Missão Meraki
1 Prólogo
—Rápido! Para baixo! – Dizia minha mãe com uma voz aflita.
Era para o porão que íamos sempre que os Sanuye conseguiam atravessar a barreira formada em volta à Terra.
—Jo! Entra! – Eu gritei para o meu irmão de dez anos, enquanto corria em sua direção.
Por alguma razão, toda vez que sofríamos algum ataque, ele paralisava completamente e parte disso, acredito eu, se deve as histórias que meu pai contava a ele quando era criança.
Como engenheiro oficial da Organização Mundial de Proteção Anti-Sanuye, também chamada de OMPAS, ele vivenciara muitas situações de pesquisas, defesas e ataques contra essa espécie alienígena.
Por alguma razão essas histórias nunca me assustaram. Parte do porque eu ter virado bióloga especialista em espécies extraterrestres.
—Noemi! – Meu irmão gritou, com lágrimas nos olhos.
—Joseph! Quantas vezes os Sanuye vão ter que atacar para você aprender que precisa ir para baixo da casa! – Eu o puxei para o meu colo. Ele já não estava tão leve, mas era a maneira mais rápida de leva-lo para dentro.
—Noemi! – Ele gritou novamente, dessa vez apontando um o seu dedo rapidamente para a minha lateral.
E pela primeira vez, eu havia visto um Sanuye vivo. Não pela TV, não pelas imagens ou pelos cadáveres das nossas aulas de anatomia alienígena.
Lá estava ele parado com os seus três de altura, tronco forte coberto por uma camada grossa de Dhara, como chamávamos o tecido epitelial deles. Suas narinas em dois fios diretamente na face, localizadas onde estaria o nariz, olhos negros e profundos.
Sua boca não se mexia, mas por trás dos dois caninos superiores longos, e dentes afiados com padrão alterado de lados, eu sabia que haveria uma língua comprida bifurcada com pequenos poros venenosos, além de uma garganta contendo vários espinhos feitos de Dhara endurecida.
Eles são comedores de carne, que utilizam as ventosas nas palmas da mão para segurar sua presa, enquanto liberam suas garras afiadas como gatos para perfurar e matar lentamente a presa. Interessantemente, meu pai havia me contado que eles só comem o que ao apertar solta um grito agudo de dor. Cientistas ainda estavam estudando a possibilidade de eles manterem energia com estado mental em que as pessoas se encontravam na hora da sua morte.
Depois de alguns minutos que eu própria havia paralisado diante a um ser tão amedrontador, vi que somente sua cabeça se moveu para o lado lentamente. Após estudar tantos anos a mesma espécie, não tinha dúvidas que aquilo era um sinal de análise para o jantar do dia.
Corri o mais rápido que pude com meu irmão no colo chorando, mas o que eram apenas cinco metros de casa, viraram quilômetros quando o alienígena utilizou suas pernas compridas para impedir o meu caminho.
Ele se curvou rapidamente, se aproximando demais ao meu rosto, enquanto eu tentava dar passos para trás, caindo logo depois do terceiro passo. Puxei rapidamente meu irmão para trás de mim e tentei o empurrar para que ele se afastasse.
Sem ter por onde ir, pensando somente em proteger Joseph, senti as ventosas do Sanuye tocarem a minha regata, uma por uma e a cada parte que se aderia a minha roupa, um novo estímulo de adrenalina era sentido pelo meu corpo.
Eu sabia que não teria como sair dali logo que ele pensasse em liberar suas garras. E eu não tinha saída, até ouvir tiros vindos de dentro da minha casa.
A criatura me levantou e me jogou para o lado assim que percebeu minha mãe atirando deliberadamente em direção a ela. A partir desse momento, minhas memórias são apenas vultos.
Minha mãe sendo atacada pelo Sanuye, jogada para longe, batendo sua coluna em um terminal de energia, partindo-a ao meio e meu irmão sendo pego e analisado pelos olhos escuros do alienígena.
O grito de Joseph, foi a última coisa que ouvi antes de desmaiar.
***
—Você tem certeza que quer participar dessa missão? – Disse a comandante Abrahams.
Ela havia me ajudado bastante nas últimas semanas. Depois que minha mãe e meu irmão morreram nas mãos do Sanuye e meu pai faleceu enquanto tentava concertar um dano fatal em uma das torres de defesa do planeta, eu simplesmente não havia razão para comemorar.
Mesmo que soubéssemos que por enquanto os ataques parariam, que finalmente havíamos vencido os Sanuye de uma vez por todas, ou pelo menos por talvez alguns meses. Nada mais fazia sentido para mim. Porque eu continuaria estudando algo que me lembraria a todo momento sobre as coisas mais preciosas que havia perdido?
—Tenho, comandante. A morte da Arikara- Sanuye talvez seja a primeira e única chance de nos livrarmos dos extraterrestres.
Arikara- Sanuye é como denominamos a “alienígena-mãe”. Essa espécie, única encontrada até o momento, é matriarca. Funciona como uma colmeia gigante de alienígenas, onde a matriarca é a abelha rainha. A única diferença é que se a matriarca morre, toda a espécie morre junto.
Por alguma razão, no dia do ataque a Arikara- Sanuye veio a Terra e essa foi a chance vista pelo exército para acabar com os vizinhos desagradáveis. Todas as unidades foram enviadas e concentradas para o local onde a alienígena-mãe estava, deixando assim, as periferias abertas para ataques de Sanuyes solitários.
Minha região foi uma das que sofreram pela manobra do exército e da OMPAS. Muitas famílias foram vítimas, mas mesmo assim, as mesmas famílias foram radiadas com esperança quando anunciaram a morte da matriarca.
Vídeos e fotos do resto dos alienígenas parados e indignados, como se tivessem sido desligados de alguma tomada vagaram pelas redes sociais e websites no mesmo instante. Alguns minutos depois, eles usaram seu meio de “teletransporte” de volta a Zora, seu planeta natal.
Nenhum deles morreu. Nenhum deles demonstrou sentir dor. Nossa teoria estaria errada? A Arikara- Sanuye havia morrido e mesmo assim, não conseguíamos ver nenhum traço mórbido nos extraterrestres.
Mas nossa teoria não estava incorreta. Se a matriarca morre, toda a espécie realmente morre junto. O que o exército não havia percebido e que logo foi notado pelo Professor Ansel Stern, ao acompanhar as tropas no ataque, foi que a Arikara- Sanuye estava grávida.
Foi nesse dia que mais uma informação sobre as criaturas havia sido documentada. Os Sanuye ficavam em uma espécie de latência até que sua nova matriarca crescesse o bastante para que pudesse liderar o planeta. Não sabíamos ao certo a idade necessária, mas tínhamos conhecimento que o crescimento dessa espécie era extremamente mais rápido que a nossa. Se nove meses era a duração para uma gestação humana, esses mesmos meses poderia ser o necessário para que a nova matriarca comandasse seu exército por instinto novamente.
***
—Eu vou contar a partir de agora. Eu só preciso que você relaxe. – Disse o cirurgião olhando para mim de cima, enquanto eu estava deitada na maca. – Um, dois, três, qua...
A partir do quatro, meus olhos começaram a se fechar involuntariamente e minha audição já estava falha.
Mesmo assim, consegui sentir um corte rápido e preciso na região abaixo do meu umbigo.
Se antes eu pudesse ter alguma dúvida do que estava fazendo, agora já não havia mais volta.
***
Eu havia acabado de colocar o café na xícara e estava observando a fumaça subir devagar e se dissipar no ar conforme os segundos iam passando.
Finalmente havia chegado o dia. Mesmo que todo o processo tenha sido feito com urgência, parecia que os trinta dias, com a ansiedade e nervosismo, haviam virado um ano.
Tomei rapidamente o café e comecei a dar passos curtos até o galpão de entrada para as áreas de decolagem.
A operação era fácil teoricamente. Em 2483, foi descoberto após escavações profundas, perto do magma encontrado mais central na Terra, uma fonte de energia imensurável, que havia começado a ser usada para abastecer quase que o mundo inteiro, inclusive comunidades e regiões pobres ou com condições extremas. Ela foi denominada Yaxkin, o “novo sol” de acordo com o inglês antigo.
Até 2569, o uso do Yaxkin foi próspero. E foi nesse mesmo ano que descobrimos a presença dos Sanuye.
Sem proteção alguma e muito menos conhecimento da nossa parte, eles devastaram grande parte dos países em que “visitaram” a procura do “novo sol”. Pelo que havia estudado, eles se tornam mais fortes em regiões mais quentes e com certeza Zora, o planeta deles, não é tão caloroso, principalmente por estar após Urano no nosso Sistema Solar.
O Yaxkin foi levado por eles, nos deixando em situação de limites com a política, economia e equilíbrio do planeta. Por pouco, não havia acontecido a Quarta Guerra Mundial.
Desde então, todos os países se juntaram para formar barreiras espaciais e aéreas para se proteger contra os Sanuyes, que por alguma razão, ainda apareciam na Terra para fazer alguns estragos.
Sondas haviam sido enviadas em direção à Zora, com intuito de saber para onde haviam levado nossa fonte de energia, mas o esforço foi em vão. Por ser uma região rochosa e montanhosa, era quase que impossível saber onde haviam colocado o Yaxkin.
Agora com a chance de levar a sua sucessora, ainda incubada, sem chances de perigo aos humanos, para o planeta deles e usá-la para descobrir e recuperar o “novo sol”, todos tinham absoluta certeza do sucesso da missão.
—Identifique-se para o scanner áudio-visual. – Disse o segurança.
—Noemi, 24 anos, australiana, solteira, bióloga oficial da Organização Mundial de Proteção Anti-Sanuye.
—Jura, perante as leis mundiais, leis religiosas a qual acredita, para com o dever com a humanidade e para a sua profissão, além de estar ciente sobre as advertências e consequências dessa operação, prosseguir até o final sem nenhuma exceção de regra ou protocolo já lidos e assinados anteriormente perante a contrato?
—Juro. – Respondi apreensiva.
—Para fins de atualização do sistema de comando da nave Meraki, que sairá em algumas horas com destino à Zora, qual é a sua missão? – Ele levantou o olhar, um tanto curioso.
—Carregar um filhote de Sanuye até Zora, aguardar a equipe estratégica recuperar a Yaxkin. – Engoli a saliva e respirei fundo. – E morrer depois que a missão for completada.
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