, um ato que normalmente fazia quando estava nervosa.
– Até mesmo você? – ela não me olhou – até mesmo você é alcançável? Por qualquer pessoa?
– Não sei, você acha que sou inalcançável?
– Acho – respondeu rapidamente e me olhou – Eu acho que você é como o horizonte Sebastian; algo que não é alcançável, até por que, se você for até aquele horizonte – apontou – você irá encontrar outro e outro e outro e outro, algo que não teria fim, algo que você jamais poderia tocar.
Direcionei o meu olhar para o horizonte junto com ela; Não havia gostado muito de ser comparado daquela forma, uma forma tão... Triste. Nada é impossível, pobres ficam ricos e ricos ficam pobres, doentes ficam saudáveis e saudáveis, doentes. O vento ficou mais forte e ela se encolheu mais, girei os calcanhares, indo direção oposta do penhasco.
– Vai aonde? – ela não se moveu – Andamos isso tudo pra ficar só sei lá, cinco minutos?
– Você não está vestida adequadamente para aturar a temperatura, pode ficar doente.
– Está preocupado comigo, Sebastian? – ela riu – Que tal você me dar o seu casaco?
Eu parei e olhei para trás, encarando-a. Ela estava com os cabelos bagunçados e os lábios roxos.
– Não estou preocupado com você, mas ficar doente enquanto estamos passeando, pode ser um problema. – me virei e continuei andando – E por que eu lhe daria meu casaco? Para ficar com frio? Por favor.
“That blue is getting me high
Making me low”
(...)
Connor havia roubado minha mãe de mim. Todos os dias que eu vinha, minha mãe vinha junto para saber como ele estava, virando de fato, a mãe dele. Não que ela havia parado de me dar atenção, jamais; minha mãe tinha a capacidade de distribuir a mesma quantidade de afeto por nós dois, o que era no mínimo, assustador. Mas como minha mãe só teve dois filhos, sendo um deles morto, um dia a verdadeira mãe deveria chegar.
– Eu preciso falar com você a sós, Connor – Louise disse impaciente – Não tenho o dia todo.
– Você pode falar tudo na frente deles, Louise. – Connor sequer saiu do meu colo – Não há o que esconder.
– Connor, estamos indo embora, ok? – Ele virou o rosto para mim, fazendo um imenso bico – Connor...
Os bicos e fofuras dele sempre arrancavam risos da minha mãe; toda vez que tínhamos de ir embora, era a mesma coisa, minha mãe sempre ia embora mais cedo por causa de Aaron ou o laboratório, o drama era ainda maior. Mas por determinadas circunstancias, ele normalmente agradecia de minha mãe não estar na nossa frente...
Enfim.
– Você precisa desse tempo com ela querido – minha mãe sorriu e eu fiz o mesmo – até mais.
Aproveitei a brecha que minha mãe abriu para ir embora também, apesar de desejar muito ficar com Connor, eu tinha muitas coisas a resolver. Entramos no carro e fizemos o mesmo trajeto que havíamos feito basicamente a semana inteira em silencio, apenas comentando coisas básicas e desnecessárias. Ao parar em um sinal, eu suspirei, minha mente imediatamente foi a Connor.
– Connor lembra um pouco ela, não é? – disse lembrando das feições de Louise comparando com as de Connor, somente os olhos grandes e escuros eram dela.
– Não sei, não reparei – ela avançou novamente assim que o sinal abriu – se eu vê-la novamente, nem sei se reconheço.
Naquele momento, me senti uma criança que queria a atenção da mãe que estava ocupada cozinhando. Mei riu baixinho e me cutucou, me tirando da psiquiatria e voltando ao carro.
– Ela é mãe dele Sebastian, não irá comê-lo. – Ela parou em frente a nossa garagem e desligou o carro, saímos ao mesmo tempo – não adianta ficar super protegendo...
– Louise é um pouco biruta mãe – cumprimentamos o motorista que passou por nós, indo por o carro na garagem – sempre acontece coisas ruins quando ela está por perto.
– Ele é um mocinho, vai saber se cuidar.
Entramos em casa e vimos Aaron descer as escadas colocando o sobretudo grafite. Ele sequer reparou em nós; depois de colocar as luvas pegou a maleta em cima do sofá e veio em nossa em direção, quase esbarrando em nós.
– Ei! Onde você vai, criatura? – minha mãe disse, ele sorriu.
– Preciso sair – a senhora (ciúmes) Mei colocou as mãos na cintura e franziu as sobrancelhas, arrancando mais um riso do meu pai, que beijou levemente seus lábios – vou para o laboratório, precisam da minha ajuda lá. – ela não saiu de sua pose de ataque e Aaron a puxou pela cintura, a beijando de verdade –Deixe de ser bobona! Eu já volto.
Meu pai sequer fez questão da minha presença ali; assim que ele virou as coisas eu puxei seu pulso, fazendo com que ele virasse para mim. Passei meus braços pela sua cintura e chorei, eu queria tanto meu pai novamente e ele não se afastou, apenas retribuiu o abraço.
– Pai, perdão, por favor... – solucei – não vá embora sem se despedir de mim – apertei mais o abraço – fale comigo! Nem que seja para me humilhar, agredir verbalmente, mas eu prefiro tudo menos o seu silencio.
Aaron beijou o topo da minha cabeça e eu senti meu coração mais leve.
– Não diga essas coisas, eu jamais deixaria de amar você, Sebastian.
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