Mistérios da Lua
22 Mistérios
Notas iniciais
Quando acabou o filme, Sophie e eu começamos a dobrar os cobertores amarrotados no sofá. Adrien já havia saído para curar Millena a meia hora. Ele olhara o começo do filme, mas eu acho que ele não aguentara.
– Gente. — Chamou alguém. Sophie gritou e fez uma bola de fogo que detonou a TV. Eu fiquei estático. — Sou só eu. Sam.
– Nunca. Nunca mais me assuste assim! — Sophie o olhou macabramente.
– Se acalma. O filme acabou, hein? — A acalmei. Ela tremeu um pouco.
– Sim, eu sei. — Ela concordou. — Onde você estava, Sam?
– Trabalhando. — Respondeu ele, normalmente.
– No que você trabalha? — Perguntei.
– Isso importa realmente? — Ele fez uma cara de súplica, como se realmente não quisesse que nós perguntássemos isso. Talvez o cara tivesse vergonha do trabalho dele, sei lá.
– É, isso realmente não importa. — Terminei de dobrar os cobertores. — Vamos no laboratório?
– Boa ideia. — Concordou Sam.
– Ótima ideia. — Sophie assentiu. Olhamos para o corredor escuro. — Ah, vamos lá.
O "laboratório" de Adrien era a última porta, o que significava que deveríamos passar por um corredor de, no total, 7 portas. Eu não fazia ideia de porque Adrien nos colocara para dormir em um quarto de beliches quando ele tinha tantos quartos vagos. Uma luz amarela saía das frestas da porta de Adrien. Aquilo com certeza não deveria ser legal. A porta estava trancada.
– Droga. — Resmungou Sophie. — O que fazemos agora? Arrombamos?
– Claro. — Concordei. Com um chute, a porta voou dos trincos. Nos demos de cara com uma cena estranha. Milena estava deitada em uma maca, e uma linha de fogo estava traçada ao redor dela.
– O que estão fazendo aqui? — Questionou Adrien.
– O que está fazendo com ela? — Gritei.
– Cura de fogo. — Sophie respondeu por ele. — Mas... mas... a sua família domina a água! São gerações e gerações...
– Sim. — Disse Adrien. — Bem. Descobriram meu segredo. Sou o excluído. E só por dominar o fogo, veja só. Perdi o trono por isso.
Muito bem. Muita informação para assinalar. Adrien, irmão de Raffael e, consequentemente tio de Anne, dominava o fogo ao invés da água. E por isso perdera o direito ao trono. Alguns anos depois, devia ter planejado a morte de alguém, porque foi expulso. Os feiticeiros da Luz eram complicados pra caramba.
– Mas Raffael nunca... nunca disse nada. — Sophie parecia tentar entender.
– Segredo de família. — Contou Adrien. — Os mais velhos sabem de mim, porém pensam que estou morto. Mamãe quando queria esconder algo... ninguém achava.
– Sua mãe te expulsou? — Saltei.
– Sim. — Respondeu Adrien.
– Ela era bem... enérgica. — Comentou Sophie.
– Era. — Adrien pensou alto. — Mas, se vocês vieram aqui para ver se sua amiga não está morta, dêem uma olhada vocês mesmos. Ela está melhorando lentamente.
– Quando você acha que ela vai melhorar? — Perguntei.
– Não sei. Amanhã, depois? — Supôs o professor.
– Nós não temos todo esse tempo! — Protestou Sophie. — Nós temos que encontrar o Sol!
– Sophie, querida... — Adrien foi interrompido por Sam, que pigarreou.
– Professor, podemos conversar? — Pediu ele. Adrien, com orgulho nos olhos, assentiu levemente e saiu, acompanhado pelo loiro.
– Bem, vamos dar uma olhada em Millena. — Falei, dando um passo a frente.
– Não ultrapasse este círculo. — Avisou ela. — Ele é um círculo de cura, e quem está dentro vai começar a melhorar, mas se outra pessoa entra, a mágica acaba.
– Mas Adrien estava dentro dele. — Protestei.
– Adrien fez o círculo. — Sophie falava animada. — Isso é um feitiço de alta dificuldade. Eu não consigo fazê-lo. Ed no entanto, faz com perfeição, ele se especializou em Proteção. — Ela resmungou.
– Algum dia você faz. — Rolei os olhos. Como eu não tinha irmãos, nunca entenderia este ciúmes.
– Olha a perícia destes fios de fogo! — Sophie estava realmente animada. Eu bocejei.
– Bem, eu vou deitar. Preciso dormir. — Bocejei de novo. Sophie assentiu.
– Preciso dormir também.
Juntos, saímos do laboratório.
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Me remexi inquieto na cama. Às três da manhã eu acordara e não conseguira mais dormir. Resolvi ir para a cozinha comer algo. Talvez me desse sono. Pulei do beliche sem fazer barulho. Olhei para Sophie. Seu cabelo ruivo estava jogado em todas as direções. Quando olhei para ver Sam, percebi que ele não estava. Que estranho. Saí do quarto na ponta dos pés. Estranhei novamente o fato da luz da cozinha estar ligada. Quando estava quase entrando, me vi obrigado a dar volta e me esconder nas sombras. Sam e Adrien conversavam.
– Mas senhor... — Estranhamente, era Adrien quem dizia.
– Basta, Adrian. — Ordenou Sam.
– Senhor, a minha maldição! Eu terei que revelar mais cedo ou mais tarde que...
– Prefiro mais tarde. — Apesar da ironia, o tom de voz de Sam era medonho.
– Eles estão procurando o sol! — Protestou Adrien, me dando certeza de que ele falava de Sophie, Millena e eu. — E quando souberem que...
– Eles não irão saber! — Sam o cortou.
– Mas senhor...
– Meu nome é Sam. — Sam impôs.
– Claro, Sam. – Adrien soou indeciso.
– Eles não podem e não devem saber quem eu sou. — O tom de Sam, decisivo, dava a ideia de uma ordem.
– Como quiser. — Adrien fungou, desgostoso.
– Preciso dormir um pouco. — Sam disse, me espantando. Corri como uma sombra em disparada para o corredor e subi a cama rapidamente. Quinze segundos depois, Sam estava entrando no quarto, parecendo exausto. Semi cerrei os olhos e rezei para que Sam não me descobrisse acordado. Então, vi uma cena estranha. Sam andou até Sophie e lhe deu um beijo na testa. Mas não era um beijo malicioso. Era quase... fraternal. Como... irmãos, amigos. Uma relação completamente fraternal. Me arrepiei e fechei totalmente os olhos. Senti Sam sentar na cama. Ouvi o baque dos calçados dele no chão e ele afofando o travesseiro. Então, provavelmente se deitou. Mas eu não conseguia dormir. As palavras dele martelaram minha cabeça. E o ruim é que eu não as entendia. "Eles não podem e não devem saber quem sou".
Quem era afinal Sam? O que ele queria? E o mais importante: o que ele não queria revelado?
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