Missing Essays

As árvores já haviam perdido suas folhas há muito, os pássaros já haviam voado para bem longe e o chão era como um grande cobertor branco e gelado quando Sirius Black recebeu a carta de um admirador secreto.

Não era a primeira vez que isso acontecia e, francamente, não sabia por que estaria prestes a fazer todo o estardalhaço que fez a respeito disso. O problema é que Sirius sempre fora curioso demais para seu próprio bem, e dessa vez não seria diferente.

Naquele dia, James e Lily haviam ido até Hogsmeade para um passeio romântico, mesmo que sem autorização dos professores e com os protestos da ruiva; Peter tinha decidido abruptamente visitar sua mãe, parecendo mais estranho do que o normal; e Remus, como sempre, estava estudando na biblioteca. Assim, lá estava o maroto sozinho às margens do lago congelado de Hogwarts, escorregando pedrinhas por toda a superfície.

Não era uma atividade produtiva e nem sequer lhe dava qualquer diversão, mas fazia mesmo assim. Tanto por estar entediado até os ossos quanto pelo fato de que o ajudava a pensar. Com Remus no seu ouvido lhe pressionando para estudar para os NIEMS e James marcando mais treinos de quadribol do que nunca, além de sua preocupação com os frequentes sumiços de Peter, mal lhe sobrava tempo para pensar. E isso, aparentemente, era o que ele mais precisara fazer.

Havia recebido mais um berrador de sua mãe naquela manhã. Não tinha aberto, até porque era mais esperto do que isso. Na verdade, com a exceção do primeiro (que, obviamente, era sobre a casa na qual havia sido sorteado e o quão desapontada a Sra. Black estava), Sirius nunca abrira nenhum deles. Mas recebera muitos e muitos e, às vezes, gostava de imaginar que era uma carta normal. Que abriria e a leria depois, quando tivesse a oportunidade. Talvez sua mãe dissesse que estava orgulhosa de alguma coisa, ou só mesmo que o amava, como já vira muitas vezes a mãe de James fazer com ele. Quando os berradores explodiam, no entanto, ele logo voltava à realidade e percebia que isso nunca aconteceria. Que ele era uma vergonha para a família e sempre seria. Francamente, não se arrependia nem um pouco de quem era ou do que havia feito na vida, mas lamentava o que havia perdido.

Escorregou mais uma pedrinha e sorriu, amargo. Olhe o que estava acontecendo, Sirius Black estava deprimido. Talvez alguém como ele nunca devesse ter tempo para pensar. Podia ser perigoso. Precisava urgentemente de alguma coisa para focar.

Talvez Merlin tivesse ouvido seus pensamentos, porque naquele instante Padfoot ganhou outra coisa para pensar, uma bem menos melancólica, na forma de um pedaço dobrado de pergaminho nas garras de uma das corujas da escola.

Desamarrou o bilhete da perna da ave, confuso. Por que alguém da escola mandaria uma carta para ele, quando ele estava bem ali? Será que havia alguém tão preguiçoso assim em Hogwarts?

Abriu o bilhete e sentiu vontade de fechá-lo no mesmo instante em que seus olhos bateram nas palavras e seu cérebro botou sentido nelas.

Rosas são vermelhas

Marrom é o chocolate

Toda vez que eu te vejo

Bem rápido meu coração bate

Aquele era o pior poema que tivera o desprazer de ver na vida. Estava quase amassando o papel e usando da mesma forma que usara as vinte e três pedrinhas de antes quando notou algo. Aproximou do resto e analisou meticulosamente, até chegar a uma conclusão.

Conhecia aquela caligrafia.

Restava saber de onde.

[…]

Honestamente, se James não fosse tão precavido e não tivesse levado a capa da invisibilidade junto com ele naquele maldito “passeio romântico”, tudo aquilo teria sido muito mais fácil e rápido. Entretanto, Prongs era um cabeçudo paranóico e agora Sirius estava na curva do corredor que daria para o escritório de McGonagall, o Mapa do Maroto nas mãos, o bilhete no bolso e muito tédio.

Já faziam três horas que estava esperando que McGonagall saísse de sua sala para que pudesse roubar algumas redações e comparar todas as caligrafias com as do bilhete. Teria pedido para Remus ir com ele, mas sabia como o lobisomem ficava quando interrompiam seus estudos, e Sirius não estava nem um pouco afim de ouvir sermão dele a respeito disso de novo.

Olhou pela janela mais próxima e notou que o céu já havia escurecido.

Bufou alto. Estava prestes a desistir de tudo isso e dar uma merecida soneca no dormitório quando o pontinho que rotulava “Minerva McGonagall” finalmente se mexeu.

E, numa velocidade absurda, foi em direção a ele.

Padfoot entrou em pânico. Desativou o Mapa do Maroto (só por preucação) e enfiou no bolso da calça. Em desespero, procurou por qualquer armadura para se esconder ou janela para pular (até perceber que estava bem no terceiro andar do castelo). Se pelo menos tivesse a capa da invisibilidade por perto...

Maldito James!

Não teve tempo para praguejar em voz alta, já que foi saudado com uma Minerva McGonagall nada feliz em vê-lo, sozinho em um corredor e após o toque de recolher.

— Sr. Black — ela disse, parecendo resignada. — Pode me explicar o que está fazendo aqui a essa hora? Está ciente de que sua casa pode perder pontos por isso? Tem alguma explicação?

Sirius engoliu em seco.

— Professora Minnie! — Ela o olhou com reprovação pelo apelido. — Tão deslumbrante hoje, é algum feitiço embelezador ou algo assim? Ou é natural mesmo, hum?

— Não tente escapar, Black. Explique-se.

Foi aí que a melhor ideia de todas surgiu na cabeça de Padfoot.

— É o Remus, professora — ele disse, fingindo um olhar desolado. A expressão de McGonagall se tornou preocupada imediatamente.

— Venha comigo, Black, e então podemos conversar em privacidade.

Sirius sentiu vontade de lembrar que ninguém era louco de estar no mesmo corredor em que ficava o corredor dela após o toque de recolher, mas ficou quieto. A professora o guiou até sua sala, onde puxou uma cadeira para ele se sentar e fez o mesmo para si.

— O que tem o Sr. Lupin?

Mesmo que não demonstrasse muito, Padfoot sabia que a velha professora gostava muito de seus alunos, e inclusive sentia certa afeição por eles. Se soubesse que havia algo de errado com eles, faria de tudo para ajudá-los, do jeito dela. E era por isso que tantos a admiravam, apesar de sua rigidez.

Ele fingiu um suspiro.

— Ele vive na biblioteca, só estudando, o dia inteiro, todo dia, mesmo agora que são férias! E quando a biblioteca fecha, ele volta a estudar, só que no dormitório. Às vezes eu acho que ele nem dorme, e comer, só se alguém trouxer algo para ele. Eu sei que os NIEMS estão próximos e tal, mas eu... eu estou preocupado com ele.

Derrubou a cabeça nas mãos e agarrou os próprios cabelos. Um soluço que surpreendeu até a si mesmo escapou pelos seus lábios, chacoalhando seus ombros. Ouviu o barulho de uma cadeira se arrastar.

— Eu vou buscar algo para você se acalmar, só um instante — disse a professora, a voz estranhamente doce.

Sirius levantou a cabeça a tempo de ver a mulher passar por outra porta, que provavelmente dava em seu próprio dormitório.

Se ele tinha uma chance de seguir em frente com seu plano, era aquela.

Com a experiência de um ladrão profissional, Padfoot levantou-se sem fazer um ruído e se aproximou da mesa da mulher. Abriu a primeira gaveta, apenas para encontrar pergaminhos em branco e penas novas. Na outra, encontrou somente o que pareciam ser brinquedos de morder para gatos(?). Foi na terceira que encontrou; uma pilha de redações do mês passado, todas do sétimo ano.

Quão sortudo podia ser? Afinal de contas, se aquela caligrafia lhe era tão familiar, significava que a devia ter visto mais de uma vez, e quais são as chances de ver a caligrafia de alguém que não é do seu ano?

Não houve tempo para divagar sobre isso. Ouviu passos do outro lado da porta e, em um roupante, doubrou e enfiou as redações no bolso interno da jaqueta, agradecendo a Merlin por haver um feitiço indetectável de extensão ali. Mal sentara-se na cadeira quando a porta se abriu, e McGonagall apareceu com uma xícara de chá.

— Aqui, tome, vai fazer você se sentir melhor. — Ela lhe entregou a xícara e Sirius agradeceu, tomando alguns golinhos. McGonagall entrelaçou os dedos apoiados na mesa.

— Então, sobre Lupin... — ela incentivou.

Sirius balançou a cabeça, sem encará-la.

— Foi uma má ideia vir aqui — ele falou, depositando a xícara na mesa. — Só... tente conversar com ele, professora. Eu sei que ele ouvirá você. Acho que tenho que ir agora.

Ele a ofereceu um sorriso fraco e se retirou da sala, sentindo o peso dos pergaminhos no bolso.

[…]

Ele sabia. Porém, não entendia.

Passara a última meia hora trancado no banheiro, o chuveiro ligado por preucação (“Saia logo desse banheiro, Padfoot!”, exclamara James após vinte minutos), comparando letras e pontuações, curvas e floreios, quando finalmente encontrou.

Era impecavelmente igual e, ao olhar o nome no cabeçalho do dever, soube perfeitamente por que a reconhecera na primeira vez que vira.

Mas aquilo não fazia sentido nenhum e ele não conseguia entender. Odiava isso.

Decidiu, então, que esperaria até que recebesse mais bilhetes. E só aí faria alguma coisa.

Quando saiu no banheiro, após um banho rápido, encontrou James com batom na cara inteira. Decidiu não perguntar.

[…]

No quinto bilhete, Sirius percebeu que não aguentava mais esperar. Já estava de saco cheio de trocadilhos com amor e chocolate (ele até podia entender agora) e mensagens melosas. Então, quando a coruja apareceu novamente, ele decidiu amarrar outro bilhete na perna dela.

Ei, doçura! Já que está tão apaixonada assim, por que não marcamos de nos encontrar? Eu e você, na Torre de Astronomia, às oito da noite, que tal?

Traga chocolate.

Você-sabe-quem (não aquele).

[…]

Ele definitivamente não esperava ver cabelos louros curtos e encaracolados balançando ao vento forte quando chegou lá. Para falar a verdade, ele não esperava por nada que aconteceu a partir dali. Mas pelo menos agora ele tinha uma vaga ideia do que acontecera ali.

Sirius pigarreou, e Dorcas Meadowes deu um pulo.

— S-sirius! — ela exclamou, sorrindo incerta. — Você veio! Hã... eu... eu não tinha certeza que você viria, mesmo depois do bilhete.

— É, eu estava muito curioso para saber quem era o autor de todos aqueles poemas... — Sirius falou, apoiando o cotovelo em uma miniatura do planeta Terra. — É uma pena que ele não veio.

Dorcas arregalou os olhos.

— O-o que você quer dizer com isso? F-fui eu quem escreveu os bilhetes... e eu estou aqui. Beeem aqui.

— Corta essa, Meadowes. Ninguém com intolerância a lactose pode amar tanto chocolate.

— Eu...

— Na próxima vez que quiser pagar alguém para escrever seus poemas, não escolha alguém tão babão e apaixonado por chocolate como Remus. O cara é um caso perdido — ele riu. — Foi mal, Dorcas, mas não rola. — Padfoot tirou o braço do mini-planeta. — Vai comer esse chocolate?

[…]

No dia seguinte, Remus ficou muito confuso quando Minerva McGonagall puxou-o para um canto e o chamou para conversar em sua sala, parecendo muito afetada com algo.

Mais confusos ainda ficaram os alunos quando, na volta às aulas, foi preciso que o dobro de redações fosse feito, uma vez que todas as anteriores haviam sumido misteriosamente.

Notas finais
não revisei, me perdoa haha
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!