A sala de Odete Adam, professora de artes do Colégio público de Frost Ville, era um pouco menor do que a sala de estudos sociais. Um cartaz de “A bela adormecida”, peça que seria apresentada naquele semestre, estava colado atrás da porta. O cheiro de produto de limpeza estava forte, pois a faxineira Julian havia passado ali mais cedo.

Mike Butcher se jogou na cadeira de visitas. Kalel Everdeen e Roy Lawrence estavam logo atrás dele. Mika, no entanto, fuxicando de um lado para o outro, estava observando os pequenos globos de bronze e os relógios de bolso, pensando o que seria fácil de furtar. Odete entrou logo atrás deles e sentou em sua cadeira giratória atrás da escrivaninha. Ela limpou um cúmulo de sujeira imaginária de cima de suas pastas, se inclinou para frente e cruzou as mãos.

— Eu vou ser curta e direta, está bem? John e eu tivemos conflitos no passado e ele tinha algo que me pertence. Ele escondeu para impedir que eu o achasse. Demorei anos, mas resolvi tomar uma atitude agora que as coisas para o meu lado não andam bem – explicou Odete – Quis recuperar o que é meu e o meu plano era mata-lo se fosse preciso. E eu matei.

Odete inclinou para trás com a cadeira. Mika já estava com um dos globos na manga da blusa.

— Tudo estava ocorrendo em harmonia até aquela imprestável aparecer – continuou ela — Eu sei que ele disse alguma coisa para ela, porque na noite que vim tirar satisfações com John, a senhorita Dunbroch estava lá. Já não bastasse, e ela apareceu ontem de novo com seus amiguinhos, quando vim procurar meu tesouro de novo. O que quero dizer é que

— Você está me aborrecendo, madame – Mike se inclinou para frente, apoiando-se na mesa – Vamos deixar uma coisa bem clara, está bem? Eu não me importo com esse seu lamento de aqui e acolá. Eu me importo com aonde eu entro e com o que eu ganho. Então vamos fazer um favor para mim e para meus meninos e vamos direto a parte que interessa.

Kalel deu um risinho, se inclinou e pegou um punhado de amendoim que estava disposto em uma travessa de vidro em cima da escrivaninha da professora de artes. Enquanto isso Mika já havia roubado seu segundo globo para vender na loja de penhores da rua Álamo.

Mesmo incrédula com a postura de Mike, Odete não perdeu a sua. Ela ajeitou os óculos, limpou a garganta e juntou as mãos novamente diante ao corpo.

— Eu preciso que o senhor os siga, senhor Butcher, principalmente a garota, a senhorita Dunbroch. Quero que descubra até onde ela sabe, o que ela sabe e se ela está escondendo alguma coisa. Cada coisinha que descobrir quero que traga para mim, ouviu bem? Não me importa como vai fazer isso. Não me importa se vai ser gentil e chama-la para jogar sinuca ou se vai ter que ameaça-la, o que me importa é o que é meu e eu quero de volta. Quero informações daquela menina imunda.

Mika largou o livro de filosofia que estava olhando em cima do bebedouro e se aproximou da escrivaninha da senhora Adam. Ele pigarreou e sorriu com seus dentes perolados, coçando o nariz com a ponta dos dedos.

— E se por acaso tivermos que mata-los para conseguir o que você quer?

Odete inclinou-se para trás e sua cadeira fez um estalo monstruoso. Em seguida, ela abriu a gaveta da escrivaninha e tirou uma arma.

— Desde que meu nome não seja envolvido em hipótese ou ocasião alguma, façam o que quiserem.

Mika pegou a pistola e assoviou em aprovação. Ele virou o cano em sua direção, tomando cuidado para manter os dedos longe do gatilho. Satisfeito com a análise e o novo brinquedo, Mika guardou a arma dentro do casaco e moveu-se para perto da janela. Mike observou o amigo com atenção, e depois dirigiu-se para a professora novamente.

— E a grana? – perguntou ele, em tom tão ameaçador que vez Odete endireitar a postura na cadeira – Aonde entra a grana? Espero que não esteja mentindo sobre ela.

Ela sorriu.

— Não se preocupe, senhor Butcher, nós chegaremos lá, e se o senhor conseguir o que eu quero, terá dinheiro suficiente para comprar um carro novo. Então? Teremos um acordo, senhor Butcher?

Mike encarou o rosto enrugado da professora e ouviu Mika o chamando. O amigo apontou para a janela como uma criança aponto para um novo boneco lançamento na loja de brinquedo e disse que

— Ela está saindo, Mike. Ela está indo com o Frost. Acaba logo com isso, cara e vamos atrás deles.

Odete esticou a mão para o aluno sentado a sua frente e Mike a apertou com força. Depois, puxou a professora para perto, obrigando-a a apoiar quase o corpo todo por cima da escrivaninha. No ranger dos dentes, Mike sussurrou perto do ouvido de Odete que para o bem dela era

— melhor você não me decepcionar, professora. Se você não cumprir o que me prometeu, já vou deixar avisado que não tenho dó de gente de meia idade não. E tem mais, se disser de mim e do que vou e posso fazer pra alguma autoridade, eu vou desmentir e ainda vou contar do seu plano imundo pra eles. Está claro?

Mike largou a mão da professora e a cadeira giratória fez o barulho monstruoso novamente. Quando Odete pensou em uma resposta a altura de Mike Butcher, ele já estava fechando a porta da lata velha embostava de Mika, ligando o rádio e abrindo mais uma latinha do engradado de cerveja da lojinha de conveniência do Gary Bosta. Enquanto cantarolava Tears for Fear, Mika dirigiu até a rua Ollgra e estacionou um pouco antes de onde Jack Frost e Merida pararam.

— O que eles vieram fazer aqui? – perguntou Roy, enfiando-se entre os dois bancos da frente para observar melhor.

Kalel o puxou de volta, fazendo Roy bater as costas no banco.

— Essa casa aí é a do professor morto – disse ele — Uma vez eu estava indo com a minha mãe no mercado e passei por aqui. Ele estava saindo daquela casa.

Mike jogou a segunda latinha no chão e observou os dois babacas entrarem na casa do professor.

— Nós vamos esperar aqui.

E eles esperaram.

O sol da tarde estava escaldante e Kalel não sabia exatamente quanto tempo já estavam dentro daquele carro todo abafado e cheirando a peido. Roy, por sorte, não teve que exalar todo aquele cheiro insuportável, já que sua mão ligou vinte minutos depois dizendo que precisava dele em casa. O maior movimento da rua era um gato correndo atrás de um lagarto no jardim do sr. Cobalt. Mike, entediado, ficou torcendo para o gato enquanto terminava a última latinha de cerveja. O gato ganhou, é claro, e o lagarto virou picadinho de almoço.

O sol já estava quase se escondendo entre as árvores da reserva. Mike começou a sentir a cabeça latejar e já estava devidamente impaciente. Ele abriu a porta do carro e esticou as pernas e os braços, como se tivesse tido uma longa noite de sono. Mika, quando percebeu, guardou as chaves no bolso e saiu também.

— O que você tá fazendo, cara? Eles não saíram de lá ainda.

Mike estalou o pescoço e atravessou a frente do carro.

— Então eu vou fazer eles saírem.

Mike cambaleou até Mika, sorriu e apoiou o braço no carro.

— Como eu estou?

— Bêbado.

Mike revirou os olhos, mostrou o dedo do meio para o amigo, Mika Marsh, e o empurrou de sua frente, cambaleando e rebolando para a porta da casa de seu falecido professor. Ele ajeitou o cabelo como de costume, coçou os olhos ardidos de sono e bateu na porta. Uma senhora, tão pequena quanto Mike, atendeu a porta e o recepcionou com um sorriso gentil.

— No que posso ajudar, meu bem?

— Estou procurando pelos meus amigos. Eu os vi entrar aqui, madame. Poderia chama-los para mim? É importante. Se perguntarem quem é, diga que é David, sim?

A senhora sorriu e pediu um instante. Mike olhou para aonde a lata velha embostada estava e lançou um sinal positivo para Mika, que estava encostado no carro, fumando. Quando ouviu vozes novamente, Mike se escondeu atrás da varanda. Viu Jack Frost subir a rua Unya até não ser menos que um ponto minúsculo no final da esquina. Não tardou e Merida Dunbroch também saiu da casa, mas seguiu a rua Ollgra. Ela já estava parcialmente longe quando Mike voltou para perto de onde os amigos estava e anunciou que era hora da caçada. Pediu para que Mika e Kalel fossem pelo outro lado e o esperasse no beco da rua, e seguiu em passos largos na direção de Merida. Quando Mike pisou em um galho preso no chão, a garota ouviu e, mais atenta que um suricato, ela olhou para trás e encontrou os olhos ferventes de Mike, que sorriu calorosamente. Ela aumentou o passo e entrou no beco, na armadilha do coelho que Kalel Everdeen e Mika Marsh haviam armado, e o sorriso de Mike esticou-se de orelha a orelha. Ele pegou Merida como uma cobra pega um coelho. Mika e Kalel a seguravam a força contra a parede do beco e o álcool atingia as têmporas de Mike violentamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.