Miss Slasher
5 Evidência
Notas iniciais
— Pelo visto já soube o que aconteceu no teatro — a xerife diz ao legista, Hiro Nakata, assim que ela chega ao necrotério localizado no hospital da cidade, depois de deixar Zoe e Elena em casa. No centro da sala, um cadáver totalmente coberto por um lençol branco se encontra em cima de uma mesa de aço inoxidável. Cassid odeia esse lugar, tanto pelo clima frio quanto pelo cheiro de produtos químicos misturados com o de morte. — Falou com a Dana?
— Sim, sim — o homem de cabelos grisalhos fala. — Tô menos preocupado agora que ela já tá em casa com o irmão.
— Esse Kevin é um ótimo rapaz. Nunca vi alguém tão interessado em resolver um caso igual a ele.
— Esse menino cresceu vendo filmes policiais sobre assassinos, além dos de terror, e agora que surgiu um crime real aqui na cidade, ele quer estar envolvido em tudo. A propósito, já interrogaram a Senhorita Arquette e as garotas?
— Sim, só que nenhuma delas viu nada. Todas estavam nos camarins. E a última a ver a vítima viva foi a Samantha que disse que a irmã tinha ido no banheiro. Ela provavelmente foi atacada lá. Mas o que você tem aí pra mim?
— Samara Romero, dezessete anos, como já sabemos. — Ele puxa o lençol, revelando o corpo nu da adolescente que possui um corte em formato de Y do começo do peito até a cintura. — A morte foi por asfixia, não pela queda que só causou a fratura exposta na parte inferior da perna esquerda.
— Faz sentido. É mais fácil carregar um morto até o alto de um palco do que um vivo resistindo.
— Pois é. E ela tentou resistir à agressão, olha. — O asiático indica pequenos hematomas do tamanho de dedos nos braços e no pescoço. — Eu só não entendo porquê ter o trabalho de pendurar o corpo e correr o risco de ser flagrado.
— Esse maluco tá brincando com a gente. Ele acha que não vai ser pego porque não deixou resquícios de DNA dessa vez ou da outra quando matou a Justine.
— E como sabe que os assassinos dessas garotas são a mesma pessoa?
— Tanto o celular da Samara quanto o da Justine foram roubados. Muitos serial killers guardam um objeto da vítima como uma espécie de troféu. Além disso, temos um padrão estabelecido: concorrentes do Miss Redlake.
— Então isso quer dizer que nossas filhas...
— Podem estar na mira do assassino. — A mulher completa a frase do médico. — Mas não é certeza, afinal o concurso foi cancelado. Talvez fosse o objetivo desse psicopata. De qualquer forma, já providenciei viaturas de guarda em frente às casas de todas as participantes da competição.
***
Por entre as cortinas que cobrem a janela da sala de estar da casa dos Argento, Olivia espia a rua, onde diante dali está estacionado um carro da polícia com uma dupla de oficiais dentro.
— Os dois ainda estão lá — a ruiva comenta com Violet, Scott e Natalie que estão sentados no sofá, assistindo televisão enquanto devoram uma pizza que havia chegado há cerca de dez minutos. Os policiais inclusive interviram o entregador, verificando se o que tinha na caixa que ele carregava era mesmo pizza, e se os quatro adolescentes tinham pedido tal alimento. — Eu sei que era pra eu me sentir mais segura com a presença deles, mas toda vez que olho pra fora e me deparo com aquela viatura, na hora acabo lembrando do serial killer à solta.
— É simples: sai de perto da janela — Scott fala com a boca cheia. — E, tecnicamente, ele teria que matar mais uma participante do Miss Redlake pra ser um serial killer. Quem você acha que é a próxima?
Violet cutuca a costela do irmão com o cotovelo e muda de assunto perguntando à amiga:
— Cê não vai comer?
— Se você visse o que eu vi, não ia ter um pingo fome — Liv mente. Ela está se segurando para não abocanhar uma fatia da pizza de queijo sobre a mesinha de centro. O aroma da comida tomando conta de todo o cômodo é uma tortura. Por isso a adolescente está próxima da janela, onde o ar entra e ela não sente tanto aquele cheiro.
Após terminar seu pedaço, Natalie saca do bolso da calça um maço, abre a tampa com o polegar e retira um cigarro com os lábios, o mantendo entre eles. Assim que guarda a caixa, ela pega de outro bolso um isqueiro e acende o cigarro na boca. Em seguida, traga e bafora.
— Pensei que tinha parado com essa merda — Scott diz decepcionado.
— Eu menti! — Natalie fala estressada. — E não vem me julgar porque uma menina caiu morta bem na minha frente! E a única coisa que vai me relaxar agora é fumar!
O garoto fica em silêncio.
— Será que dá pra, pelo menos, ir pra um lugar aberto, tipo o quintal detrás? — Violet pergunta à latina, tossindo e abanando com a mão em frente ao rosto a fumaça vinda do tabaco.
— Tá bom — Nat responde se retirando da sala.
De repente, a campainha toca. Violet levanta e vai atender. Ao abrir a porta, encontra os dois policiais em pé na varanda, e no meio deles está Dylan.
— A senhorita conhece esse rapaz? — um dos oficiais indaga.
— Infelizmente — ela responde. — É o namorado da minha amiga. — E se volta para ele. — Entra. — O atleta faz o que ela pede. Antes de fechar a porta, a adolescente agradece aos policiais. — Obrigada.
Assim que chega à sala, Dylan caminha até Olivia.
— Oi, princesa. — Ele beija a ruiva ao puxá-la pela cintura contra seu corpo.
— Em um único dia tivemos um homicídio e o capitão do time na minha casa — Scott reflete em voz alta. — O que mais pode acontecer?
— Por que você tá aqui uma hora dessas? — surpresa, Olivia pergunta a Dylan.
— Ué, depois do que rolou no teatro, eu tive que ver como você tá — ele explica.
— Obrigada, de verdade. E eu tô bem, só meio triste pela morte da Samara e pelo cancelamento do concurso.
— Mesmo que não tenha o Miss Redlake, pra mim você é a vencedora.
O atleta e a ruiva se beijam, no entanto ela interrompe o momento quando o celular no bolso de sua calça vibra. Novas mensagens no grupo das candidatas da competição. Olivia arregala os olhos ao visualizá-las:
Justine: Em breve vocês todas vão se juntar a mim. — Anexada à mensagem, há uma foto de Justine estripada no vestiário da academia.
Samara: Como eu me juntei. — Nessa também há uma foto, porém com Samara no banheiro feminino do teatro, asfixiada por um saco plástico preso em sua cabeça.
— O que foi? — Violet pergunta notando o pavor no rosto da amiga. Liv lhe entrega o telefone. — Meu deus. — Ela leva a mão à boca, chocada ao ver o conteúdo.
***
A manhã seguinte finalmente chega. Na casa dos Hooper, Cassid se encontra no corredor do andar de cima, parada em pé de frente para a porta fechada do quarto de Elena, usando o habitual tarje de policial. A mulher está tomando coragem para conversar com a filha após a discussão que tiveram ontem culminando na revelação da gravidez da adolescente, e para complicar ainda mais, naquele mesmo dia, ocorreu outra morte e o assassino à solta mandando mensagens ameaçadoras às participantes do concurso de miss. A xerife possui tudo o que deve falar ensaiado em sua cabeça. Para colocar em prática, basta bater na porta que encara. E ela faz.
Toc, toc, toc.
— Elena, posso entrar? — Cassid pergunta.
— Pode — a voz abafada da garota responde.
— Não vai pra escola hoje? — A mulher questiona ao ver a jovem, que deveria estar arrumada, usando pijamas e deitada na cama enquanto mexe no celular. — Você tá doente?
— Não, hoje não tem aula — Elena explica sem tirar os olhos da tela do telefone. — Por causa da Samara.
— Ah, é mesmo. — A policial se senta na beira da cama da filha. — Me desculpa.
A adolescente olha surpresa para a mãe. A mulher nunca lhe pediu desculpas por nada.
— Pelo quê?
— Por eu ser dura demais e estar sempre decidindo tudo por você. Tô tão acostumada a ser controladora no trabalho que não percebi que eu também era assim em casa.
— Você ficou pior quando o papai abandonou a gente.
— É. E acho que esse meu jeito contribuiu pra que ele fizesse isso, além do fato de eu trabalhar demais.
— Independente dos motivos que ele tinha, foi muita escrotisse ter ido embora sem nem ao menos se despedir.
— Foi sim. Mas os homens geralmente são assim: fogem quando a coisa fica feia. Qual foi a reação do moleque na hora que você contou que tá gravida?
— Eu ainda não contei e nem sei se vou. Ele só quis tirar minha virgindade e agora finge que não me conhece.
— Quem é esse filho da puta?!
— Dylan Cronenberg.
— Pois eu vou ter uma conversa com ele.
— Não, por favor! Se eu precisar de você, eu te falo.
— Tá bom. E quanto ao bebê?
— O quê que tem?
— O que vai fazer com ele? Olha, nós estamos em 2020. Você não é obrigada a ter a criança e ser mãe dela. Pode dar pra adoção ou interromper a gestação. Eu não tô dizendo isso pra interferir qualquer que seja sua decisão. Só quero que saiba que você tem opções, e eu vou estar do seu lado segurando sua mão não importa qual escolha.
— Eu vou pensar nisso, mas obrigada, mesmo.
***
— Bom dia — Hector diz sentando-se à mesa onde Ruby toma café da manhã. — O que tem pra comer?
— O de sempre — a mulher fala e abocanha uma colherada de cereal com leite de sua tigela.
O latino bufa descontente pela resposta de Ruby. Subitamente ele comenta:
— Vi que você se livrou do seu laboratório.
— Quando você falou que a policia vai vir aqui, eu corri pra alugar um guarda-móveis e mudar toda aquela merda pra lá.
— Bom dia. — Beverly surge no cômodo e se junta a Hector e Ruby à mesa.
— Bom dia — o rapaz diz à irmã. — Como cê tá?
— Ontem eu vi um cadáver e descobri que sou um dos alvos de um homicida, então acho que eu poderia estar melhor.
— Ainda assim, seu irmão tá pior que você — Ruby solta. — Todo mundo pensa que ele é o assassino, além de não estar conseguindo vender wave por causa disso.
— Você sempre tem que colocar a porra das drogas em primeiro lugar, né? — o latino fala zangado com a mulher.
— Até que dessa vez ela conseguiu disfarçar fingindo que se importa com você — a árabe comenta com o irmão.
Ruby bate com força na mesa, fazendo a caixa de cereal tombar e derramar o alimento que há dentro.
— Eu não vou deixar vocês me faltarem com respeito, ouviram bem?! Se eu não me importasse com vocês, teria largado os dois à própria sorte em Nova Iorque! E sim, eu me importo igualmente com as drogas porque se não fosse por elas, a gente não teria um teto ou comida. Então reclamem menos e agradeçam mais! Agora a gente não tá num momento fácil, mas vamos dar um jeito nisso.
— Como?! — Hector questiona. — Se nós sairmos do trailer é capaz de eu ser linchado pela cidade e a Bev morta pelo psicopata.
— A xerife botou os homens dela pra vigiar a Beverly. E você podia conversar com aquele menino que espalhou o boato sobre você, mas sem estrangular ele.
— Prefiro ser linchado.
De repente, alguém bate na porta da entrada do trailer. O trio se entreolha assustado. O rapaz decide atender e ao fazer se depara com a figura de Cassid Hooper usando óculos escuros de aviador e erguendo um papel, o mandado.
— Meus colegas e eu viemos fazer uma visitinha — a mulher diz. Logo atrás dela estão outros policiais, incluindo Kevin Nakata. — Você não se importa, né?
— Imagina — ele fala. — Quer um café?
— Não, obrigada.
— Que bom porque só tem cereal.
— Mas que surpresa, Xerife! — Ruby aparece na entrada do trailer, fingindo simpatia. — O que te traz aqui?
— Uma vistoria — a oficial explica mostrando o papel em mãos.
— Fiquem à vontade. Não vão encontrar nada incriminador ou ilegal nesse lugar. Somos cidadãos de bem.
Cassid espera do lado de fora junto de Ruby, Hector e Beverly, enquanto seus homens revistam a residência, levando menos de meia hora.
— Nada, Xerife — Kevin avisa por fim.
Hooper suspira inconformada, no entanto ao olhar para um automóvel antigo próximo do trailer, tem um insight.
— De quem é aquele carro? — ela pergunta ao trio.
— Meu — Hector responde.
— Nakata, dá uma olhada — Cassid pede ao asiático, apontando com a cabeça para veículo, e se volta para o latino. — Pode abri-lo, por favor?
O rapaz saca as chaves do bolso e vai com Kevin ao carro, destrancando-O.
Após alguns minutos revistando o automóvel, o policial fica estático e solta:
— Xerife, vem aqui! — A mulher se aproxima de Nakata que se vira para ela. Usando luvas de borracha brancas, ele segura um pano manchado. Sobre o tecido há uma faca de caça com a lâmina coberta por sangue seco. — Tava no porta-luvas.
Os dois giram a cabeça em direção a Hector que se apavora e arregala os olhos ao ver a arma.
— Hector Balagueró, está preso por suspeita de assassinato. — Cassid saca suas algemas e anda até o latino ao passo que Kevin guarda a evidência numa saco de plástico transparente. — Você tem o direito de permanecer calado. Tudo o que disser poderá ser usado contra você num tribunal.
— Eu não coloquei isso lá! — o rapaz argumenta. — Alguém tá querendo me incriminar!
— É melhor não resistir à prisão — a xerife aconselha o garoto ao chegar perto dele. — Isso só vai piorar sua situação.
Hector suspira e ergue os braços à frente do corpo para a oficial que lhe algema os pulsos.
— Vocês não podem levar ele! — Beverly diz desesperada com os olhos cheios de lágrimas prestes a transbordarem. — Ele é inocente!
— Bev, eu vou ficar bem — o latino tenta acalmar a irmã. — Promete que vai se cuidar enquanto eu não voltar?
A árabe assente aos prantos e envolve os braços ao redor dele num abraço apertado e demorado.
— Vamos — Cassid manda.
Ele se desvencilha da adolescente e acompanha Hooper à viatura, se acomodando no assento de trás. A xerife senta no banco do motorista e Kevin no passageiro. O veículo então parte, deixando para trás uma nuvem de poeira por conta do chão de terra do local. Os policiais restantes vão logo depois em outras viaturas.
Com Ruby ao seu lado, Beverly fica parada em pé assistindo os automóveis desaparecerem.
— Parece que só restou nós duas — a mulher fala.
— O que vamos fazer? — a jovem pergunta.
— Trocar as fechaduras do trailer e do bar caso o Hector volte.
— Ele não matou ninguém! — a árabe diz indignada.
— A prova do crime aponta o contrário.
— A gente conhece o Hector há anos! Como você pode acreditar nisso e deixar ele na mão?!
— E o que cê quer eu que eu faça, hein?! Saia por aí e desvende a identidade de um possível assassino anônimo?
— Você eu não sei, mas é isso que eu vou fazer.
— Menina, você é traficante, não membro da turma do Scooby Doo.
— Uma hora esse maluco vai vir atrás de mim mesmo. E quando isso acontecer, eu vou estar pronta pra pegar ele.
***
Beverly resolve mandar uma mensagem a Dana contando o que ocorreu com Hector. A asiática sugere encontra-la na lanchonete Reese’s à tarde para conversarem e a outra garota concorda.
Dana é a primeira chegar ao estabelecimento. Bev aparece quinze minutos depois.
— Desculpa o atraso — a árabe diz repousando no assento da mesa, de frente para amiga. Ela olha lá fora, através da janela, um carro da polícia estacionada em frente ao local, e aponta para com o polegar para ele. — Eu vim naquilo. Tô me sentindo aquelas celebridades andando pra lá e pra cá com guarda-costas. A diferença é que eu odeio os meus por terem mandado meu irmão pra cadeia.
— Sinto muito — Nakata fala.
— Obrigada, principalmente por vir se encontrar comigo. Eu não tinha mais ninguém pra procurar. Nunca me senti tão sozinha desde que meus pais me abandonaram.
— É pra isso que os amigos servem: conversar, fazer companhia...
— Você acha que foi ele que matou a Justine e a Samara?
— Ninguém conhece o Hector melhor do que você. E se você acredita na inocência dele, eu também acredito.
— Preciso tirar ele da cadeia. Já perdi um irmão, não posso perder outro. Além disso, o Hector tornava suportável a convivência com a Ruby. Já nem sei mais como vão ser as coisas partir de agora.
— Vem morar comigo.
— O quê?! Tá brincando, né?
— Por que eu estaria?
— Você mal me conhece!
— Conheço o suficiente pra saber que você é uma boa pessoa. Sem mencionar que meu pai e meu irmão vivem trabalhando e eu acabo passando boa parte do tempo sozinha. Então, com um psicopata à solta, é mais seguro pra mim e pra você se ficarmos juntas.
— É um bom argumento, mas sua família deve achar que o assassino tá preso e que você quer botar a irmã dele na sua casa.
— Mesmo que o Hector fosse o assassino, você não tem culpa de nada. E eu posso inventar uma desculpa pro meu pai dizendo que você foi expulsa de casa. Não tem como ele não abrigar uma órfã menor de idade com irmão preso.
— Pior que é verdade.
— Então isso é um “sim”?
Beverly demora uns segundos pensando até responder.
— Sim. Mas eu prometo que não vou ficar muito tempo. É só enquanto eu não me estabilizo. Amanhã mesmo procuro um emprego já que meu plano A, vulgo Miss Redlake, já era. Pode parecer insensível, mas eu ouvi que o supermercado da cidade tá contratando uma nova atendente de caixa depois que a Samara...
— Relaxa. Pode ficar lá em casa o quanto quiser.
— Obrigada.
— Imagina. Então quando você voltar praquele trailer, faz as suas malas imediatamente porque assim que meu pai der sinal verde, a gente te busca.
— Beleza.
— Agora, vamo pedir alguma coisa pra comer? Tô morrendo de fome.
— Achei que nunca fosse perguntar.
Ambas caem na risada.
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