Mistérios da Lua - O Retorno da Magia
6 Entrada triunfal
Notas iniciais
POV'S ANNE
1 de outubro. Primeiro dia de aulas de magia. Meu estômago estava se revirando e eu não fazia a mínima ideia de como vestir e o que levar. Sete horas da manhã Millena bateu na porta do meu quarto me trazendo uma roupa ridícula e sapatilhas. Tudo branco.
– Eu não vou usar isso. — Avisei.
– E por que não? — Perguntou ela, como se não tivesse visto nada de errado.
– Não faz muito meu estilo. — Ergui as sobrancelhas.
– Vai ter que fazer, todos usam isso. — Millena colocou a roupa estendida na cama.
Mas é nunca que eu usaria aquilo. Cinco minutos fui ao banheiro. Demorei bastante só pra não ter tempo pra Millena me mandar trocar de roupa. Sete e trinta e cinco, corri para o meu guarda roupa e coloquei minhas habituais roupas, só que desta vez com um pouco mais de... mim.
Coloquei uma música bem alta e escolhi minhas roupas. Coloquei uma blusa soltinha rasgada nas costas (acho que mostrava meu sutiã — vermelho — mas quem se importa?), calças jeans rasgadas nos joelhos, preta (como sempre), botas de militar, um casaco de moletom vermelho xadrez amarrado na cintura e uma touca cinza nos meus cabelos negros ondulados. Me enchi de pulseiras e muito rímel. Minha mochila era preta e com estampa do exército verde. Meu celular ficou no bolso de trás.
Corri do quarto com o grito de Millena "ANNELISE! SÃO SETE E CINQUENTA E CINCO!" e desci as escadas escorregando pelo corrimão e parei na frente de quatro jovens absurdamente chocados e boquiabertos.
– Que... que roupas são... essas? — Gaguejou Millena, com aquela roupa estranha branca.
– São as minhas roupas, Millena. — Apontei para baixo. — Eu nunca usaria aquelas roupas ridículas que você me deu.
– Da última vez que eu a fiz usar aquilo, ela me estrangulou, você tem sorte. — Ed disse, para Millena. Josh deu uma risada.
– Vocês tão brincando, né? — Joe perguntou. Ed balançou a cabeça negativamente. Joe me encarou, e depois abriu o maior sorriso do mundo. — Bem, pelo menos ninguém vai te perder por lá.
Millena bufou e saiu de casa, furiosa. Ed pôs o braço no meu ombro. Ele não vestia aquelas roupas estranhas. Estava como sempre, cabelos rebeldes, uma blusa branca, jaqueta de um time de futebol de americano e calças jeans.
– Vamos? — Perguntou ele. Eu sorri e assenti. Descemos as escadas e nos portões, lá estava Millena, fazendo um portal. Joe e Josh já haviam passado. Ed me puxou pela mão e eu entrei no redemoinho roxo, com a sensação de que meu corpo era esticado.
Quando abri os olhos, notei que Ed ainda tinha o braço sobre mim e eu estava na frente de enormes pátios verdes, com dezenas de jovens de diversos cabelos loiros e roupas brancas. Porra. Era por isso que Millena queria me enfiar naquelas roupas. Josh estava tremendo, e piscando por causa da forte luz solar. Eu havia me esquecido que ele era das Trevas. Ed deu um passo pra frente, me levando com ele.
Respirei fundo e pus o braço na cintura dele, o agarrando firme. Eu sentia que ia cair no chão. Quando eu pus o pé no terreno da escola, todos pararam de falar e olharam pra mim. Eu tremia violentamente, mas mesmo assim me armei da minha melhor expressão de indiferença e segui andando, com minha música tocando tão alto nos meus fones que eu tinha certeza de que todo mundo ouvia. No meio do caminho, Ed me parou e tirou os fones de mim. A música TNT do AC/DC tocou pra todos. Fechei os olhos o suficiente pra respirar fundo e continuar andando para dentro do colégio. Continuei com a minha cara de indiferença, e o silêncio durou até a porta atrás de mim bater e Josh, Joe e Millena entrarem também.
– O que foi isso? — Millena estava respirando fundo.
– Furacão Katrina. — Joe respondeu. — Mas acho que foi totalmente Furacão Anne.
– Vai aceitar minha decisão e vir amanhã com as roupas normais? — Perguntou Millena com aquele ar de "eu disse".
– Nunca. — Respondi. Ouvimos passos atrás de nós e nos viramos. Era a irmã de Joe, entrando na recepção.
– Anne, eu nunca ouvi falarem tanto de uma pessoa sem saber o nome dela! — Diana sorriu, maliciosa. — Vão falar até dos seus cadernos se você deixar.
– À vontade se quiserem falar. — Dei de ombros. — Foi legal.
– Exceto o fato de que você tava quase desmaiando encima de mim, não é? — Ed brincou.
– Até a Patty falou dela. — Diana continuou, empolgada. — Todo mundo achou você com cara de malvada. Acho que são as suas sobrancelhas, elas tem o formato perfeito para a malignidade!
– Obrigada, eu acho. — Toquei minhas sobrancelhas.
– E a sua música? — Diana falou. — "Because I'm TNT!" nossa. Isso sim foi uma entrada triunfal. A galera tá quase se batendo pra te ter em um dos grupos. As patricinhas estão decididas a dar um ar gracioso pra você, enquanto a trupe de rockeiros estão gritando que vão te ganhar primeiro. E o time de combate tá apostando com quem você vai ficar primeiro.
– Opa, opa! — Josh gritou. — Isso só por cima do meu cadáver.
Eu dei uma risada tímida.
– Não se preocupe, Josh. — O toquei na bochecha. — Eu vou andar só com você mesmo.
Ele sorriu, mas não ficou tranquilo.
– Onde ficam as salas? — Perguntei.
– Pra lá. — Apontou Joe, para o enorme corredor da direita. — E como eu também sou colega de vocês, vou ser seu guia.
– Você vai ser nosso colega? — Perguntou Josh, desconcertado.
– Temo que sim, querido colega de quarto e escola, Josh Ian. — Joe lamentou.
– Mas como? — Josh indagou.
– Aqui tem uma lei que diz que se os pais permitirem, a criança feiticeira tem que ter criação mortal, caso queira trabalhar no mundo exterior. — Explicou Ed, antes que Joe desse uma resposta desagradável a Josh. — Então, aos quinze anos, a idade caso você fosse para o "Ensino Médio", nós entramos para o Ginásio. E aos 18, fizemos o Ritual.
– Ritual? — Josh perguntou, nervoso.
– O Ritual é feito aos 18 anos. Não sei se você e Anne perceberam quando chegaram aqui, mas este é um terreno limpo. O Ginásio não é apenas um simples colégio, com simples feiticeiros da Luz. Aqui tem feiticeiros das Trevas também. Mas somos diferentes. Aos 18, decidimos Luz ou Trevas. Quem nasceu nas Trevas tem tendência a continuar, e vice-versa, mas há casos raros em que o Feiticeiro troca a opção. E é feito o Ritual. Josh tem sangue das Trevas, mesmo sendo mestiço. Mas ele pode optar pela Luz. E é por isso que ele consegue ficar por aqui. A linhagem das Trevas não foi aceita.
Josh estava boquiaberto. Até eu fiquei boquiaberta. Eu estava prestes a gritar "Por que não falaram isso antes?" Mas o sinal tocou. Nós cinco saímos do caminho pra não sermos atropelados. Dezenas de pessoas entraram pela recepção berrando e correndo, em direção a um salão. Nós seis corremos também, mas paramos ao ver uma mulher de pé no meio do enorme salão
– Olá, meu nome é Lauren, a diretora. — Disse ela, com uma voz gentil. Era uma mulher bonita, de trinta e poucos anos. Tinha ralos cabelos claros e olhos verdes brilhantes. — Como vocês sabem, as aulas estiveram atrasadas por um mês por conta da Guerra do Luar Eterno. Mas, felizmente, uma princesa se sacrificou. A primogênita do Rei Raffael e Rainha Miranda. E como talvez saibam, ela está aqui na escola. Venha cá, Annelise.
Respirei fundo, atordoada. Parecia que o ar havia subitamente me faltado.
Eu, encima de uma mesa de pedra, uma adaga de prata nas minhas mãos.
– Eu te amo, Ed.
E eu enfiei a adaga em meu estômago.
Ed pôs as mãos nos meus ombros e me empurrou na direção do centro sem pessoas. Quando eu vi, a diretora já estava me pegando pelos ombros e me erguendo em um pequeno palanque que sei lá de onde veio.
– Esta é a princesa Annelise Raxel Watern. — Anunciou a mulher. — E ela é a nova aluna aqui. Tratem-a com respeito.
Me livrei do aperto da diretora e me escapei para um canto. Soltei a respiração que nem sabia que estava segurando.
– Bem vindos ao Ginásio! — Gritou Laura. Os estudantes gritaram erguendo as mãos e soltando faíscas. Um verdadeiro arco-íris se ergueu, de diversas cores. Me empolguei e lancei uma também. O prateado brilhou, apenas mais uma faísca no meio de centenas. — Que comecem as aulas! Olhem dentro da mochila de vocês, seus horários estão aí.
Lauren desceu do palanque, e o símbolo da escola apareceu por cima da cabeça dela: uma majestosa fênix dourada. Millena me disse que a fênix significava os feiticeiros. Sempre renascíamos das cinzas.
Vasculhei minha mochila e peguei o horário. Antes de fechar a mochila, alguém me empurrou e eu caí.
– Quem foi o filho duma égua? — Esbravejei.
– Acho que foi eu. — Um garoto, (lindo) de olhos verdes e cabelo castanho claro. Ele estava com roupas normais.
– Finalmente alguém mais teve coragem de vir com roupas normais. — Ele me encarou.
– Felizmente não sou só eu. — Peguei minha agenda e coloquei dentro da mochila. Ele me entregou meu estojo e eu meti junto com a agenda. Ele ergueu a mão.
– Meu nome é Oliver Bennington, terceiro ano. — Se apresentou ele.
– Anne Watern, primeiro ano. — Apertei a mão. Por um momento ele ficou meio branco.
– A princesa? — Perguntou ele.
– É. Mas não espalha. — Sorri. Ele sorriu, entendendo.
– Como queira, princesa. — Falou ele. Alguém me agarrou pelo braço. Cabelos escuros, olhos azuis. Diana.
– Anne! Tá todo mundo te procurando... — Ela pareceu notar Oliver e parou.
– Diana Lewis. — Ele disse, meio gaguejando.
– Oliver Benington. — Diana o fitou, com um flash de raiva. Oliver deu um passo para trás.
– Tchau, Anne. — Ele acenou, indo embora. Acenei de volta, visivelmente intrigada.
– O que aquele traste tava fazendo aqui? — Perguntou Diana, com raiva.
– Ele me ajudou, eu derrubei...
– Não importa. — Ela me interrompeu, bruscamente. — Ele é um cafajeste. Ele já pegou metade dessa escola. Não tem ninguém que bata o recorde dele, talvez o Ed, mas ele é falso, traidor...
– E ele te traiu, não foi? — Perguntei, na lata. Não tinha sentido em prolongar o assunto. Aquilo era tão óbvio. Os olhos de Diana se encheram de lágrimas. Estava ainda mais óbvio o fato de ela não ter o superado.
– Foi. Eu o amava, e vi ele se beijando com a Stella. — Ela apontou para uma loira peituda do outro lado. — Eu tive minha vingançazinha. Valeu a pena, mas tanto amor assim, não é sufocado do dia pra noite.
– Isso é compreensível. — Falei. — Mas você não pode ficar o evitando pra sempre, Diana.
– Eu sei, eu só preciso de... tempo.
– Você é que sabe. — Dei de ombros. — Onde estão os meninos?
– Por ali. — Diana apontou pra um garoto loiro.
– Joe! — Gritei. Joe se virou pra mim. Josh estava conversando com ele.
– Aonde você estava? — Joe perguntou, me dando um abraço.
– Eu fui pro caminho errado. — Respondi. — Até topei com um cara muito gato.
– Bem, seu senso de beleza não falhou, mas o senso pra cafajeste parou total. — Murmurou Diana.
– Diana! — A repreendi. Me virei para os garotos. — Onde estão Millena e Ed?
– Falar com a direção, ou sei lá. — Josh deu de ombros. Um sinal agudo tocou. — O que foi isso.
– O sinal. — Joe respondeu. — Quem aí quer uma excursão grátis?
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