Mister D
8 Capítulo 8
Acordei na manhã seguinte com o barulho do meu celular vibrando sobre a cômoda, eu tinha o sono um pouco leve, mas depois da noite de ontem meu sono esteve mais leve do que o normal, eu havia saído com Thiago e foi maravilhoso, parecia um sonho, um sonho que eu não queria acordar. Nunca havia me sentido feliz daquela forma como ontem, dançamos, conversamos e aquela rosa… ah aquela rosa, foi um momento tão lindo, algo que eu não esqueceria nem em um milhão de anos. Depois de tanto tempo eu acordei feliz, nem me lembro dessa sensação, faz tanto tempo.
Levantei da cama e olhei, meu celular, vi que eram mensagens de Dante pedindo que eu o encontrasse na casa da senhora que ele cuidava. Respondi que estava indo e logo fui para o banheiro tomar um banho e escovar meus dentes. Quando voltei para o quarto pra me arrumar vi a flor que Thiago havia me dado perto do meu travesseiro, inevitavelmente sorri, nem me lembrava de ter dormido perto dela. Quando cheguei na casa da senhora vi que Dante estava parado na porta, ele logo abriu um sorriso ao me ver. Estranhei aquela felicidade, lembrei-me que ontem a noite eu o ignorei, e tenho total certeza que ele percebeu, Dante não era bobo nem lerdo, foi visivel que eu não queria que ele chegasse perto de nós, só não tenho certeza se foi visível o motivo também. Eu realmente tinha vergonha que soubessem que ando com alguém que dorme com mulheres por dinheiro, aquilo não era comum, ainda mais comigo, filha de advogados, imagina a decepção dos meus pais, eles não entenderiam que eu fiz isso só pelo trabalho, eles não aceitariam a filha se rebaixando dessa forma apenas por uma chance em uma revista. Quando eu escolhi fazer faculdade de jornalismo, meus pais logo pensaram que eu estaria na televisão, noticiando um caso ou algo do tipo, apesar de sempre querer que eu fosse como eles, advogada, eles aceitaram que eu fosse por outro caminho pois gostaram da ideia de eu aparecer na televisão entrevistando pessoas, falando sobre acontecimentos, entre outros assuntos. Mas não era isso que eu queria, fiz faculdade de jornalismo para poder ter uma saída caso meu desejo não fosse comprido. Eu sempre quis escrever para revistas, não era uma profissão que meus pais gostariam que eu seguisse, eles queriam que eu me destacasse, e por isso escolhi o jornalismo, não por ser uma paixão, mas como uma segunda opção, caso eu não consiga ser escritora eu aceitaria o jornalismo. Era uma profissão que eu gostava também, exerceria ela com vontade, mas não no momento, não antes de eu tentar o que eu sempre quis.— Dante. — Falei aproximando-me dele. — O que foi?— Algo muito bom aconteceu ontem. Eu estava com uma mulher, ela me ofereceu 3 mil reais para que eu levasse ela aos céus…— E você fez?— Eu ia, mas ela disse que não podia ficar ontem, ai marcou de me encontrar hoje a noite. 3 mil reais é excelente, eu teria bastante dinheiro pra…— Pra? — Ele ficou em silêncio, parecia incomodado em me falar o motivo pelo qual precisava do dinheiro, ele escondia algum segredo, e pela forma em que mudou de assunto em seguida, não era um segredo muito bom.— Eu te vi ontem… com um cara. Seu namorado? — Ele desviou o olhar de mim. Antes que eu pudesse responder a senhora se aproximou de nós caminhando lentamente até a porta de sua casa, quando me viu ela abriu um sorriso, parecia feliz ao me ver. Perguntei a ela porque tanta felicidade e ela respondeu que gostava de ver Dante acompanhado, que ele era como um filho pra ela e o achava muito sozinho, Dante riu, aposto que na cabeça dele veio o pensamento de que toda noite estava muito acompanhado, por milhares de mulheres, mas ela não sabia. A senhora no momento tocou o braço de Dante carinhosamente e disse que ele deveria investir em mim e que ela estaria no casamento como a mãe dele, Dante sorriu novamente e disse que com certeza ela estaria lá como a mãe porque era a forma como ele a via. Aquela cena foi muito fofa, eu gostava de estar lá com eles, era bom ver o carinho que tinham um pelo outro, ela realmente parecia ser mãe dele, e ele parecia amar ser considerado como filho dela. — E você, vai fazer o que hoje? — Dante perguntou-me após ajudar a senhora a deitar na cama. — Tenho a festa da minha irmã. Ela ganhou um prêmio na empresa dela como uma das melhores, que mais venceu casos no mês. — Falei praticamente cuspindo as palavras e Dante percebeu. — Nossa madrinha fez uma festa pra ela, como o primeiro prêmio recebido por ela, com meus pais aconteceu a mesma coisa. Eu serei a única que não terei uma festa dessas… Mas tudo bem.— Acho que se você fosse advogada seria melhor que sua irmã.— Não tenha certeza disso, em nada na minha vida fui melhor que ela. — Sorri para disfarçar o quanto aquilo me incomodava. — Não queria ir nessa festa, vai ser chato demais, e vão estar puxando saco da minha irmã… além do mais, todos a minha volta estão comprometidos, eu serei a única sozinha na mesa da família. — Chama seu namorado.— Ele é meu cunhado, vai estar lá lindo e elegante do lado da minha irmã, sorrindo enquanto todos a aplaudem.— Ah. Eu parecia uma pessoa invejosa. Mas não era inveja, eu não a odiava por conquistar tudo, eu até ficaria feliz por ela se ela não viesse jogar sempre na minha cara, eu ficaria feliz por ela se ela fosse uma irmã melhor. Mas ela não era, então eu não ficava nem um pouco feliz por ela, também não sentia ódio, na verdade, eu tinha mesmo era raiva de mim, eu pensava que eu podia ter sido paparicada como ela, mas eu nunca fui e nunca serei, e o pior é que eu não sabia o motivo, nunca saberia o motivo dela ter sido a preferida dos meus pais, e isso foi antes até dela conquistar algo. Assim que ela nasceu foi como se o amor dos meus pais por mim tivesse morrido. É dramático, eu sei, mas era como eu me sentia.
Fiquei um pouco com Dante olhando-o cuidar da idosa até que chegou a hora de ir para casa pra me arrumar. Assim que entrei em casa vi Dandara com um vestido azul turquesa incrivelmente lindo, longo que deixava uma das pernas a mostra, na cintura havia um cinto dourado que realçava bastante a cintura dela. Ela estava linda e era como se brilhasse, dava pra ver a distância o quanto ela estava feliz. E apesar do mau humor de muitos dias, ela sempre estava feliz, a vida dela era perfeita, ela era feliz, ao contrário de mim.— Aonde você estava? — Ela falou furiosa ao me ver entrar pela porta. — Você quer estragar minha festa? Eu vou seu você se não estiver pronta…— Sério? — Falei demonstrando um pouco de felicidade, já estava planejando demorar umas 6 horas pra me arrumar para que ela fosse sem mim.— Não. Você tem que estar lá pra ver tudo que você nunca vai ganhar na vida. Porque você é apenas uma jornalista, o maximo que você terá vai ser uma reportagem entrevistando pessoas na rua sobre um cano que estourou e deixou esgoto vazando na rua. Ela soltou uma risada diabólica depois de dizer aquilo, eu queria partir pra cima dela, rasgar aquele vestido e a cara dela junto. Mas sei que meus pais e todos a minha volta jamais perdoariam aquilo. Se eu já não me sentia amada, depois de estragar algo da minha irmã, eu passaria a me sentir odiada, e não seria apenas um sentimento, seria verdade.— Eu sei que você não quer ir pra ver meu sucesso irmãzinha… Se quiser pode ficar em casa. — Ela continuou. — Você não ficaria tão bonita arrumada pra estar perto de mim mesmo.— Não… eu vou sim. Vou porque esse seu prêmio pra mim não é nada, assim como você, você pra mim é nada. Depois de dizer aquilo, vi a expressão no rosto dela passar de alegre para irritada e logo subi para o meu quarto, tranquei a porta para que ela não pensasse em entrar e logo fui tomar meu banho. Demorei alguns minutos e comecei a me arrumar. Coloquei meu vestido rosa chá longo, que deixava as costas bem a mostra, ele era de alcinha e tinha um bojo que valorizava bastante meus seios. Me olhei no espelho antes de calçar meu salto dourado, vi uma pessoa linda refletida nele, mas por que será que eu não conseguia me sentir assim? Depois que todos terminaram de se arrumar, entramos no carro e fomos até o local da festa, que era na mansão da nossa madrinha Elena. Ela era outra que sempre deu preferência a Dandara, apesar de ser madrinha das duas. Lembro-me de um natal que passamos todos juntos, eu havia pedido ao papai noel uma boneca que eu tinha visto no shopping e foi amor a primeira vista, a boneca falava, comia e dormia, até roncava, era meu sonho de infância receber aquela boneca. Quando abri meus presentes, vi que meu pai havia me dado um conjunto de casas da barbie, e minha mãe me deu um ursinho de pelúcia, mas ainda faltava um presente, eu não tinha perdido as esperanças ainda, era o presente da minha madrinha, ela me deu um kit de maquiagem, eu tinha apenas 11 anos e ela me deu maquiagem dizendo que eu tinha que andar sempre bonita. E quando chegou a vez da minha irmã, ela ganhou uma bicicleta do meu pai e um conjunto da barbie também, mas o presente da minha madrinha me enfureceu, era a boneca que eu tanto queria. Passou dias, meses e anos e minha irmã nunca brincou tanto com aquela boneca. Chegamos na casa de Elena e fomos em direção a seu quintal, onde a festa ia ser realizada. Logo que nos viu chegar Elena veio até nós, cumprimentou primeiramente Dandara e depois veio até nós cumprimentando cada um. Ela estendeu o braço em seguida apontando a mesa em que ficaríamos, olhei ao redor e vi que a festa estava bem bonita, com certeza Elena havia pago bem alto para capricharem nela, haviam várias mesas nomeadas com o sobrenome de cada família, algumas mesas estavam até ocupadas e outras vazias esperando os convidados chegarem. Havia até um palco montado, era alto, especialmente feito para que todos pudessem ver bem minha irmã, para que ela se sentisse acima de todos que iriam aplaudi-la no momento. Na mesa em que estávamos o que eu disse de manhã cedo para Dante se cumpriu, era uma mesa com 13 cadeiras, onde estavam eu, meu pai, minha mãe, Dandara, Thiago que havia chego antes de nós, minhas 3 primas e seus 3 namorados, e minha tia com seu terceiro marido, ela se divorciava muito. Eu era a única solteira naquela mesa, era deprimente olhar todos e ver que cada um estava acompanhado e eu sozinha. O certo das mesas era ter 12 lugares, pode acreditar eu contei as outras mesas, mas a nossa tinha 13, uma cadeira solitária para que eu sentasse. Sentamos a mesa e logo Dandara começou a fazer uns carinhos em Thiago, ele nem havia falado comigo quando cheguei, aquilo me incomodou um pouco confesso. Mas eu não podia demonstrar estar abalada com aquela festa e nem com nada que tenha relação com minha irmã. Eu precisava demonstrar não me importar, todos deviam pensar que eu não ligava de estar lá, que pra mim tanto faz. Tanto faz estar numa festa para homenagear minha irmã, tanto faz todos acompanhados e eu sozinha, tanto faz o “amor” do Thiago e minha irmã, tanto faz todos estarem incrivelmente maravilhados com Dandara, coisa que não ficariam comigo. Tanto faz.— Eu vou dar uma volta, já venho. — Falei depois de alguns segundos sentada a mesa. Todos estavam conversando, então me ignoraram completamente. Levantei da cadeira e fui em direção contrária as pessoas da festa, sai da casa de minha tia e fui até o outro lado da rua, onde havia um parquinho para crianças. Me aproximei do mesmo e sentei em um dos balanços, fiquei olhando a escuridão da noite, estava juntando forças para voltar para aquela festa e continuar com um sorriso falso no rosto. Minha vontade era de levantar daquele balanço e sair correndo, fugir daquele lugar, mas eu não podia demonstrar essa fraqueza, eu tinha que ficar, aplaudir minha irmã e não ligar pra nenhuma daquelas pessoas. Mas como fazer isso?— Sasha… — Ouvi uma voz familiar me chamar. Não estava acreditando quando escutei, achei que fosse coisa da minha cabeça, era impossível ele estar aqui.— Dante. O que? Como? O que faz aqui? — Perguntei assustada com a presença dele, ele estava vestido elegantemente, com um terno preto e sapato social também preto. Seu cabelo estava arrumado, nunca o havia visto assim. Ele estava elegante e lindo. — Você disse que não queria vir aqui, que ia ser chato… não queria te deixar sozinha. — Ele sorriu e se aproximou de mim lentamente, pude sentir seu perfume, adorava o cheiro dele. — Eu cheguei há um tempo já, mas não sabia como entrar, até que vi você sair e vir aqui.— Mas como sabia onde era a festa?— Eu liguei pro Leonardo. Ele tinha me dado o número no dia do hospital, disse que eu devia ligar pra ele caso acontecesse algo com você. Eu liguei e perguntei aonde era a festa que você ia.— Ah… eu contei a ele brevemente, só disse que minha madrinha daria a festa as 20 horas de hoje.— Ele disse que não tinha certeza, pediu que eu viesse aqui. E deu certo. — Dante sorriu comemorando sua sorte, e então ele sentou no outro balanço do meu lado. — Por que está aqui fora?— Me senti sozinha lá dentro. Quis vir tomar um ar…— Eu estou aqui agora, não está mais sozinha. Depois dele falar aquilo sorri incontrolavelmente, ele retribuiu, não conseguia acreditar que Dante estava lá, comigo, e que fez isso por mim, ele estava se tornando um grande amigo. Mas ai me lembrei que ele tinha um encontro hoje, que o daria 3 mil reais, como ele poderia estar aqui? Alias, apesar de ficar feliz com a atitude dele, logo me liguei também que todos perguntariam quem ele era, e eu teria que inventar uma desculpa, será que isso chatearia Dante? Eu não queria chateá-lo.— Mas e seu encontro? E os 3 mil reais?— Dinheiro não é tudo na vida. — Ele sorriu e encarou meus olhos. Eu retribui seu olhar não acreditando no que estava escutando. Dante, aquele mesmo Dante, antes conhecido como Mister D que no inicio vivia pelo dinheiro, que dizia que pessoas com condições não tinham motivos para estarem tristes por terem dinheiro na vida. Aquele mesmo Dante que dormia com várias pelo dinheiro e agora estava recusando uma quantia jamais ganha. Esse era realmente o Dante? Ou eu estava conversando sozinha imaginando coisas? Depois de passar algum tempo com Dante no balanço, conversando e rindo bastante das bobeiras dele, resolvi voltar pra festa. Assim que entrei e fui para o quintal com ele, todos pararam o que estavam fazendo e olharam pra nós, especialmente para ele. Ninguém nunca havia o visto, e eu tenho que assumir, ele já era incrivelmente lindo, e hoje ainda conseguiu melhorar. Parecia um príncipe caminhando do meu lado em direção a mesa. Quando finalmente chegamos nela, todos permaneceram em silêncio sem entender nada. Thiago que não havia nem sequer olhado na minha cara antes, agora estava encarando Dante, como se perguntasse com os olhos quem é ele. Quebrei o silêncio em seguida quando minha madrinha se aproximou de nós, pedi que ela pegasse uma cadeira para Dante sentar a mesa com nós todos. E quando ele sentou o silêncio continuou entre nós, ninguém falava nada, mas seus rostos falavam por si, todos estavam aparentemente curiosos em saber quem era aquele lindo rapaz que estava comigo.
— Então… Você é quem? — Minha irmã enfim quebrou o silêncio direcionando-se a Dante.— Acho que você não precisa saber. É o seu dia, concentre-se nele e deixe que essa resposta sua irmã conhece muito bem. — Dante sorriu debochado, e eu soltei uma risada baixa, aquele era o jeito de Dante que eu nunca gostei, mas aquilo deixou minha irmã com cara de “paisagem” o que me fez adorar esse jeito dele.— Qual o seu nome garoto? — Meu pai enfim perguntou a Dante.— Com todo respeito, não sou mais um garoto… e me chamo Dante. — Todos olharam pra Dante com o mesmo olhar de curiosos. Quem era aquele rapaz tão seguro de si? Pareciam se perguntar isso, exatamente o que eu me perguntei quando o conheci. Novamente um silêncio se fez em nossa mesa. Antes todos conversavam sobre Dandara alegremente, mas agora nada se ouvia, não esperavam que eu aparecesse com alguém. Dante estava lá, desistindo de ganhar uma quantia boa em dinheiro para me salvar dessa festa incrivelmente chata com pessoas que não fazem questão da minha presença e se fazem é apenas pra jogar na minha cara que eu nunca ganharei uma dessas.— Obrigada. — Sussurrei no ouvido de Dante, ele sorriu brevemente e senti sua mão segurar a minha por baixo da mesa. Encarei seus lindos olhos azuis, que brilhavam retribuindo meu olhar.
Fale com o autor