10 dias se passaram, 10 dias que eu não via Dante, ele havia sumido da minha vida, nenhuma mensagem, e eu imaginei que isso aconteceria, não deve ter sido fácil para ele, mas nunca pensei que ele era do tipo de se magoar, sempre o vi como alguém frio, com um coração dificil de se enxergar. Ele aparentava ser assim, pelas suas ações, pelo que fazia, eu sempre deixei claro em minha mente que eu detestava a profissão dele, sempre iria detestar, eu não tinha escolha, tive que dizer aquilo tudo para ele, para que ele pudesse tentar me esquecer, e acho que é exatamente isso que ele está fazendo, tentando me esquecer. Por isso não manda mais mensagem, não vem me ver, nada. 5 dias era pouco, ele provavelmente ficaria muito mais tempo, mas eu precisava dele, o dia de escrever minha história estava chegando, em breve eu teria que entregar e seria tudo ou nada. Ou eu arrasava com a história e conseguia o emprego ou era mais um fracasso na minha vida e minha esperança de melhorar murcharia novamente. Eu não podia deixar isso acontecer, eu precisava ir atrás de Dante.
— Por que você não deu uma chance ao Dante? — Leonardo perguntou-me enquanto eu me arrumava para ver Dante na sua segunda casa, o bar. — Ele é muito legal.
— Você o conheceu a pouco tempo… e esqueceu o que ele é? Sem chances.
— E o que vai fazer? Ele realmente gostava de você. Acha que é fácil pra ele? Que vai só aparecer no bar e dizer preciso de você para a minha história? Imagina só, ele com tantas mulheres a sua volta, com tantas mulheres que se dão por nada, e ele passa a gostar da mais dificil, o relacionamento de vocês é improvável, vejo de longe isso, todo mundo seria capaz de ver, mas mesmo assim ele arriscou. Você acha que vai ser fácil?
— Não, não acho. Mas preciso tentar não é?
— Você tem certeza que não sente nada por ele?
— Por que está me perguntando isso?
— Seus olhos… seu olhar para ele é diferente… dizem que os olhos entregam tudo.
— Está enganado, não sinto nada pelo Dante.
Terminei de me arrumar e fui até o bar procurar por Dante antes que Leonardo falasse mais sobre o assunto. Não sabia se encontraria Dante lá, será que ele estava tão magoado ao ponto de não querer dormir mais com mulheres? Duvido muito. Pra mim toda aquela história de paixão por mim era engano, podia ser uma carência, ele parecia não conviver com mulheres de forma carinhosa, apenas sexual, e isso podia fazê-lo sentir falta de carinho, de sentimentos, pode ter feito ele confundir as coisas entre nós. Tava na cara que nós eramos amigos, todos podiam ver isso de longe, por que para ele ia parecer o contrário? Acho que o cérebro dele também pregava peças.
Olhei em volta no bar assim que cheguei, demorei para encontrar o Dante, mas finalmente o encontrei sentado em uma das cadeiras, eu estava certa, ele não deixaria de ganhar o precioso dinheiro por causa de um não vindo de mim. Fiquei olhando para Dante por alguns segundos tomando coragem para falar com ele, ele estava bebendo sozinho, até que se levantou alguns segundos depois e foi até uma jovem. Ela era loira e parecia ter a minha idade, não era o tipo de mulher que ele era acostumado a sair, ela era linda e parecia decente.
Vi a menina ficar bem próxima de Dante, próxima até demais, sua mão estava no rosto dele acariciando e ele sorria, não de um jeito malicioso e sim de um jeito amigável. Ele então segurou a mão dela e acariciou com os dedos, não era o estilo de Dante ser carinhoso. Ela se aproximou dele, parecia que ia beijá-lo, eu não consigo acreditar no que vejo. Por que ele estava assim com aquela menina? Ele não era assim, ela não pode beijá-lo, ele não beija mulheres do trabalho, ele diz que o sexo é algo sempre sem sentimento, mas a forma como ele beija é capaz de demonstrar o que ele sente. Ele disse gostar de mim, então o beijo em mim mostraria o que ele sente, não o beijo nessa garota.
Senti uma pontada em meu coração naquele momento olhando para os dois se tratando daquela forma tão carinhosa. Era como se uma agulha tivesse furado meu peito e acertado em cheio meu coração. Nunca havia sentido aquela dor, era uma sensação estranha, uma mistura de raiva com ódio, dor com tristeza. Eu queria ir lá, queria afastar ele dela e perguntar se ele estava querendo aparecer ou era algum meio de me esquecer trocando a forma de buscar seus alvos e tratá-los. Agora ele resolveu não querer mais só sexo? Agora tinha um pacote completo de namorado de aluguel.
Fui andando até eles pisando firme cheia de raiva, Dante ia beijá-la, estava aproximando sua boca da dela e antes que pudesse fazer me meti no meio dos dois. Me virei para a menina e falei gentilmente que saísse de perto dele porque nós iriamos conversar. Mentira, não falei nada gentilmente, mas a grosseria deu certo, a menina se assustou e foi embora de perto de Dante. Que ficou furioso. Ele segurou meus braços com raiva e me empurrou fazendo eu me encostar na parede.
— O que pensa que está fazendo? — Ele disse segurando firme em meu braço. — Eu estou trabalhando.
— Trabalhando? Não pareceu trabalho… você está me machucando.
— O que você tem a ver com isso? Você não tem mais nada a ver comigo, não tem o direito de se meter na minha vida… porra, eu precisava do dinheiro.
— Você é um idiota. Só pensa nesse dinheiro, você não tem coração... você faz isso tudo, dorme com várias por não conseguir amar nenhuma. Ainda tem coragem de dizer que gosta de mim. Você tem um problema, e eu não sou a solução deles. Sinto muito.
— É, talvez eu não tenha um coração, mas se eu tiver... ele está em pedaços. Por sua causa. — Ele continuava irritado, falava quase gritando. — Você não deveria estar aqui.
— Minha presença te assusta? E se eu disser que eu não acredito no que você diz?
— Claro, você cresceu num mundo conto de fadas, não deve acreditar nas palavras de um cara que não faz nada da vida além de dormir com mulheres. Quando se é a vítima, está tudo bem, não acredite mesmo. O mundo sempre está ao seu favor. Mas quando se é o vilão?
— Vilão? Eu não acredito pelo fato de ser melhor do que você. Eu sou mesmo, sou porque escolhi ser, sou porque preferi ter uma vida decente do que ser um homem idiota que não amadureceu e ainda brinca de sexo por dinheiro…
— Não acredito que… — Dante acalmou-se por uns segundos, mas ainda me segurava, aquilo havia doído nele de alguma forma, eu não queria ter falado. Mas eu estava com tanta raiva dele por estar agindo como um idiota com aquela mulher.
— Dante… eu… me desculpa. Eu vim aqui pra gente se acertar, eu quero você de volta, nós nos damos bem, eu não penso mal de você, eu gosto de você, é verdade… por favor…
— Quer saber de uma coisa Sasha? A vida é tão ruim com você não é? Você não tem o amor dos pais, é uma pessoa tão triste. Só você se magoa com a vida. Você acha que ta ruim pra você? Eu sou o mal da história lembra? Você escreveu sobre mim, eu durmo com as mulheres por dinheiro… — Ele deu uma pausa e apertou mais meu braço. — Mas a partir do momento que eu te conheci eu não fui mais eu sabe? E ai você não sentiu o mesmo, e droga, isso nunca aconteceu comigo. Agora eu quero arrancar meu coração todos os dias, só pra não sentir o que você fez comigo. Eu quero arrancar porque você é um ser desprezível, eu odeio o fato de ter sentido algo por você. Eu sou o garoto de programa, mas me sinto envergonhado por ter esse sentimento por você, porque amar você é a maior vergonha que alguém pode ter. Você não é nada diferente dos seus pais sabia? Incapaz de amar, você é um nada e pior que sabe disso… então, nunca mais venha me procurar, porque de nadas a minha vida já está cheia.
Dante me encarou nos olhos enquanto dizia todas aquelas palavras. Ele estava desabafando, eu vi em seu olhar que falar aquilo doeu nele, Leonardo estava certo, nosso olhar acusava tudo. Mas não foi só em Dante que aquilo doeu, senti meu coração se apertar e doeu mais ainda. E eu chorei, ali mesmo, no bar, na frente dele. Lágrimas escorriam do meu rosto em cada palavra que ele dizia, era como se me cortasse ao meio, não era uma dor física, doía mais, era quase impossível de continuar ali, mas era impossível também de me mexer. Eu queria mandar ele calar a boca, parar de dizer todas aquelas coisas, mas eu não consegui. Porque eu senti a dor que talvez ele tivesse sentido. E não era pouca. Me comparar com meus pais era me comparar com a pior mágoa da minha vida. Dizer que eu era desprezível, dizer que era uma vergonha me amar, era como se uma parte do meu coração se partisse, porque eu confiava em Dante, não pensei que ele me diria todas aquelas coisas. Mesmo estando de coração partido, que eu sei que ele estava.
— Vai para o inferno. — Foi a ultima coisa que disse para Dante.
Saí andando rápido do bar, chorando, entrei no meu carro e voltei para casa, eu conseguia ouvir todas as palavras em minha mente, conseguia vê-lo na minha frente falando todas as coisas. Como ele pode ter me dito aquilo? Era como se ele me odiasse e machucou. Posso parecer sensível, talvez eu seja, mas eu não esperava aquilo, não queria aquilo, ainda mais do Dante. Por mais que eu não tenha o sentimento que ele tem por mim, eu ainda tinha outro tipo de sentimento por ele. Eu havia aprendido a gostar daquela pessoa tão diferente do meu mundo. Havia aprendido a confiar naquela pessoa que eu jamais pensei trocar 3 palavras. Havia aprendido a acreditar que não importa a imagem que você passe, por dentro você podia ser diferente. E Dante era, ou eu apenas pensava que era.
— O que aconteceu? — Leonardo perguntou-me assim que me viu entrar pela porta chorando, eu nem respondi, subi para o banheiro e me tranquei no mesmo para chorar. Leonardo ficou batendo na porta perguntando o que eu tinha, eu não ia responder, não agora, não queria contar tudo o que aconteceu porque sabia que isso faria doer mais, se é que era possível.
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