Miss Popper - O Início
14 Caça ao Tesouro
Notas iniciais
A primeira vós tens
Marcada pelo prazer, o número vinte e três.
Flash e mais flash, a dança tem vez
Hollywood Boulevard, mostre sua nudez.
Ichiro teve a reação mais espontânea para aquele momento: começou a rir. Não da pista, mas sim deles. Como vamos desvendar isso?
Alice também não parecia muito feliz. Não era boa nesse tipo de coisa. Desvendar enigmas, mas quê?
Ichiro disse a única coisa que fazia sentido no poema:
— O que procuramos, deve estar na Hollywood Boulevard. É a parte mais óbvia do texto. — Alice confirmou. Logo em seguida, quase vomitou.
— Ela é enorme, vamos demorar séculos para encontrar a pista lá.
— Ele deu um número, pode ser que seja: 23, Hollywood Boulevard.
— Ele não ia dar o endereço tão facilmente, mas é melhor começar de algum modo.
Alice, sempre tão positiva...
Começaram a procurar. A Hollywood Boulevard é uma avenida muito extensa. Quando perceberam que no número vinte e três não era o endereço, já havia passado mais de uma hora.
— Deveríamos ter procurado de outro jeito. — disse Alice, irritada.
—Tá, tudo bem. É só termos calma. Vamos sentar ali. — apontou para um banco. Quando se ajeitaram, ele continuou — Temos que pensar num lugar que tenha a ver com essas palavras. Podemos descartar a primeira linha. — ele leu em voz alta — A primeira vós tens. É claro aqui também, trata-se da primeira pista. Hollywood Boulevard é a rua.
— Mas não precisa ser um lugar necessariamente, pode ser uma placa, um cruzamento, um banco, qualquer coisa.
— É, eu sei, mas temos que focar em algo. Vamos pensar que seja um local. Pense em um local que tem a ver com o resto do texto:
Marcada pelo prazer, o número vinte e três.
Flash e mais flash, a dança tem vez
Mostre sua nudez.
— Deve ser uma danceteria, ele fala de dança...
— É, pode ser, mas não uma danceteria comum. Um clube de strip-tease, talvez...
— Como? — Alice desata a rir— Você é doido.
— Por que não? Tem tudo a ver.
— Conhece algum clube strip-tease aqui? — Alice olha para Ichiro e os dois riem. — Ok, você definitivamente não conhece. Como vamos encontrar?
— Sei lá, vamos andando.
Enquanto caminhavam pela calçada da fama e Ichiro ia distraído lendo os nomes nas estrelas, Alice avistou algo que podia ajudar. Ela chamou o garoto e apontou.
—Flash e mais flash, a dança tem vez. Talvez seja aquilo. — Alice mostrou um local que parecia um clube. Ele encontrava-se entre dois bares. Chamava-se: Flash Club — Agora me explica como um lugar desse fica bem na Hollywood Boulevard?
— Eis a questão. — respondeu ele, rindo — Vamos até lá.
Os dois marcharam até o clube, atravessando a avenida. Ainda desconfiados, entraram. Alice nunca estivera num lugar desses, lembrava apenas de filmes. Um palco no centro e vários postes, ou barras verticais que Alice deduziu serem para o tal: Pole Dance. As cadeiras estavam em cimas das mesas, pois estavam limpando o lugar. Ao fundo, via-se um bar. Quando viu, Alice logo imaginou-se tomando uma bebida sentada ao sol. Voltando do seu devaneio, percebeu que uma moça vinha ao seu encontro.
— O show de strip-tease começa só as 21h. — disse ela.
— Oh, sim, não viemos para o show. — respondeu Ichiro.
— Não? Oh, então me acompanhe. Ei, e você? — perguntou a mulher a Alice.
— To com ele.
— Como? Os encontros são particulares e além do mais, você não parece maior de idade.
— Encontro? — indagou Ichiro, mas a moça já estava longe, empurrando Alice para fora do clube.
— Desculpe, senhor. Pode me acompanhar, por favor? — Ichiro não precisou responder, ela o puxou para um divã nos fundos. — Como ainda é cedo estamos com poucas opções, mas a noite teremos garotas para todos os gostos. — Ichiro tossiu, estava com mau pressentimento. — Vou chamá-las para se apresentarem, tudo bem? — Ichiro concordou e logo a moça voltou com as meninas.
Eram quatro: uma loira, duas morenas e uma negra. Todas usavam roupas extremamente curtas e maquiagens fortes. Uma música começou a tocar e as quatro começaram a dançar. Por um momento Ichiro esqueceu o que tinha que fazer, onde estava e seu nome, quando despertou do transe, lembrou que deviria procurar algum “23”, por aí. Pode ser o número de um quarto, pensou, percebendo que aquilo era bem mais que um clube de strip-tease. Mas antes, tinha que escolher a garota. Escolheu a morena dos olhos verdes.
— Algum pedido especial? — perguntou a mulher
— Ah, sim. Eu quero que seja no quarto vinte e três e que ela...Aqui tem banheira? — A moça confirmou e ele continuou. — E que ela esteja na banheira. — A mulher assentiu e o conduziu até o quarto número 23.
Quando entrou, escutou barulho de água. É melhor eu me apressar, ela não vai ficar muito tempo lá. O quarto era médio, mas existia muitos lugares que poderia se esconder a pista. Ele voltou a ler o poema.
A primeira vós tens
Marcada pelo prazer, o número vinte e três.
Flash e mais flash, a dança tem vez
Hollywood Boulevard, mostre sua nudez.
Se eu fosse um idiota querendo explodir L.A por causa de Miss Popper, onde eu esconderia uma pista?
Ele sentou na cama para refletir. Não fazia sentido nada daquilo. Ichiro levantou a cabeça devagar quando viu um quadro em neon piscando. Era a silhueta de uma mulher.
Só pode ser isso.
O quadro estava ao lado da porta. Ele olhou atrás e logo viu um bilhete. Um sorriso brota em seu rosto. Quando abriu, leu a segunda pista:
A segunda, revelei
A bela floresta, indicarei.
Os soldados esquecidos, disse o Frei.
No topo, avistarei.
O estômago de Ichiro embrulhou. Essa é mais difícil.
— Gatinho, por que demora tanto? — uma voz vinda do banheiro lembra Ichiro que deve sair rápido dali.
****
Ansiosa, Alice roera todas as unhas esperando por Ichiro. Quando o vê, percebendo sua alegria, entendeu na hora que tinha conseguido.
— Por que demorou tanto? — perguntou, indo ao seu encontro.
— Tive uns contratempos. — disse, corando — Mas pelo menos consegui a segunda pista. Dá uma olhada — disse entregando-lhe o papel. Era exatamente igual ao outro. Alice lê e revira os olhos.
— Floresta? Esse cara tá de brincadeira, mesmo. Pode ser qualquer uma, apesar que a maioria são matas abertas...
— Ele diz que indicará a floreta. Como eu não sei... — as palavras saíram lentamente enquanto Ichiro levantava a cabeça, olhando para a placa do Flash Dance. — Olha aquilo! — apontou.
Alice não acreditou. Na placa tinha o desenho de toda Los Angeles, incluindo a pequena parte da Floresta Nacional Los Padres, pertencente ao condado. A frase do poema tornou-se clara, quando percebeu que o “F”, de flash, tinha as suas pontas em forma de seta, justamente apontando para a floresta.
Bingo!
— Duas linhas já foram. — disse Ichiro, feliz. — É melhor irmos agora para a floresta.
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