Mistérios da Lua
3 Uma visão inapropriada
Notas iniciais
Ah. Você deve querer saber do meu pai. Alto, loiro com olhos azuis água. Pois bem, dele eu não herdei meus cabelos e os meus olhos. Pois é, ele é um homem muito atarefado. Dei alguns passos com ele e Sophie foi embora, com a desculpa de que precisava ver Josh. Garota esperta. Eu preferia ir com ela. Mas meu pai continuou segurando meu ombro em um tipo de abraço, contando histórias de como nasci, e quem eu sou. Pra falar a verdade, nem prestei atenção. A maioria das palavras entravam por um ouvido e saíam por outro. Eu sentia que deveria pelo menos tentar ouvir o que ele dizia. Mas sinceramente, eu não estava para papo. Enquanto andávamos, indo para a sala do meu pai, ouvi certas conversas. Havia duas mulheres falando alguma coisa e apontando pra mim, como se eu fosse uma aberração. Algumas crianças correram de mim direto para o colo de suas mães. Fiquei com complexo. Foram-se cinco minutos do meu precioso tempo ouvindo conversa furada e vendo dedos se apontando pra mim com desprezo. Comecei a fazer cara de brava para as pessoas. Mas eu não ia mesmo aguentar desaforo. Saí andando com meu pai, olhando ao redor.
— Então? — perguntou meu pai.
— Então o que? — respondi, alheia a conversa
— O que eu estava dizendo Anne. — respondeu ele — que caminho você vai escolher.
— Ah. — falei, um pouco envergonhada — ainda não sei. Quer dizer, ninguém me explicou. Mas havia uma placa sobre você naquela estátua. Dizia que controlava água. Acho que é um dos caminhos, não é?
Meu pai sorriu, orgulhoso quando eu mencionei que ele controlava a água.
— Eu controlo a água. Sou o único que faz isso. Você também é boa com a água. Talvez fosse tenha o dom.
— Eu não sou boa com água. — protestei — Não consegui respirar debaixo d'água daquela fonte estúpida.
Ele riu, como se essa fosse uma piada muito engraçada. Ótimo. Não havia nem 2 horas que eu tinha um pai e ele já achava graça de mim. Maravilhoso. Simplesmente maravilhoso.
— Tá achando graça de bobo, né?
— Anne.. Você ficou 15 minutos debaixo daquela "fonte estúpida".
Meu queixo caiu. E continuou no chão por um bom tempo. Para mim, não dava nem dois minutos debaixo d'água. Como é que eu havia sobrevivido 15 minutos? Não era possível. Tá tudo bem, o que parecia impossível havia acontecido naquela manhã. Eu descobri que existem Feiticeiros, e que meu pai está vivo. E existe uma "facção na magia" que é controlada por "Aquela Mulher", que vou apelidar de Mulher nas Sombras, porque acho que é chique, e é um bom codinome.
— Então.. a fonte estúpida deve ser mágica, não é? — perguntei, ainda sem acreditar naquela informação de quinze minutos.
— É.. Bem, é encantada para não deixar os Feiticeiros das Trevas entrarem e... — ele hesitou. Aí olhou para o chão, culpado, como se tivesse deixado uma informação escapar. Revi a frase na mente. Encantada para não deixar os feiticeiros das Trevas entrarem. Espera. Eu quase não entrei no Palácio. Foi preciso meu pai vir me tirar daquela magia mortífera de afogamento.
— Feiticeiros das Trevas? Só eles? — perguntei curiosa. — Eu quase não entrei aqui. Foi preciso que você desligasse a magia, ou sei lá o que. Mas a Sophie passou direto. Nem agonizou até a quase morte como eu. Você quer dizer que eu sou uma Feiticeira das Trevas? Como assim?
Meu pai me olhou nos olhos, impotente. Seus olhos azuis, brilhando como uma piscina em dia de verão, em que o sol bate, parecia agora, um azul triste, como o céu em dia de chuva.
— Ok, então. Tudo bem. — falei — Onde estão Sophie e Josh?
— Ah, é mesmo. Você já pode vê-los se quiser.
— Sério mesmo? Posso ir embora?
— Você quer ir? Tão rápido? Nem ver sua irmã?
Meu queixo caiu de novo. Eu tinha uma irmã? Como assim? Isso era incrível! Será que eu era irmã mais velha ou mais nova? Mas me forcei a falar.
— Eu tenho irmãos? — perguntei.
— Sim, uma pequena menininha. — respondeu meu pai, com um sorriso no rosto — Tão bonita! Um pouco parecida com você, mas... você quer vê-la?
— Claro! — Me animei. — Onde ela está?
Meu pai me pegou pela mão e me levou para uma sala com lareira. Uma mulher jovem, de talvez 25 anos embalava uma criança no sofá. Ela se virou para mim e seu rosto mostrou uma expressão de "argh". Quem era aquela mulher? Ela olhou para o meu pai, exasperada, fuzilando-o com o olhar. Depois voltou a me encarar.
— E aí? — perguntei alto, irritada com a cara de pau da mulher — Vai ficar me encarando? Eu sei que eu sou estranha.
— Ah — meu pai ficou estático, me olhando, com a boca aberta — Anne, não fale assim. Esta é a Rainha Clarissa, minha esposa sua madrasta.
— Ah, claro. — falei, sem nenhum entusiasmo. E continuei — Espera que eu a cumprimente? Estou aqui para ver minha irmã.
— Você precisa de um pouco de educação, querida. — falou Clarissa, com um belo sorriso no rosto.
— Clarissa. — disse meu pai, em tom de reprovação.
— Mas Raffael, um poço de educação essa menina não é.
— Oi! — falei — eu estou aqui! Cadê a criança?
— Está aqui dentro do quarto dela, garota. — respondeu minha madrasta — Não espere que eu a leve lá. Só estou cuidando da minha sobrinha.
Eu arqueei as sobrancelhas. Pelo visto, rainhas usam do sarcasmo, e com louvor. Virei para meu pai, que parecia em transe. Apenas assentiu e me puxou para um corredor cheio de cortinas abertas, revelando enormes janelas. Andamos por mais alguns quartos até pararmos no fim do corredor. Meu pai deu um passo a frente e abriu a porta. Era um quarto enorme. Enorme mesmo. Tudo cor de rosa, dourado e branco, como um quarto de princesa. Pensando bem, minha irmã era um princesa. Havia uma pequena garotinha no canto, brincando com Barbies. Tinha mais ou menos, sete anos, loira com cabelos dourados e grandes olhos azuis. Usava um vestido como o meu, só que cor-de-rosa. Ela virou-se e sorriu para mim. Correu e me abraçou. Eu parecia um corvo no meio daquele quarto. Havia uma garota abraçando a minha cintura e eu só olhava para baixo, na cabeça dela. Até que cedi e a abracei também. Apenas os ombros porque meus braços não chegavam nela. Logo depois, ela me soltou e levantou a cabeça para mim e sorriu. Foi o sorriso mais bonito e sincero que já havia visto na vida. Minha irmã transbordava Luz e Pureza; e me senti inferior. Eu transbordava raiva e ressentimento. Como é que meu pai poderia lembrar de mim tendo aquela criança como filha?
— Oi, Anne. — disse minha irmã, sorrindo.
— Você sabe meu nome? — perguntei.
— Papai sempre fala de você de noite para mim. — disse ela — Você é como eu sempre sonhei que era!
— Hã? — perguntei, estúpida.
— Anne — falou meu pai, vendo meu desentendimento total ali naquele quarto -, Lorrie tem o dom da visão.
— Eu te vi no meu sonho! — contou a pequenina Lorrie — Você estava em uma sala escura, chorando. Tinha uma mulher bonita com um vestido preto dizendo... como é que era mesmo?
— Lorrie! — chamou meu pai — Você não tinha me contado essa parte da sua visão! Uma mulher bonita?
— Ah, esqueci, papai. — Se desculpou Lorrie. — Desculpe. Mas a mulher cochichava. Nem deu para ouvir o que ela dizia mesmo.
— Como era essa mulher? — perguntou meu pai, curioso.
— Era alta, com cabelos e olhos bem pretos e grandes. — Descreveu Lorrie — Usava um vestido comprido preto com um decote muito grande. E os dedos emitiam uma luz lilás.
Meu pai engoliu em seco, e colocou a mão no queixo. Ele pareceu aflito e a água do enorme aquário que existia em uma das paredes, começou a borbulhar. Lorrie voltou a brincar com suas bonecas. E eu continuei parada, só olhando a cena. Até começar a olhar fixamente para o aquário, que agora estava maior que o normal, e haviam rodamoinhos espiralando, e jogando os peixinhos dourados para trás. Olhei para a água, tentando criar alguma coisa com ela. Ora, meu pai disse que eu podia controlar a água. Eu estava tentando. Mas o máximo que consegui, foi olhar para a água enquanto ela parava aos poucos.
— Querida — falou meu pai, para mim -, você pode ir agora. Eu vou falar com Lorrie.
— Mas como vou voltar? — pergunte, confusa — Eu não sei andar por aqui.
— Não se preocupe, vou mandar Ed te levar.
— Mas ele não está batalhando ou algo assim?
— Não, não está mais. Espere um pouco com sua irmã, enquanto eu busco aquele garoto. Tchau Anne.
Meu pai me beijou na cabeça e saiu, pisando fundo. Lorrie falou, baixinho:
— Ed é praticamente da família. — Puxou papo Lorrie.
— É? — perguntei. Se ele fosse meu parente, seria um pouco mais difícil estrangular Ed, de novo.
— Sim. — respondeu Lorrie — Papai salvou ele. Você sabe... a Guerra com os das Trevas.
Não, eu não sabia. Mas obrigada, Lorrie.
— Ah! — Ela parecia assustada. — Não diga a papai que te falei isso, por favor.
— Não, não vou dizer, pode ficar tranquila. — A tranquilizei.
— Ainda bem. Bem eu...
A conversa foi interrompida por Ed, que entrou, já tropeçando nos brinquedos de Lorrie.
— Olha o que você está fazendo! — gritei. — Está tropeçando nos brinquedos da menina!
— Desculpe, Lorrie. — disse ele, me ignorando.
— Tudo bem, Ed. — falou Lorrie.
— Ok. Lorrie, quer chamar sua irmã? — perguntou Ed, O Descarado.
— Anne — chamou minha irmã -, Ed está te chamando.
— Eu estou ouvindo. — Falei.
— Ela disse que está ouvindo. — falou Lorrie, A Engraçadinha.
— Ah, tá então. — disse Ed — diga a ela para me seguir.
— Anne, ele está mandando você segui-lo. — Lorrie me olhava.
— Eu ouvi! Diga a ele, que não irei falar com ele também. — Entrei na brincadeira, me sentindo idiota.
— Ed ela disse que... — Lorrie sorria.
— Ei! — protestou Ed — Essa brincadeira é minha!
— Agora não é mais, Ed. — falou Lorrie
— Ah, esquece. — suspirou Ed — Anne, seu pai disse que não vai poder te acompanhar hoje. Talvez amanhã.
— Amanhã eu estarei na minha casa! — gritei.
— Não mesmo. — falou Ed — Amanhã e pro resto da sua vida você estará aqui.
— Não mesmo! — Protestei.
— Não mesmo digo eu! — Replicou ele.
— Claro que não! — Tripliquei.
— Claro que sim! — Ele continuou.
— PAREM! — berrou Lorrie — Não Ed, ela não vai ficar aqui o resto da vida. Logo, logo ela vai sair. E você vai ir com ela.
— Não mesmo! Eu nunca iria para algum lugar com essa daí.
— Eu estou ouvindo!
— Já chega vocês dois. — falou Lorrie, calmamente — Agora vão. Não era pra você buscá-la, Ed? Então, vão. Tchau, Anne. Até algum dia.
E esse foi o primeiro momento que tive com minha irmã. É, ela realmente era muito apegada.
— Vamos, Anne. — disse Ed — Sophie e Josh devem estar esperando.
— Tá — disse, irritada — Vamos logo.
— Olha, se te irritei, desculpa.
— Não, tudo bem. Só quero ir ver Josh.
— Ok — ele deu de ombros — Então vamos lá. Tchau Lorrie.
— Vão indo! — falou Lorrie me empurrando para o lado de Ed — Vá Anne.
— Ok, ok. — disse — Não precisa empurrar.
Saímos do quarto de Lorrie e logo depois entramos em transe para nos teletransportarmos. Saímos na mesma fonte em que quase morri. Ed a contornou sem falar uma palavra desde lá atrás. Percebi que ele usava uma capa branca, como a minha. Ele tinha uma espada pendurada no cinto. E uma tatuagem do braço esquerdo. Era um tipo de pássaro. Acho que uma pomba. Ou um canário. Ah, não sei. Passamos na frente de um grande portão dourado. Atrás do portão, uma grande área verde. Crianças, jovens e adultos estavam andando, sentados, ou até mesmo lendo. Parecia uma grande escola normal. Exceto que os "alunos" estavam vestidos do mesmo modo que Ed e eu, ou seja, com aquelas roupas com capas, cintos e sapatos brancos. Todos iguais. Mas depois percebi que nenhum deles tinha cabelo escuro como eu. Todos loiros, ou com cabelo castanho claro. E apenas olhos claros. Pensando bem, eu só vira Ed com cabelos e olhos mais escuros, e mesmo os dele tinham cores mais claras que os meus olhos e cabelo. Ed gritou alguma coisa para um garoto e o garoto acenou. Então seguimos em frente.
— O que era aquilo? — perguntei a Ed.
— É o ginásio. — disse ele — É lá que você faz os cursos dos caminhos a prosseguir. Eu já concluí o meu.
— Ah, que bom que eu não perguntei e você falou.
Ele riu.
— É tão boa essa nossa troca de elogios que dá vontade de te abraçar. — Disse ele.
— Ouse fazer isso, boymagia. — Eu o olhei fulminantemente.
Ele riu, parou e se virou para mim.
— Boymagia? — Repetiu ele.
— É. Nunca ouviu essa expressão, inteligência pura? — Eu sorria.
— Na verdade, não.
— Huuum. Está bem. — Achei estranho, mas não comentei.
— Vamos logo. Sophie deve estar esperando.
Nós encontramos Josh e Sophie andando em outro parque. Credo, quantos parques existem nesta cidade? Mas seguimos até eles. Na verdade só eu. Ed disse que tinha um compromisso e me deixou ir até lá sozinha. Eu segui até eles. Sophie me viu e chamou Josh, que vieram até mim.
— Ei, Anne. — chamou Josh, com um sorriso bobo na cara — Sophie estava prestes a me contar sobre aquela grande universidade lá atrás.
— Sobre os Caminhos? — perguntei, já curiosa.
— Sim. — falou Sophie — Você já os conhece?
— Na verdade, não. Mas descobri que água é um deles. — Respondi.
— Claro. Venham, vou explicar no caminho para o Grande Carvalho. — Sophie se apressou em caminhar.
— Grande Carvalho?
— Sophie disse que o Grande Carvalho foi o começo das gerações de todos os Feiticeiros da Luz. — explicou Josh. Ótimo. Agora o bobo-alegre sabia mais do que eu.
— Isso mesmo, Josh. — falou a ruiva, como se ele fosse seu aluno — Agora vamos.
Eu e Josh a seguimos pela rua, que logo deu em uma ponte que atravessava um riacho. Parecia um outro parque, só que bem mais verde e bonito. A luz do Sol se infiltrava no meio das folhas das árvores, e resolvi fazer a pergunta, porque ninguém parecia se dar ao trabalho.
— Então... vocês são separados conforme seus poderes? Ou algo assim? — perguntei para Sophie.
— Algo assim. -respondeu ela — Somos divididos, sim. Mas conforme os poderes que queremos desenvolver.
— Como assim? — perguntou Josh, tão confuso quanto eu — Eu pensei que, sei lá, os professores ou alguém assim escolhiam vocês.
— Não. — Sophie olhou para Josh, indignada com nossa ignorância — Aqui é como uma grande universidade. Os alunos escolhem o caminho a seguir. São quatro os tipos de Feiticeiros.
— Quais são? — ousei perguntar.
— Bem, os Feiticeiros de Proteção; magia de proteção, rastreamento, cura, etc.- Explicou a ruiva. — Os Dominantes; elementos, sabe? Terra, ar, fogo e água; embora alguns outros, mesmo que sejam combatentes e Protetores, tenham poderes sobre os elementos, alguns escolhem estudá-los, sem aderir a nenhum dos outros. E os Combatentes, guerreiros, não usam muita magia, apenas a boa e velha esgrima e luta corpo-a-corpo.
Os olhos de Josh se iluminaram. Percebi que esse seria o caminho que ele iria seguir. Sophie seguiu em frente, mas eu não estava satisfeita. Não tinha percebido nenhuma conexão com aquelas carreiras.
— Espera aí. — disse, puxando Sophie para trás — Você disse que eram quatro. Faltou um.
Sophie me encarou, sombria. Os olhos azuis estavam mais tensos do que nunca.
— Nós não falamos deles. É um assunto perigosos e proibido. Mas vocês ainda não representam nenhum perigo. São os Feiticeiros da Escuridão.
— E o que eles fazem? — perguntei, em um tom cauteloso.
— Nós não sabemos. Eles foram banidos do Vale da Luz a milhares de anos atrás.
— Mas... — hesitei. Era claro que Sophie sabia mais do que queria falar. Mas mesmo assim perguntei — Tem certeza?
— Sim. — ela falou, vacilante — Sim, sim eu tenho.
— Mas e os Combatentes? — perguntou Josh, ainda encantado — Será que eles me aceitam?
— Hummm. — Sophie analisou Josh de cima a baixo. Me senti desconfortável. — Talvez. — respondeu ela — Mas eles são um pouco seletivos.
— Ah. — o sorriso de Josh perdeu parte do brilho. Sophie percebeu e tocou o ombro de Josh.
— Ei, se anime. Conforme treina seus poderes, mais verá para que tipo de Caminho tem vocação.
— Tá bem. — respondeu ele, agradecido — Vou treinar. Quando é que vamos dormir? Estou cansado.
— Mais tarde, Josh. — respondi, bruscamente — Para onde exatamente está nos levando depois de vermos aquela árvore?
— Para a Escola, é claro. — respondeu ela, como se fosse óbvio.
— Escola? — perguntei — Isso não é muito Harry Potter? Bruxos, Escola...
Sophie parou abruptadamente. Se virou e me encarou.
— Não. Bruxos e Feiticeiros tem diferenças.
— Tem? — perguntou Josh, se metendo na conversa — Pode me dizer? Por que não vejo nenhuma.
Sophie suspirou e revirou os olhos.
— Ouçam. Bruxos e Feiticeiros são raças irmãs. O problema deles é que precisam das varinhas para lançar feitiços. Enquanto nós, Feiticeiros, usamos apenas as mãos.
— Está dizendo que são mais fracos que nós? — perguntei.
— Não mesmo. — respondeu Sophie — Com o feitiço certo e a varinha certa, eles podem, com facilidade nos abater. Mas sem as varinhas, pouco podem fazer.
— Então não precisamos de varinhas? — perguntou Josh.
— Não, não. — Sophie riu. Era uma risada contagiante, que me fez querer rir também. Mas me aguentei. Ela estava fazendo magia. E nós, Josh e eu, éramos as cobaias. Josh já estava rindo. Não me segurei e explodi, ao ver Josh começar a rir.
— Quem você pensa que é? Fazendo sua magia com as palavras e nos usando como ratos de laboratório!
A ruiva parou. Me olho com cara de "Uh, ela sabe". Olhou para Josh, que ainda estava rindo. Virou-se para mim novamente e sorriu.
— Você é capaz de identificar a magia nas palavras! Isso é incrível!
— Ser cobaia não é incrível? — retruquei.
— Anne... — Sophie segurou meu braço. A mão dela era quente. Ela me olhou nos olhos e por um instante a cor azul se esvaiu se transformando em preto e sugando toda a cor do espaço. Me apavorei. Ela ainda segurava meu braço e parecia congelada. Josh também. Olhei para o cenário a minha volta. Não era mais um parque verde e bonito. Era uma cena de batalha, com corpos ensanguentados no chão, com espadas e lanças em seus corpos, alguns levitando, mortos. O cheiro de carne podre invadiu meu nariz. Levantei meu braço NÃO preso e levei minha mão ao nariz. No alto de uma montanha que apareceu sabe-se-lá de onde, a Lua estava tão perto que parecia estar prestes a se chocar contra a Terra. Eu podia ouvir alguém gargalhando atrás de mim, uma voz feminina. Uma silhueta apareceu lá de cima da Montanha, e levantou os braços, como se quisesse aplaudir aquela guerra sangrenta. Então ao lado da voz que gargalhava ouvi um grito de terror. Eu senti um aperto no coração com o grito de puro horror. Não sei de quem era, mas era obviamente de uma mulher e vinha de cima da Montanha, ao lado da silhueta gargalhante. Pisquei com força e tudo voltou ao normal. Apenas o cenário, porque tudo ainda estava congelado. Olhei em volta, apavorada. Josh abriu a boca. Mas a voz que saiu de lá com certeza não era de Josh. Era a mesma voz gargalhante.
— Olá querida Luna. Já está na hora de voltar para mim, querida.
— Nunca! — gritei horrorizada. Apontei para o riacho e a água se moveu. Se levantou em uma parede altíssima e muito gelada e explodiu na cara de Josh e Sophie ensopando-os e os levando como se estivessem sido arrastados. Caí para baixo e desmaiei.
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