Notas iniciais
Se você estiver lendo depois do dia 22/10/2017, vai encontrar o capítulo diferente de como estava antes, tive que atualizar para acrescentar mais conteúdo descritivo dos personagens, estou tentando melhorar, então qualquer comentário sobre minha forma de escrever ou o enredo da história é mais que bem vindo!

— Um, dois, três, quatro... — eu contava morrendo.

"Cinco, seis, sete, oito. Muito bem, continuem no ritmo!" — O professor de ginástica contava motivando seus alunos presenciais e telespectadores, naquele exercício chamado "supino reto", que mais parecia segurar uma flexão, era dolorido mas com meu corpo nada definido e sem bunda e peitos, eu me esforçava apoiando as mãos no chão e levantando todo o tronco e pernas.

Era uma sexta-feira de cinzas, última semana de férias escolares, o fim do carnaval marcava o início das aulas, o início da minha tortura. Para me distrair e evitar pensar nisso, eu me exercitava na sala com a tv ligada repetindo os movimentos do homenzinho do canal 46.

— ABAIXE ISSO AÍ, EU QUERO OUVIR O RÁDIO! — Mamãe gritou da cozinha.

Bufei em protesto, não queria parar. Não estava satisfeita com meu corpo e sentia necessidade de me movimentar, nem que seja a primeira e talvez única vez no ano.

— Não adianta fazer isso uma vez e depois continuar preguiçosa. — Meu irmão disse zombando da minha procrastinação futura. Ele não tinha problemas com peso como eu, era um palito, parecia cada dia mais magro por estar na puberdade, época em que os garotos crescem muito, quase 1cm por dia, tinha inveja disso, eu ainda não havia passado dos 1,60cm e ele já me ultrapassara há tempos.

— Cala a boca, idiota! — Respondi furiosa.

Ele deu de ombros e saiu da sala, acertando antes uma almofada nas minhas costas que me fez perder o equilíbrio e cair de lado. Levantei de novo e joguei duas almofadas nele, acertei em cheio sua barriga talvez tenha doído, do jeito que é magrelo. Ele resmungou alguma coisa antes de desaparecer pela escada que levava aos quartos da casa.

Opa, acho que comecei errado, devo me apresentar antes de tudo já que minha intenção é contar uma história.

Meu nome é Carina, tenho quinze anos e moro com meus pais e meu irmão Caio, não acho que sou parecida com minha família mas todos dizem o contrário, sou baixa e tenho cabelos castanhos lisos com ondulações nas pontas igual minha mãe, olhos amendoados cor âmbar e pele parda como meu pai.

Meu irmão já é totalmente o contrário, alto, loiro e olhos verdes, bem magricela e pálido, às vezes eu acho que fomos trocados na maternidade mas gosto de dizer para ele que foi encontrado no lixo e meus pais o trouxeram para casa, até um tempo atrás ele acreditava e chorava por isso mas conforme foi crescendo deixou de acreditar e tive que encontrar outras formas de encher seu saco, ele é três anos mais novo e aquela coisa de ser irmã mais velha me persegue sempre.

Meus pais estão juntos há quase vinte anos, se conheceram quando minha mãe tinha a minha idade e meu pai tinha 22, que pedofilia né. Mas na época, as coisas eram diferentes, meus avós eram rígidos e quase não se falava em namoro sem compromisso, se casaram cedo e até hoje vivem em harmonia, quer dizer, aquela harmonia que os filhos permitem né.

— PELO AMOR DE DEUS ABAIXE ESSA TV!!! — Dessa vez, minha mãe foi até a sala com um rolo de macarrão na mão, gritando escandalosamente para eu abaixar o volume da tv. Ela era pouco mais alta que eu, tinha um corpo gordinho e com boas curvas, o que me dava esperança de um dia chegar a desenvolver isso.

— Tá bom, eu abaixo. — Desfiz minha posição de supino e procurei o controle remoto no sofá. Já estava disposta a desistir da sessão de exercícios.

— Abaixe logo, eu quero ouvir o rádio! — Ordenou ela.

— Eu to procurando o controle, o Caio sumiu com ele, não acho em lugar algum. — Expliquei com receio de ser espancada com seu olhar furioso.

Mamãe foi até a tv e mexeu nos botões laterais, diminuiu bastante o volume do aparelho, do 40 para 15, quase não conseguia ouvir o professor de ginástica falando:

"Mais uma vez, agora vamos faze..." O som sumiu completamente.

Logo o barulho foi substituído pelo ruído do portão automático da garagem se abrindo, era meu pai chegando do trabalho, estranhamente mais cedo. Eu e minha mãe olhamos pela janela e vimos o nosso carro entrando na garagem, pela expressão do motorista tinha algo errado. Ele saiu do carro, fechou o portão e entrou em casa.

— Oi pai! — cumprimentei, e ele me ignorou.

— Coloquem no canal de notícias. — Pediu com uma expressão séria. Meu pai era o típico senhor certinho, cabelos alinhados para um lado e barba sempre feita, ele sempre vestia roupa social para ir trabalhar apesar de não ter necessidade, trabalhava em um tribunal como programador de sistemas e sua rotina era computadores e códigos de linguagem operacional.

Mamãe tirou do meu canal de ginástica e colocou no canal de notícias, eu nem protestei, não me lembro de ter visto papai com essa expressão antes, senti um frio na barriga.

No canal de notícias, uma repórter ruiva e com sardas falava em frente a uma mansão enorme, acho que já vi essa mansão antes.

"... A polícia ainda está investigando quem está por trás desse assassinato, e o conselho tutelar mantém a guarda da filha do juíz Walter em custódia e sob proteção de guardas treinados. Agora órfã, a garota de doze anos não tem nenhum parente próximo e provavelmente vai ser encaminhada para..."

Nem terminamos de ouvir a notícia e papai suspirou triste tomando nossa atenção.

— Quem morreu? — Perguntei inocente.

— O juiz Walter Sato. — Mamãe respondeu.

Sato, Sato, eu já ouvi esse sobrenome antes, tentei puxar pela memória, nada em mente.

— Era o melhor juiz... — sussurrou baixinho de uma forma depressiva.

Meu coração acelerou, era um amigo do meu pai, lembrei de uma foto de infância em que estávamos no jardim dessa mansão, uma foto muito antiga, Caio ainda era um bebê de colo e minha mãe o segurava embalado em uma mantinha azul, papai ria com a mão nas costas de um homem asiático com cabelos compridos, esse devia ser o juiz Walter Sato. Eu devia ter uns quatro anos na foto, segurava uma pazinha de plástico vermelha cheia de grama e ao meu lado o que parecia ser uma garotinha, não dava para ver seu rosto porque estava com um chapéu de verão maior que sua cabeça inclinado para frente.

Há muito tempo minha família conhecia esse juiz, ele foi colega de classe do meu pai, e eu conheci a filha dele, que agora está sozinha, uma garotinha da idade do meu irmão.

Notas finais
Espero que tenham gostado :3