Mistérios de Frost Ville - II
4 Desenhos, textos e números.
Notas iniciais

(01h03)
A atmosfera do lado de fora da delegacia estava coberta pelas luzes das sirenes. Um segundo vermelho e outro azul. Merida saiu de dentro do prédio e soltou a porta de vidro. Olhou para as viaturas ali paradas e sem nem pensar duas vezes começou a andar pela calçada. Ela suspirou fundo, como se não o fizesse a muito tempo. Como se dentro da delegacia o ar fosse podre e escasso e aquela fosse sua única chance de aproveitar e realmente deixar o ar limpo invadir as suas narinas.
A noite estava quieta.
Merida chutou uma pedra que estava no caminho. Estava furiosa por dentro. Furiosa com o que aconteceu dentro da sala de interrogatório, de como David havia sido
— Escroto — resmungou, e então chutou outra pedra.
Uma brisa atravessou o seu rosto e então ela olhou para frente, puxou a lateral da mochila, ainda mantendo-a nas costas, e pegou o cigarro que Jack lhe dera mais cedo naquele dia. Soltando a bolsa, ela colocou o cigarro entre os lábios e o acendeu com um isqueiro, protegendo a chama com uma das mãos. Merida tragou-o e soltou a fumaça lentamente, arrancando-o dos lábios e segurando-o frouxamente entre os dedos conforme caminhava.
Um morcego sobrevoou a rua e um carro avermelhado e em muito bom estado passou, iluminando a rua com um horrível farol alto. Por vagos segundos Merida viu uma sombra logo atrás, um pouco antes do carro sumir. Ela parou de repente. Tragou novamente o cigarro, soltou a fumaça e entrou num beco (que ficava entre uma casa e uma cafeteria). Andando mais um pouco, em passos suaves, ela apagou o cigarro na parede úmida, e a ponta alaranjada se esvaecendo lentamente fora a primeira e última iluminação que aquele beco tivera até o amanhecer.
Merida parou e jogou a bituca no chão com um peteleco.
Em questões de segundos, talvez seu recorde, Merida largou sua mochila no chão e virou-se, dando três longos passos.
— Você deu azar — ela se ouviu dizer, socando o rosto do sujeito que a estava seguindo. Segurou-o pela gola da camisa e o prendeu contra a parede — Esqueceu que luz provoca sombra? Eu juro que posso quebrar o seu nariz se você não der o fora.
Ela ouviu um resmungo.
Ela conhecia aquele resmungo.
— Merda. Ô Merda! — Merida soltou Jack, passou a mão por seus cabelos e terminou no rosto — Eu sinto muito. Eu achei
— Que algum maluco estava te seguindo, eu sei, eu sei — ele limpou o sangue do nariz com a manga da blusa — Eu devia ter pensado nisso.
Merida pegou a bolsa do chão.
— Eu não errei. Você é insano e estava me seguindo — ela passou a mão pelo rosto e balançou a cabeça — Merda, por quê? Como sabia aonde eu estava?
Jack fez um sinal com a cabeça, atravessou o beco e saiu novamente na rua. Merida o seguiu. Eles caminharam um ao lado do outro. O ambiente estava novamente cercado de luzes e o nariz do garoto estava levemente avermelhado.
— Desculpa se te assustei. Eu estava indo para a sua casa te encontrar antes de irmos para o colégio e vi David na porta. Me escondi e minutos depois você entrou no carro com ele. Você sabe, ele não corre, então segui vocês e deu na
— Delegacia. Entendi. Esperou e decidiu me seguir. Ia me chamar e eu te bati.
Jack deu de ombros.
(01h24)
— O que ele queria com você?
Ela contou cada detalhe.
— Você não deu o mapa pra ele, não é? Eu te conheço.
— Acho que a planta é importante.
— O que te fez mudar de ideia?
— Quando estávamos na cena ontem de manhã estava tudo bagunçado. A pessoa deixou a sala de pernas pro alto. Não foram todas as estantes revistadas. Você notou? Não? Eu vou mostrar hoje. E, bom, se a pessoa não estava procurando a planta, então ela estava procurando
Merida abriu a mochila e pegou a caneta de dentro — Isso.
Jack encarou Merida. Não parecia surpreso, mas também não estava convencido.
— Você tá brincando, né, gata?
Ela negou.
— Eu vou mostrar.
(01h45)
Mas antes mesmo de agir, os amigos entraram em campo e acenaram e logo todos estavam juntos abaixo da janela quebrada e enrolada de fita amarela. Merida guardou a caneta novamente. Preocupados, eles perguntaram porque a demora. Num momento Jack e Merida se alternaram e explicaram, no outro, todos já estavam fazendo pezinho e se agarrando na trepadeira para se jogar para dentro da sala. Violeta foi primeiro, passando com facilidade e Wilbur foi depois. Os outros seguiram e Merida foi a última.
A sala estava escura e no mesmo estado de algumas horas antes (as únicas diferenças era o sangue que havia sido limpo e os cacos de vidro catados). Soluço acendeu a luz. Todos estavam de luva por causa do frio — e as digitais. Cada um foi para um canto. Jack olhava os papéis pisoteados do chão. Violeta cuidadosamente olhava as tralhas dos armários. Soluço e Rapunzel analisavam as estantes de livros. Wilbur olhava os quadros e tocava as paredes e Merida contornava a mesa lentamente, várias vezes, como se a caminhada fosse lhe trazer respostas inimagináveis.
Merida passou a mão pela superfície amadeirada e sentou na cadeira de seu professor. Olhou para as gavetas escancaradas. Havia de tudo ali dentro: Papéis, fitas, lápis, grampos, um molho de chaves.
(um molho de chaves)
Ela pegou. Na outra gaveta não havia nada além de recibos, pastas e papeladas. Levantando novamente, Merida enfiou a chave no bolso e voltou a olhar para a mesa, sem sucesso. Afastou-se então tirou algumas fotos dos cantos da sala com o celular. Registrou cada detalhe da cena para imprimir e colar na parede depois, no seu quadro de provas, junto da planta que encontrara.
— Então?
Todos saíram de seus devaneios e se juntaram no centro da sala, largando se quer o que estavam fazendo.
Jack pigarreou.
— Nenhum fio de cabelo, pedaço de roupa, objeto perdido. Está tudo intacto. A única coisa são as pegadas registradas no papel. Provavelmente é um tênis, o que não define se é homem ou mulher já de cara.
— Sem marcas nas paredes. Também não encontrei nada oco ou atrás dos quadros. Tudo intacto — completou Wil.
Merida olhou para Violeta e todos seguiram seu olhar. Violeta apenas negou com a cabeça e disse que não encontrara nada de diferente.
— Os livros parecem em bom estado. Nem todos foram jogados no chão, quero dizer — Soluço aponto com o braço sem deixar de olhar para os amigos — Se a pessoa estava procurando algo na estante, ela sabia aonde procurar. Sabia a estante específica. Talvez o livro específico, então entendendo do que eu tô falando?
Todos estavam. Com certeza estavam. Principalmente Jack e Merida que se entreolharam, abismados.
(ela sabia aonde procurar)
(Talvez um livro específico)
Wilbur balançou a cabeça e revirou os olhos.
— Se era a porra de um livro que a pessoa queria, por que ela foi olhar nos armários e nas gavetas? Acorda, Soluço.
Merida segurou o ombro de Wil.
— Não, Wil. Ele está certo. Talvez o suspeito não quisesse só uma coisa. Talvez quisesse duas, ou três. Não só um livro. Algo a mais.
Soluço abriu os braços, impaciente antes de dizer:
— Como o quê? Dinheiro? Jóias? Cartões de crédito, relógios, anéis de ouro, uma
— Caneta! Uma caneta! — Merida sibilou e a luz acabou.
Eles mergulharam em escuridão.
— Merda, merda, merda, merda! — Wilbur lamentou —A gente tá fudido agora. Deve ter disso um guarda. Deve ter sido
O zíper de uma das mochilas ecoou.
A escuridão se foi e a sala foi tomada por uma iluminação negativa, arroxeada.
— Uma caneta — Merida repetiu, quase em um sussurro.
Apesar de ser pequena, a caneta dourada conseguia iluminar uma boa parte da sala. Todos olhavam ao redor, impressionados. Mas Merida não. Ela olhava para mesa. Mas que merda?, pensou e só para ter certeza aproximou-se mais e agachou diante ela, olhando suas laterais, todos seus diâmetros. Na madeira, escritas esbranquiçadas, que antes não estavam ali, surgiram num passe de mágica.
— Merida...
Ela levantou o olhar, levando-o para aonde os outros olhavam. Merida levantou do chão e ergueu a caneta.
Todas as paredes — pelo menos os espaços que não estavam tampados por quadros, armários e estantes — estavam cheias de desenhos, textos e números.
— Puta que pariu...
Era como se tivessem encontrado um templo antigo.
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