Mistakes
12 Capítulo ONZE
Notas iniciais
Capítulo
ONZE
Bella ainda conseguia lembrar da sensação dos lábios dele nos seus, do cheiro bom da sua camisa quando ela pousou a cabeça em seu ombro. E por último, mas não menos importante, das suas mãos na sua e agora, mais uma vez, entrelaçadas assim que ela abriu a porta do carro para sair.
Ela voltou a sua atenção para ele, com uma perna para fora do carro, sentindo o vento cortante e gelado de New York castigá-la — mas Bella não deu muita importância.
Edward mantinha ainda o mesmo sorriso quando sussurrou logo depois de beijar a sua mão, que não deixou de tremer nem por um único segundo desde que estiveram juntas:
— Te vejo amanhã.
Ele tinha uma sobrancelha erguida, como se esperasse por uma confirmação espontânea dela, que apenas sorriu, balançando a cabeça.
E ela ficou observando enquanto o carro se distanciava e ganhava velocidade.
Edward tinha levado Bella até em casa, mesmo depois dela naturalmente recusar, dizendo que poderia pegar um metrô. No entanto, depois que Bella viu o topo das árvores que tinham na rua sacudirem violentamente por causa da ventania que fazia lá fora, e também porque de repente parecia não ter mais ninguém na rua, ela ficou contente em aceitar. O tempo tinha mesmo mudado e as horas voado, sem que ela percebesse.
De repente Bella não tinha mais um motivo para se manter afastada de Edward Cullen. Parecia que nada mais importava.
— Sim, ela é minha irmã gêmea — Edward se referia a Alice, logo depois deles começarem a falar sobre a infância de cada um.
Naquela altura o ar quente que saía do aquecedor já estava por todo o carro, mas suas mãos ainda tremiam.
Edward contava para ela que Alice sempre tinha planos para que os dois pudessem trocar de lugar durante as provas finais do colégio, e foi aquilo que chamou a atenção de Bella, fazendo ela esquecer por um segundo da imagem que se formou na sua cabeça de um Edward adolescente.
— Acho que ela sempre ficava muito chateada pelos seus planos nunca darem certo.
Então ele explicou, disse que eram gêmeos e que era estranho e normal ao mesmo tempo já que eles não eram gêmeos idênticos.
O espanto passou quando ela se deu conta que estava com Edward Cullen há tanto tempo dentro daquele carro que tinha uns bancos realmente confortáveis, que o tempo tinha mudado, o céu tinha escurecido e de repente aquele tempo juntos parecia que nunca acabaria, que ela não tinha uma casa para voltar, um pai que esperava ansioso por ela. Mas acima de tudo, ainda tinha que descobrir algum jeito de lidar com todos aqueles sentimentos novos que Edward estava despertando nela e que trouxe para a sua vida.
Apertando o casaco mais junto a si, Bella subiu os degraus que davam para a porta da frente do pequeno prédio de cinco andares que parecia que a qualquer momento despencaria, com uma inocente batida da porta.
As poucas pessoas que também viviam naquele prédio parecia que já estavam dormindo, mas Bella não tinha a mesma sensação com o pai. Ela já devia estar em casa há horas. Ela nunca tinha feito isso. Nunca tinha tempo ou vontade para os convites das festas que pareciam ter todo o final de semana nos campus da faculdade, ou quando ainda estava no colegial.
Imediatamente Bella pensou que nunca tinha encontrado alguém como Edward para poder começar a agir feito uma adolescente que nunca foi.
— Tá usando camisinha? — A voz da mãe era só um sussurro pelo telefone. Ela com certeza tinha perdido o carregador do celular, mais uma vez, e agora tinha que se contentar com o telefone de fio da cozinha, enquanto o pai estava por perto, esperando a sua vez de falar com a filha que já tinha completado a sua primeira semana longe de casa.
— Mãe, é só a faculdade — Bella sussurrou de volta, em protesto, com medo que a sua colega de quarto pudesse ouvi-la.
— Tá, mas você tem que estar preparada, os meninos não parecem se importar muito com esse detalhe.
Bella sorriu com a lembrança, de repente pensando em como a mãe sempre tentava extrair dela os sentimentos mais vulneráveis da puberdade, e mesmo que tentasse esconder, Bella via o alívio nos olhos azuis dela quando dizia que para ela as coisas não funcionavam assim.
Sempre que Bella pensava na mãe, ela sentia que tinha que conter os próprios sentimentos, pelo menos enquanto estivesse perto do pai, e quando ela passou pela porta destrancada e viu que o pai encarava a rua — aparentemente distraído — pela janela da frente Bella pensou que ele podia ter visto o carro estacionado e visto quando ela saiu dele.
— Pai... — começou, mas foi interrompida quando viu que o pai balançava a cabeça, ainda em pé perto da janela.
— De quem era aquele carro Isabella? Quem te trouxe para casa? E onde você estava?
Charlie sempre soube que a filha tinha um comportamento muito diferente da maioria das pessoas da sua idade, mesmo depois de Bella ter ido para Seattle para estudar, Charlie nunca precisou se preocupar com o comportamento da filha, mas ele era pai e não podia esquecer que ela sempre estaria cercada de pessoas que não partilhavam da mesma maturidade. Isso sempre deixava Charlie bastante apreensivo, mas Renée sempre soube como tranquilizá-lo, mesmo que tivesse opiniões menos radicais do que as dele.
Apesar de Bella saber que não tinha feito nada de errado, ela não conseguia evitar o constrangimento que sentiu naquele momento.
As perguntas feita pelo pai eram carregadas de um tom hostil, de uma aversão que Bella não conseguia entender.
— Pai, eu... Nós ainda estamos nos conhecendo.
"- Eu juro que não vou te decepcionar.", aquelas palavras pareciam ter sido cravadas fundo no seu interior, não deixando Bella pensar direito no que estava acontecendo.
— Quem é ele Isabella? — sua voz estava agora ainda mais irritada.
Era diferente Edward chamá-la pelo nome e não pelo apelido, mas o pai chamá-la assim era como se Bella estivesse voltando para o jardim da infância. No entanto, ainda assim Bella não conseguia se lembrar de uma única vez que o pai a chamara de Isabella e não de Bella, ou Bells que era como ele gostava de chamá-la na maioria das vezes.
— Edward Cullen — meu chefe e dono de uma fortuna inimaginável, pensou resignada.
Foi um pensamento que trouxe toda a insegurança esquecida instantes atrás de volta, como se na verdade nunca a tivesse deixado.
"- Por que não é certo?"
"- Porque nós não nos conhecemos direito, porque você é meu chefe..."
Ela queria fazer calar aqueles pensamentos para sempre. Os pensamentos de que ela não era boa o suficiente para aquele homem, que a qualquer momento ele poderia dizer que estava cansado dela e ela estaria demitida. Que ele já tinha se divertido o suficiente com ela.
— Edward Cullen — Charlie repetiu o nome, como se estivesse se familiarizando com ele pela primeira vez, e não gostasse nada do resultado que tinha chegado. — Seu patrão.
Ele queria o melhor para a sua filha, queria mesmo, mas ele via o que acontecia com garotas jovens como Bella. Aquilo não era uma história de novela. Era de verdade, e Charlie estava com medo das consequências.
— Pai, por favor — Bella implorou e mesmo que não soubesse mais o que dizer esperava que o pai entendesse o que nem mesmo ela entendia.
Mas não foi bem assim, ele só olhou para ela e disse:
— Eu não sabia se voltaria pra casa hoje, então guardei o seu jantar na geladeira. — Bella tentou falar mais uma vez, mas sua voz era apenas um sopro quando o pai já tinha se retirado, feito o seu caminho para o quarto. A decepção que Bella viu em seus olhos foi a última coisa que ela esperava ver, e era a mesma decepção que um dia ela jurou que o pai nunca mais teria dela. A mesma decepção que ela viu nos olhos de Charlie quando ela chegou em casa com as suas duas malas pequenas, e uma mochila pesada nas costas. As poucas coisas que achara necessário levar para o lugar que passaria os próximos anos até se formar. Mas as coisas não tinham saído como ela planejava.
Ela tinha voltado para Forks, se sentindo culpada por não ter estado ao lado do pai no momento que ele mais precisava dela. Bella esteve a ponto de perder a única pessoa que importava para ela, depois que a mãe tinha morrido, e ela não poderia se perdoar se aquela complicação no estado de saúde de Charlie o tivesse levado dela para sempre.
Bella passou pela soleira da porta tentando não fazer muito barulho ao colocar as malas para dentro, depois de abrir a porta com a sua chave extra. Ainda era muito cedo.
Ela tinha vindo de carona com uma garota que tinha deixado um bilhete no mural de recados na entrada do dormitório dizendo que precisava de alguém para dividir a gasolina até Forks no final de semana. Bella não precisou pensar duas vezes, e já estava ligando para o número marcado no papel.
A garota não deu muitos detalhes e Bella agradeceu que ela também não tivesse feito muitas perguntas quando ajudou a colocar as suas coisas no banco de trás do Prius prateado.
Ela nunca teria feito isso, em hipótese alguma sem conhecer a pessoa. Mas ela estava desesperada desde que recebeu a ligação do hospital de Forks, dizendo que seu pai tinha sofrido um enfarto. Dessa não vez não era mais o início de um. Tinha realmente acontecido.
E foi quando colocou as malas para dentro, fechando a porta atrás de si que ela viu o pai levantando os olhos da pilha de papeis que tinha sobre a mesinha de centro da sala, virando para olhar quem estava chegando.
Charlie tinha recebido alta no dia anterior, mas ainda sentia muita dor no peito e dificuldade para respirar. Ele tinha pedido que Bella não viesse, que ele estava bem e que quando ela chegasse ele já teria recebido alta.
Isso realmente aconteceu. No entanto Bella já tinha tomado a sua decisão. Era maior de idade e podia muito bem resolver a sua vida naquele momento.
Bella preferia ter morrido naquele momento quando os olhos do pai caíram sobre as suas malas. Charlie carregava no olhar a decepção por ver que a filha não tinha vindo para ficar só enquanto as coisas se ajeitassem, que não era por apenas um semestre como ela lhe tinha assegurado pelo telefone enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto. A tristeza e o sentimento de incapacidade que Bella viu nos próximos dias desde a sua chegada era perturbador.
E ela achava que não podia piorar, quando desesperada disse que estava indo para New York, e lá ela teria muito mais estrutura para cuidar de Charlie. Claro que ela não deixaria o pai para trás — não depois de ter deixado o curso de Psicologia -, e nem muito menos ele permitiria que ela fosse sozinha. Mesmo que isso lhe custasse deixar para trás a casa em que passou os melhores anos da sua vida ao lado da esposa e da filha que tanto amava.
Bella não sentia fome, então quando tirou o prato coberto com papel laminado da geladeira ela agia no automático quando despejou a comida na lixeira da pia, lavando o prato logo em seguida. Se ele continuasse lá, amanhã ele com certeza estaria contaminando os outros alimentos da geladeira. Ela não estava mesmo com fome.
Já passava das três da manhã quando Bella resolveu que a cozinha já estava bastante limpa e que os programas noturnos das emissoras de TV a cabo estariam falidos se não fossem as pessoas que com certeza passavam horas e horas seguidas na frente da TV. Com certeza não pelos mesmos motivos dela hoje, que na verdade não tinha nenhum. Ela só queria evitar o interrogatório que já tinha se formado na sua cabeça.
Ela não pôde ir para o seu quarto sem antes dar uma checada no pai. Aquilo já tinha se tornado um hábito para ela.
A porta rangeu um pouco, mas Bella deixou apenas uma brecha, e pôde ver o edredom por cima do pai que tinha a cabeça apoiada no travesseiro da enorme cama de casal que conseguiram por alguns dólares da senhora idosa que estava desocupando o apartamento.
Bella ainda conseguia visualizar o pai dizendo que ela deveria fazer o mesmo com ele.
Lá em baixo estava esperando a senhora idosa uma vã com um logo que Bella não conseguiu identificar, e só entendeu naquele momento. Ela estava indo para um asilo, mas parecia tão saudável, apesar de ranzinza.
Bella jamais faria aquilo com o próprio pai. E não entendia porque a família daquela senhora estava fazendo aquilo com ela.
Eles tinham tratado tudo com a senhora Tilde, até o pagamento que iria para a conta de um filho dela. Bella se lembrava que ela não sorriu em nenhum momento desde que os deixara olhar a casa, e nem quando ela lhes entregou a chave dizendo que a janela dos fundos estava emperrada, saindo pela porta da frente.
O quarto estava escuro, mas Bella pôde ver na mesinha de cabeceira acoplada a cama com uma jarra de água que Charlie trocava toda a noite, e a caixinha com os remédios toda desorganizada. Bella precisava confiar que o pai estava tomando o remédio direito, ele pediu isso a ela, que ele pelo menos fosse capaz de tomar os seus próprios remédios sem a sua ajuda, que ele tivesse pelo menos uma responsabilidade, a única que ainda o restava. Ela tinha que confiar que nunca mais precisaria contar os comprimidos, uma vez que ele tinha descoberto e poder apelar para uma forma mais radical de não tomar os remédios. Charlie se sentia um inútil, mas não sabia como machucava a filha ir dormir brigado com ela, sem desejar uma boa noite.
— Eu te amo papai, boa noite — Bella sussurrou, não esperando uma resposta de volta.
O quarto de Bella ficava no andar de cima, e era o único que tinha um banheiro e um pequeno closet que ela ainda não conseguira arrumar. O quarto em que Charlie estava era o melhor para ele que já não podia ficar subindo e descendo escadas.
Quando Bella saiu do banho, já vestida com o sua calça de moletom usual e uma blusa, ela não sabia muito bem como conseguiria dormir. Não depois de uma noite cheia de altos e baixos como aquela foi.
Ainda conseguia sentir os lábios macios sobre os seus, a ternura a suavidade com que ele mantinha as mãos lado a lado do seu rosto transmitindo segurança e fazendo que Bella se esquecesse dos motivos que não deveria estar ali, no carro do seu chefe. Ela esqueceu das suas inseguranças naquele momento, só conseguia pensar, ver e sentir Edward na sua frente, mais nada.
Ela não esperava que as suas palavras tivessem o efeito que tiveram no segundo que ele as pronunciou.
"- Eu juro que não vou te decepcionar."
Como ela poderia continuar lutando contra os sentimentos que ele despertou nela no mesmo instante em que o viu pela primeira vez? Aquilo tudo significava muito mais do que ela poderia esperar. De repente todo aquele sentimento de inferioridade que sentia e que sentiu lá embaixo enquanto ela tentava explicar ao pai uma coisa que agora sim fazia todo o sentido para ela, estava completamente esquecido. Dando lugar a um novo sentimento que Bella acomodou confortavelmente sobre o seu coração. Ela estava apaixonada por Edward Cullen, o seu chefe, o mesmo cara que tinha dito — depois de Bella ter falando sobre os seus motivos daquilo não dar certo -, com uma segurança invejável que juntos enfrentariam os questionamentos que Bella sabia que viriam nos momentos menos oportunos e que com certeza poderia abalar essa relação.
"- O primeiro motivo eu acho que a gente tá começando bem — ele sorriu torto. — E quanto ao segundo e os que com certeza virão após esse eu quero que você saiba que eu não me importo — Edward enfatizou a última palavra com a determinação que ela mesma não tinha."
Bella só não sabia que essa relação não tinha começado da maneira certa.
— Eu sei que você está nervosa, filha. É a sua formatura no ensino médio e o seu primeiro baile — Renée batia as mãos uma na outra, entusiasmada.
Na verdade Bella não estava nervosa, nem ansiosa. Ela não queria ir, essa era a verdade. Não tinha nenhuma lei que obrigasse os alunos a vestir aquela beca horrorosa e amarela e aquele chapéu que não parecia adequado para a sua cabeça e o seu cabelo solto demais.
E ainda tinha o baile. Ela detestava dançar e o cara que seria o seu acompanhante: Mike Newton.
Bella apenas sorriu, querendo deixar a mãe que estava mais empolgada do que ela, definitivamente, feliz.
— Vocês acham que posso deixar a barba por fazer? — Charlie perguntou, aparecendo na porta do quarto.
Bella estava sentada de frente para o espelho próximo a sua cama, com a beca e o chapéu sobre o seu colo, enquanto a mãe tentava convencê-la a ir de vestido depois da cerimônia de formatura para o baile. Bella fez uma careta, não conseguia entender porquê não podia ir de jeans e a sua blusa de manga comprida. Era só um baile de formatura idiota e ela já estava feliz por ter deixado aquela época da sua vida para trás. Estava feliz que tinha sido aceita na faculdade de Seattle enquanto os seus poucos amigos estavam indo para bem longe do ninho de suas famílias.
— Você ainda não fez a barba? — sua mãe rebateu e Bella viu pelo canto do espelho que ela exibia uma cara de muito brava para o pai. — Se você quiser permanecer com esse seu bigode é melhor você tirar todo o resto. — Dava para ver o tom de ameaça de Renée, e Charlie entendeu o que aquilo significava, saindo rapidamente da sua vista.
— E eu sei que você vai encontrar o amor da sua vida um dia meu bem — afirmou, voltando a olhar nos olhos de Bella pelo espelho, a intromissão do marido esquecida. — Mesmo que ele seja um desastrado feito o seu pai e tente se aproximar de você em uma floresta escura tentando não te assustar — ela falara um pouco mais alto a última parte, sabendo que Charlie a ouvia.
— Você viu a minha gravata, querida? — Charlie apareceu na porta mais uma vez, agora totalmente tenso que a minha mãe jogasse alguma coisa nele, mas ainda com a barba por fazer. No entanto ela só bufou e depositou um beijo no topo da cabeça da filha, passando a mão levemente sobre o comprimento dos cabelos dela.
— Já volto querida, e podemos terminar essa conversa depois — falou cúmplice, piscando um olho para ela pelo espelho.
— Que conversa? — Charlie perguntou num tom mais alto.
Renée riu, fazendo Bella acompanhá-la.
— Eu queria muito que você estivesse aqui, mãe — Bella sussurrou, deixando uma lágrima escorrer pela sua face. — Ele é maravilhoso, e eu me sinto tão diferente quando estou ao lado dele.
Aquela era uma confissão silenciosa, no meio da escuridão do seu quarto, iluminado apenas pela luz do abajur que estava sobre uma pilha de livros improvisada, esperando que pelo menos a mãe pudesse aprovar aquilo tudo. E que estivesse certa sobre ela encontrar o amor da sua vida.
Ela nunca quis ou esperava se apaixonar, aquilo tudo era muito novo para ela que temia já não ter mais controle sobre os seus próprios sentimentos. Bella desconfiava que o amor também podia ser calmo e delicado, mas também uma confusão de explosões de fogos de artifício em seu estômago.
—
Na manhã seguinte, Bella estava terminando de congelar alguns alimentos para a próxima semana, quando ouviu a porta do quarto do pai se abrindo.
Ela já tinha passado o café — bem forte como o pai gostava — e cortado algumas frutas. Ela sabia que Charlie não gostava nada daquilo. De todo o cuidado que ela não só tinha com a alimentação dele desde que recebera as recomendações médicas, preocupada com a sua saúde, mas também com ele em si. Mas na maioria das vezes Bella tentava não se incomodar com o mal humor dele e a sua opinião rabugenta, tudo em um único pacote — pelo menos não quando o seu mal humor imprevisível e a sua opinião dizia repeito a forma que ele devia se alimentar.
Ela tinha saído cedo esta manhã, assim que levantou, querendo ter tempo para preparar as coisas que o pai precisava comer, antes de sair para o trabalho. Aproveitando para fazer uma coisa que ela já não fazia há muito tempo: caminhar e sentir o dia despertando conforme seus passos ficavam mais rápidos.
Bella estava fechando o último pote quando viu que o pai resmungava alguma coisa sobre não se respeitar mais os mais velhos, enquanto sentava na cadeira da cozinha.
Ela riu, e viu pelo canto olho que Charlie começava a entornar um pouco do café em uma xícara sobre a mesa e depois pegar algumas uvas e colocá-las rapidamente na boca.
O pai não era tão velho assim. Ele nem tinha muito cabelo branco, só alguns que já começavam a dominar a têmpora. Bella achava que ter perdido a mãe naquele dia o tinha deixado mais velho fisicamente, e agora a saúde dele contribuía para isso. Charlie já não fazia mais as coisas que gostava, nem os partidas de jogos do seu time favorito de futebol americano parecia interessar. Ele dizia que não tinha motivo para assistir se não podia estar acompanhando do seu peixe frito e da sua cerveja preta. Entretanto Bella desconfiava que existia um motivo maior por trás disso. Talvez Charlie tivesse deixado de viver no instante em que Bella começou a tomar as decisões por ele e não exatamente pela morte da mãe como Bella imaginava.
— Bom dia, pai — Bella equilibrava alguns potes no antebraço e os encostava no peito quando se inclinou para beijar a bochecha do pai.
— Bom dia Bella — foi tudo o que ele disse, talvez o que tinha ocorrido ontem tenha sido apenas um pesadelo, e Charlie não tivesse fitado a filha com aquele olhar desapontado.
Bella fechou a porta da geladeira com a bota de cano curto atrás de si, já com os potes organizados e etiquetados dentro dela.
Os dois não trocaram mais nenhuma palavra durante todo o café da manhã, e quando Bella resolveu falar que ele teria uma consulta com o novo cardiologista no dia seguinte, Charlie simplesmente balançou a cabeça, assentindo, dizendo que ela nunca o deixaria esquecer.
Aquele não foi um comentário maldoso, Bella podia ver. Era um jeito estranho de reconhecer o quão importante ele era para ela.
Bella suspirou, levantando e começando a tirar a louça suja da mesa, sabendo que não teria mais nada do pai naquele dia. Ele tentava evitar o que tinha acontecido na noite passada, e Bella não sabia se aquilo seria bom para eles.
— Pode deixar que eu lavo — Charlie falou, no meio de um gole de café.
— Não, eu posso... — ela tentou
— Pode deixar — Charlie insistiu, olhando para ela.
Seus olhos eram os mesmos que os seus e Bella de repente achava desnecessário se importar com a opinião das outras pessoas sobre ela e Edward, quando só o que importava era a opinião do seu pai. Quando só o que ela queria era que ele pudesse sentir orgulho dela e que de alguma forma pudesse ficar feliz por ela. Mesmo depois de tantos desgostos que dera para ele, Bella ansiava que um dia o pai pudesse ver, mesmo que parecesse uma loucura total, que ela já se sentia feliz.
— Pai, eu preciso que você saiba que não aconteceu nada entre mim e o Edward — Bella tentou falar claramente, enquanto um nó se formava na sua garganta. — Nós ainda estamos nos conhecendo e pode ser que não dê certo, mas eu gosto dele e nunca faria algo que te envergonhasse — limpando uma lágrima que escorria solitária pelo seu rosto com as costas da mão, Bella respirou fundo -, eu só preciso que você saiba disso.
Charlie não respondeu nada, e Bella se afastou da pia e foi pegar a sua bolsa. Pelo menos ele acreditava nela, e sabia que ela nunca faria algo para envergonhá-lo.
Quando Bella passou pela porta da frente, trancando a fechadura e jogando a chave na bolsa, ela quase tropeçou no primeiro degrau quando viu quem estava estacionando na sua porta. Como se nunca tivesse saído dali.
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