Mister D

11 Capítulo 11


Resolvi acordar mais tarde naquele dia, eu havia tido um sonho maravilhoso no dia anterior, que na verdade foi como um sonho, mas era real. Ver Thiago me defender daquela forma, terminar seu namoro com Dandara, não sei se havia melhor sonho do que aquilo, era uma sensação muito boa se sentir desejada, acho que havia esquecido como era, desde que estive com Gustavo, as coisas não foram muito boas para o meu lado, não havia tido nenhum relacionamento, nenhum caso de final de semana ou de uma sexta a noite.

Quando desci as escadas notei que não havia ninguém em casa, nem mesmo Dandara. Imaginei que ela fosse querer me xingar de todas as formas na manhã daquele dia, mas dei a sorte de ter uma manhã silenciosa sem a sua presença. Meus pais deviam estar visitando minha madrinha, eles haviam dito algo sobre isso há alguns dias atrás. Talvez Dandara tivesse ido junto, ou era tinha ido para a sua empresa, não sabia ao certo, ao contrário dos meus pais, eu nunca sabia nada sobre Dandara, nada sobre o que ela fazia ou pra onde ia, só sabia das coisas que todos faziam questão de jogar na minha cara.

Quando chegou a tarde marquei de me encontrar com Dante, precisava dizer a ele as ideias que eu havia tido sobre minha história, contar a ele que não deixaria escapar nada, contaria praticamente tudo da sua vida. Quando o encontrei vi que ele não parecia tão feliz como nos ultimos dias, pra falar a verdade, parecia até um pouco triste, estava calado, quando contei que falaria sobre a senhora e como ele a considerava como mãe, ele apenas disse “tudo bem” e nada mais. Parecia não querer conversar, e eu queria saber o motivo, não gostava de vê-lo assim.

— Dante… Ta tudo bem?

— Sim, por que não estaria?

— Você está tão calado.

— Não preciso conversar todos os dias, você já sabe o suficiente sobre mim, garoto de programa que não quer nada da vida, que cuida de uma senhora por dinheiro, tudo por dinheiro, coisa que você tem bastante não é?

— O que? Não… não, você não é assim… esse não…

— Não sou Sasha? Tem certeza? — Ele me encarou como se conseguisse ler meus olhos, e acho que conseguiu. — Foi o que pensei.

Mas não era aquilo que eu pensava sobre ele, aquilo era apenas no inicio, eu pensava coisas piores sobre ele, mas depois de o conhecer comecei a ver diferente, ele era uma boa pessoa, que se importava comigo e com os outros a sua volta, ele não era apenas um garoto de programa interessado no dinheiro das pessoas, ele era capaz de ter sentimentos também. Mas no fundo, apesar disso tudo, eu ainda sentia como se não pudesse confiar nele cem por cento, mas isso não queria dizer que ele era aquilo que tinha falado, ele não era, disso eu tinha certeza.

— Por que você está assim? Irritado… triste…

— Pra que quer saber? Vai escrever no livro minhas emoções também? Pra estar perguntando só pode ser pra isso…

— Não, por que me importo com você.

— Se importa? — Dante deu uma risada debochada. — Você ficou feliz não foi? Depois que seu pai disse que seu cunhadinho não havia pedido sua irmã em casamento, você ficou tão feliz… até esqueceu que tinha que me avisar quando eu poderia ir.

— É por isso sua raiva? Só por isso?

— Só? O que vai acontecer depois que você entregar essa maldita história? Me diz Sasha… O que vai acontecer comigo? Com nós? Você vai voltar pra sua vida de princesa, pra bela vida de Sasha no pais das maravilhas.

— Você sabe que não é assim… nós?

— Não, eu não sei. — Ele pareceu se acalmar naquele momento. — Só seja feliz.

Dante nem esperou que eu respondesse nada, saiu andando em direção contrária a minha, provavelmente iria para casa e eu olhando ele se distanciar daquele forma me senti um pouco estranha, queria ir até ele, dizer que eu me importo com ele de verdade, que não queria que se sentisse triste nem nada do tipo, ele havia sido uma boa pessoa pra mim, me salvou de dois acontecimentos que eu detestei ter presenciado, ele não podia ficar com raiva de mim, eu não queria ele com esse tipo de sentimento em relação a mim, mas o que eu poderia fazer? Ele estava certo, o que seria de nós dois depois da minha história? O que ele era não combinava com as pessoas com quem eu convivo, não combinava com a minha vida, que apesar de não ser o pais das maravilhas, tinha pessoas que se sentiam nele.

Quando cheguei em casa já estava anoitecendo, entrei na cozinha porque estava com fome e me deparei com um cena estranha, meus pais estavam parados atrás da bancada ao lado de Dandara que tinha um sorriso malicioso no rosto, o que me espantou foi ver Thiago ao lado deles em seguida, de cabeça baixa. Estranhei aquela cena, mas imaginei que havia sido por causa do que aconteceu no dia seguinte, era a hora de ouvir tudo quando é xingamento, minha sorte é que eu já estava preparada pra isso.

— Sasha Moriarty. — Meu pai nunca falava meu nome todo, percebi que a bronca seria muito grande, mas eu conseguiria lidar com aquilo. — Trouxemos o Thiago aqui para conversar sobre o que houve, e Dandara acabou revelando algo que não esperávamos… não tem nada pra nos contar?

— Aconteceu pai. O que posso fazer? Ele tem o direito de escolher o que quer fazer e eu também, somos adultos.


— Você além de roubar o namorado da sua irmã, está envolvida com um garoto de programa? Você quer desgraçar a nossa família caramba? — Meu pai gritou furioso, nunca havia o visto com tanta raiva. — Qual o seu problema? O que fizemos de errado?

— O que? Como… como vocês… sabem disso? — Gaguejei nervosa. — Eu… Pai… eu…

— Então é verdade Sasha? — Thiago me olhou parecendo desapontado, não gostei daquele olhar dele, logo ele.

— É uma história. Vou escrever sobre ele para entrar numa revista.

— Escrever? Você é uma jornalista, era pra estar se empenhando em estar na televisão, não em escrever besteira. — Meu pai continuou, seu rosto estava vermelho de tanta raiva, minha mãe e Dandara apenas acompanhavam. — Você nos envergonha.

— Não diga isso, por favor… — Aquelas palavras machucavam.

— Eu digo, e digo mais. Você não merece o sobrenome que tem, o que vão dizer se souberem que anda com um garoto de programa? Um merda que nem emprego decente tem e ainda o leva pra nossa festa de família. Você não cansa de dar desgosto Sasha? Quando você nos fará feliz? Quando? Me diz…

— Eu… — Não consegui dizer nada, todos me olhavam, eu queria chorar.

— Você é uma vergonha, se rebaixando desse jeito por causa de uma revista. Isso vai acabar hoje, como eu queria que você fosse como a sua irmã, eu deveria ter tido apenas a segunda filha, mas eu era novo, irresponsável, então nasceu você… se arrependimento matasse.

Depois de ouvir aquilo, sai correndo de casa, me afastei de todos eles, pude ouvir Thiago gritar meu nome e vir atrás de mim, acelerei meus passos, comecei a correr em direção a rua, precisava ir pra bem longe, olhei para trás e vi Thiago vir atrás de mim, ele gritava meu nome, pedi que ele me deixasse em paz e acelerei mais ainda a corrida, mas ele era rápido, sabia que em breve ele me alcançaria, mas não quis nem saber, continuei correndo.

Estava doendo, mas doendo tanto que eu não via nem os carros passarem por mim, pra ser sincera eu não via nada, pra mim só tinha eu naquele momento. Eu havia prometido não ligar mais para o que me dizem, mas eu não consegui, não consegui ser forte vendo a decepção nos olhos de todos, vendo meu pai falar aquilo tudo para mim, ele nunca havia falado daquela forma, eu acho que ele estava desabafando um sentimento guardado há muito tempo. Aquilo doía, como estava doendo, eu estava chorando, no meio da rua, correndo sem ligar para nada, só queria que aquela dor passasse.

De repente senti um impacto sobre meu corpo, e um barulho alto. Ouvi Thiago gritar algo logo em seguida, mas não consegui distinguir o que era, parecia ser meu nome. Olhei em volta e percebi que eu estava no chão, senti muitas dores em seguida, não só na alma, mas no corpo inteiro dessa vez. Havia cacos de vidro em volta de mim, não conseguia me mexer, vi Thiago se aproximar de mim em seguida, ele gritava algo que eu não conseguia saber o que era. O encarei por alguns segundos como quem estava tentando dizer “sinto muito”, e eu realmente queria dizer isso, mas não conseguia abrir a boca, então fechei meus olhos em seguida e apaguei. Era o fim.