Notas iniciais
Eu nunca sei que título colocar, e as vezes acaba saindo algo nada a ver.

— O QUÊ???

— Não seja tão escandalosa! — pediu.

Estava em choque, de novo. Agora são duas informações, Julia perdeu a virgindade, e perdeu com um professor nosso! Isso é muita informação para um dia só, isso é muita informação para o primeiro dia de aula. E agora ela está apaixonada pelo garoto novo, e eu também.

— Qual professor? — perguntei, me recompondo.

— Você não consegue adivinhar?

Pensei em todos os professores que temos, são todos casados, exceto o professor Gustavo, mas ele é muito escroto, não, não pode ser.

— Gustavo? O de cavanhaque?

— Não, ele é um escroto.

— Então, foi com um professor... casado. — Engasguei para falar a palavra "casado".

— É, mas ele vai se separar. — disse se justificando.

— Afinal, quem é?

— Você vai descobrir, ele vem aí.

Ela terminou de dizer e a porta abriu bruscamente, era Charles, o professor de inglês. Ah não! Ele é casado com a nossa professora de português, a que viu o bilhete, isso não está nada bom.

Charles era um professor com porte atlético, que mais parecia jogador de futebol, era cobiçado por algumas alunas mas eu não sabia que minha melhor amiga Julia era uma delas. Tinha cabelos encaracolados que iam até o pescoço e lindos olhos azuis, usava uma corrente com símbolo japonês e sempre estava bem perfumado.

— Vocês ainda estão ficando? — virei o pescoço para trás e perguntei à ela.

— Shiu, ele está olhando! — disse baixinho. Disfarcei e olhei para o caderno, depois passei os olhos pela mesa do professor, realmente, olhava em nossa direção.

A terceira aula foi extremamente desconfortável, já odeio inglês, agora tinha aquele clima estranho de, meu professor foi infiel e eu sei, pior ainda, ele traiu a esposa com uma aluna, e a aluna é minha melhor amiga. Que merda!

Foram cinquenta minutos torturantes.

Até finalmente, a hora do intervalo!

— Vamos pegar algo na cantina.

Julia pegou um lanche natural e água, enquanto eu comia meu salgadinho com suco de caixinha. Outras amigas vieram nos cumprimentar:

— Oi Ca, ainda bem que estamos todas na mesma sala, dá para manter o mesmo grupo de trabalhos! — Disse Nina, uma garota muito parecida comigo fisicamente, mas quase um Einstein de tão inteligente (eu sou tipo uma porta).

— Gente, vocês viram o aluno novo? Ele é muito lindo! E o nome dele é Daniel, sabem o que isso significa? — Era Daniela quem estava falando, uma menina pequena e delicada, com cabelos lisos loiros e olhos azuis.

— O quê? — perguntou Julia com uma voz vazia.

— Que vamos ter o casal Daniel e Daniela, hihi — Respondeu com uma risada eufórica e assustadora.

— Não acho que ele seja grande coisa — comentei mas me ignoraram.

— Será que o aluno novo joga alguma coisa? — dessa vez foi Vitor quem perguntou.

— Deve jogar, tem uma postura tão certinha, aposto que é daqueles metido a jogador de basquete — respondi com desdém.

— Na verdade eu não jogo, mas pratico luta — Ouvi uma voz suave e doce nas minhas costas e pulei assustada. — Desculpe, não queria te assustar.

Virei e o encarei, sem expressão, ele sorria de forma simpática formando uma pequena covinha em uma das bochechas, seu cabelo estava para o lado e dava para ver que usava brinco nas orelhas, talvez isso também fizesse parte do kit garoto interessante que o compunha.

Era evidente a animação das garotas com a presença dele, eu me sentia assustada como um animal indefeso preso em uma armadilha e por um momento pensei que podia estar tremendo.

— Eu faço kung fu, taekwondo e jiu jitsu desde criança.

— Legal cara, mas aqui nessa escola na interclasse não temos competição de luta, acho que vai ficar de fora. — Vitor falou desapontado.

— Que pena, sou quase faixa preta em tudo. — respondeu com ar superior.

— Mas pode participar dos campeonatos de futebol, vôlei ou basquete.

— Não gosto de futebol e não tenho altura para basquete, acho que fico com vôlei. — disse com um sorriso tão lindo, desgraçado, por que ele é tão bonito?

Não tinha reparado, mas ele não tem altura mesmo, era pouca coisa menor que Julia. Fiquei encarando o desenho da caveira na sua blusa de moletom cinza com um desenho de caveira preta, não era permitido usar outra peça fora do uniforme escolar, era estranho alguém não ter falado com ele, talvez fosse regalia por ser aluno novo.

Meus amigos ficaram conversando com ele até o sinal do fim do intervalo tocar, depois voltamos para a sala e Julia pediu para trocarmos de lugar.

— Eu percebi que você não se deu muito bem com o Dani, então, se a gente trocar de lugar eu posso ficar mais perto dele, o que acha?

— Tá — respondi seca.

E passei as últimas aulas quieta, tentando entender o que eu estava sentindo.

Notas finais
Comentem gente