Mistérios do Japão
3 O passado e o presente
Notas iniciais
"Eu não o culpava, na verdade nunca o culpei, o passado nunca foi bom para mim, nunca me amou, nunca se importou, sempre fui um peso. Apesar de tudo eu o amei, pois era tudo o que tinha, então ele me deixou, com mulheres a qual eu nunca havia visto, mulheres lindas, solitárias e fortes.
O passado me abandonou, não olhou para trás nem me abraçou, não deixou nada além de memórias. Aquelas mulheres que por algum motivo me acolheram, me mandavam e xingavam, me ensinavam e alimentavam. Não reclamei, não chorei, levantei a cabeça e agradeci por ter o que comer e um lugar para dormir à noite.
Em uma tarde quando a okiya estava em movimento, mulheres correndo para todos os lados com coisas nas mãos, apenas uma delas estava em serenidade clara, um sorriso gentil brilhava em seus lábios pintados de vermelho intenso, toda sua existência resplandecia naquele lugar, era minha onee-san, ela olhou para mim e me chamou perguntou se estava bonita, eu disse que estava linda, então ela falou que um dia eu seria como ela, que meu futuro seria lindo como ela.
Meu passado me deixou para trás e pela primeira vez fui capaz de ver um futuro diante de mim."
Seu futuro chegou e tornou-se o presente, quando se olhava na frente do espelho já não avistava aquela garota com medo e frágil, agora era uma mulher como aquelas que habitavam o hanamachi, mulheres fortes sem um passado para contar.
– Se apresse Amaya, um dos vice-presidentes da fábrica pediu sua presença, vocês não podem se atrasar. – Ela nada disse, apenas continuou a terminar de arrumar o obi do kimono.
– Fique tranquila okaa-san, ela nunca se atrasa o vice-presidente e todos os outros vão ter o prazer pontual de sempre.
A Okaa-san daquela okiya soava tranquila e calma quando tudo estava em ordem, todavia quando algo a incomodava era severa e não deixava o mínimo detalhe passar despercebido, mas com Amaya um estranho apego havia se desenvolvido, aquela okiya era uma das poucas que sobreviveram após a guerra e a okaa-san de alguma maneira ligava a pequena Amaya a isso.
– Estou pronta, já podemos ir. – Seu kimono delicado e colorido arrastava pelo tatame da casa até a entrada quando calçou seu okobo e caminhou com elegância e caminhou até o veículo* onde ela e sua onee-san adentraram para seguir até a casa de chá prevista.
Amaya ainda era uma maiko, o valor pago por sua presença poderia representar metade de outras geishas completas, mas a frequência de requisição da maiko com o tempo cresceu e trouxe grande lucro àquela casa de geishas.
Naquela noite ela não se apresentou, não cantou nem dançou, todo seu tempo ficou destinado ao vice-presidente que mais uma vez estava na cidade por sua causa. Amaya já estava ciente de que logo seu mizuage seria negociado, isso a incomodava um pouco, mas sabia que era necessário então não recuava.
O Vice-presidente era um homem velho e casado, suas palavras sempre continham um duplo sentido. Jogava dinheiro fora da mesma maneira que jogava as palavras, sem significado e sem valor. Não era um homem que seria agradável para aquele ato, sua vontade era fugir, mas nunca pensou em fazer algo assim. Não havia escolhido estar ali, mas escolheu ficar.
Já era tarde quando voltaram para okiya, o álcool embrulhava o estômago e tudo que queriam era descansar, não que dormir fosse confortável**, mas qualquer coisa parecia melhor do que continuar naquele lugar. O céu se esbanjava cheio de estrelas brilhantes e isso era provavelmente a única coisa que acalmava a pequena Amaya, o vento soprou e o cheiro de terra molhada avisava a chegada da chuva, mas dentro da pequena maiko a tempestade era seca e dolorosa.
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