Mister D

2 Capítulo 2


— Sai de cima de mim. — Gritei para que ele saísse, tentando o empurrar com as mãos.

— Eu sei que você quer isso, eu vi o seu olhar no bar ontem, só faltou pedir: Me joga na cama e me foda com toda a força por favor.

— Me solta. — Continuei gritando, ignorando as mentiras que ele dizia. — Eu não te quero, me solta…

Ele beijou meu pescoço, e começou a forçar seu corpo sobre o meu. Segurou firme nas minhas pernas e a abriu com força, como se estivesse com raiva. Então subiu suas mãos até a minha blusa e começou a desabotoa-la lentamente. Respirei fundo tentando juntar forças e o empurrei em seguida, consegui fazer com que ele saísse de cima de mim. Então comecei a correr com a blusa semi aberta em direção a porta da casa, até que senti ele me puxar, me jogando com força na parede. Olhei para baixo e ele estava desabotoando sua calça jeans e sorrindo com o mesmo jeito debochado de sempre.

— Vou te mostrar o quanto você queria isso. Depois vai pedir mais.

Acordei no meio da noite assustada, suada e tendo calafrios, aquele sonho realmente havia me assustado. Eu estava sonhando com o garoto de programa da noite passada, eu devo ter bebido muito para sonhar com um estupro por um garoto que trabalha com sexo.

Como seria trabalhar com sexo? Sexo é bom, seria bom ser paga pra faze-lo, mas você não sabe quem será ser parceiro, não sabe nunca o que te espera, só pensa no dinheiro que vai receber. Será que ele consegue fazer “levantar” com uma mulher de 80 anos? Deve ser grande, ele deve ser bem requisitado. Meu Deus, por que eu estou pensando nisso?

E foi ai que tive a brilhante ideia da minha vida. Primeira vez que pensei em algo que logo em seguida eu pensei que pode dar certo. Minha história seria retratar a vida de um garoto de programa. Incluir tudo o que ele faz, as situações que enfrenta, seus medos, desejos, os ganhos, os erros, sem deixar faltar nada. Uma matéria impactante, ousada e que com certeza vai mexer com as pessoas. Quem esperaria ler uma revista falando sobre prostituição? E pior, um conto sobre alguém que trabalha vendendo o corpo. Poderia dar certo, eu só precisava achar o tal garoto novamente. O que não seria uma tarefa muito fácil.

Quando amanheceu, desci as escadas de casa e encontrei minha irmã, sentada no sofá com seu namorado, Thiago. Ele era bem mais alto que ela, magro, tinha olhos verdes e era muito simpático. Totalmente o oposto da minha irmã, ele ainda era muito bonito, poderia encontrar uma pessoa melhor. Nunca entendi esses homens, e muito menos o amor. O que te faz amar alguém tão diferente de você? O que te faz entregar seu coração na mão de alguém e não ter medo dessa pessoa deixa-lo cair e ele se espedaçar?

— Irmã… Que bom que acordou. Pode levar o Thiago até a clínica? Ele está doente, e eu preciso ir trabalhar. — Minha irmã indagou assim que me viu. — Alguém aqui tem um emprego né.

Minha vontade era de dizer não. Somente por ser um pedido da minha irmã insuportável, mas eu não podia negar ajuda ao Thiago, ele era uma ótima pessoa, sempre foi educado comigo, quando me via abria um sorriso que sempre me dava a sensação de estar feliz ao me ver, e além do mais, ele é um ser humano e precisa de cuidados médicos, não seria legal da minha parte negar ajuda a alguém necessitada, alias, eu não seria diferente da minha irmã se fizesse isso.

— Me desculpa por ela… — Thiago disse-me assim que liguei o carro dos meus pais. — As vezes tento entender porque ela te perturba tanto.

— As vezes eu tento entender porque vocês estão juntos. — Eu disse dirigindo em direção a clinica. — Como se sente?

— Estou com muita febre… — Assim que ele disse, levei uma de minhas mãos em sua testa, ele realmente estava muito quente. — Você se preocupa tanto comigo assim?

— Como assim? Você está doente.

— Mas não sei se eu cuidaria do namorado da minha irmã que me trata tão mal.

— Você não tem culpa de nada.

Quando chegamos no hospital, tivemos que esperar um tempo pra ser atendidos, hoje por mais irônico que pareça, parece que toda a população estava no hospital. Fazia uma hora que eu estava sentada na sala de espera com o Thiago, e ele cada vez pior de febre, tossia toda hora e parecia fraco, o que me deixava bastante preocupada, mas eu nada podia fazer, ha não ser esperar.

— Obrigado por estar aqui comigo. Sei que não é o melhor lugar pra estar com alguém. — Ele sorriu sem jeito, era notório que não estava nada bem.

— Tudo bem. Não tenho nenhum outro lugar pra estar.

Em seguida Thiago me surpreendeu, me olhou por alguns segundos e deitou sua cabeça em meu ombro, fechando os olhos. Ele estava quente e bastante doente, então não tive nenhuma reação, mas logo pensei no quanto minha irmã ficaria furiosa com aquela cena, então fiz o mais sensato possível, levei minha mão a seu rosto, e fingi que verificava se ele ainda estava muito quente, mas no fundo eu só queria toca-lo e queria que minha irmã estivesse lá pra ver. É horrível, mas não posso evitar pensar em fazer minha irmã tem um mínimo momento na vida em que algo deu errado. Mas era só um toque, só uma pessoa doente com a cabeça deitada em meu pescoço, não era e nem significava nada.

— Eu posso te dizer algo sem parecer estranho? — Thiago falou baixo, quase não pude ouvir.

— Diga.

— Eu acho você uma pessoa ótima.

— Você não me conhece então.

— Conheço sim… não tanto quanto gostaria.

— Você…

Não consegui terminar o que eu ia dizer, pois Thiago havia sido chamado. Eu entrei junto com ele e ouvi o médico dizer que devia ser alguma virose. Que conveniente, fiz um artigo sobre médicos que amam a profissão e sempre conheci médicos que não se importam com ela, como os médicos que só por ter febre, tosse ou algo assim já dizem ser virose. Talvez se eu quebrasse a perna eles diriam que foi por causa da virose. Thiago estava muito mal, seu rosto era de cansaço, não sei se era virose, mas tudo bem, não sou médica para dizer o que era, e não sinto a minima vontade de ser. Bem capaz de eu errar um diagnóstico e deixar meu paciente morrer. Com certeza, medicina não era pra mim.

Assim que Thiago foi atendido, entramos no carro e voltamos pra casa. Deixei que ele ficasse no meu sofá assim que notei que Dandara não estava em casa. E é claro que me sentei para fazer companhia a ele. O médico havia receitado três remédios pra ele tomar, um pra febre, outro pra tosse e gripe, e outro caso ele tivesse alguma dor de cabeça. Ele tomou o primeiro para febre e ficou deitado no sofá, coberto até o pescoço e ainda assim tremendo de frio.

Cheguei mais próxima dele e perguntei se ele queria algo, ele apenas balançou a cabeça negativamente e pediu que eu aproximasse meu rosto porque ele não queria falar muito alto. E assim fiz, cheguei minha orelha próxima a sua boca e pude sentir seu hálito quente próximo dela, o que fez com que eu me arrepiasse.

— Você é linda. Obrigado por cuidar de mim. — Ele sorriu parecendo fazer um certo esforço.

Ouvi o barulho da porta se abrindo e logo me afastei dele, o olhando meio assustada. Logo em seguida vi que quem havia aberto a porta era minha irmã, ela me olhou por alguns segundos da mesma forma convencida de sempre e se aproximou de seu namorado. Sussurrou algo pra ele, algo do tipo “eu cuido de você agora” e deu um beijo em seu rosto. Olhei aquela cena e me senti enjoada, então subi para meu quarto. Me olhei no espelho por alguns segundos, procurando o “linda” que o Thiago havia dito. Meus cabelos pretos compridos até a altura da minha cintura, magra, morena, eu realmente era bonita, mas Thiago era do tipo que vivia só de aparências? Ele parecia ser mais, mais do que alguém que está com minha irmã, mais do que alguém que me ache bonita só pela aparência. Ele precisaria me achar bonita por dentro, mas eu não era. Eu nunca fui a pessoa que todos dizem “bonita por fora, e melhor ainda por dentro”. Eu queria ser, mas como sempre me falaram a minha vida inteira, “querer não é, e nunca vai ser poder”.

Aquele momento com Thiago foi estranho. Me fez lembrar de como Gustavo, meu ex namorado, falava comigo. Ele era doce e se importava comigo, mas eu errei e acabei estragando tudo mais uma vez. Não, eu não era apaixonada por ele, no fundo nunca fui, acho que nunca me apaixonei por alguém, não me sinto capaz disso. Como vou amar uma pessoa se não consigo amar a mim própria? E eu não preciso de outro alguém pra me decepcionar ou partir meu coração, eu mesma já faço isso.

Mas isso também não quer dizer que sou uma pessoa ruim. Eu gostava do Gustavo, nunca faria algo que o magoasse, com o tempo tenho certeza que seria capaz de ama-lo, ele merecia que eu o amasse, por isso quando o traí, mesmo sendo sem querer, eu não fui me desculpar, nem dizer que não queria ter feito aquilo. Ele não merecia uma desculpa, eu tive que assumir a responsabilidade e dizer que eu não estava tão bêbada, que eu ainda conseguia raciocinar e fiz porque quis. Mas essa não era a verdade, eu não queria, nunca ia querer, mas eu precisava ser decente e deixa-lo ir, ser feliz com alguém que o ame e tenha menos problemas que eu. Ninguém merece ter que lidar com a própria vida e seus problemas e ainda com os de outra pessoa. Foi o melhor a fazer. Bom… pelo menos espero que tenha sido.