Mister D
4 Capítulo 4
— Qual o seu nome?
— Me chamam de Mister D… — Ele disse enquanto olhava em volta no bar procurando um alvo. — Falando nisso, não quero ser identificado, não quero fotos, nem que coloque o meu nome… então se contente com Mister D mesmo.
— Você não vai me dizer seu verdadeiro nome?
— Não.
— Tudo bem, ninguém saberá que é você.
Ele afirmou com a cabeça e continuou olhando em volta. Eu via varias mulheres entrarem sozinhas no bar, alvos fáceis pra ele, mas ele não demonstrava estar interessado nelas. Ele com certeza tinha um alvo específico, talvez fosse as que sentavam no canto do bar, seria mais fácil de fazer elas caírem na dele, mas ele não precisava de um alvo fácil, ele poderia conseguir a mulher mais difícil dessa noite se quisesse. Então qual era o alvo dele? O que chamava a atenção?
— Tem várias mulheres aqui hoje. Por que não vai em uma delas?
— Eu escolho a mulher… Ta vendo aquela ali? — Ele apontou para uma mulher magra, alta, com porte de modelo, ela era mais jovem que as outras. — Ela com certeza está solteira, e também tem dinheiro. Vou receber uma boa grana com ela, e ela vai adorar e querer mais. Vai aparecer aqui mais 6 noites e eu vou lucrar bastante com ela.
— Nossa… Como sabe disso?
— Pelo olhar dela. Não sabia? Um olhar diz muito sobre uma pessoa… O olhar dela diz que ela está carente e precisa de alguém que a faça abrir as pernas e relaxar do dia angustiante que ela teve.
— Você é nojento… — Revirei os olhos. — O que meu olhar diz?
— Diz que você queria estar no lugar dela… — Ele sorriu malicioso, e eu fiz novamente minha cara de nojo. — É estranho, mas não sei o que seu olhar diz…
— Que bom, não gosto de ninguém me decifrando. — Eu me virei e olhei novamente a mulher. — Quanto você recebe por cada… é…
— Cada foda? Recebo uns 500 reais, mas com essa ai vai ser 700. — Ele sorriu convencido. — Estarei no quarto 306.
Então ele sorriu pra mim novamente e se levantou indo em direção a tal mulher, novamente sussurrou algo em seu ouvido e a levou para as escadas. Ele fazia aquilo muito fácil, parecia totalmente experiente naquilo, ele não fazia esforço nenhum para levar as mulheres para o quarto, aquilo me deixava um pouco intrigante, porque mesmo com todos os meus problemas, mesmo com tudo eu não faria aquilo, não iria para um quarto de um bar com um garoto de programa. O alvo dele eram as mulheres com condições financeiras boas, era o meu caso, ele as conseguia com facilidade, mas não conseguiria a mim. Será que eu era diferente dessas mulheres?
Depois de alguns minutos esperando sentada no bar, resolvi subir as escadas e ir até o quarto que ele estava. Nunca havia subido para o segundo andar, mas quando subi pude notar que era um corredor comprido e que haviam 6 portas, 6 quartos. Fui passando por elas e olhando o numero em cada porta, até que encontrei a 306, fiquei parada em frente a ela, com certeza eu não entraria lá, não tenho vontade de ver o que está acontecendo lá dentro, que com certeza era algo bom, porque eu conseguia ouvir a mulher gemer alto. Fiquei constrangida com aquela situação, mas permaneci ali, fiquei intrigada com o que ela dizia, e achei que poderia colocar essa parte na história. Ela gemia diversas coisas, “Nossa, você é muito bom”, “ai que gostoso”, “Meu Deus que grande, que grande”, era alguma das coisas que ela praticamente gritava, esse ultimo com certeza não colocaria na história, constrangedor demais.
Optei por voltar ao bar e esperar novamente, pedi duas doses de tequila e esperei por algum tempo. Enquanto ele não chegava fiquei olhando as mulheres no bar, pensando se eu conseguiria descrevê-las da forma como ele conseguia, mas não consegui. Ele devia estar nisso há muito tempo, ele conhecia os detalhes, a condição financeira, os desejos, tudo o que as mulheres queriam sem ao menos falar um “oi” para elas. Mas por que ele não conseguia ver o que eu queria? Ele acertou minha condição financeira, mas não conseguiu acertar meus desejos, será que era por que eu não tenho um desejo? Eu não sou que nem essas mulheres, não quero afogar minhas mágoas abrindo as pernas pra o primeiro bonitão que me aparece. Eu tenho sim minhas mágoas, mas já não tenho o que fazer para afogar elas, acho que elas já me afogaram a muito tempo.
— Voltei. Essa foi mais legal do que eu pensava… 800 reais… errei por 100 – Ele disse convencido. — E você vai ver, sexta que vem ela vai estar aqui, sábado também.
— Você se acha muito. Qual sua idade?
— 25 anos. E a sua?
— A história é sobre você, não mim. Então não precisa saber nada sobre mim.
— Se prefere assim… tudo bem. Do que eu te chamo?
— Isso tudo bem… Meu nome é Sasha.
— Você adora uma tequila não é Sasha?
— Já terminou Mister D? Para onde vamos agora?
— Agora eu vou pra casa, você não sei. Você tá de carro?
— Sim… por que?
— Me dê uma carona.
— Ah você está abusando demais… Eu já vou lhe dar 5 mil, não preciso ser sua motorista também.
— Estou pedindo um favor, pode ser? Estou atrasado…
— Para que?
— Não importa. Vai me dar a carona?
— Af, tudo bem.
Saímos do bar e fomos em direção ao meu carro, deixei que ele entrasse e comecei a dirigir, ele foi me guiando por todo o caminho até seu bairro, mas não quis deixar que eu chegasse perto de sua casa, disse algo como “me deixe aqui, eu irei andando agora, boa noite e obrigado”, eu estranhei, mas não quis interrogá-lo, apenas retribui com outro boa noite perguntando-o em seguida o que ele faria amanhã de manhã, ele me disse que faria algumas coisas e contou que não era só garoto de programa, que isso era apenas a noite, de dia ele fazia algo. Então eu pedi que ele deixasse eu acompanhá-lo, falei que não queria apenas escrever sobre sua vida a noite, e sim sobre todos os momentos, ele concordou e pediu meu telefone para que pudesse mandar mensagem marcando nosso local de encontro, eu passei meu número e logo voltei a dirigir de volta para minha casa.
Já era uma hora da manhã quando cheguei em casa, entrei sem fazer barulho em casa para que não acordasse ninguém, fui em direção a cozinha porque estava morrendo de fome. Não havia comido nada desde que fui até o bar, precisava me alimentar se não eu não conseguiria dormir. Abri a geladeira e peguei o restante da lasanha que sobrou do almoço, esquentei no micro-ondas e comi, matando a minha fome antes que ela me matasse.
— Oi… — Me assustei ao ouvir uma voz masculina falar comigo, quando me virei pude ver que era Thiago, que soltou uma breve risada ao ver que me assustei. — Devorando a comida escondida?
— Não… eu só… não comi nada.
— Eu sei, notei que não estava em casa.
— Está passando a noite aqui?
— Sim… to no quarto da Danda.
— Ah sim. — Olhei sem graça pra ele, tinha acabado de perceber que ele estava sem camisa. — Eu já vou subir…
— Está com sono?
— Ainda não.
— Pode me fazer companhia então? Eu perdi o meu.
— Tudo bem.
Eu não queria ficar perto dele naquele momento, mas não poderia recusar. Ele era uma pessoa tão legal, eu até gostava de estar com ele. Mas não me sentia confortável de estar na sala, no escuro, com ele sem camisa e todos dormindo. Só nós dois ali sozinhos, era desconfortável demais, eu mal conseguia encará-lo, mas tentei fazer um esforço. Se ele queria conversar talvez precisasse de uma amiga, eu não poderia negar a ele um ombro amigo.
— Vejo que está melhor.
— Estou sim. Muito obrigado… — Ele olhou para baixo, parecia preocupado com algo. — Você está bem?
— Sim… e você?
— Não muito. Estava pensando que você foi lá comigo enquanto sua irmã foi trabalhar. As vezes acho que você que quase não fala muito comigo se importa mais do que ela.
— Eu me importaria com qualquer pessoa doente. Ela só… teve que trabalhar, tenho certeza que ela se importa sim com você.
— Você acha que ela me ama?
— Sim.
— Mas e se… e se eu… — Ele pareceu envergonhado, então deu algumas pausas longas antes de dizer. — E se eu não amar ela?
— Por que estaria com ela se não a amasse?
— Porque eu gosto de estar aqui, com você… — Arregalei os olhos nessa hora, acho que ele percebeu. — E seus pais, eles são bons pra mim.
— Não vamos deixar de falar com você se não estiver com ela.
— Não sei se devo deixá-la também. Eu sei que ela é má com você, mas eu só acho que ela está meio perdida.
— Por que estaria? Ela tem tudo, o amor dos meus pais, coisa que eu não…
Não queria que ele soubesse que eu tenho a certeza de não ser amada pelos meus pais, mas acabou saindo sem querer. Na verdade, sempre saia, porque era algo que me afetava, era algo que me fez mudar por dentro, eu me sentia sozinha, eu era sozinha, não tive meus pais pra passar remédio toda vez que eu ralava os joelhos, imagina toda vez que eu ralo o coração.
Parece um drama, eu sei. A pobre menina que não tem o amor dos pais, já ouvi essa história várias vezes. Mas eu não queria ficar tão afetada com isso, meu desejo é que tudo isso acabasse, não necessariamente que se resolva e que dê certo, mas gostaria de não dar importância. Gostaria de olhar pra tudo que já passou e rir. Queria estar em um mundo diferente, por que quando digo que não quero, eu vou querer depois, quando digo que esqueci, logo eu me lembro, quando digo que não me importo, eu me importo e isso me machuca. Quero que a vida chegue ao final feliz, por que dos meios estou cansada. Será que vai haver algum instante, onde vou parar e pensar: Nossa, valeu a pena passar por aquilo, para viver isso agora? Será que vai haver um instante onde vou sorrir disso tudo? Por que, agora, só tenho chorado, reclamado, feito o “drama” que o Mister D tanto fala que os ricos fazem. Eu só quero me vestir de risadas, pra nunca mais chorar. Não quero esse gênero dramático no filme da minha vida. Estou cansada de agir e pensar sozinha, sonhar sozinha, de tentar sozinha. As vezes acho que a vida me tira as coisas da pior forma possível e ri quando faço planos. Não, eu não sofro de depressão, ainda tenho meus momentos felizes, não quero que tudo seja sempre feliz, sei que não é possível, mas eu só queria amar a mim mesma, amar quem eu me tornei, e ser feliz sozinha, mas eu não consigo, tá faltando algo, alguém, não sei.
— Ele não te ama? — Thiago perguntou parecendo surpreso.
— Sinceramente? Não.
— E quem te ama? — Ele fez essa pergunta que me deixou bastante surpresa.
— Acho que só meu melhor amigo.
— Você se ama?
— Não… Não posso amar alguém que só teve fracassos, alguém fraco…
— Eu não te acho fraca.
— Você não me conhece.
— Conheço mais do que imagina. As vezes nos tornamos uma pessoa insegura e com vergonha da própria imagem, mas não julgue a si próprio só porque você errou, ou melhor, fracassou. Porque se você ainda não desistiu dos seus sonhos com tantas pessoas dizendo que nunca irá conseguir você é forte sim. Eu sei a sua história, Danda me conta, que tudo que você tenta, você falha… eu não concordo, pode até falhar, mas você sempre tenta, eu admiro isso.
— Ela está certa, e eu não aguento mais falhar.
— Então faça de tudo para que dê certo, eu sei que você consegue. Eu confio em você.
Como ele podia confiar em mim? Ele nem me conhecia. Como ele podia fazer essa besteira de acreditar que eu faria algo dar certo? Nem eu mesma acreditava nisso, por que ele conseguia ainda acreditar? Ele sabe de tudo que passei, minha irmã com certeza não deixaria passar todas as coisas, acho que se pudesse ela escreveria em um jornal “minha irmã é uma fracassada, que já chegou diversas vezes bêbada em casa, repetiu de ano, tem muitas notas vermelhas, já foi expulsa, não passou na prova da faculdade, traiu o namorado” entre diversas coisas. Ela iria amar falar sobre isso em público, tenho total certeza disso.
— Obrigada… — Falei meio sem jeito para Thiago. — Agora vou dormir, tudo bem?
Levantei do sofá onde estava sentada com ele e fui em direção a escada, até que senti ele me puxar pelo braço, fazendo com que eu virasse para encará-lo, ele estava tão perto, com seu corpo sem camisa quase colado no meu. No mesmo instante me subiu um arrepio e eu encarei seus olhos, ele me olhava fixamente e eu não conseguia desviar meu olhar, era como se eu estivesse em transe, hipnotizada com seus olhos verdes, seu corpo tão próximo, e seu toque me segurando.
— Obrigado por me ouvir… — Ele disse baixo, quase não deu pra ouvi-lo, parecia que se esforçava pra falar. — Eu gosto de conversar com você.
— Thi… — Não consegui pronunciar o nome dele. — Você também me ouviu, estamos quites.
— Estamos tão… — Ele não completou a frase, apenas olhou pra baixo e voltou a me olhar novamente.
— Perto… — Eu completei o que ele ia dizer. Naquele momento ele estava com o rosto tão próximo do meu que eu estava esquecendo como respirar.
— Queria estar mais perto ainda…
Aquela frase me pegou em cheio, eu queria aproximar mais meu rosto do dele, não consegui evitar, eu queria beijá-lo, sei que é errado, mas era mais forte do que eu. Ele estava próximo demais, nunca havia tido nenhum desejo mais intenso com ele, mas nessa noite, tudo se passava em minha mente, e parecia que na dele também. O que ele estava fazendo? Ele era namorado da minha irmã, não devia estar tão próximo assim de mim. Na verdade deveria, não sei, eu queria, estou confusa. O que tá acontecendo comigo?
Antes que algo acontecesse ali na sala, ouvi um barulho como se alguém abrisse a porta do quarto e o empurrei pra longe de mim. O olhei por alguns segundos ainda muito sem graça e subi as escadas quase que correndo, entrei no meu quarto rapidamente, deitei na minha cama e já comecei os pensamentos de que não conseguiria dormir direito aquela noite. Meu cunhado quase me beijou na sala da minha casa, no escuro e de madrugada com todos dormindo. E por que eu não gostei desse quase? Por que eu queria que ele não estivesse nessa frase?
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