Mistérios da Lua - O Retorno da Magia
5 Segredos não são ditos em voz alta
Notas iniciais
POV'S JOSH
Eu estava meio mal com o que havia acontecido naquela noite. Anne não tinha culpa do que estava acontecendo com Sophie. Mas eu estava ficando estranho. Uma noite eu desci para tomar água e logo depois eu estava na esquina da rua onde morávamos, sem saber como eu havia chegado lá. Eu estava com medo de mim mesmo. Eu nunca tinha sido revoltado nem nada assim, mas nos últimos dias eu me sentia bravo, odiado e perseguido. Eu não sei que coisa Ed estava botando na comida, mas certamente não fazia bem pra mim.
– Josh, apaga essa luz! — Joe reclamou, do beliche de baixo. Ah, é. Eu estava dividindo o quarto com Joe, o garoto loiro que era chato pra caramba.
– Pra quê? — Rebati. — Você não é feiticeiro da Luz? Um pouquinho de luz não faz mal a ninguém.
– Ai, pelo amor do Armando.
– Quem é Armando? — Perguntei.
– ARmando. — Respondeu ele, dando ênfase no "AR".
– Você inventou um nome para o AR? — Perguntei, confuso.
– Eu dou nome às coisas. — Disse ele, na defensiva. — Por exemplo, minha camisa é Breno, e a minha cueca é Ian.
– Ei! — Reclamei. Por mais que eu preferisse Josh, Ian ainda era meu nome do meio. — Não chame suas cuecas de Ian.
– Por que não? — Perguntou ele, genuinamente atordoado. — Ian e minhas cuecas são chatas, irritantes e ainda por cima deixam Joe desconfortável.
– Rá-Rá. — Falei, sem achar graça. — Isso é tão engraçado.
– Eu sei! — Disse ele, enterrando o rosto no travesseiro. — Apaga essa luz! — Ele deu um peteleco no ar e a luz se apagou sem motivo. Meu coração começou a bombear e eu respirei com dificuldade.
A escuridão sempre me afetava, era como se minha visão ficasse cinco vezes melhor, minha força aumentasse e meu sangue fluisse melhor. Meu pai havia dito que o Povo da Escuridão era ainda mais antigo que o da Luz. Ele me contou muitas coisas. Por exemplo quem Anne era. Isso contava pra alguma coisa. Ele nunca havia escondido nada de mim, ele era meu pai. A Magia que corria no sangue dos feiticeiros e como eles eram criados. E os tipos de feiticeiros. E nossos inimigos, os Bruxos.
Antes que eu pensasse em mais coisa, peguei no sono e dormi.
– Josh! Josh! — Alguém me acordou. Era Joe.
– É melhor você ter um bom motivo pra ter me acordado. — Resmunguei.
– Cara, acorda. — Disse ele. — Tem um cara aí fora e ele quer falar contigo e com a Anne.
– Comigo e com a Anne? — Perguntei, sonolento.
– Sim. E ele tem cara de bunda, desce já! — Joe me sacudiu e saiu do quarto rindo. Me espreguicei e coloquei uma roupa qualquer.
Assim que coloquei os pés no último degrau, uma voz ribombante se ergueu acima das outras.
– Ah! O pequeno traidor.
– Meu nome é Josh. — Rangi os dentes.
Tropecei no tapete e andei até Anne me ajudar a parar. Estavam todos aqui. Anne usava uma regatinha de animes japoneses, um shortinho largo azul e pantufas laranjas. Ed estava com um jeans mal colocado e uma camiseta virada do avesso. Millena estava com um robe cor de rosa e bobes no cabelo loiro. Joe com uma camiseta e calças de moletom e eu, com a camiseta virada do avesso, uma calça jeans de trás para frente e um par de tênis em cada pé. Como o príncipe das Trevas chegou a esse ponto?
– Eu venho em um mandato do Lorde Gabriel Williams, chefe do Conselho. — Anunciou um homem, tirando um pergaminho de uma mala. Fala sério, que tipo de pessoa usa pergaminho? Ele abriu o papiro, que flutuou, com letras douradas sambando no ar.
"Venho por nome desta proclamar a emancipação dos jovens Annelise Raxel Watern e Josh Ian Collins.
Por assim declarando que ambos agora tem direitos e deveres para com o mundo da Magia. Direito de ouvir e ser ouvido, e dever de estudar e aprender.
Por assim dizendo, declaro que a partir do dia 1° de outubro, os jovens devem comparecer ao primeiro dia de aula no Ginásio.
Lorde Gabriel Williams"
Oh, bem. Pelo menos eu seria colega de Anne. Olhei para ela, tentando buscar um olhar de apoio, mas ela estava espumando de raiva.
– Espera. — Anne apontou para relógio, cada sílaba cheia de raiva. — São cinco e meia da manhã. O senhor invadiu nossa casa para dizer que as aulas vão recomeçar? Que tipo de lunático faz isso?
– O meu tipo de lunático, garotinha. — O homem encarou Anne, mas ela não deu para trás. Ficou o encarando com ódio mortal.
– Muito bem, ponha-se daqui para fora. — Anne apontou para a porta de saída. — Deixe o que tem que deixar e vá antes que saia daqui com água quente nas calças.
– A menina ousaria...
– A menina aqui é ousada, senhor. — Anne o olhou mais penetrante, e o homem fez um bufo de desdém, jogou o pergaminho nas mãos de Ed, mas antes que o papel chegasse nas mãos dele, parou no ar, e ouvimos a risadinha de Joe e o grunhido do homem.
– Sr. Kingston, por favor, pare de brincar com este pergaminho. — Avisou ele. Joe parou o pergaminho no meio da manobra e o colocou encima da mesa.
– Agora, se me dá licença, eu vou dormir. — Anne olhou uma última vez para o homem e se virou. Ela tocou de leve o ombro de Ed e sussurrou algo pra ele. Ele assentiu e deu um sorriso. Eu não sei como não morri de raiva ou de curiosidade. Respirei fundo quatro vezes, mas mesmo assim, fechei a mão em punho.
– Ah, eu percebi as faltas do senhor Joe na escola. — O homem disse. — Sua mãe está preocupada.
Joe rolou os olhos.
– E senhorita Millena Belluti. — Ele se virou para Millena, que empalideceu. — Suas irm...
– Eu sei. — Millena o interrompeu. — E eu vou avisar.
Ed a olhou com desconfiança, erguendo uma sobrancelha. Millena deu um olhar apavorado e implorativo pra ele, que assentiu, com um aviso claro nos olhos. Eu estranhei, mas não falei nada. Ed e Millena eram amigos há muito tempo, tal como eu e Anne. Só que eu nunca beijei Anne, embora Ed já havia ficado com Millena.
– Bem, eu já entendi. — Ed disse. — E como falou a dona da casa: obrigado, pode ir embora. — Ed sorriu, sarcástico. O homem o fitou, mas se virou e foi embora.
– Anne é a dona da casa? — Perguntou Millena, com um sorriso tímido. — Por quê?
– Porque eu sou o dono. — Ed sorriu.
– Ah! — Millena riu. — Entendi. — Ela havia entendido, mas eu não. Fiquei pensando até cair na cama e dormir de novo.
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POV'S MILLENA BELUTTI.
Foi por pouco que Kelvin revelou aquilo a Josh. Eu não sei porque menti, mas não adiantava fazer mais nada. Assim que entrei no meu quarto corri até a janela. Abri as janelas e as venezianas e deixei um buraco livre. Fechei os olhos e me concentrei.
– Kahan. – Falei. Um brilho verde foi como uma faísca até a janela. Eu já estava quase refazendo o feitiço quando o tão familiar buraco negro apareceu, se revolvendo. Tomei coragem. — Viana Belutti.
A tão familiar forma alta da minha irmã mais velha, com cabelos loiros cor de trigo, olhos verdes opacos tão diferentes dos meus apareceu na minha frente.
– Millena! — O sotaque alemão estava presente, claro.
– Viana! — Sorri. O meu alemão estava muito enferrujado.
– Millena, como senti sua falta, pequena! Oh, nossa mãe quase morreu ao saber que você foi em uma missão para o Rei, ou qualquer coisa. — Viana parecia tão angustiada. — Quando você vai voltar pra casa?
– Viana, eu estou bem. — As lágrimas queimaram meus olhos, e eu mordi meu lábio. — Mas já faz tanto tempo...
– Faz seis anos. — Viana mergulhou em lágrimas.
– Todas fizemos escolhas, Viana. — Falei. — E eu escolhi seguir os passos de papai, eu aceitei que sou uma feiticeira.
– Não diga isso! — Viana ergueu os braços e começou a tagarelar em alemão. — Nós somos normais!
– Pelo amor da mãe Terra! Nós somos feiticeiras, Viana! — Gritei. — Entenda! O papai tentou segurar, mas a Magia corria no sangue dele, como corre no nosso! Ele me trouxe com ele e aquele maldito incêndio o matou! Viana, o legado que ele deixou somos nós. Venha comigo, por favor.
– Ah, Millena. — Viana me encarou com olhos verdes opacos. — Eu não posso. Theo foi embora, mamãe está doente e Belinda está cada vez mais rebelde.
– Belinda está aí? — Perguntei. Uma imagem se formava na minha mente. A terceira Belutti, Belinda, tinha cabelos loiros prateados quase brancos e olhos azuis cor de gelo. Theo e Belinda eram loiros de olhos azuis e eu e Viana loiras de olhos verdes.
– Na balada. — Um flash de raiva passou pelos olhos de Viana. — Como sempre. Mas eu vou pedir pra ela te ligar.
– Não, não precisa. — Dei de ombros. — Vá dormir.
– São dez horas da manhã por aqui. Mas mesmo assim, vou pedir para Belinda te ligar.
– Tudo bem. — Suspirei. — Adeus, Viana. Diga a mamãe que eu amo ela. Adeus.
– E nós também te amamos. Adeus, irmã. — Viana sorriu.
Enfiei a mão na imagem de Viana, e a quebrei. As lágrimas rolaram pelo meu rosto e me joguei na cama, cansada até a alma.
Minha família estava bem. Belinda, Viana, Theo e minha mãe. O dia em que as abandonei para praticar magia ao lado do meu pai coçava meus machucados. Belinda e Viana, uma confusão de cabelos loiros, chorando na frente da porta dos fundos. Theo estava tentando atraí-las para dentro, mas não dava certo. Minha mãe, em seus cabelos loiros prateados, firme, dando as costas para o marido e a filha mais nova.
Eu não vou olhar para trás. Eu não vou.

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