Mister D

1 Capítulo 1


Meu nome é Sasha Moriarty, tenho 21 anos, mas não pense que eu estou no auge da vida, que tudo são flores, que é óbvio que estou curtindo a minha vida de uma forma que eu jamais esqueceria. Isso tudo são só dizeres de pessoas esperançosa, faz dois meses que me formei em jornalismo, e estou procurando urgentemente um emprego. Não porque eu necessito, sou filha de uma família de advogados, meu pai e minha mãe são altamente conhecidos no seu ambiente de trabalho, fazendo com que suas condições financeiras seja maior do que da maioria das pessoas. Sim, sou uma mulher de 22 anos sustentada pelos pais, e venho de uma família bem rígida. E é exatamente esse o motivo da minha infelicidade. Entrei para o jornalismo por ser uma paixão de infância, e também para provar que eu posso ser muito mais do que uma menina que sempre tirava notas baixas no ensino médio. Meus pais precisavam ver que eu não quero viver as custas deles pra sempre, preciso me sentir menos inútil do que me sinto agora.

Hoje, dia 5 de março, uma linda e bela segunda feira, recebi uma ligação para uma entrevista de uma das empresas jornalísticas que me inscrevi, e lá estou indo eu, usando um blazer preto fechado junto com uma calça preta social e um sapato scarpin.

Quando cheguei na empresa, uma das atendentes pediu que eu me sentasse e esperasse ser chamada. A hora passava lentamente e o nervoso da minha primeira entrevista começava a tomar conta do meu corpo, até que ouço chamarem meu nome. Gelei na hora, mas consegui respirar firme e seguir em direção a porta que me apontaram.

— Me entregue sua história por favor. E depois lhe farei algumas perguntas. — A mulher com cara de esnobe me disse assim que entrei na sala. Ela estava sentada em uma cadeira maior que seu corpo, olhando unicamente para os papéis em cima de sua mesa, em nenhum momento levantou a cabeça para me olhar.

Entreguei uma pasta com uma história que havia escrito há um mês atrás. Era a carta de entrada para a empresa, se a mulher gostasse da minha história eu seria chamada para fazer parte do seu “quartel” de jornalistas. Era assim que ela os chamava nas revistas que eu havia lido.

Minha história era sobre médicos, pessoas dedicadas a profissão, pessoas que nem salários decentes recebem e mesmo assim ainda são capazes de ter amor pela profissão. Médicos que salvam vidas e se emocionam com isso. Era uma história que fazia com que a maioria se emocionasse, todos a minha volta que leram eram capazes de dizer que eu fiz um trabalho muito bonito nela, mas não era isso que aconteceu hoje.

— Bom… — A mulher deu uma pausa bem longa analisando as folhas da história que estavam em suas mãos, e então finalmente levantou a cabeça para me olhar. — A mensagem que você quis passar é realmente bonita, mas não vejo nada de muito novo nessa história, meus escritores conseguiriam falar sobre esse trabalho facilmente, e na empresa não precisamos de tantos profissionais de escritas iguais, queremos algo novo, algo que chame a atenção.

Naquele momento eu já queria sair da sala e chorar, mas me mantive firme, ou pelo menos achei que me mantive. Gastei meu tempo escrevendo aquela história, e talvez ela tivesse razão, era algo que qualquer um pode escrever, o que eu tenho de diferente?

Por toda a minha vida eu quis ser diferente, fazer diferente. Minha irmã de 20 anos era um exemplo do que eu deveria ser, estudiosa, dedicada, sortuda, conseguia tudo que aparecia em sua frente, era o prodígio da família. Eu era diferente dela, mas não o diferente que eu queria, não queria ser o oposto do que ela era, só queria brilhar do meu jeito, mostrar que posso fazer o que eu quiser e que ninguém se esforçou tanto ao ponto de ser igual a mim.

Agradeci a mulher pela oportunidade e levantei da cadeira a sua frente cabisbaixa, era mais um fracasso. Mais um momento da minha vida que eu só queria deitar na cama e chorar. O primeiro momento foi quando minha irmã passou na faculdade pública e eu vi os olhos de meus pais brilharem, e quando chegou a minha vez eu só pude ver a cara de decepção. Não por ter que pagar uma faculdade particular pra mim, e sim por eu ser tão diferente deles e da minha irmã.

— Espere… — Assim que toquei na maçaneta para abrir a porta, ouvi a mulher me chamar e logo me virei para olha-la. — Você parece ter futuro, então vou te dar mais uma chance… Você tem 2 meses para me trazer uma história inspiradora.

— Meu Deus… — Falei sorrindo quase pulando de alegria. — Pode deixar, não irei decepciona-la.

Decepção. Será que eu sou uma decepção? Ou eu apenas boto muita expectativa na pessoa errada que eu sou?

É meio frustrante, você acreditar que tudo vai dar certo, que tudo vai ser sempre uma mar de rosas, que você vai deitar na cama e sorrir lembrando dos bons momentos. É bom, é ótimo ter fé, mas e quando as coisas não acontecem da forma que esperamos? Quando você cai e pensa “como vou me levantar se não sei me manter de pé?”

Acordei no dia seguinte determinada a começar a escrever minha história, mas eu não sabia sobre o que, não sabia algo impactante que me fizesse ser contratada. Pensei, pensei e nada. Nada vinha a minha mente, e se vinha era sempre uma história comum, que muitos já escreveram sobre, ou já pensaram em escrever, eu precisava de algo novo. Algo jamais escrito em um jornal. Eu precisava de uma polêmica, algo que fosse mexer com as pessoas que lessem.

— Oi Sas, como foi a entrevista? — Minha irmã se aproximou de mim e perguntou com sua cara de debochada de sempre. — Tomou nota vermelha novamente?

— Você adora tirar sarro de mim não é? — A olhei com cara de raiva. Esse era um dos passatempos preferidos de Dandara, minha irmã incrivelmente convencida e má. Sim, eu a considerava má, ela desde nova ria e se divertia com meus fracassos. Nunca entendi esse ódio dela por mim, já que eu sempre fui boa pra ela. Afinal, ela é minha irmã mais nova, devia me apoiar e estar lá por mim, mas ela era exatamente o contrário disso.

— Claro irmã, acho engraçado ver o quanto é impossível pra você algo tão fácil pra mim.

— Está enganada dessa vez irmã. — Falei a palavra “irmã” como se sentisse nojo. Exatamente o que eu sentia quando ela se aproximava. — Dessa vez vai dar tudo certo… tenho 2 meses pra mostrar o quanto sou boa.

— O problema é… — Ela soltou uma gargalhada se divertindo com a situação. — Em que você é boa irmã?

Mostrei meu dedo do meio para ela em seguida, ela sorriu debochada novamente e saiu de minha vista. Dei um soco na almofada de raiva, queria provar pra ela que sou capaz de trazer orgulho para os meus pais. Mais como eu faria isso? No fundo minha irmã está certa, nada deu certo na minha vida até o momento. Colecionei notas vermelhas no colégio, fui expulsa de um deles por dar um tapa na cara de um dos meninos que se achava o machão, isso sempre me irritou. Quase repeti de ano diversas vezes, até cheguei a repetir em um deles, mas meu pai pagou para que eu pudesse passar, isso é claro, ficou em segredo, ninguém poderia saber se não mancharia o nome do colégio. Só decepção que eu trouxe para meus pais. E não só pra eles, há um ano atrás eu namorava um menino da faculdade, ele era um amor comigo, até que um belo dia eu discuti com meus pais, que sempre tiveram muita influência sobre mim, e fui no bar beber. Bebi como se não houvesse amanhã, e acabei fazendo besteira, beijei um outro rapaz e trai meu namorado, ele descobriu e terminou, e desde então, aprendi a afogar minhas mágoas na bebida. Talvez ela fosse a minha melhor amiga.

Quando a noite chegou marquei de me encontrar com meu melhor amigo no bar. Leonardo sempre foi a melhor pessoa da minha vida sem dúvidas alguma, sempre cuidou de mim, sempre me apoiou e nunca me criticou. Eu dizia a ele que ele me amava mais do que eu mesma, que só ele era capaz de perdoar minhas mancadas, aceitar meus defeitos e ficar comigo até o fim.

— Só você mesmo. — Sorri enquanto ele me abraçava.

— Amigo, me trás outra dose por favor. — Ele disse para o barman e logo voltou a me olhar. — Espere um pouco ai, preciso mijar.

Léo se levantou e caminhou até o banheiro, e eu permaneci sentada pensativa. Várias coisas se passavam pela minha cabeça naquele momento, pensei que eu devia e queria ser mais positiva, queria ter mais confiança em mim mesma, um dia eu seria assim. Uma mulher bem sucedida, positiva, cheia de auto confiança, e principalmente, feliz. Mas eu precisava de algo, precisava de uma mão, talvez o braço inteiro pra mudar a minha vida.

— Ei… — Esbravejei ao sentir alguém esbarrar com o braço em mim.

— Foi mal. Você está sentada erradamente, não consegui evitar… — Um homem de mais ou menos 23 anos falou direcionado a mim. Ele tinha um sorriso encantador, com covinhas em cada lado da bochecha. Seus olhos eram azuis como se fossem um céu. Seu cabelo liso, incrivelmente bem penteado e cortado. Ele era forte também, mas não tanto, diria que ele é bem definido. E alto, nossa, como ele era alto. Ou talvez eu que sou baixa demais.

— Han… você está colocando a culpa em mim? Inacreditável.

— Posso te pagar uma bebida pra você esquecer isso. Topa?

— Essa é sua intenção? É o seu jogo? — Soltei uma risada debochada. — Esbarrar nas belas indefesas pra poder se oferecer a pagar uma bebida se sentindo culpado?

— Eu não me senti culpado, até porque não sou… — Ele sorriu novamente, seu sorriso realmente chamava muito a atenção. — Vou lhe pagar a bebida, para que talvez você me pague depois.

— O que eu te pagaria? — Olhei espantada, com medo da resposta dele. Até que ele mordeu os lábios e eu percebi, ficando ainda mais assustada. — Você é um “prostituto”?

— Não se usa essa expressão, isso é meio desrespeitoso. Mas sim, eu transo com mulher por dinheiro. Prefiro ser chamado de “namorado de aluguel”

— Isso não tem nada a ver com namorado… cadê o romance dessa situação?

— Se quiser posso ser romântico. Mas eu gosto de botar com força. — Ele sorriu safado. — Diz logo que quer e vamos.

— É obvio que eu não quero… Não sou dessas, não preciso de um garoto de programa. Posso arranjar homens decentes sozinha, agora dá licença que meu namorado está vindo.

Ele me olhou com um olhar surpreso, como se nunca tivesse recebido um não na vida e se levantou logo em seguida. Não acho impossível ele nunca ter recebido um não mesmo, ele realmente era muito bonito, alguém que poderia ser chamado de “irrecusável”, mas por que ele tinha essa profissão? Se for por sexo ele não precisa disso com certeza, mas se o motivo for dinheiro é mais aceitável, apesar de ter outros meios de se conquistar um dinheiro, outros meios mais decentes.

— Tudo bem? — Meu amigo voltou e ao olhar meu rosto pensativa me perguntou. Acenei com a cabeça afirmando que sim e voltamos a beber.

Cheguei em casa quase 6 horas da manhã, entrei com cuidado tentando manter o silêncio para que ninguém acordasse. Eu não estava muito sóbria, mas também não estava tão bêbada, ainda estava consciente.