É incompreensível. Encontramos milhares de pessoas nessa caminhada chamada vida, na maioria das vezes fúteis e vazias. Podemos encontrar alguém na esquina, no bar, na balada, na porta de um hospital, em qualquer lugar. Pessoas que podem vir e fazer a diferença e na grande maioria das vezes pessoas que aparecem, dão um oi e nunca mais nos vemos. As vezes umas pessoas fazem sorrir, outras vezes machucam e pensamos que nunca mais acharemos alguém pra curar a dor causada pela pessoa anterior. Então nós nos perdemos, achamos que não tem mais jeito, mas de repente quando achamos que tudo está perdido, conhecemos alguém diferente de tudo que tenhamos visto. Faz seu sorriso expandir, seus olhos brilharem mais que as estrelas, faz seu coração bater mais rápido que a luz, faz você desejar passar todas as suas tardes tediosas de domingo ao lado dessa pessoa, faz você querer pedir uma pizza e sujar o nariz dela de ketchup só pra rir do quanto vocês se dão bem juntos, faz você ser clichê. Quando você pensa que tudo está perdido, aparece alguém que te acha, que te puxa do fundo do poço e diz que você é alguém que deveria estar no alto e não caída no chão. A vida é assim, feita de altos e baixos, pessoas ruins e pessoas capazes de mudar tudo de um dia para o outro.
Fazia três dias que eu não falava com Dante, e era como uma abstinência, como se eu tivesse parado de usar drogas há uma semana. Eram três dias, mas parecia um mês. Por mais que eu nunca tivesse percebido esse sentimento por ele, agora eu sabia e saber sobre ele só fazia doer mais. Acho que eu preferia não saber de nada, preferia me enganar e dizer que ele não é nada pra mim, que eu não me apaixonei por um garoto de programa. Talvez se ainda estivesse dessa forma não estaria doendo tanto. Dói bater o dedo mindinho em algum lugar, dói fazer uma tatuagem, dói prender o dedo em alguma porta. Um soco, um tapa, um chute, doem. Bater a cabeça dói, cólica dói, ciúmes dói, palavras machucam e também dói. Mas por que eu estava achando a dor da saudade pior do que todas elas?
Nunca fui do tipo de se importar tanto com alguém, acho que nunca me apaixonei e é estranho, me sinto vulnerável, fraca, dependente. Na verdade, eu me sinto ridícula, chorando a noite, pensando se ele está almoçando, o que ele comeu hoje, se ele ainda usa aquela camisa preta que deixa ele tão encantador. Pensando se ele continua fazendo o trabalho dele, se ele ainda dorme com mulheres desconhecidas, se ele continua sendo um amor com a irmã, se ele anda sorrindo daquela forma debochada de sempre, se ele ainda é convencido, se ainda me ama. Eu me sinto ridícula, logo eu sendo daquele jeito, pensando daquele jeito, logo eu tão fria sendo dependente de alguém em tão pouco tempo. É esse o objetivo do amor? Fazer você deixar de ser você mesma?
— Precisamos conversar. — Falei assim que cheguei na casa de Thiago, ele me olhou parecendo surpreso em me ver.
— Sim, precisamos. — Ele disse depois de alguns segundos e abriu a porta para que eu entrasse. — Você se afastou, aconteceu algo?
— Sim… Eu vou ser direta, não quero ser ruim com você porque você merece tudo de bom nesse mundo…
— Você não gosta de mim. — Ele abaixou a cabeça parecendo triste. — Olha, eu…
— Não… — Interrompi ele. — Eu gosto de você, eu te adoro… mas não da forma que queria.
— Você está com alguém?
— Não… eu não estou, mas o meu coração sim.
— É ele não é? O garoto de programa?
— Sim. E o nome dele é Dante. Isso não era pra acontecer Thiago, você é o homem dos meus sonhos, você é doce, engraçado, carinhoso, você cuida de mim. Você é o homem dos sonhos de qualquer uma, em outro momento eu casaria com você e passaria a vida ao seu lado. Mas eu… — Parei alguns segundos para pensar antes de continuar. — Mas eu o amo. Mesmo ele sendo quem é. E ele é maravilhoso também, não me importa o que ele fez, ninguém é perfeito.
— Sou o homem dos seus sonhos, mas não da sua vida. — Thiago falou visivelmente chateado, então se aproximou de mim. — Ele vai te fazer feliz?
— Eu não sei.
— Você precisa saber. — Thiago segurou meu rosto naquele momento. — Você precisa de alguém que te faça feliz todos os dias. Seu coração quer alguém que não sou eu, e eu aceito isso. Mas eu não posso ver seu coração se partir, então diga a ele pra te fazer feliz.
— Eu não sei se ficaremos juntos, eu fiz muita merda com ele. Eu só precisava te dizer pra ser justa com você.
— Tudo bem, quando percebi que você tinha se afastado, pensei várias coisas, inclusive isso, mas não queria aceitar que você poderia estar gostando dele, mas ver você aqui agora fez todas as máscaras caírem e acho que com um soco desses eu finalmente acordei.
— Eu sinto muito. — Falei abraçando Thiago, aquele momento não estava sendo fácil pra mim, e pior ainda para ele.
— Eu também sinto. — Thiago voltou a segurar meu rosto e aproximou seus lábios dos meus em seguida, me dando um selinho demorado. Deixei e retribui o selinho. Eu gostava de Thiago, mas eu amava Dante, não tinha como comparar.
Saí da casa de Thiago alguns segundos depois, faltava uma semana para meu livro ser publicado e por mais que eu estivesse sofrendo eu precisava terminá-lo. O tempo não parava para o meu sofrimento, foi uma das primeiras lições que aprendi sobre a vida.
Quando cheguei em casa encontrei com Leonardo e disse que havia conversado com Thiago, contei sobre tudo a ele, era bom ter um melhor amigo, e Leonardo realmente era o melhor, ele sempre me ouvia, me aconselhava, dava bronca quando era preciso, e tudo mais. Ele cuidava de mim como um irmão, o irmão que eu nunca tive. Enquanto eu terminava de escrever minha história ele ficou do meu lado, pois sabia o quanto estava sendo difícil para mim escrever sobre Dante naquele momento. Quando terminei ele pediu para ler, eu disse que não porque era surpresa para todos, até para ele que era minha pessoa preferida entre as demais.
— Eu conversei com ele. — Leonardo disse depois de um longo tempo em silêncio.
— Com quem? Dante? E ai? O que ele disse? Me conte tudo.
— Ele não quis falar sobre você. Mas ele está na casa da moça que ele tomava conta, ele está arrumando as coisas, disse que decidiu ficar com a casa, porque era o desejo da mulher.
— ah! Fico feliz por ele, foi a decisão certa.
— Moriarty… vá vê-lo. Agora.
— O que? Não… ele não quer me ver.
— Desde quando você ficou obediente?
— Eu não sei mais quem eu sou.
— Amor Sas, amor. — Leonardo sorriu convencido.
Ele estava certo, eu precisava ir até lá, esgotar as possibilidades de Dante me perdoar. Se eu não fosse poderia me arrepender pelo resto da vida. Mas ao mesmo tempo chegar lá e ele rejeitar falar comigo também seria difícil de lidar. E eu também não sabia o que falar. Nunca amei alguém, nunca disse que amava, não sei como eu iria reagir de frente para ele. Será que eu ia conseguir dizer? Ou ia fazer besteira novamente e correr o risco de nunca mais olhar na cara dele? Me dava medo pensar em ir lá vê-lo, mas eu precisava ter coragem, precisava arriscar, não fazer isso seria mais uma parte da minha vida perdida, perder Dante seria a pior burrice que eu iria cometer e talvez eu nunca me perdoasse por isso.
Quando cheguei na casa da senhora onde ele estava, enquanto olhava a porta esperando que ele a abrisse comecei a me lembrar dos meus momentos com ele, do nosso beijo, do quão lindo ele estava na primeira vez que nos falamos, no carinho dele com a irmã e com a idosa, ele me surpreendeu, talvez isso tenha feito eu me apaixonar por ele, a surpresa. Ele fez com que eu me enganasse de uma forma positiva, logo eu tão acostumada a ser enganada e sofrer com isso, ele me fez ser enganada e sorrir. A surpresa que eu fiquei para com ele me fez pensar no quanto julgamos alguém errado. O que define uma pessoa não é a cor da pele, nem a roupa que usa, muito menos o que faz, o que define alguém é o seu coração. E o coração de Dante era um dos mais bondosos que eu já conheci, por mais rude que ele fosse por fora, por mais ignorante que ele era as vezes, isso não mudava o que ele tinha dentro dele. Ele tinha amor. Amor pela vida, pela segunda mãe dele, pela irmã, coisas que eu nunca tive. Acho que isso me encantou tanto nele, a diferença entre nós, a surpresa, o perigo, o desejo, o amor, a vida.
— O que faz aqui? — Dante pareceu surpreso ao me ver.
— Posso entrar? Precisamos conversar.
— Não temos nada o que conversar Sasha.
— Por favor… eu não vou embora.
— Ok, entre, mas seja rápida, minha irmã está no vizinho, só vim arrumar as coisas, preciso voltar.
— Que bom que vai ficar com a casa… — Falei assim que entrei na casa.
— Diga o que quer…
— Olha, eu sinto muito. Eu sinto demais, sinto sua falta, sua presença, sinto tudo. Aquilo que eu disse foi idiota e errado, tudo que eu fiz na vida foi e deu errado. O errado me atrai, acho que por isso eu gosto de você…. Acho que por isso que eu amo você. Eu sempre pensei que você era ruim pra mim, que você não poderia estar comigo pelo que você faz, que não combina alguém como eu com alguém como você, que você é a parte ruim da história que estou escrevendo, eu confesso, eu sempre pensei assim, mas é mentira, eu sou a parte ruim da história, a parte medrosa, mas eu não quero mais ser assim, eu quero você. Me desculpe por demorar a perceber e tomar essa atitude, mas agora eu to aqui e você também. Somos só eu e você, sem ninguém pra plantar besteira... Dante, por mais que eu seja errada eu tenho uma certeza no meu coração... eu amo você.
— Você me ama? Não, você não ama, pessoas como você não amam… você fala isso pra logo depois dizer que eu não sou nada pra você. Quando alguém aparecer na sua frente é isso que você vai dizer, que não sou nada, que sou apenas uma parte da sua história, porque você tem vergonha de mim…
— Não, isso era antes… me escuta por favor… isso não vai acontecer. — Respirei fundo juntando forças para falar. — Olha e se eu te dissesse que lembro do dia exato em que olhei pra você de um jeito diferente, do dia em que você me fez sorrir depois de tanto tempo, do dia em que eu te conheci de verdade, do dia em que eu fingi pra mim mesma que não gostava de você por medo, do dia em que você ficou chateado comigo porque eu sou uma idiota, do dia em que chorei, do dia que me machuquei... o que você diria? Porque eu me lembro, pois eu estou machucada agora, eu chorei, e eu jamais vou fazer isso de novo porque não quero mais que doa. Eu quero ficar feliz, é ridículo, eu nunca falei assim, mas não to nem ai, não me importo, quero ficar feliz com você.
— Sasha… Eu não te amo. Pra falar a verdade… — Dante parou alguns segundos pra pensar. — Eu nunca senti nada por você, sua irmã me pagou para fazer você se apaixonar por mim para você quebrar a cara. Eu sinto muito, mas é isso. Não te amo, jamais amaria, eu não amo ninguém, tudo o que você viu de mim era mentira. Eu não sou esse que você conheceu…
— Mentira, você está mentindo. Não faz isso, por favor…
— Vai embora daqui. — Dante andou até a porta e a abriu. — Sai da minha casa.
— Dante…
— Agora.
Eu me recusava a acreditar que aquilo era verdade. Não, não era, era tudo mentira. Mas por que ele estava mentindo pra mim? Por que ele queria me machucar mais? Já estava doendo o bastante, não precisava disso. Aquilo jamais seria verdade, não poderia ser, não ele, não agora, não poderia dar errado mais uma vez, não dessa vez. Eu aceito tudo que deu errado na minha vida até aqui, pois tudo deu errado para que eu conhecesse Dante, eu aceito todo o sofrimento que eu passei se for pra ter ele, mas não aceito que seja mais um erro, mais uma enganação da vida, mais um sofrimento, eu não aceito, não pode ser.
Assim que entrei no meu carro me preparando para ir embora ouvi meu celular tocar, olhei na tela e era uma ligação de Leonardo, havia várias outras chamadas perdidas, pensei por alguns segundos se deveria atender ou não, eu queria morrer, meu corpo todo doía, meu peito doía, eu me sentia da mesma forma que sempre me senti antes, enganada. Mas era Leonardo, ele sempre me confortava, optei por atender, nenhuma dor minha justificava deixar Leonardo preocupado, ele sempre se preocupava quando eu não atendia o celular.
— Sasha? — Ele falou assustado assim que atendi o telefone.
— Léo… — Falei com voz de choro, me segurando para que ele não percebesse.
— Você está bem?
— Nem um pouco.
— Encontrou ele? Ele está na casa mesmo? Ele disse pra mim que estava saindo de lá há um tempo.
— Sim, eu encontrei e eu o perdi.
Naquele momento não consegui mais segurar, chorei. Chorei por não acreditar no que ele disse e sentir medo de que seja verdade, chorei porque mesmo se for verdade não vai mudar que eu o amo. Chorei por saber que quando se ama alguém, seu coração se recusa a desistir. Sim, eu chorei. Eu estou parecendo uma menina de quinze anos, iludida com um garoto mais velho, eu me senti assim, mas não me importo, eu choro, choro porque o fim dói.
O fim sempre vai doer. Nunca sabemos como lidar com o fim de qualquer coisa, por mais idiota que seja. O fim de um filme, de uma série, de um doce, daquela pizza maravilhosa de sabádo, de uma carreira, de um personagem, de um show... ou de um amor. Ainda mais quando o fim acontece antes do fim. Antes do ponto final. Meu fim com Dante aconteceu hoje, não era pra ter acontecido, eu não esperava que fosse acontecer, mas aconteceu, no dia que eu tive coragem pra dizer o que sinto, no dia em que eu achei que teria uma decisão e daria tudo certo, no dia que meu coração se partiu. Não era apenas o meu fim com ele, era o fim do meu coração também.
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