Notas iniciais
Esse capítulo serve de ponte pro que vai acontecer no próximo, e pra aprofundar mais Samantha, um personagem que, comparada aos outros, não teve tanto destaque.

De manhã, Dana desperta e tudo está mais quieto que o normal para ela. Seu coração então acelera, batendo mais forte contra o peito. Na cama, a asiática se senta e estica o braço para o aparelho auditivo sobre a mesa de cabeceira, prontamente o ajeitando ao ouvido direito. No entanto, o silêncio continua. A garota logo se dá conta de que o dia que mais temia chegou. Tomada pelo desespero, Dana solta um grito que nem sequer pode ouvir, mas os outros da casa sim.

Não demora para Hiro e Beverly surgirem apavorados no quarto da adolescente.

— EU TÔ SURDA! — Dana berra aos prantos. — NÃO CONSIGO OUVIR MAIS NADA! NADA!

Sem dizerem uma palavra, a amiga e o pai da jovem se aproximam dela, se sentam, cada um de um lado, e a envolvem num abraço.

***

Após uma noite que pareceu nunca acabar para Zoe e Elena, o dia seguinte finalmente chega e as duas adolescentes vão juntas para o colégio, Lá, descobrem que praticamente todos os alunos já sabem sobre o desparecimento de Caleb, afinal, as fofocas se espalham rápido pelos corredores do Redlake High. É possível ouvir através de conversas paralelas em voz alta coisas como: “os pais dele foram hoje cedo na polícia depois que ele não voltou pra casa ontem à noite”. Algumas pessoas até abordam a indiana dizendo sentir muito pelo que houve com o namorado dela, e que não imaginam o quanto ela deve estar sofrendo. “Você com certeza não imagina”, ela responde.

— Eu não devia ter vindo pra escola hoje — Zoe murmura para Elena enquanto as duas caminham lado a lado rumo às salas de aula. — Tá todo mundo me olhando. Não sei se eu vou conseguir fingir que tô mal por aquele escroto do caralho.

— Se você não viesse, seria bem suspeito — a amiga comenta. — E é melhor entrar na personagem de namorada preocupada do que virar a namorada encarcerada. Quer que eu repasse o que a gente vai falar quando a polícia nos interrogar?

— Não precisa.

Subitamente, os celulares de ambas as garotas vibram. Elas sacam os aparelhos dos bolsos e verificam o que é. As duas recebem mensagens de textos com conteúdos iguais vindos aparentemente do mesmo contato, um número privado:

Desconhecido: Eu vi — anexada à mensagem há uma vídeo de Zoe e Elena colocando o cadáver de Caleb dentro do porta-malas do carro dele.

As jovens se encaram, de olhos arregalados, e disparam em direção ao banheiro feminino. Lá, verificam se o lugar está vazio. Não há ninguém nas cabines. Então trancam a porta.

— Puta que pariu! — a indiana solta desesperada. — A gente tá fodida!

— Fica calma, tá bom? Se essa pessoa quisesse entregar nós duas pra polícia, já teria feito porque você e eu estaríamos agora atrás das grades. Quem é que seja que nos viu, quer algo da gente.

— Dinheiro?

— É bem provável. Vamo confirmar. — E responde à mensagem anônima: “O que você quer?”.

Desconhecido: Que me encontrem na Redlake High às 22h.

Elena: Quem é você?

Desconhecido: Façam o que eu disse e vocês saberão.

Elena: Ok.

— Parece que hoje à noite a gente tem um encontro às cegas bem aqui na escola — Zoe fala depois de espiar toda a conversa da amiga com o estranho.

— Vou vir com o meu melhor vestido — Elena diz num tom sarcástico.

***

No horário do almoço, Scott, Violet e Olivia sentam em uma mesa do refeitório.

— Eu tava pensando em ir no cinema hoje à noite — Violet comenta com Olivia. — Estreou uma nova comédia romântica essa semana. Cê quer ir comigo?

— Não vai dar — a ruiva recusa o convite. — Eu já marquei de sair com Dylan. Ele ficou de me levar num restaurante chique fora da cidade.

— Entendi — cabisbaixa, a amiga se limita a dizer.

Liv nota a decepção da garota e logo solta:

— Mas amanhã tô livre. Aí a gente pode ir no cinema ou qualquer outro lugar que você quiser.

— Pode ser — Violet fala indiferente.

Um silêncio constrangedor paira sobre os três, e Scott percebendo aquilo, muda de assunto:

— Vocês vão no enterro da Samara? Vai ser hoje, no fim da tarde, depois do colégio.

— Pra quê? A gente não era amigo dela — Violet responde.

— Só que a Olivia e a Natalie estavam no concurso junto com ela — ele relembra.

— E viram a coitada cair morta no palco do teatro — a irmã retruca. — Pra mim, seria um gatilho ir no funeral dela.

— O Scott tem razão. — a ruiva entra na conversa. — Vocês não precisam ir, mas eu sim.

— Cê não ia sair hoje? — Violet pergunta.

— Como o enterro só é no fim da tarde — Liv explica —, dá tempo de eu passar lá e depois ir direto com o Dylan jantar. A gente nem vai precisar trocar de roupas.

— Bom, eu vou porque não tenho nada melhor pra fazer. — O rapaz diz e acrescenta: — E porque eu sempre quis ver gente morta

— Se vocês vão, eu também vou — Violet se decide. — Não quero ficar sozinha em casa. É mais deprimente que ir num funeral.

— Então tá combinado — Scott fala.

— Já souberam da última? — Natalie surge sentando-se à mesa onde o trio se encontra. — O Caleb tá desaparecido há umas 12h.

— O Dylan me contou — Olivia comenta. — Ele tá bem preocupado.

— Devia ter me contado então — Violet diz um pouco chateada. — Eu mesma não sabia dessa.

— Desculpa — a amiga fala —, eu achei que você soubesse já que a escola toda sabe.

— Dois assassinatos e um desaparecimento em menos de uma semana — Scott reflete em voz alta. — Parece até que a gente tá em Riverdale.

— Vocês acham que o sumiço do Caleb tem alguma coisa a ver com as mortes da Justine e da Samara? — Natalie indaga.

— Por que teria? — o garoto questiona. — O assassino delas tá preso!

— E se prenderam o cara errado? — a latina pergunta.

— Eu espero que não — ele diz —, afinal foi por causa do Hector que meu canal chegou a quase dez mil inscritos.

***

O cemitério de Redlake talvez seja o lugar mais calmo da cidade — ou pelo menos era antes dos dois assassinatos. Ele costuma ter poucas pessoas o visitando diariamente, e quando isso ocorre, não há muito que se conversar ali. Portanto, as únicas coisas audíveis são os pássaros, além do vento balançando as árvores que cercam o local e fazendo as folhas caídas delas dançarem pela grama de um verde intenso.

Embora abrigue gente que já morreu, o cemitério está longe de ser assustador. Não há histórias de aparições de fantasmas perambulando por entre os túmulos ou alguém relatando sentir energias negativas. Há apenas ausência de vida ali.

Os poucos enterros que acontecem no lugar geralmente são de pessoas mais velhas que faleceram de causas naturais ou complicações de alguma doença. No entanto, o funeral de hoje é de uma adolescente cruelmente morta.

O caixão de Samara com uma coroa de flores sobre ele jaz fechado diante de uma cova funda pronta para engoli-lo.

Stephen Barker, um jovem padre por volta dos trinta anos, conduz a cerimônia com uma bíblia aberta em mãos, proferindo alguns versículos do livro.

À frente do homem, há uma multidão vestida de preto. Uma pequena parte está sentada enquanto o resto se encontra em pé ao redor já que não há cadeiras o suficiente para todos, pois praticamente metade da cidade veio ao enterro. Espalhadas no meio de tantas pessoas, as participantes do concurso de beleza restantes — exceto Beverly e Dana — também compareceram.

Na primeira fileira de assentos está a família de Samara: pais, sua gêmea, e os outros quatro irmãos. Agarrada às vestes do marido, a matriarca chora aos soluços com a cabeça encostada no ombro dele. Os filhos da mulher parecem mais contidos, apesar de abalados, principalmente Samantha, que possui um semblante sério, porém cansado e pálido. É visível que a jovem derramou todas as lágrimas que devia ter derramado, não sobrando nenhuma para esse dia.

Assim que o padre termina de falar, olha para Samantha e faz um gesto com a cabeça como um sinal. Ela se levanta e se dirige a onde o homem religioso está. Ele dá seu lugar à garota que por sua vez começa a falar:

— Um dia a Samara e eu estávamos no shopping quando ela viu na vitrine de uma loja um par de sapatos vermelhos. Eram os scarpin mais bonitos que já vimos, e também os mais caros. Por isso, mesmo trabalhando, nunca daria pra comprar, afinal éramos uma família de seis irmãos. Nós duas tínhamos que ajudar nas despesas de casa. Mas a Samara queria muito aqueles sapatos, e toda vez que gente ia ao shopping, ela sempre parava em frente àquela mesma vitrine e ficava observando eles. Então, por um bom tempo, eu economizei o pouco que restava do meu salário só pra comprar a droga daqueles scarpins e dar pra Samara no nosso aniversário, no mês que vem. Só que isso nunca vai acontecer. Eu nunca vou poder ver a cara de surpresa e de felicidade da minha irmã quando ela abrisse meu presente, e depois me agradecesse com um abraço. É por isso que eu pedi pra que, pelo menos, ela fosse enterrada calçando eles. — Samantha se volta para o caixão. — Eu te amo, Samara. Se eu pudesse te daria muito mais que sapatos. E me desculpa não ido no banheiro com você.

A adolescente retorna à sua cadeira e com a família assiste quatro homens colocarem o caixão na cova, utilizando cordas, e depois a preencherem por completo com terra.

Ao fim da cerimônia, diversas pessoas se aproximam dos familiares da falecida para confortá-los com palavras. Uma delas é Margot.

— Oi, Samantha — meio sem jeito, ela diz à amiga.

— O que cê tá fazendo aqui? — Samantha indaga irritada ao ver a jovem. — Além de me humilhar na escola, ainda veio rir da minha desgraça no enterro da Samara?

— Mas é claro que não! Por quê você acha isso?

— Eu sei que você me odeia e odiava a minha irmã. Tanto que botou a gente na porra do Miss Redlake pra gente usar aqueles vestido ridículos, e por causa disso, a Samara tá morta! O sangue dela não tá nas suas mãos!

— Você só tá falando isso porque tá com raiva. Faz parte do luto. Eu sei como é porque também já perdi alguém que amava.

— Sua mãe, né? Pois tomara que você pegue câncer como ela e morra!

Aquela frase faz Margot perder a paciência.

— Dobra a sua língua antes de falar da minha mãe.

O pai de Samantha se intromete na conversa ao ver clima entra as duas garotas ficar pesado, e pede a Margot:

— É melhor você ir embora.

— Eu já estava indo mesmo — diz a adolescente. Em seguida, dá as costas para Samantha e o homem, e se afasta.

Alguns momentos antes, durante o discurso de Samantha, enquanto todos prestam atenção nela, Scott, que está junto de Violet, Natalie, Olivia e Dylan, se distancia do grupo ao avistar Kevin longe da aglomeração, embaixo de uma árvore. O rapaz, usando sua farda, parece também acompanhar o enterro.

— E aí, oficial Nakata — o adolescente diz sorrindo ao chegar perto do policial.

— Eu tô delirando ou é você mesmo perto de mim com um monte de gente ao redor?

— Engraçadinho. Como você tá?

— Bem, mas a Dana não. Meu pai me ligou avisando que ela perdeu completamente a audição, então fui correndo pra casa. Só que a coitada tava tão desolada que meu pai deu um calmante pra ela. Aí quando cheguei lá, minha irmã já tava dormindo. Como eu não tinha muito que fazer, voltei pro trabalho.

— Nossa, sinto muito pela Dana.

— Valeu. Mas o que você quer?

— Eu ouvi dizer que o Caleb Myers tá desaparecido.

— Tecnicamente. Precisa ter se passado 24h pra ele ser dado como um.

— E quando se passarem 24h?

— Vamos começar as buscas. Até lá, estamos falando com qualquer um que seja próximo desse garoto e tenha alguma ideia de onde ele esteja.

— Cê acha que o sumiço do Caleb tem ligação com os dois últimos assassinatos?

— Não, apesar de não acreditar que o Hector seja o verdadeiro culpado. Fugiria totalmente do padrão do assassino se tivesse ligação, sabe? É mais provável que esse moleque tenha bebido muito e desmaiado por aí.

— Tomara. — Ao perceber que Samantha parou de falar, Scott se despede do asiático: — Eu vou indo antes que sintam a minha falta. Até mais.

— Até.

Ao fim do enterro, Elena, acompanhada de Zoe e os pais da amiga, avista Cassid do lado de fora do cemitério. A mulher está parada em pé na calçada, encostada em sua viatura, e vestindo o habitual uniforme da polícia.

— Mãe, tá fazendo o quê aqui? — ao cruzar os portões, saindo do cemitério, a adolescente indaga à xerife.

— Eu vim conversar com a Zoe sobre o Caleb — Cassid responde e se volta para a indiana. — Você já deve saber o que aconteceu, né?

— Uhum — a garota assente séria. — Já encontraram ele?

— Nós ainda vamos procurar. Antes eu queria te fazer algumas perguntas.

— Claro.

— Quando foi a última vez que você viu o Caleb?

— Anteontem. No dia seguinte, eu tava querendo um tempo em paz depois ter visto a Samara cair morta na minha frente, então eu ignorei as mensagens e ligações dele.

— Ah, por isso o Caleb apareceu lá em casa ontem à noite perguntando por você — o pai da indiana se intromete.

— Que horas? — a xerife pergunta, curiosa.

— Por volta das 20h — ele diz.

— Eu não sabia disso — Zoe mente.

— Pensei que soubesse — a mãe dela comenta. — A gente falou que você tava na alfaiataria e ele disse que ia lá.

— O Caleb não apareceu na loja — a filha rebate continuando a mentir —, pelo menos não enquanto tava aberta. Ele deve ter passado depois que eu fui pra casa da Elena.

— Obrigado pela informação — Cassid agradece à família Shyamalan, parecendo não desconfiar de Zoe. — Foi de grande ajuda. Só mais uma coisa: Zoe, você tem um palpite de onde o Caleb poderia ter ido? Um lugar que só vocês costumam ir ou que ele vá sozinho?

— Não. — Ela balança a cabeça em negativa.

— Ok. De qualquer forma, obrigada novamente.

***

Deitada em sua cama, Samantha se revira de um lado para o outro tentando encontrar uma boa posição para conseguir dormir, no entanto, sem sucesso. A garota sabe que o problema, na verdade, é a sua falta de sono por já ter dormido demais. Para ela, estar acordada é um pesadelo. Pelo menos, inconsciente, pode sonhar com Samara e esquecer que a gêmea morreu. Tudo o que Samantha quer no momento é tomar um calmante para adormecer, porém seus pais se negam lhe dar por temerem que fique viciada no remédio, além do fato dos dois estarem tomando todo o medicamento sozinhos.

— Hipócritas — a adolescente murmura.

Ela então fita a cama de solteiro da irmã diante da sua. Por fazerem parte de uma família grande, as gêmeas dividiam o mesmo quarto. Samantha sempre reclamou da falta de privacidade, desejando ter um quarto inteiro para si, mas agora que isso virou realidade, não da forma como imaginou, apenas gostaria que Samara estivesse ali, naquela cama vazia, lhe enchendo a paciência ao arremessar um travesseiro em seu rosto, como costumava fazer quando estava entediada.

Samantha se levanta, dá alguns passos e desaba na cama da irmã, afundando o rosto no travesseiro e soltando um grito abafado por ele. O cheiro de Samara ainda está ali. Aquilo lhe conforta um pouco.

De repente, sente o celular vibrando no bolso de sua calça. Ao pegar o aparelho guardado, aperta um botão dele, fazendo a tela se iluminar. Alguém está ligando: Reese, a dona da lanchonete de mesmo nome, para quem Samantha trabalhou como garçonete até pedir demissão quando Samara morreu.

— Alô — a jovem atende.

— Oi, Samantha. Boa noite. Me desculpa não ter ido no funeral da sua irmã. Eu tinha um monte de coisa pra resolver já que vou entrar de férias e viajar amanhã.

— Tudo bem, sem problema.

— E também tô ligando pra saber se você pode vir aqui hoje pra acertar o seu último pagamento. Eu sei que você deve tá cansada por causa do enterro...

— Não, imagina. Daqui a pouco eu tô aí.

— Ótimo. Até mais então!

A adolescente pega o carro dos pais emprestado e dirige ao centro comercial onde o restaurante de Reese se encontra. Estacionando em frente ao estabelecimento, ela sai do veículo e caminha à entrada, que possui uma placa escrita “fechado”. Com os nós dos dedos, Samantha dá umas batidinhas na porta de vidro. Reese, quase que instantaneamente, surge para atendê-la.

Reese é uma mulher gorda por volta dos cinquenta anos, com parte dos cabelos grisalhos caindo acima dos olhos numa franja enquanto o resto está preso em um coque. Além de dona daquele local, ela também é funcionária.

— É tão estranho ver a lanchonete fechada — Samantha comenta ao entrar no lugar. — Ainda mais nessa hora.

— Pois é — Reese diz trancando a porta com uma das chaves de seu molho e em seguida o guardando no bolso do uniforme. — Eu fechei cedo porque tenho que arrumar as malas e descansar. Vai ser uma viagem longa. Mas senta aí. Eu ainda tenho que jogar o lixo fora. — A garota faz o que a mulher pede e repousa em um assento ao lado da janela. Reese vai para trás do balcão, serve o último pedaço de torta de maçã em um prato e o leva junto com um garfo à mesa de Samantha. — Por conta da casa.

— Obrigada — a jovem agradece forçando um ligeiro sorriso.

— Imagina. — A mulher logo volta para detrás do balcão e vai à cozinha, localizada nos fundos do restaurante, sumindo de vista. Enquanto isso, Samantha come a sobremesa.

Ao terminar a torta, cinco minutos se passam e nada de Reese retornar.

— Reese?! — a adolescente chama pela mulher, contudo não obtém resposta. Impaciente, Samantha levanta e se dirige à cozinha. Lá, encontra o recinto vazio e com a porta dos fundos escancarada. — Reese?! — Ela chama novamente, se aproximando devagar da porta aberta.

Notas finais
Não tenho previsão para o próximo capítulo. É bem provável que só saia em julho. Se você está acompanhando a história, comente. Isso é muito importante e pode contribuir com que os capítulos sejam postados antes do previsto. É isso.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.